15 – Ivi Saori, a corajosa e verdadeira guardiã.
- Já está desconfortável com a primeira pergunta candidato? – indagava Ivi Saori de pé na frente do candidato avaliado para ocupar ou não uma vaga no seu departamento de instrumentação cirúrgica. Dizia uma Ivi Saori concentrada em sua tarefa de avaliação. Fazia as preparações na sala de reuniões já há 15 minutos.
- Com licença, senhora. Eu marquei aqui, em minhas anotações, que acabou de chegar a ficha com informações novas sobre esse candidato – cochichou Nareta Motrice que havia para Ivi Saori. Sakura era assistente de Saori e entusiasta da inserção de uma política liberalista na empresa. No entanto, ela sempre dizia que entra Paulo e sai Pedro, tudo continua a mesma coisa. Já Saori pensava que inovações sempre podiam ser acrescidas em qualquer gestão.
- Sim vamos ver... Muito obrigada, Sakura. Continue assim que você vai bem - aproveitou para elogiar a eficiência da secretária e sempre dizia para a mesma "eu sei que você me contradiz nisso, mas não rememore muito a época dos braços cruzados porque isso também ocasionou a quebra financeira e também está relacionada ao velho modo de fazer as coisas".
Começou a olhar a ficha do candidato. No entanto o papel ao vasculhar o papel notou que ele estava sujo. "Literalmente", pensou Saori.
Já um pouco afastada da visão do candidato, cochichou para Sakura – Não é possível uma coisa dessas. Ele foi acusado de fraudar exames na área hematológica. Como é que pode um disparate desses? – sibilava indignada uma Ivi Saori.
Nenhum pouco satisfeita com a conduta suspeita do candidato que se deparara, Ivi Saori optou por dar mais linha para o mesmo se enforcar.
- E o senhor é a favor do aumento da taxa do IPTU, isto é o imposto predial e territorial urbano? Sabe que essa mesma empresa hospitalar paga impostos maciços para a tributação da União. Como se posiciona a respeito disso?.
- Os mais privilegiados terão que pagar essa conta...
- Como é que é? Então a classe média e alta que sustenta esse país, como sempre, vai ter que arcar com os custos da população em geral? Sou muito a favor de uma política que incentive a valorização das classes necessitadas a fim de que elas consigam ascender socialmente, no entanto é desastroso sempre as mesmas estratificações sociais terem que arcar com os custos de qualquer medida tomada por uma administração insatisfatória.
O candidato tinha uma dicção apresentável. "Já vi esse caçador de marajá em algum lugar", se lembrava da mesma lábia infalível de Collor há muito tempo. No entanto, com a sua retórica confiante, Ivi Saori conhecia de longe aquele tipo. Dava para ver que era mais um daqueles burocratas engravatados da cidade repletos de promessas vazias. Cidade quebrada e largada às traças ou carroças empurradas por cavalos. Se o candidato queria botar "ordem" no hospital, ele que fosse atuar como "missioneiro" na cidade que nascera e que tanto estava negligenciada. Na ficha que Saori recebera de Sakura, inclusive, constava que ele já havia exercido um cargo público nessa mesma cidade, no entanto não a ajudara a se reerguer nem tampouco promoveu o progresso da cidade. A cidade estava quebrada e continuara quebrada. Se orgulhara tanto de colocar um amigo no seu lugar, mas não havia o principal: o emprego. Ficou sabendo, inclusive, que o mesmo queria se candidatar a outro cargo público, com o intuito de tirar sua cidade da pobreza, mas e o que fizera no ano em que administrara tal situação? E ainda, como queria passar uma boa imagem para a população se quando estava em um cargo público costumava andar com vários seguranças à tira colo, no entanto, a mesma cidade em que administrara nunca obtivera o menor nível de segurança em suas mãos.
Saori continuava com o seu raciocínio.
"Se não consegue nem auxiliar no desenvolvimento da própria cidade em que mora, cidade esta que não há emprego, o comércio existente é ineficiente, falta empresa, e muito menos existe uma infraestrutura adequada para dar qualidade de vida para os seus moradores, como vai conseguir contribuir beneficamente para essa empresa hospitalar?", pensava uma Saori claramente descontente com a situação que presenciava. Ao mesmo tempo em que cogitava essas ideias arrumava seus bonitos cachos. "Ora é como tentar comparar uma cidade que vai para frente com um município parado no tempo, não tem como." De repente tentou alisar um cacho e não conseguiu. "É melhor assim", sorriu. Então você quer comparar índice de aprovação? Sai da minha cidade com mais de 92% de aprovação da minha gestão. Isso em dois mandatos; não precisei de ninguém para continuar o meu mandato. Sai de uma cidade rica e que, após a minha gestão, continuou bem desenvolvida. E aí vai encarar?", raciocinava.
