9 – Quem gosta de passado não sou eu. Eu vivo é de presente.

No Hospital Geral, as amigas não viam a hora de combinar uma possível saída no dia seguinte. Quis Ivi Saori dizer que não iria, porém praticamente fora obrigada a aceitar o convite de Temari.

À noite, no mesmo dia, Saori foi à casa de Eva. Era uma bonita casa de alvenaria; no interior os móveis tinham um certo requinte, priorizando sempre o conforto. Temporariamente, nessa mesma casa se encontrava a menina reclusa que Eva tanto investigava.

"Eu vou chamar um amigo meu que é arquiteto e ele vai dar uma arrumada nisso aqui ó" – apontava para o interior do jardim que se via da janela da sala. – Eu quero inserir um caramanchão bem na entrada do jardim – comentava com as amigas, toda vez que mostrava o jardim.

"E o que é isso mesmo? "– Questionava Saori.

"É uma construção rústica, geralmente ela é recoberta por aquelas plantas que se enrolam na madeira.

"Sei" – Saori imaginava uma construção bonita no centro do jardim com o teto arborizado. E ela estava certa.

"E quando é que ele vai vir?", questionava Saori.

"É, ele promete que vem, mas não responde...", divagava Eva. O amigo era também ator figurante. Já havia inclusive estado no Rio de Janeira em busca de uma chance para aparecer na televisão. "No palco da vida, que papel será que ele estaria representando nesse momento?", dizia isso enquanto vislumbrava na estante da sala um exemplar da saga Crepúsculo. "Ih, pela minha experiência de vida, isso aí é furada", falava mais para si mesmo do que para os outros.

Já a menina se encontrava apavorada. Os últimos vídeos de Justin Bieber e Zyan (ex One Direction) tinham cenas explícitas de sexo ou de apologia às drogas. Ela não estava acostumada com esse tipo de coisa.

- Olha só Eva, de todos, você não tinha um exemplo melhor não para mostrar para ela? Apontou o vídeo da música nova de Justin. Esse menino está perdido, você não vê? Olha só o que ele fez com a Selena – exclamou Temari. - Ele rompeu com ela e ainda por cima deu o anel de noivado que estava reservado à senhorita Gomez para a nova namorada!

- À grosso modo, trocou uma menina que lia pouco, por outra que lê mais – prosseguiu Temari.

- Hein? – Exclamaram Saori e Eva ao mesmo tempo. Não entenderam a última constatação de Temari; tampouco a aprendiz de segurança explicou o que realmente queria dizer com os seus últimos dizeres.

- Sem contar os pixos, não grafites, que ele faz toda vez que vem visitar o Rio de Janeiro – lamentou Saori.

- E o Timberlake não é muito diferente do nome homônimo dele não – dizia Temari com certa tristeza. – Esqueceu que ele quis que você chorasse um rio de lágrimas por ele? – Olhou para a menina, ela estava bem amuada – Não se preocupe, porque como ele mesmo disse: "tudo que vai, volta".

Em seguida, vendo como a menina estava chocada com os fatos da realidade, Eva chamou a atenção de Temari.

"Tem que mostrar os vídeos para ela aos poucos, você sabe como ela é sensível" – cochichava Eva para Temari. Ambas estavam na frente do PC, vasculhando o site do youtube.

A garota reclusa era o centro do mundo e não sabia. Desde o seu nascimento, qualquer passo que ela desce, era televisionado. Agora ela se sentia culpada por tudo. Pela crise do país, pelos rumos que a política norte americana estava tomando. Pela ameaça nuclear. Estava impressionada pelo excesso de informação à sua volta. No entanto, nada daquilo era sua culpa. Mal sabia ela que cada pessoa existente no planeta Terra era responsável pelos seus atos e o sistema sabia disso. Se o planeta estava daquela maneira é porque a humanidade, de uma maneira coletiva, havia falhado em vários pontos chaves para a consolidação de uma sociedade moderna.

