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No dia seguinte, Saori, Temari e Eva se encontraram no refeitório do hospital.
- Vamos fazer um brinde – disse Temari empolgada. Peguem seus copinhos descartáveis e vamos brindar.
A movimentação no hospital era grande. Era um bonito dia de sol, e um cheiro agradável de alvejante podia se sentir nas dependências da empresa, pois os funcionários aproveitaram para deixar o ambiente limpo. Como era o intervalo entre um plantão e outro, Saori e Eva se reuniram para comer o lanche da tarde. Temari também teve alguns minutos de folga e se reuniu com as amigas para se alimentar.
Saori ergueu o seu copo com mocaccino; Temari, com chocolate quente e Eva com o seu suco de Tangerina.
- E esse brinde inusitado vai a quê ou a quem? Alguém está de aniversário? – Quis saber Eva, já com seu copo em riste.
- Vai a minha estonteante boniteza? Você não vê? - disse Temari brincalhona.
E ela era bonita mesmo. Tinha um corpo suntuoso, madeixas em um tom mescla e bonitos olhos verdes esmeraldinos. Temari era de parar o trânsito.
Antes que as amigas abaixassem as bebidas desanimadas, Temari se explicou.
- Brink's meninas, esse brinde vai à vida. Ao fato de nós cinco podermos estar aqui reunidas. Esse é o brinde para saudar a nossa amizade – disse Temari animada.
- Putz, Temari, só tem nós três aqui. Você falou "a nós cinco" – disse Eva, sem entender.
- São cinco pessoas, olha – Temari mostrou o seu smartphone da Samsung para Eva. Nele havia uma transmissão ao vivo, via whats, de conversa entre Temari, seu namorado Shikamaru, e sua amiga Ino.
- Então façamos um brinde a nós cinco – falou Saori.
E assim o fizeram. Brindaram à amizade.
- Queria ir a um fast food! – Falou Eva, depois que Temari terminou sua conversa com o namorado. - Vocês não sabem a fome de Godzila que eu tenho – disse ao beliscar sem vontade a sua salada de fruta.
- Pra quê? Pra comer frango frito? – Disse Saori com olhar de reprovação. Não vai me dizer agora que quer comer hambúrguer?
Eva não se conteve.
- Não, a moda agora é comer um cardápio inteligente, vegano. – Deu risada – E a propósito, um assadinho de frango, ia bem, hein? – Salivava. Só de imaginar, podia sentir o gosto da comida em sua boca.
- O tio Sam – o atendente do centro de alimentação – disse que aqui não tem. É uma pena – disse Saori ao se lamentar – Ela, por sua vez, comia uma fatia de pão assada com gergilim. – Hum, refeição extremamente saudável! – Disse satisfeita. E funcional – deu risada – Oi, seu Lineu - aproveitou para saudar o senhor que vendia instrumentos farmacêuticos para o hospital. Ele sentara na mesa ao lado no centro de alimentação em que estavam.
- E a propósito, digo eu... Você falou de Godzila, eu prefiro o Aquaman da Marvel! – Prosseguiu Saori - É da Marvel, né? – Pensou um pouco – Ih, já nem sei.
- Bom mesmo é o filme da Mulher Maravilha – falou Eva ao olhar para o horizonte.
- É... A Marvel tem uns filmes bem da hora. – disse Temari.
- Bom, a conversa está muito boa, mas eu já estou farta – mostrou a barriga cheia contida em uma blusa de um tom de vermelho vivo. Além disso, meu intervalo terminou – disse Byker.
As outras meninas concordaram e decidiram voltar aos seus turnos também. Como as três resolveram sair da mesa pelo mesmo caminho, houve um choque entre os três corpos e Eva foi obrigada dizer:
- Ôh Temari, quer me eclipsar! – disse com um sorriso.
Temari apenas riu e seguiu adiante. Saori fez o mesmo, pois não chegava a tanto. As três eram luminosas. Cada uma tinha luz própria, à sua maneira, e sabiam disso.
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No quarto, Saori verificava a pressão de sua famosa paciente.