- Veja bem, senhor candidato – Saori, finalmente, resolvera se pronunciar -, a vida não é uma avenida movimentada na frente da faculdade que você costuma frequentar, em que já no início da aula você bebe com os amigos, isso quando não falta aula ou não faz a lição de casa de maneira adequada. "Falo isso por você, eu não faço esse tipo de coisa", pensava Saori. Você não é só meu empregado, você é um empregado do povo já que nesse hospital há injeção de recurso da união. Por isso, na vida é necessário ter responsabilidades... – prosseguiu com o discurso - Tome aqui, passe esse corretivo nessas olheiras. "Dessa vez não passou formol", pensava Saori ao vasculhar a aparência adulterada do candidato. - E da próxima vez – prosseguia - tente fazer a barba... - dizia Saori olhando com pena para o aspecto exausto do candidato. "Se continuar assim, vou fazer ele picar a mula já, já; não vai nem precisar de plebiscito", pensava de uma maneira nobre a enfermeira.
Como o candidato estava quieto, Saori prosseguiu com o discurso.
- Vê bem, você só está aí nesse cargo porque fui eu que te contratei no hospital. Só chegou aonde chegou por causa minha, custa assumir direitinho as suas funções? Por que ao invés de vir aqui se meter aqui no meu departamento, você não procura fazer algo de bom para a sua cidade? Por que não procurou dar continuidade a sua administração lá onde estava? – Como não se ouvia nada do candidato, Saori continuou. Quer ajudar a sua cidade como? Através de desvio de verba de dinheiro às custas das despesas dos demais?
- Ouça bem, candidato – Saori falou em uma tomada só de fôlego – eu posso ter nascido na colônia, mas de boba eu não tenho nem a inicial do nome. Eu gosto é das coisas corretas. Se não tiver a honestidade e a firmeza no caráter que eu tanto priorizo, significa que não está apto para o cargo – sentenciou a enfermeira de maneira exemplar.
"Será que de uma vez por todas eu vou ter que convocar o Padre Sage e expulsar esse cara da corporação?", cogitava Saori.
Sem ter o que dizer, o candidato saiu do recinto.
Como a seleção ainda não havia terminado, mais à frente Saori encontraria de novo o indivíduo, só que não compraria tão fácil a história do mesmo.
- Se cobro tanto de você é porque te conheço e muito lhe ajudei no início de sua carreira. – De repente, o smartphone de Sakura tocara. O toque de chamada era do grupo Paramore. – "Ah, que música chata é essa, pensava Saori. Isso aí azedou faz tempo. Não cola mais aparecer sem camisa bombadinho para os amiguinhos, viu?. É um aviso tácito de que a alienação social manda um abraço para a gente", pensava Saori de maneira sarcástica. "Estou saturada de certas situações da vida. Prefiro a prática do que discursos cheios de promessa... Esse aí é mais um que só promete, promete...", cogitava a enfermeira para si.
- No entanto – voltou ao seu discurso - não é possível mais fugir de suas responsabilidades, isto é, sair do país, como você é acostumado a fazer quando as coisas se complicam. Como vi que você não está apto para comandar o cargo, continuarei no mesmo posto de chefia com a mesma honestidade e integridade que me é característica ao longo desses anos. – Dessa vez, Saori não deixaria passar nenhum deslize do candidato. A mesma continuaria à frente de seu posto e não deixaria qualquer insubordinação
Com o candidato já fora de seu alcance, Saori direcionou a fala à Sakura:
- Não vou admitir candidato ficha suja nesse hospital. Aquele que a malha fina da rede da corrupção pegar é para ficar de olho porque é corrupto, rouba! À grosso modo: pega que é ladrão – discursava Saori enquanto comia a sua merenda sempre com o pensamento de que para se dar bem na vida é necessário ter a honestidade em primeiro lugar.
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À noite, no mesmo dia, Saori ainda estava no seu turno no hospital.
- Senhorita Motrice, você que sempre traz informações interessantes e novas sobre a seleção de candidatos, o que tem para me relatar?
- Se recorda do candidato de hoje à tarde senhora Ivi Saori?
- Sim - Saori incentivou que a assistente continuasse com o seu relato.
- Ele se quer tem carteira assinada. Pior, nem chegou a fazer uma, isto é, nunca enfrentou uma fila no CINE ou qualquer outro órgão regulador do Estado. Outro fator importante é que ele nunca atuou em uma empresa do setor privado. Como ele quer, então, gerar emprego se na prática nunca trabalhou como os cidadãos que ele quer que votem nele? É uma piada isso? Uma pegadinha? Realmente não consegui entender o que está acontecendo.
Saori estava estupefata com a revelação feita pela sua assistente.
- Meu Deus, não posso contratá-lo. Desse jeito não vai dar - dizia Saori visivelmente consternada. - Dan vem cá - chamou o outro assistente. Você viu tudo que eu fiz na gestão desse departamento no hospital. Peguei ele em verdadeiros frangalhos. Você, me promete que vai exercer o seu cargo direitinho, né?
