Disclaimer: Naruto não me pertence.
Areia
Gaara permaneceu calado observando-a com o canto do olho. Viu a garota se aproximar de cada uma das plantas e admira-las em êxtase. Fitava as flores brancas, as vermelhas e as lilases com toda a alegria que somente uma criança da cidade sente ao correr no campo. Quando ela não olhava para as flores observava a Vila daquele ponto privilegiado apoiando o busto no parapeito alto e olhando para baixo. A redoma de ouro ornamentada acima deles também era um constante alvo dos olhos dela.
Quando viu que o sol começava a se pôr ele virou-se completamente na direção dela e apontou para a rosa que ela acariciava com a ponta dos dedos cobertos pela luva.
- Tem uma lenda sobre essa flor - começou-. É por causa dela que plantei tantas Rosas do Deserto aqui quando descobri esse minúsculo terraço.
Isso pareceu atrair a atenção dela e a moça o fitou com expectativa. Respirou fundo e se fixou na flor. Ele não era um homem de conversar sobre coisas que não fossem táticas de guerra ou administração, então falar sobre uma lenda fazia seu corpo tremer levemente e sua garganta ficar seca.
Homens como ele não conversam sobre qual o clima preferido de cada pessoa ou qual o sabor do que almoçaram hoje. Homens como eles viviam em função do trabalho. Eram esculpidos pela violência que os cercava e pela necessidade de sobreviver. Homens como ele são rudes e silenciosos.
Homens como ele não demonstram sentimentos para fazer uma mulher se sentir bem. Mas aqui estava ele pronto para contar para uma estranha fatos que não parava para falar com os próprios irmãos. Pronto para se abrir para uma estranha (mesmo que sinta que já a conhece há seculos. Como se a presença dela ali marcasse um reencontro).
Não sabia exatamente como introduzir o enredo. Sua total inexperiência em conversas como essa pesando em seus ombros.
Percebeu que sentia medo de se abrir e ser rejeitado
(assim como era todos aqueles anos atrás quando ele buscava por companhia e as pessoas se afastavam gritando "monstro! ". Quando ele tentava ser como seus irmãos e conversar sobre tudo e sobre nada com alguém de forma tranquila)
por ela.
Ele a fitou novamente e percebeu que a morena ainda esperava em silêncio.
- Há muitos e muitos séculos viveu um homem muito rico e poderoso no deserto. Esse homem possuía doze esposas e se casara com cada uma sob a promessa de que as amaria e lhes daria a devida atenção. - pausou e respirou um pouco. Seu olhar novamente caiu sobre a única mulher ali com ele e percebeu que não havia nenhum sinal de rejeição nos olhos dela. Prosseguiu então: - Todo dia 15 esse homem presentava as esposas com ouro e jóias e, embora elas não acreditassem que ele as amasse, cada uma delas permaneceu na casa dele ano após ano, pois suas vidas com ele eram boas. Um dia, rápida e devastadora como uma tempestade de areia no deserto, a vida dele mudou completamente. Ele perdeu tudo e teve que começar a vender as jóias das esposas pra saudar suas dívidas. Mas mesmo assim nenhuma delas o deixou.
O dedo de Gaara deslizou por uma rosa do deserto branca e ele arrancou-a com galho e folhas. Segurando o pedaço da planta seguiu até Hinata e parou de frente para ela.
- Curioso, o homem reuniu-as e as perguntou porque permaneciam ao seu lado. A resposta delas o chocou. Uma por uma, elas se aproximaram e o beijaram em sinal de respeito e amor. Com os beijos veio a sabedoria e ele percebeu que elas estavam ao lado dele porque o amavam, não por causa do seu dinheiro ou poder. O homem passou o resto do dia refletindo sobre isso e na manhã seguinte ele partiu. Foi descalço, sem água ou comida e sem barraca para dentro do coração do deserto. Quando acordaram as doze esposas dele entraram em desespero e começaram a orar para Kami pedindo que ele voltasse para elas. - Gaara deixou a sombra de um sorriso adorna-lhe os lábios e girou a flor na mão, deixando que os espinhos se cravassem na mão.