- Como você está, Lin? – Dizia Ivi Saori de maneira cordial.
Saori sabia que Lin não esta nada bem. Teve o pressentimento que poucas semanas duraria.
Verificou o equipo com soro da paciente e imediatamente checou os sinais vitais de Saori.
Em seguida, fez na paciente, a checagem do protocolo SOAP. Este era um modelo de evolução da enfermagem, isto é, o registro feito pelo profissional após o atendimento ao usuário de saúde.
Mais que um registro, a profissional da saúde deveria inserir no banco de informações da paciente, de maneira investigativa e clínica, as características que mostrassem singularmente o estado de saúde da pessoa atendida.
Nesse caso, de maneira manual, Saori resolveu registrar, no prontuário médico, as informações inerentes à prática de cuidar e ao gerenciamento de trabalho necessárias para assegurar a continuidade e a qualidade de assistência de Lin. Poderia registrar os dados também através do meio eletrônico, mas como o sistema de redes de computadores estava fora do ar, teve que recorrer à escrita manual. Seguia à risca as resoluções encontradas nos artigos da COFEN (Conselho Federal de Enfermagem).
Fez, então, a aplicação do SOAP.
Quanto às informações subjetivas, Saori deveria estar atenta à biografia e às queixas da paciente.
Lin reclamava que em sua voz havia rouquidão e a presença de uma tosse seca há mais de uma semana. Tinha dificuldade em falar, comer e se movimentar.
Quanto ao requisito objetivo da ficha técnica SOAP, Saori fez a inspeção, a palpação, a percussão e a ausculta. Percebeu que o paciente estava orientado em tempo e espaço, porém não conseguia deambular (caminhar).
Avaliou também que a paciente apresentava coriza e cefaleia. Lin estava muito desidratada, tanto é que um equipo de soro fora inserido em sua veia para hidratá-la. Era um início de pneumonia grave para a paciente que, nos últimos dias, perdera drasticamente o peso. Saori inspecionou também a pele e percebera que esta não se encontrava íntegra. Isso ocorreu porque algumas úlceras por pressão podiam ser detectadas no corpo da paciente. Para conter o avanço das feridas, Saori prescreveu o uso de curativos em Lin. As úlceras ocorreram em consequência do fato da paciente estar acamada. Pode averiguar, ainda, que Lin não estava em desjejum, pois havia comido a pouco. O que mais incomodava Saori, é que a febre de Lin não diminuíra.
- Vou falar com o médico para prescrever um antitérmico para a paciente o quanto antes. – Dizia Saori para si mesmo.
- Lin, você ainda me escuta? – observava que Lin estava quase nos braços de Morpheu – Se sim, você quer me dizer alguma coisa, antes de eu terminar o meu turno?
- Por favor, cumpra com o que prometeu e descubra quem está por trás disso tudo – disse Lin quase sem forças ao falar.
- Farei isso – prometeu – Saori.
Quando saiu do quarto, se deparou com os caras da computação fazendo manutenção nos computadores.
De repente, viu Temari.
- Mas como são feios esses nanicos que colocaram para arrumar os computadores. E a gente fica na expectativa de vir alguém bonito e olha só o que acontece! – Uma vez, antes do Shikamaru, eu até fiquei com um, mas só podia estar fora da realidade; o cara era muito feio. Parecia um pirata, só que sem o tapa-olho. Dizia Temari, com horror, ao rememorar o passado. Mesmo tendo o Shikamaru, com moderação, ela não deixava de apreciar a "paisagem" à sua volta.
- É... – concordou Saori. – Glauceste Satúrnio– cumprimentou gentilmente um menino franzino vestido com um blazer e calça social. O menino consertava um dos computadores estragados enquanto passava por ela e Temari.
- Conhece o anãozinho da onde? – Quis saber Temari, curiosa, assim que se viram longe dos funcionários. – Com os seus dedinhos pequenos, o pequenino fazia um esforço e tanto para arrumar o computador. O que parecia uma tarefa fácil para os demais, era uma tarefa de Hércules para ele!
