Disclaimer: Naruto não me pertence.

Areia

Hinata abriu os olhos e suspirou. Franziu o nariz ao pensar que andava suspirando muito ultimamente. Com olhos ainda lerdos vasculhou o local ao seu redor. Percebeu que estava sentada num sofá preto como carvão, seu corpo coberto por uma túnica marfim com uma faixa de pano na cintura castanha. Moveu o rosto e sentiu o tecido do véu amarelo canário roçar sua bochecha rosada. Ergueu o olhar e viu Neji em pé apoiado numa escrivaninha feita de madeira de cerejeira. Pouco a frente dele um homem novo, usando os trajes que o identificavam como Kazekage, de olhos castanhos e cabelos curtos e rebeldes da mesma cor assinava um bloco de papeladas enquanto conversava.

- Nii-san?

Neji se virou para observa-la e sorriu. Um sorriso contido, educado e simples. Apenas um curvar no canto direito dos lábios.

Percebeu que Neji vinha sorrindo com a mesma frequência que ela suspirava.

Ele se aproximou e se sentou ao lado dela no sofá.

- Chegamos em Sunagakure no Sato faz algumas horas. Agora são aproximadamente uma hora da madrugada, por isso está tão frio. - ele se levantou e parou ao lado do Kage. - Este é o Kazekage Sabaku no Kankuro, irmão mais velho do Gaara-sama.

Hinata sorriu de forma hesitante e fez uma profunda reverência.

- É u-um g-grande prazer conhecê-lo, Kazekage-sama.

Kankuro sorriu.

- O prazer é todo meu.

Neji franziu a testa.

- Onde Gaara está?

- Meu irmão chegará a qualquer momento. Ele está preso com a papelada que trata da segurança de vocês. Os papeis parecem não ter fim. - disse Kankuro com um sorriso.

Hinata interiormente tremeu. Estava tão próxima do marido que começava a sentir o peso das suas obrigações antecipadamente. Era como levar um tapa no rosto. Sentia suas bochechas arderem de vergonha.

E se ela não fosse uma boa esposa?

E se ela não fosse suficiente para acalmar a besta que habitava seu marido?

E se ela não pudesse prover felicidade a ele?

E se continuasse a ser apenas um fardo; um estorvo nesse novo lugar e nova família?

Olhou para baixo e viu uma pequena mancha amarela opaca e escura. Era o seu medo se alastrando.

Seu medo.

Medo.

Medo era para ela uma palavra tão pequena para representar algo tão poderoso. Quatro inocentes letrinhas que carregava o peso de um sentimento que persegue as pessoas.

Desviou o olhar e se concentrou no irmão.

Ouviram um click e a maçaneta daquela sala enorme estalou. O som suave do ranger da porta se abrindo ecoou por dentro do local, tornando o ar tenso. A poltrona de linho vermelha se tornou mais imponente e ameaçadora, a enorme mesa de cerejeira coberta por pergaminhos e blocos de papeladas com pequenos potes de nanquim espalhados pareceu tentar engolir o resto da sala, o tapete grosso com a profecia escrita nele se tornou mais áspero, as paredes amplas pareceram reduzir de tamanho.

Hinata se sentiu sufocada pelo véu que carregava envolvendo o cabelo e o pescoço.

Então ele entrou.

Cabelos curtos e repicados de um escarlate puro e brilhante dividido de lado deixando o kanji da palavra amor tatuado mais visível. Olhos verde-água profundos e frios. Lábios de grossura mediana, perfeitos na boca de tamanho simétrico alinhada perfeitamente com o nariz fino e reto, com uma curva suave e elegante nas narinas. Trajava uma roupa pesada feita de couro, lã marrom e vermelha e ferro. Uma armadura protegia seu peito e o brasão de Suna brilhava talhado a ouro sobre o peito direito. Uma capa com capuz vermelha escura protegia seus ombros e parte da cabeleira.

Ela podia ver a cabaça pesada presa às costas dele cheia de areia e as armas escondidas em diversos bolsos. Estava vestido como um soldado de elite.

Mas ela sabia que ele não era só um soldado de elite. A faixa rubro negra no antebraço dele era prova suficiente.

Ele é o Comandante Supremo das Forças Armadas de Sunagakure no Sato.

Ele é Sabaku no Gaara.

Ela perdeu o fôlego ao vê-lo.

