Disclaimer: Naruto não me pertence.
Areia
Hinata abriu os olhos com certa sonolência. Ao seu redor dunas e mais dunas de areia se estendiam interminavelmente. Os últimos raios de sol beijavam a areia com seu calor intenso num show de cores únicas.
Percebeu que havia desmaiado na metade do caminho.
A loucura de mudar de vida em tão pouco tempo fora pesada de mais para ela. Estava tão acostumada a se restringir aos portões do clã Hyuuga, sem quase nunca tocar ou ver o que era externo à aquelas paredes
( pois todos tinham medo do que aconteceria se ela fosse corrompida, com o que aconteceria se ela perdesse sua bondade, com o quão destrutiva ela seria caso fosse engolida pelas maldades do mundo)
que quase pediu pra voltar pra casa no ponto que a floresta úmida e agradável dava lugar a aridez do deserto.
Talvez o certo seria voltar. Mas voltaria para onde? Ela não possuía um lar.
Mesmo o clã Hyuuga não era um local que ela poderia chamar de casa. Nunca fora. Era apenas uma estrutura que servia de abrigo para ela. Um lugar que permitiam que ela se abrigasse
( Ela já chamara aquela prisão de lar.
Tinha acabado de completar seis anos na época e faltavam doze dias para o inicio da primavera. Mais uma vez seu aniversário não fora comemorado por ninguém, muito menos lembrado por alguém. Mas isso não importava na época.
Estava brincando no jardim que fizeram numa área inutilizada dentro do clã. Uma área que depois ela entenderia que lhe fora entregue porque ninguém a desejava por perto. Ela devia ser isolada pelo bem dos outros no clã. Mas enquanto não tomava conhecimento da sua real situação ficava feliz com o espaço. Afinal aquele era o jardim dela. Ninguém pisava naquela grama que ela mesma aparava, tocava as flores que ela cultiva ou... Não importa.
Hinata havia cometido o estúpido erro de dizer ao pai que assim que a primavera chegasse ela iria colocar suas flores nos vasos espalhados pela casa. Faria isso porque em um dos livros encontrou uma passagem que dizia que todo lar era mais aconchegante com flores pela casa.
Todo lar.
Lar.
Nunca mais usaria essa palavra. Não para se referir a mansão. Não para se referir ao clã.
A palavra não saira mais dos seus pequenos lábios de crianças depois da surra que levou.
Ainda podia se lembrar das marcas de dedos roxos na pele branca arrebentada. Podia se lembrar dos urros de dor que dera no início e que se tornaram apenas no barulho do ar que sugava tentando respirar.
Era fevereiro.
Não havia uma só pessoa na ala oeste da principal mansão do clã Hyuuga além dela. Os olhos de vidro da menininha fitavam o espelho. Lágrimas secas caçavam na pele multicolor. Sangue escorria por entre seus lábios e um filete tentava passar pelo pequeno nariz quebrado.
Ninguém tentara ajuda-la. Ninguém tentara salva-la. Ninguém lhe dissera o que fizera de errado.
Não sabia como havia sobrevivido e )
porque não podiam abandona-la a própria sorte quando Suna podia pedir a cabeça de todos na Vila ao perder sua única esperança.
Neji teve que carrega-la enquanto entoava uma canção de ninar antiga. Ele sabia o quanto tudo aquilo era difícil para ela. Sabia o quanto doía. Sabia o que era perder a única pessoa em que confiava para conviver com estranhos ( mesmo que esses estranhos sejam sua "família").
A voz dele reinava no mundo turvo que era sua mente naquele momento. Acalmando-a. Embalando-a. Deixando que o sono e o cansaço dela formassem uma nuvem que a cobrisse por completo. Que a fizesse se reder ao mundo dos sonhos. E foi isso que ela fez, talvez não por vontade própria, mas por costume. Silenciou-se no embalo dos braços do irmão, suas lágrimas deixaram de cair e sua dor pouco a pouco cedeu espaço para um enorme vazio.