- Ah, essas músicas aqui são ideais para se começar – Dizia uma Temari, animada, tocando a playlist do Bon Jovi.

- Isso sim é uma banda de verdade. Vamos começar pela música mais famosa de todas – disse Ivi Saori decidida. Olhou de soslaio para a menina. Ela estava sentada no sofá com os braços ao redor dos joelhos, como se estivesse se protegendo – Vamos começar por Always.

"Este Romeu está sangrando

Mas você não pode ver o seu sangue

São apenas alguns sentimentos

Que este velho homem jogou fora"

A menina olhava atentamente o vídeo. Jon Bon Jovi se encontrava no meio de um mar de gente. A filmagem era da década de 90. A menina achava tão bonito aqueles olhos do vocalista feitos de um azul piscina quase transparentes. Ele cantava com tanto sentimento. A menina queria abraçar ele. O showman vestia uma jaqueta jeans e de pouco em pouco simulava movimentos de um boxeador. Fechava os olhos para pronunciar cada melodia. Em consequência disso, finas lágrimas caiam do rosto da menina. Ela estava finalmente ligando as informações.

"Você tem que ver bem as palavras, se você juntar as letrinhas vai ver que as palavras querem dizer muito mais do que você possa imaginar" – a voz de uma velha amiga reverberava de uma maneira mágica ao longe na sua cabeça.

Do lado de Jon Bom Jovi, havia o sempre fiel Richie Sambora. Este tocava a melodia mais bonita de todas em sua guitarra. Com sua voz forte, fazia companhia a Jon nos versos do refrão.

Uma bandeira do Brasil podia se ver fortemente empunhada no meio daquele mar de gente. Always era a música mais bonita de todos os tempos e tinha sido feita para ela. Não podia acreditar. Era sonho ou realidade aquilo que via?

O show fora realizado na Inglaterra.

"Tem chovido desde que você me deixou

Agora estou me afogando no dilúvio

Você sabe que sempre fui um lutador

Mas sem você, eu desisto"

Chuva. Para ela sempre fora uma benção de Deus, mas para as outras pessoas parecia mais uma punição do que uma dádiva. Era sinal de que a estratégia do jogo deveria ser mudada.

"Agora não posso cantar uma canção de amor

Como deve ser cantada

Bem, acho que não sou mais tão bom

Mas querida, sou apenas eu"

"Você é fora da média. Se você soubesse o quanto eu já fui sua fã. E olha que eu nem sabia que as músicas foram feitas para mim. O que eu sentia e ainda sito por você é o sentimento mais puro que pode existir em um pessoa, o de admirar uma pessoa sem visar qualquer vantagem, só por gostar dela mesmo. Será que você sabe disso? - Mentalmente questionava o loiro. - As informações que chegam aí nos EUA são convertidas na sua língua de maneira verossímil? - prosseguia. - Quantas vidas vão ser necessárias para a gente finalmente se encontrar, se abraçar e dizer que tudo vai ficar bem?"

"Queria ter você aqui só para mim", pensava a menina enquanto chorava as lágrimas mais sofridas de sua vida.

"Sim, e eu te amarei, querida, sempre

E estarei ao seu lado por toda a eternidade sempre

Eu estarei lá até as estrelas deixarem de brilhar

Até os céus explodirem e as palavras não rimarem

E sei que quando morrer, você estará em meu pensamento

E eu te amarei, sempre"

Ao longo de sua carreira, o vocalista do grupo de Hard Rock havia feito mais de 500 músicas. Está certo que o Bom Jovi tinha mais de trinta anos de estrada, mas só de cogitar que todas aquelas músicas foram feitas para ela, era algo inacreditável de se imaginar. Nas melodias, o loiro incluía o número do telefone para ela ligar quando as coisas estivessem difíceis. Pedia para ela se alimentar direitinho, para ser mais forte diante das adversidades da vida. Dizia que sempre a amaria, não importasse o que acontecesse.