Gaara por sua vez fitou os dois visitantes com curiosidade, embora seus olhos nada mostrassem. Ele já havia atendido Kakashi, Sasuke e Naruto mais cedo no seu próprio escritório quando Kankuro pediu que ele se unisse a eles. Viu como Neji acenou a cabeça em reconhecimento e devolveu o gesto. Seus olhos caíram na outra figura e seu corpo ficou tenso por inteiro. Sentiu Shukaku se agitar dentro da sua mente e temeu perder o controle. Mas não se viu desejando o sangue dela como sempre acontecia quando Shukaku se agitava.

Se viu querendo se aproximar dela. Tocá-la. Protegê-la. Abraça-la e acalma-la contra seu peito.

Respirou fundo e se concentrou.

Ficou impressionado com a atenção que sua mente prestou à figura feminina da estranha. Percebeu alguns fios fugitivos do cabelo liso de um azul escuro como o céu noturno gritavam fora da prisão do véu amarelo canário. Percebeu também que a pele dela era tão alva como a sua, mas levemente rosada e imaculada. Viu que os lábios grossos e rubros enfeitavam a boca pequena e que um nariz arrebitado, reto e fino suavizava as feições arredondadas da face dela. Observou que os olhos amendoados da garota estavam assustados, mas algo na cor lilás esbranquiçada transmitia uma paz interior fora do comum. Viu que as mãos delicadas e diminutas, com dedos longos e palma curta escapavam da manga da túnica, porém se escondiam sob luvas bege com detalhes dourados.

Ele deu um passo para frente e o que viu deixou suas mãos frias, seus dedos trêmulos e sua respiração acelerou. Podia jurar que os olhos dela eram de um suave tom de lilás quando os analisou, mas agora que ela parou de fugir dos seu olhar e seus olhos se encontraram a cor mudou. Era uma imensidão de um tom de lavanda tão claro que deixava de ser uma variação de violeta e se tornava uma cópia da lua. Duas luas enormes e uniformes que pareciam querer sugar sua alma.

Talvez o fizessem.

Hinata havia feito contato visual inicialmente por pura curiosidade, contudo, a intensidade do olhar do garoto ruivo era forte demais para ela. Desviou o olhar com vergonha e sentiu as bochechas ruborizarem.

Gaara percebeu que ela corava e não conseguiu conter um pequeno sorriso no canto dos lábios que durou poucos segundos. Tão discreto e veloz que um olho não treinado não perceberia.

Mas Neji percebeu o sorriso.

Kankuro também.

- Hinata-sama, este é o meu irmão mais novo e Comandante Supremo das Forças Armadas de Sunagakure, Sabaku no Gaara. Otouto, essa dama é Hyuuga Hinata, segunda na sucessão da liderança do clã Hyuuga, tendo apenas seu irmão mais velho acima dela, Neji, e é a... Sua esposa.

Gaara resistiu à necessidade de morder os lábios por nervosismo e fez uma profunda reverência. A garota se levantou e retribuiu o gesto com toda a graça que só uma verdadeira rainha possui.

Hinata? Então este era o nome da sua esposa?

A garota deixou o olhar se prender no piso de madeira de lei escura e ajustou o véu, aproveitando para esconder mexas rebeldes da sua franja que teimavam em escapar do abrigo proporcionado por ele. Neji se posicionou ao lado dela e apertou de forma firme a mão da irmã.

Gaara permaneceu imóvel enquato assistia a moça subir um segundo véu que estava por baixo do outro e esconder o rosto com ele, deixando apenas os olhos visíveis. Viu como ela reajustava as luvas longas sem expor a própria pele e como tomava cuidado para que os pés cobertos por uma meia fina preta não escaparem da túnica grande e se mostrarem.

Apesar de que em Suna o governo era mais flexível e as mulheres não fossem obrigadas a se cobrir por inteiro o tempo todo, ao contrário da capital do País do Vento, Hinata havia escolhido se vestir da mesma forma que as mulheres da alta classe antiga. Gaara e Kankuro sabiam que o Conselho a elogiaria pela escolha tradicional que resgatava as origens culturais de Sunagakure, mas ambos também sabiam que a verdadeira intenção dela era outra.

O Sabaku ruivo e seu irmão haviam conversado com Neji no momento que o grupo dele atravessou o portão. Naquele momento Hinata estava enrolada em várias camadas de pano, nenhuma parte de si estava exposta enquanto ela dormia. Curioso, Kankuro perguntara porque a carregavam daquela forma. Neji explicara sobre a condição de exposição da pele dela e da decisão de andar sempre com a maior parte do corpo coberta por segurança.

No momento Gaara se sentira angustiado em saber que olhar para a própria esposa no momento errado poderia mata-lo e

( dunas e dunas de areia se estendiam pelo deserto. Ele sabia que essa areia era parte dele. Ele é um monstro do deserto. Ele é o portador do temível Shukaku, um demônio feito de areia e ódio. O deserto era sua casa. A areia seu corpo. Seu escudo.

