13 – Saori, a aprendiz.
- Saori, hoje é dia dos estudantes e eu queria te dar um presente... – dizia uma Tsunade orgulhosa. Tsunade havia sido a médica que inspirara Saori a trabalhar na área da saúde.
- Não preciso de presente algum – falava a enfermeira – só de poder desfrutar da companhia da senhora, em um dia tão importante como hoje, já me sinto feliz.
- Mas... – tentava argumentar em vão a médica.
- Sabe, a senhora é um verdadeiro exemplo enquanto médica, no entanto a gente vê algumas pessoas que realmente nos envergonham na profissão do ensino.
- Como? – dizia Tsunade atenta aos dizeres da pupila.
- Enquanto eu cursava outro curso, me recordei agora de uma senhora que usava aparelho de surdez. O que era um paradoxo, já que a mesma possuía uma percepção incrível para a falta de vergonha na cara. Nunca chegou a me dar aula, mas as pessoas sabiam que pelo tempo em que permanecera na instituição de ensino, seu salário era alto. Certa vez me disseram que ganhava mais de 20.000 por mês, contando o tempo de magistério. Diziam ainda, que só andava de táxi, e pagava os motoristas somente com notas de 100. Se orgulhava de que o nome estava no site de transparência do governo, no entanto, nunca vi ajudar financeiramente alguma instituição que precisasse de apoio. Apenas militava e era orgulhosa de ter ajudado a colocar determinada pessoa em determinado cargo. Enquanto permanecia na faculdade aproveitando dos privilégios do cargo vitalício que possuía, suas aulas eram cada vez mais ociosas e desprovidas de conteúdo e implementadas, isso sim, com ideologia e "favores" políticos. Estou falando dela, mas me recordo que outros professores sequer chegavam a dar aulas. E tantos outros que chegavam a assumir a disciplina mais do que a metade da mesma. Tem ainda aqueles professores que colocavam os seus bolsistas para darem aula no lugar deles. Eram pessoas completamente despreparadas e desqualificadas para ministrarem uma disciplina. Nada mais eram do que vassalos de seus tutores, já que estavam unicamente ali para completar espaços em uma grade curricular. No entanto, toda essa brincadeira era feita às custas do dinheiro público, isto é, dos impostos. Claro, nem todas as instituições são assim – falou segurando a sua garrafa de água.
- É o velho embate sobre se a escola deve ter ou não ideologia – raciocinava Tsunade.
- Acho que é muito mais do que isso, senhora. Enquanto vemos professores nas redes municipais e estaduais que fazem milagres no ensino, mesmo com a miséria que ganham, nas instituições de Ensino Superior pública vemos casos de completo descaso pela parte dos docentes como esse episódio que eu acabei de relatar agora. E volto a dizer que nem todas as instituições são assim. No entanto, eu, por ter frequentado um ambiente público, tenho muita vergonha de situações presenciadas como essa. Outra coisa para se ter asco é a falta de incentivo para os universitários permanecerem na cidade. Digo isso, porque deixei meu dinheiro em uma imobiliária que valorizava os preços especialmente para quem era de fora. Nesse sentido, é como se eu tivesse cursado, na prática, uma instituição de ensino privada. Tudo isso ocorria em uma cidade que é praticamente sustentada pela movimentação universitária, já que não tem empresas. Mesmo assim, tampouco valoriza quem é de fora – frisou Saori.
- Cortes de dinheiro são feitos - prosseguia Saori com firmeza em seu discurso -, mas sempre tendo em mente que as pessoas serão ressarcidas. Infelizmente, só havia essa área a ser mexida (a do setor público), já que o Estado estava completamente quebrado. Agora que as coisas vão bem, aparecem pessoas oportunistas querendo administrar a situação, sabendo que a cidade que já administrara está quebrada e sem emprego (isso, aliás, nunca houve em suas intermediações). Gostaria que as filiadas televisivas começassem a mostrar não só as fachadas dos casarões (os poucos que foram reformados), mas sim as calçadas, as ruas (ou a falta de pavimentação delas).
- Meu Deus, que horror – dizia Tsunade perplexa.
A conversa entre ambas as profissionais da saúde é um espelho da realidade, visto que tudo o que acontece na sociedade acaba interferindo não só no seu trabalho, nos estudos e também na vida social.
- Ser aprendiz é uma tarefa para a vida inteira – dizia sabiamente Saori – sempre devemos questionar a verdadeira causa da realidade em que vivemos.
- Esse é o que chamamos de método hipocrático – amenizava Sage.
O padre, que aparecera a pouco na conversa, não pode deixar de dizer o que pensara sobre o assunto. Ele disputava a administração interina e externa do hospital.
- Hipócrates, na Grécia antiga, sempre priorizou a indagação ante à certeza. É isso que nós sempre devemos preconizar na vida. Já tive discípulos que não honraram a minha aprendizagem – teve a recordação de um falso cristão que muito o decepcionara no exercício de pároco – e mesmo assim continuo otimista, não deixando jamais que isso interfira na minha maneira de agir enquanto gestor ou administrador do setor de finanças.
- Muito bem, padre Sage, confiamos na honestidade de seu trabalho – Tsunade tomou a fala para si. Falava em nome de Saori também.
- Obrigada – dizia o pároco.
CONTINUA