Como poderia ela, uma garota que fora criada trancada dentro do território da própria família, sem qualquer contato com o mundo no qual todos falavam, uma garota que cresceu sendo tratada como uma boneca de porcelana, casar-se com alguém tachado de demônio pela própria família?
Seu próprio pai vivia a bradar pela casa que se ela não era forte o suficiente para controlar seus próprios poderes e lutar e falar como Hanabi ( e ser como Hanabi. Ai meu Kami! O que fiz para receber uma filha assim? Porque não nasceu morta? Antes morta que um estorvo! ), seria esmagada pelas garras do garoto demônio antes que piscasse os olhos.
Ela não era forte.
Não como seu pai ( devia parar de chama-lo de pai, Hinata-sama. Você sabe que ele odeia quando você o chama assim. Para você ele é Hiashi-sama).
Ela não tinha total controle sobre seus poderes.
Ela não possuía a mesma elegância dos irmãos. Ou as habilidades deles. Ou a beleza deles. Ou o amor que eles recebiam. Ou o prestígio. Ou o toque. Ou os amigos. Ou a família.
Era tão insossa!
Desde pequena era ofuscada pela beleza alheia. Até sua irmã cinco anos mais nova destacava-se pela beleza e maestria nas artes tradicionais do clã. Para todos Hinata nada mais era que a prometida de um monstro. A moça que teria sua alma vendida em troca da segurança de todo um povo. Era uma menina ( marcada para morrer) vazia e inútil que serviria para acalmar os desejos por sangue de um homem amaldiçoado.
Por um momento se sentiu autoconsciente.
Talvez a ignorassem porque conheciam seu destino. Talvez seu pai fora rígido porque queria que ela não se intimidasse com o próprio marido ( talvez porque ele realmente acreditava em tudo que dizia).Talvez fizessem tudo aquilo para o seu bem pensando no monstro
( o verdadeiro monstro não é ele e você sabe. O verdadeiro monstro se levanta todas as noites e vigia o corredor que segue para a ala oeste. O verdadeiro monstro é aquele que te entregava os restos do almoço em uma tigela para que você comesse até o dia em que aprendeu a cozinhar para se alimentar sozinha, lembra? Aquele que inúmeras vezes tentou te matar alegando que seu futuro marido fará coisas piores.
O único que alega que está mais próximo dos anjos e que por isso lidera o clã. Mas você sabe que ele mente e ele te odeia por isso.
Anjos não ferem outras pessoas)
com o qual era legalmente casada e conheceria em três dias.
Como faria tudo agora que estava sozinha? Como reagiria a brutalidade do próprio marido? Como poderia chegar a ama-lo? Como? Como? Como?
Como o faria?
Neji a apertou um pouco mais contra si e sussurrou:
- Você é mais forte do que aparenta ser, Hinata. Não acredite nos outros, siga seus instintos, afinal você está sempre certa em relação a pessoas.
Com mais alguns soluços ela desmanchou-se no mundo dos sonhos. Dessa vez sem ter forças pra pensar na dureza do mundo minúsculo que a cercava enquanto era carregada.
Seria forte para proteger seu novo povo. Seria gentil para que fosse bem recebida. Seria amorosa e compreensiva para que pudesse chegar ao coração do seu futuro marido. Seria o que era esperado que ela fosse.
Ou continuaria a ser ela.
Quando Hinata abriu os sonolentos olhos novamente, viu que haviam parado para acampar no meio do deserto. As barracas eram resistentes e pesadas para não serem arrastadas pelo vento. Olhou para o lado e percebeu que estava enrolada num grosso saco de dormir. Se levantou e espiou o exterior da barraca.
Do lado de fora Neji fitava o céu estrelado de forma pensativa. Os olhos cinzentos dele pareciam querer absorver a luz das estrelas. Ao lado dele um garoto loiro comia pão em silêncio.
- Nii-san, N-Naruto-kun?
Neji se virou para olha-la e sorriu suavemente.