Mas ela vinha ao longe.

Seus passos eram silenciosos e suaves contra o mar cortante formado por dunas e mais dunas do mesmo material que ele fazia parte. Tempestades de areia aterrorizantes a seguiam por todos os lados sem tocá-la.

Não o faziam porque ela era a personificação da paz em meio ao caos.

Ela brilhava como um segundo sol. Seu corpo inteiro emitia luz própria. Cegava o olho nu, mas ele ainda conseguia assisti-la passar. Tão bela e tão destrutiva ao mesmo tempo. Ele podia sentir as descargas violentas de energia que ela emitia a cada novo passo. Ela purificava a areia, retirava cada uma da impurezas. Incinerando-as.

E ele tinha medo

porque ele é a impureza.

Não, ele é a areia. )

olhar no momento certo iria purifica-lo.

Hinata sentiu novamente o peso do olhar do Sabaku mais novo e corou profundamente por debaixo do véu. Seus olhos fixos no chão procuraram a sombra dele no piso e a encontrou ligeiramente distorcida. Porém não precisavam de uma imagem fiel dele quando a presença do ruivo parecia engoli-la. Muito menos quando cada detalhe do rosto dele impregnou-se na memória dela.

Podia ver com perfeição os cabelos escarlate rebeldes apontando parra todos os lado e divididos de forma desleixada de forma que o kanji ficasse visível. Podia reproduzir de forma fiel e infiel os assustadores olhos rígidos e gélidos aquamarine. Fiel porque a cor era inconfundível. Infiel porque a quantidade de sentimentos presentes e a ausência simultânea deles era inigualável. Se sentiu como uma criança que descobre que a gravidez não é uma melancia comida rápido demais, ou que os bebês não são tragos por uma bela cegonha, ao perceber que ele era demasiadamente bonito para ser o mesmo monstro sanguinário retratado pelas histórias que ouvia.

Ela percebeu que estava brincando com os dedos ao ouvir Neji suspirar enquanto afogava um risinho debochado. Mas a culpa não era dela. Não podia ele perceber que o temido demônio de Sunagakure era belo demais para ser retratado de forma tão horrenda pelos inimigos? Não podia ele perceber que os olhos esverdeados envoltos por cílios negros e longos e profundas olheiras despiam-lhe a alma?

Kankuro trocou olhares com Neji e ambos sufocaram uma risada.

Kankuro foi o primeiro a ousar cortar o clima "mágico".

- Matsuri-san te espera no corredor, Hinata-sama. Ela te guiará até seus aposentos temporários.

- Oh, a-agradeço a hospitalidade. - disse ela na sua voz soprano suave e melódica.

Gaara abriu caminho e abriu a porta para ela passar. Hinata fitou o irmão uma última vez antes de abaixar o olhar e seguir para fora do escritório do Kazekage. Uma menina de cabelo curto castanho claro e olhos amendoados a esperava do lado de fora. Aparentava ser dois anos mais nova do que ela e se apresentou como Matsuri. Hinata seguiu-a sem pestanejar.


Hinata fitou a porta recém fechada do quarto e franziu o rosto. A garota que havia acompanhado-a até seus aposentos temporários a fazia se sentir incomodada. Ao começar a segui-la havia se sentido feliz com a aura calma e ligeiramente inocente dela, mas detectou algo em meio a bondade da garota. Ativou o byakugan e seguiu a silhueta da menina se afastando.

Matsuri estava subindo as escadas na direção da pequena sala onde Kankuro, Neji e Gaara estavam na primeira torre a direita quando Hinata começou a analisa-la. Havia uma mancha negra na menina muito bem escondida, mas densa e compacta esperando estourar e se alastrar num piscar de olhos. A Hyuuga respirou fundo e estudou o borrão escuro.

Ela podia ver a bolha de sentimentos ruins se entrelaçando dentro da garota. Os mais fortes entre eles eram o ciúme e a inveja. Ambos pareciam tomar vida própria de forma acelerada e consumir a luz no interior da garota.

Assistiu em silêncio como a menina terminava de subir as escadas em formato de caracol e parava na frente da sala que tinha como finalidade. Sentiu uma onda de energia que sabia ser de Neji. Seu irmão sempre emitia essa descarga de energia quando se sentia ameaçado e entrava em estado de alerta. Podia ver a energia que ele emitia ficando tensa e se condensando, formando um escudo ao redor do corpo dele.