- Ai, ai... Anteriormente, ele veio arrumar uns equipamentos aqui no hospital. Ele é gay, tá, não te empolga. Err... Acho que você já não tinha se empolgado antes mesmo, por causa do Shikamaru e porque, bem... Ele é um anão.
- Não tenho preconceito nenhum contra quem é gay – Falou Temari em um tom ameno. A Eva mesmo, por curiosidade, já me disse que beijou uma menina. No entanto, ela viu que não era o que gostava e não ficou mais com ela. Permaneceram amigas. Ela até me disse uma vez – Temari falou sorrindo - que não teria problema nenhum em assumir uma relação com uma mulher, já que não tinha pessoa mais pra frente do que ela. E você sabe o quanto a Eva estuda e se dedica para abrir mais a mente humana – a dela e a dos outros... Mas ela gosta mesmo é de homem – continuou a rir – infelizmente, segundo ela – terminou o relato maneando a cabeça. "Nanão, a Eva era uma figura", pensava a amiga.
- Pra ti ver! – Disse Saori. – Essa da Evinha eu não sabia. "Ah, oi Julian Sólo" – disse ao notar que o smartphone apitara. – Só um momento – falou com um olhar condescendente para Temari.
- Claro – Temari disse.
Minutos depois, Temari e Saori conversavam novamente.
- E aí, vai dar uma chance para o Julian Sólo – pediu Temari que já conhecia a figura masculina.
- Não... Disse Saori pensativa, tem alguma coisa que falta nele...
Temari não sabia o que dizer.
- Ih, olha ali – disse Temari atenta. Olha só o que os anões estão causando! – Falou a aprendiz de segurança.
- A condição de nanismo não é um problema – prosseguiu Temari. - Ser feio não é um problema. Ser gay também não é um problema. Ter um nome diferente também não é o problema. Ser menor que a mulher ou o parceiro da relação também não é um obstáculo. A mãe ser uma provável fã de autores árcades – disse Temari demonstrando ser culta - também não é um impasse. O problema é a violência em si! - Disse Temari em um tempo recorde - Olha, olha, ele está agredindo os outros anões! – Dizia com olhos arregalados! – Como pode! Ele escalou a atendente da portaria. Está rasgando as roupas dela. Alguém tem que resolver essa situação! – Temari não se atinou que podia resolver a cena deplorável, pois ela mesmo era aprendiz de segurança. Será que, afinal, era por questão de idade que os anõezinhos estavam agindo daquela maneira? Geralmente a figura feminina tem uma mentalidade mais avançada do que os homens, mesmo ambos os sexos terem a mesma idade. Será que era isso o que ocorria naquele exato momento? Sim, porque os anões estavam agindo como completos idiotas.
Temari não conseguiu terminar o seu raciocínio, Saori (que nem terminou de escutar o relato da amiga) e seu José (segurança de Tatsumi) deram um basta na situação. Separaram os anões e a dona Iza com facilidade. A confusão fora tanta que a pulseira de serpente prata da Dona Iza havia voado longe no corredor do hospital.
- Ame-a, Glauceste! Ame-a, como se fosse o seu próximo! Não tenha inveja porque ela é maior do que você – dizia Saori ao pequenino encrenqueiro.
- Ôumm, parece o Goku pequetitinho – cochicou para Temari com um olhar maternal.
- Tem mais cara de Píkolo anão! – disse entredentes - Pois não pense ele que por ser anão não pode ser enquadrado em uma Maria da Penha. Olha só como ele xingou a atendente. Uma mulher que só trabalha e é honesta – Retrucou em voz alta uma Temari furiosa – Você não ouviu os palavrões que ele disse para a mulher? – direcionou os dizeres para Saori.
- E te digo mais, com esse comportamento nem em Marte aceitam ele – disse tomando a sua garrafinha de água.
Saori disse que não prestou atenção no que ele disse, mas concordou que o anão havia passado dos limites.
- Pensei que era um trote o que eles estavam fazendo entre si. – disse Saori ao ver que, amenizado o clima, enfim puderam se afastar da cena, antes, conflituosa.