- Deseja comer algo Hinata-sama?
- H-hai! - sussurrou com bochechas coradas. Não comia há muitas horas.
- Aqui está. -disse o irmão enquanto lhe oferecia pão e água.
Hinata aceitou e pôs-se a comer.
O olhar dela vagou e, pela primeira vez desde que saiu de Konohagakure, observou o grupo de escolta que seguia junto a ela e a Neji rumo a Sunagakure.
Naruto, que estava sentado ao seu lado, era um garoto alto, porém um pouco mais baixo do que Neji. Os olhos dele eram azuis como o céu de verão quando não há nuvens e seu cabelo de um loiro brilhante como o sol. Assim como as cores que o compunham, o Uzumaki era um garoto chamativo e hiperativo. Falava alto e era escandaloso, aquecendo o coração de todos ao seu redor.
Ao lado dele estava sentado um garoto da mesma idade, porém com cabelo de uma cor negra tão escura que se assemelhava ao ébano e olhos da mesma cor. Sasuke possuía um atitude mais reservada e esnobe que Naruto. Agia como um verdadeiro príncipe e se sentia superior aos outros porque era muito habilidoso como soldado e muito inteligente. Sua atitude fria e aura indiferente incomodava muito Hinata, mas por algum motivo ela se sentia protegida ao lado dele, como se apesar da postura indiferente ele se preocupasse com ela e a protegesse como Neji.
Ao lado de Sasuke havia um homem esguio de cabelos grisalhos de nascença. Kakashi possuía um olho castanho escuro e o outro era avermelhado. Hatake Kakashi era um homem único; um homem divertido de se observar, sempre andando com um livro de capa laranja e um ar despreocupado. Hinata podia sentir que ele era muito mais forte do que aparentava, e que havia vivido coisas muito difíceis pela forma que os olhos deles fitavam atentos tudo ao seu redor. Ele mantinha o rosto escondido por debaixo de uma máscara, mas quando sorria era possível ver seus olhos encolherem e o tecido da máscara esticar.
- Você deve trocar de roupa antes de dormir, Hinata. A roupa que usará está na bolsa azul ao lado do seu saco de dormir.- disse Kakashi que até então mantera-se em silêncio.
- Oh! C- certamente me vestirei.
Neji sorriu e pediu que ela se aproximasse com um movimento da mão. O garoto sentado de frente para ele, Uchiha Sasuke, recuou um pouco para que ela pudesse se sentar.
Desviando o olhar do soturno Uchiha e aninhando-se contra o irmão em busca de calor em meio ao frio rigoroso das noites do deserto, ela passou a fitar o céu junto a ele.
- Entramos no perímetro da fronteira do País do Vento hoje pela tarde, enquanto você dormia. A partir de agora certifique-se de não deixar de usar o véu. Se quiser ajuda com as roupas eu te ajudo depois, mas por favor, não esqueça do véu.
Naruto observou os dois e bufou. O vento seco balançou os cabelos loiros enquanto ele revirava os olhos azuis.
- Nem toda mulher em Suna usa véu. Não sei pra que isso se a própria irmã do Kazekage, a Temari-chan, não o usa.
- Temari não usa véu em Konoha, dobe. E em Suna ela não o usa quando está servindo como uma soldado. No momento em que ela tira a armadura e sai da postura pra combate, ela se cobre e usa o véu.- disse Sasuke. Seus olhos pretos cairam sobre Hinata e ele pressionou os lábios em uma linha.- A Hyuuga, contudo, é a esposa do homem que é a mão direita do Kazekage e que lidera as Forças Armadas de Suna. O véu se tornará uma segunda pele para ela. É uma questão de mostrar seu status e respeito ao marido. Sem esquecer que ela não segue para batalhas, é uma civil.
Naruto fez uma careta, mas permaneceu calado.
Hinata fitou o irmão e viu que ele refletia sobre a fala do Uchiha.
- Nii-san?