Ela também o amava tanto, mas tanto que, o que era somente um trabalho par Jon, para a menina reclusa, era uma vida inteira transcrita em linhas.

"Agora as fotos que você deixou para trás

São apenas lembranças de uma vida diferente

Algumas que nos fizeram rir

Algumas que nos fizeram chorar

Uma que você fez ter que dizer adeus"

Nunca se deixaram, mesmo que fosse só em pensamento, a menina sempre continuaria fiel ao amor que nutria pelo vocalista.

"O que não daria para passar meus dedos por seus cabelos

Tocar em seus lábios, abraçá-la apertado

Quando você disser suas preces, tente entender

que eu cometi erros, sou apenas um homem"

Em suas orações, o vocalista do Bon Jovi sempre estava presente, ora no papel de seu guardião, como na música "Você nasceu para ser o meu bebê", ora no papel de pai, de irmão, de herói que a despertaria... O amor deles era o que havia de mais transcendental entre as almas. Um afeto que um nutria pelo outro nessa e em outras vidas.

"Quando ele abraçar você

Quando ele puxar você para perto

Quando ele disser as palavras

Que você precisa ouvir

Eu queria ser ele porque aquelas palavras são minhas

Para dizer a você até o fim dos tempos"

Outros apareceram e tentaram fazer o papel de Jon Bon Jovi em sua vida. Mas falharam miseravelmente, uma vez que não tinham caráter para representar tamanho papel de extrema importância na sua existência. "Eram uns imprestáveis mesmo", pensava a menina.

"Bem, não há sorte nestes dados viciados

Mas querida, se você me der apenas mais uma chance

Podemos refazer nossos antigos sonhos e antigas vidas

Encontraremos um lugar onde o sol ainda brilha"

No momento, era o que ela mais queria.

"Sim, e eu te amarei, querida, sempre

E estarei ao seu lado por toda a eternidade sempre

Eu estarei lá até as estrelas deixarem de brilhar

Até os céus explodirem e as palavras não rimarem

E sei que quando morrer, você estará em meu pensamento

E eu te amarei, sempre"

Com uma declaração de amor dessas, a vida da menina reclusa nunca mais seria a mesma. Ela era amada por alguém que vivia do outro lado do planeta. Mal sabia a menina que essa pessoa, que essa forma de declaração, representava nem uma empresa, nenhuma entidade, e sim uma nação inteira que eram os Estados Unidos da América. "Será que ela era amada em outros lugares também?", pensava a menina, e a resposta era sim, não por uma nação, mas por várias. O planeta terra era ela e a menina não sabia.

Temari, com um olhar maternal, direcionou sua atenção para a menina. Esta, não sabia o que fazer com a aquisição de tamanha informação. "Tem os vídeos do Guns N' Roses ainda para mostrar para ela... - cogitou melhor - vamos deixar para outro dia"

- Eu quero fazer uma coisa antes do dia terminar – dizia a menina esperançosa. – Eva, Saori, vocês podem me dar carona até a casa do meu pai? – Indagou à Eva.

Temari não poderia acompanhá-las porque já estava de saída para a casa de Shikamaru

- Sim, mas o que você quer fazer? – Pediu Evinha sem entender aonde a garota queria chegar.

- Eu quero dar um bom abraço no meu pai – falou a menina com os olhos marejados.

Era tudo e apenas isso o que ela podia fazer no momento.

Ivi Saori e Eva fizeram que sim com a cabeça.

- Mas antes – interrompeu Temari – Eu quero que você veja uma coisa – falou agilmente ao mesmo tempo em que ia verificar o smartphone.

- Olha isso aqui – era um meme do Neymar – ta vendo isso? – Eu quero que você dê risada – disse Temari com o olhar firme.