- Só se for um trote ruim – disse Temari refletindo.
- Já pensou se eu fosse uma autora de folhetim semanal – fazia sua explanação de maneira lógica Saori – e retratasse a cena que nós vimos agora como se só a mulher tivesse culpa por parte dessa agressão proposital feita pelo homem, isso não seria um péssimo exemplo para a audiência da trama?
- Seria a retratação do fato que ocorreu agora sob o viés ou ponto de vista machista. Sem contar que o autor estaria ignorando por completo o "script" da realidade, ou seja, que a ação "violar física ou mentalmente uma mulher" está sujeita à reação "de ser enquadrado em um dos artigos da lei Maria da Penha".
- PoiZé – disse Saori ao concordar com a elucidação dos fatos feita pela amiga de maneira satisfatória.
- Já dizia o sábio Immanuel Kant, nascido eu não sei aonde, prosseguiu Saori de maneira séria, "o sábio pode trocar de opinião, o idiota nunca". Quanto a mim, eu estou sempre em metamorfose, e você minha amiga? – Instigou Saori.
- Se as ideias forem condizentes com o que acontece com a realidade, porque não? – Disse com um sorriso Temari.
- Ah – Temari exclamou, não deixaria essa passar barato. – Deixa eu ver aqui... – fez umas anotações em um papelzinho, era um post-it no tom verde – Prontinho, vou entregar para o Tatsumi, na portaria central, se ele ver o anãozinho na saída, é para o segurança entregar isso para ele.
- O que é? – Saori pediu curiosa.
Olhou o recado, no papelzinho estava escrito; "Humanize-se. Pelo término da violência contra a mulher".
Saori apenas fez que sim com a cabeça. Pelo jeito Temari sabia mais do que usar a próclise de maneira correta em um texto... "Isso que você nem me viu no meu melhor ao usar a mesóclise" – dizia a aprendiz de segurança de maneira enigmática.
De repente, passa por elas, Tatsumi, e Saori quase cai. A tempo, novamente, Tatsumi a ampara em seus braços antes de cair no chão.
- Vai precisar sempre de ajuda para ficar de pé – repetiu a sua típica frase de efeito, o segurança.
- Se for para ter sempre bons amigos por perto, vou sim – disse confiante.
Tatsumi apenas consentiu.
- Viu o vídeo do Neymar? – Temari emendou um assunto ao outro.
- Não e nem vou ver. Pra mim aquela boniteza sempre estará de pé – Piscou os olhos Saori. Era tão fã do Neymar, que sempre que podia, assistia os jogos dele na rede Globo.
Temari riu.
- Aí sim, hein? Faixa é faixa, né?
Ambas sorriram. Era uma parceria e tanto.
- Não querendo atrapalhar a conversa das madames, mas o Sr. Shion que ver você. – Falou Tatsumi ao direcionar o olhar severo para Saori.
- Sim, quando? – Disse Saori.
- Agora – disse com a boca em uma fina linha entre um sermão e o auto-controle.
"Ih, estou muito ferrada", disse para sim mesma Ivi Saori.
Saiu na corrida, dentro do hospital, tentando se desviar o máximo possível das pessoas ou macas que encontrava pela frente.
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No outro dia, sentadas no refeitório, Temari ofereceu uma sacola recheada de bombons Ferreiro Rocher com embalagem marrom para Saori.
- E aí, em uma escala de zero a dez quanto ele te xingou? – Questionou a aprendiz de segurança que segurava a vontade de rir.
- Não me xingou, tenho até sorte. Na verdade, ele queria saber... - Relatava Ivi Saori.
CONTINUA
Grande esse capítulo, né? Eu também pensei nisso, mas vou transformar ele em mais de um capítulo depois de amanhã, assim que eu puder revisar a narrativa novamente. Bom, voltamos a parte inicial da fanfic em que Saori tem a conversa com Shion sobre o caso de Lin. A partir desse ponto, a trama se desenvolve com mais clareza. Beijos e até.