Neji suspirou e segurou o queixo dela, fazendo com que ela abaixasse o rosto. Beijou o topo da testa dela e sorriu contra a franja.
- Cultura é cultura, não podemos muda-los e impor a nossa. Então tome cuidado e faça o que lhe foi ensinado. O véu vai mostrar sua posição na hierárquia e te protegerá. Use-o sempre. As luvas protegerão seus poderes, a cultura deles aprecia o uso de luvas, sendo assim, você deve aproveitar essa informação. Em Konoha você andava com o corpo desprotegido e por isso quase não podia andar pelas ruas. Mas em Suna a quantidade de roupa não vai assusta-los. Você sabe o que fazer.- ele sussurrou para ela.
Hinata fitou o primo com um pouco de medo nos olhos. Sabia que ele falava a verdade.
Em Konoha o clima temperado favorecia o uso de roupas mais curtas e leves. Então quando ela saía no verão vestida num kimono pesado, com luvas nas mãos, sapatos fechados e com o rosto meio coberto, as pessoas a chamavam de louca. As vezes ela se aventurava para além dos muros do seu clã e seguia vestida num grosso casaco com capuz, calças escuras e sapato fechado, as mãos seguiam sem luvas pois se escondiam nas mangas do casaco, mas ainda assim as pessoas lhe dirigiam olhares tortos.
Ela não tinha muita culpa no fato que tinha que esconder sua pele. Devido a sua pureza e proximidade aos anjos, o poder que ela carregava era exacerbado e ela não conseguia controlá-lo com perfeição. Desde pequena liberava uma fatia de poder quando desatenta e sabia que podia ferir alguém no processo ( como naquela noite ). Um choque de energia angelical súbito pode levar um indivíduo à loucura ou mata-lo ao se encontrar com a natureza impura da pessoa. Esse era o maior defeito de Hinata, não poder controlar seus poderes com a mesma precisão do pai, do irmão mais velho e da irmã mais nova.
Ela terminou seu pão, bebeu a água e voltou para a tenda. Dentro dela, despiu-se e observou os feixes de luz que dançavam sem rumo sob sua pele. Seu poder não estava muito estável hoje.
Colocou uma calça preta confortavel e uma blusa de rede para enfrentar o calor que viria pela manhã. Por cima da roupa vestiu um manto grosso branco e ajustou uma tira de pano azul ao redor da cintura. Prendeu o cabelo e o escondeu numa toca. Colocaria o véu pela manhã.
O sono a envolveu como uma névoa envolve o pé de uma serra.
Pronto! Mais um capítulo prontinho. Demorou por causa do tamanho, mas finalmente pude postar.
misskatleem, fico feliz que tenha gostado! Acredito que manter as características de cada personagem seja uma necessidade, mesmo quando eu tiver que escapar um pouco pelo bem do enredo, acredito que tenho que manter a essência deles. Abraços e até o próximo capítulo!
BarbaraGava, to rindo muito aqui com você. Hehehehe. Hinata anjinha é batata, chega a ser meio senso comum até, mas vou dar umaa ajustadas nela pra ficar top depois. Pelo bem do enredo eu tive que dar uma adaptada pra idade média e juntar com o Japão feudal, da horrores de trabalho porque eu to descrevendo tudo num DESERTO! Então to roubando informações sobre o Oriente Médio. Neji tem wue ser irmão da Hina preu não torna-los um casal, entende? E isolar ela é legal porque na hora que ela sai do casulo a cruel realidade vai estapia-la com força. Naruto nem vai aparecer tanto assim, mas ele é un elo entre o casal principal além do Neji então foi bom joga-lo ja comprometido no fogo cruzado. Kkkk Neji e ela já vivem numa situação "estável" então tem pouca coisa pra fazer. Eu gosto mesmo é de ver o circo pegar fogo e não vai ser enrre eles. Vão ser eles contra o mundo! Mwahahahaha! Aiai, Beijos e até o próximo capítulo.
Beijos povo e até a próxima!