- Sim senhora, pretendo seguir os seus passos. Sabe que tem o meu apoio em absoluto. Por isso que a senhor não pode parar e continuar com a sua gestão sem mácula.
- Outra coisa - frisou a Senhorita Motrice, o candidato referido ainda nega que a fraude nas amostragens nos exames hematológicos sejam um problema de fato. Disse que o alarde que fizeram sobre isso mais parece uma fake news e que irá ser resolvido o quanto antes. No entanto, mulheres morreram por conta disso. É um crime muito grave isso o que ocorreu. Os usuários do sistema único de saúde dessa área atendida clamam por uma resolução.
- Só fala em segurança, mas na cidade dele, quando tinha um cargo de administrador, o quadro de homicídios era alarmante.
- É um paradoxo, isso sim, querer administrar o meu departamento sem ter idoneidade política, muito menos experiência e responsabilidade em cargos como esse - sentenciou Ivi Saori
- Ele precisa focar nas pessoas que realmente geram riqueza para o nossa área de atuação.
- Não, Motrice - interviu Saori - o atendimento de um gesto deve ser a todas as camadas da sociedade, não importando o nível de riqueza que estas possuam. O que importa é que o tratamento seja igualitário para todos os usuários de sistema, não preterindo uma camada em relação à outra, nem tampouco desfavorecendo uma camada por ela ser mais rica ou abastada.
Motrice concordou com a enfermeira.
De repente, Saori recebeu uma mensagem pelo smartphone.
- Ah, sim, eu vou fazer uma coisa aqui agora... - Falou ao checar o seu aparelho de smartphone. Quero enviar uma homenagem a um amigo jornalista. Eles estão passando por problemas de liberdade de imprensa, ou seja, cerceamento ou perseguição da exposição de ideias, em um país que eu gosto muito. Vou mandar essa mensagem com o tema de música dessa alma forte que foi Aretha Frankin. A mensagem tem o tema de respeito. Esse meu amigo jornalista e toda a classe do setor da impressa merecem. Informação é a maior arma contra a alienação da população. Estejam sempre atentas a isso.
Falava enquanto tomava água em uma jarra: "tem que comparar gestão mesmo, só assim encontraremos o rumo certo para o desenvolvimento de nossa administração".
- Uma última coisa - falou Motrice - o candidato só fala em fazer uniformes para os empregados do departamento, no entanto não valoriza as diferenças de ideias que tanto têm a agregar ao nosso setor de trabalho. Ora, é a velha política travestida de algo revolucionário. Acho que o maior atrevimento aqui é tentar nos enganar dizendo que sabe proceder em determinadas situações limítrofes, as quais não tem experiência e capacidade para solucioná-las. Acreditar nesse tipo de promessa nos leva a um buraco sem fundo que não parece ter fim.
- Eu enxergo adiante - dizia sabiamente Ivi Saori. Falava de maneira humilde, mas, ao mesmo tempo, com firmeza - Veja bem, eu sou otimista, acredito que deva, sim, continuar em meu cargo da maneira correta como sempre procedi em todos os aspectos da minha vida. Não me considero ingênua e, sim, mais experiente para enfrentar determinados aspectos importantes na boa gestão do departamento ao qual eu administro.
- Volto a dizer - Ivi Saori persistia com a sua exposição de ideias - candidato ficha suja e que seja passivo em relação à fraudação de exames que acarretam no óbito de pacientes jamais será aceito aqui na dependência desse hospital. Mais entrevistas com possíveis candidatos a essa vaga serão feitas e suas ideias serão igualmente ouvidas com minha plena atenção, no entanto vocês já sabem o meu posicionamento a respeito desse assunto. Corrupção não será aceita para esse cargo. Muito menos haverá impulsionamento para a drogadição e tráfico de medicamentos nesse ambiente hospitalar.
Saori e Sakura fizeram que sim com a cabeça.
Em seguida, Saori verificou o recebimento de uma mensagem de Temari.
- Ah, sim. Vou bater a foto dessa placa de carro aqui e enviar para a acessoria de trânsito. Com a carteira impugnada é difícil se mobilizar na cidade e muto menos ficar fazendo arruaça nas ruas - resmungava uma zelosa Ivi Saori Mitsumada que à pouco recebera um vídeo de um motorista que transgredia as normas de trânsito. Saori não brincava em serviço.
- Meninas, antes que vocês voltem para seus turnos, primeiramente quero dizer que amanhã, às onze horas, permanece a campanha da vacinação com o intuito de imunizar o futuro de nossa geração, ou seja, os baixinhos. Estejam atentas ao meu aviso para a atividade que ocorrerá amanhã. Dizia uma Ivi Saori sempre preocupada com o andamento da empresa hospital. Naquele ambiente, ela era um verdadeiro anjo para os usuários de sistema de saúde.
CONTINUA