A menina não conseguia rir do vídeo, tampouco entendia o comportamento de Temari, pois até onde ela sabia, todo mundo lá no hospital era fã do Neymar.

Eva fez um murmúrio na garganta. Sempre que podia, defendia o Neymar. Isso acontecia mesmo que estivesse só, degladiando-se contra vários em sua argumentação defensiva.

Mas Temari não desistiu de seu intento.

- Você vai rir dele, porque infelizmente as coisas são assim na vida. Eu não queria te falar, mas esse garoto estava debochando de você ontem. Para se "entrosar", ou melhor, para se promover no Paris Saint German, ele fez uma filmagem em que sibilava em italiano o quanto você não havia recebido um bom ensino. Em outras palavras te chamava de "boa selvagem", como Thomas Hobbes preconizara em seus estudos filosóficos. No entanto, me questiono se um dia ele vai conseguir fazer essa sofisticada assimilação como essa que eu fiz agora com a obra do autor.

- Para Temari – interviu Eva – cada um é gênio na área que escolheu atuar. Ele é um gênio com a bola, reconhece isso.

Temari fez que sim com a cabeça.

Lá fora, uma chuva forte começava a se pronunciar.

- Ôh, ôh, ôh hoje é dia de lavar as calçadas. Pena que em cidades com pouca infraestrutura as ruas vão ficar alagadas, e o lixo vai entupir os bueiros – dizia a aprendiz de segurança.

-Que isso, Temari, vamos é torcer para que alguém invista em medidas de sanitarismo nesses lugares extremamente prejudicados – amenizou Ivi Saori.

De repente, houve um estalo na cabeça de Temari. – Espera aí, deixa eu ver uma coisa...

- O que foi? – Indagou a menina.

- Me permite ver o seu face? – Perguntou a aprendiz de segurança.

A menina fez que sim com a cabeça.

- Ah, não, você vai tirar esse lixo do face agora – apontou para o anão encrenqueiro da área da computação. Você viveu no meio do lixo por anos, não precisa se transformar em um.

O anão estava comemorando o aniversário em um motel com vários "amigos". Nas fotos que apareciam na linha do tempo da menina, o pequenino fazia claramente uma referência maldosa ao fato de que a menina devia trinta reais a ele de um serviço prestado a pouco tempo.

- Que lasqueira. Você é boa, sabe do seu poder de influenciar pessoas – olhou para a menina com pena da situação- e por conta disso quer dar visibilidade para o movimento LGBT, que é uma minoria prejudicada, e aí vem um representante panaca desses que só estraga as coisas. Você é uma vergonha para esse segmento – apontou o dedo para a foto do anão. Vai – falou para a foto do picurrucho - volta para Cuiabá, que é uma cidade muito decente, diga-se de passagem. Com esse comportamento libertino, nem de andarilho eles vão te querer lá.

- Que horror – falou uma Ivi Saori atordoada que, até o presente momento, havia ficado quieta mediante a situação apresentada. – Calma – disse Ivi Saori ao mesmo tempo em que dava um abraço de maneira suave na menina. - Depois da tempestade, vem sempre a bonança – sussurrou com um olhar cheio de bondade.

Saori acreditava nisso com todas as suas forças.

CONTINUA

Eiiii, esse capítulo foi difícil de escrever. Chorei muito ao ouvir Always, muitas recordações vieram na minha mente... Pensei até que não ia conseguir transpor em linhas todas as coisas que eu imaginei para os personagens nessa seção da história. No entanto, como disse Ivi Saori acima, logo após a tempestade, o tempo melhora, e foi exatamente o que ocorreu comigo hoje – um grande amigo voltou em cena para a minha vida. Fiquei imensamente feliz com esse fato. Espero, com todo o meu coração, que mesmo que vocês estejam em um momento difícil, passado o período da tormenta, vocês também possam respirar aliviados e terem a certeza de que as dificuldades só nos tornam mais fortes na nossa caminhada. Bjsss