Riu baixinho para si mesma.

É obvio que Neji estava alerta, ele era general de um dos frontes do exército de Konohagakure no Sato. Um prodígio em ascensão que possuía tantos homens sob seu comando aos 15 anos quanto soldados vitoriosos que se tornaram generais aos 30.

Fechou os olhos e se apoiou na parede. Desativou o byakugan e retirou as várias camadas de roupa que a cobriam. Deixou sua pele brilhar na escuridão do quarto e começou a guiar parte desse brilho. Com a ajuda dos pequenos fios luminosos que seu corpo transmitia, começou a vasculhar tudo ao seu redor. Sua mente vagueava a procura de concentrações de energia negativa ao redor do seu quarto.

Encontrou uma mancha num quarto de tamanho mediano logo abaixo ao seu. Reconheceu a curvatura dos artefatos como objetos femininos e soube, naquele momento, que o quarto que vasculhava era o da garota que se chamava Matsuri.

Recuou.

Quatro quartos acima dela, no alto da torre que descobriu estar situada, havia um escritório enorme. Pode sentir claramente cada detalhe do lugar.

Ela não gostou do que encontrou.

A súbita visão de móveis e quadros com bolhas cor de chumbo que se moviam lentamente com seus tentáculos, tentando atacar qualquer um que se aproximasse, somada a uma mesa larga de mogno com detalhes em pau-brasil que pingava sangue devido às papeladas rubras sobre ela a deixou nauseada.

O cheiro de sangue, putrefação e metal a assaltou por todos os lados. Só um tipo de escritório cheira dessa forma e possui uma mesa na qual a papelada derrama sangue. O escritório de alguém com alta patente no exército. Ela reconheceu imediatamente o dono do local.

Era o escritório do Sabaku no Gaara.

Tentou se levantar e cambaleou até a porta do banheiro. Recolheu seus feixes de luz de volta para si e resolveu tomar um banho. Seu mal-estar não a deixaria tão cedo.

Durante o banho decidiu que manteria distância do escritório que encontrou.

Suspirou.

A cabeça na água quente, os pelos eriçados, os dedos pálidos trêmulos, as pernas querendo ceder. Se sentia como se fosse desmaiar de exaustão. Olhou para o próprio corpo nu debaixo da água do chuveiro e se lembrou.

Lembrou-se do pai mandando-a se concentrar direito porque anjos úteis não fraquejam após curarem alguém.

Lembrou-se da irmã mais nova a fitando com desdém e dizendo-lhe que anjos não deviam alucinar como ela.

Que ela era doente.

Que talvez ela não fosse realmente um anjo.

Que ela era a escória dentro de um clã puro.

Que ela era um defeito escolhido como sacrifício.

Que ela não era nada além de um corpo vazio e ilusório.

Que seu pai não se importará em conhecer a futura família dela. Afinal ele acreditava que ela seria assassinada pelo marido em menos de um ano e que por isso mesmo não se incomodaria em pagar por uma cerimônia para o casal desafortunado.

Olhou para as próprias mãos e percebeu algumas bolhas negras se alastrando como uma infecção. Fechou os olhos e se concentrou. A sensação de queimação a alertou que havia incinerado aqueles sentimentos parasitas.

Respirou fundo e estalou a língua.

Teria sorte se conseguisse dormir essa noite.


Demorei, mas postei. Mais um capítulo de Areia na mão!

BarbaraGava, gostou deles fofinhos um com o outro, né? Prefiro eles assim. Eu shippo NejiHina sem nem olhar pro grau de parentesco hehehe, mas as vezes não da pra juntar eles *snif snif* T.T. Hinata no deserto tem que se vestir da forma certa, achei que a melhor forma seria torna-la quase uma muçulmana. Sabe o que eu gostei? Vou poder destruir a Hina como anjinha nessa fic e fugir a regra. Eu pensava como voce, que descrever sobre o deserto era de buenas... pensei assim até ter que descrever Suna por dentro e por fora. Sabe o que é ficar parada olhando o Taj Mahal por horas pra criar um castelo? Agora amplia isso pra descrever o Oriente Médio sem roubar tudo da arquitetura deles. Morri.O Hiashi é um ser a parte. Sim e não, é complicado explicar agora. Depois fica melhor no próprio capitulo. Se não dependesse de mim, eu tbm shipava um HinaNejiSasuGaa *-* Beijão.

misskatleem, papai é um monstro, mas ela ta viva! UHUUUUL! Ele tem os motivos dele... E aqui esta seu encontro da Hinata e do Gaara! Gostou? Beijos e até!