- Então no dia 15 o marido delas voltou. Ele parou na entrada da sala e encontrou todas elas chorando e pedindo a Kami que ele voltasse. Quando elas sentiram um desconhecido e delicioso aroma trazido pelo vento pararam seu pranto e buscaram a fonte de tal odor. Quando o viram, correram para saudá-lo e perguntaram porque havia partido. O homem então mostrou a elas uma rosa e sorriu. " Parti pelo deserto para trazer - lhes o único presente que o dinheiro não pode comprar como símbolo do meu amor", disse-lhes ele. Uma Rosa do Deserto. Ele então retirou cada uma das pétalas e entregou uma para cada esposa, ficando apenas com o caule. " Dou-lhes as pétalas para que saibam o quão belo é o meu amor por vocês e como aprecio a presença de cada uma em minha vida". - Gaara arrancou a flor do resto do galho tomando cuidado para que nenhuma folha ou espinho escapasse e entregou para Hinata. Segurando o galho cheio de espinhos na mão ele mergulhou seus olhos verdes nos lavanda claro dela. - O homem mostrou-lhes o caule e disse " Nunca darei a vocês os espinhos que tive que enfrentar para dar-lhes a mais bela rosa que já existiu.".
Hinata suspendeu a respiração e fitou a rosa em suas mãos. Seus olhos se umedeceram com o fim da lenda e ela sorriu por debaixo do véu. Sabia que ao repetir os gestos do homem da lenda ele repetia a promessa. Neji havia avisado que ele não era um homem com muito contato social durante sua vida e que por vezes ela teria que ler as entrelinhas dos gestos dele, enquanto outras vezes ele seria direto e cru. Viu uma mão branca como leite tomar a sua, envolvendo-a, e logo atirou seus olhos na direção do ruivo. Os olhos dele pareciam vazios, mas ela podia sentir as emoções que o rodeavam. Receio, medo e (esperança? ) curiosidade flutuavam ao redor dele. Viu-o hesitar um pouco antes de voltar a falar. Os olhos vazios e gélidos dele agora se suavizavam.
Ele pareceu temer que ela recolhesse a própria mão enluvada da dele por medo. Mas ela se manteve firme e não ousou recuar. Se ele iniciara o toque, mesmo que não fizesse contato com a pele dela, quem era ela para recuar?
Ela podia sentir que suava frio por debaixo das luvas e percebeu que tremia. Nervosa, respirou fundo não ousando desmaiar num momento como esse. Havia passado o dia inteiro se segurando para desmaiar, então não ousaria fazê-lo agora. Quem sabe qual a próxima vez que ele fará algo do gênero?
- Hyuuga Hinata, por toda a minha vida esperei para te ter ao meu lado. Cresci cercado por riquezas materiais sem ter a única coisa que eu realmente queria. Amor. - ele tocou a própria testa e baixou o olhar. Seus olhos verdes se tornando um pouco mais sombrios por um segundo.- A tatuagem foi feita para não me deixar esquecer o que eu realmente devia buscar na minha vida e por anos foi o que fiz.
Ele observou as proprias maos e pensou no que vivera durante toda a vida dele. Sua expressão era um pouco vazia, mas era possível sentir a confusão que ele emitia perdido nos pensamentos sobre o passado.
- Busquei o amor em cada esquina até descobrir que ele não viria fácil para mim. Daquele dia em diante a tatuagem era só uma promessa de que um dia você viria. De que eu te encontraria. - ele fez uma pausa e respirou fundo. Os olhos buscaram a figura feminina parada de frente para ele. - Sinceramente eu não sei como se faz para amar ou como é ser amado, deixarei que me ensine com o tempo, mas de uma coisa eu sei. Eu sei que vou te proteger com minha vida. Ainda que eu precise enfrentar o deserto escaldante com apenas minha roupa, descalço e desarmado para te salvar, eu, Sabaku no Gaara, o farei de cabeça erguida se for por você. Esse é o meu voto de casamento e como seu marido honrarei minha promessa.
A voz dele era grossa e seca, mas para ela ainda parecia suave e reconfortante. As rosas pareciam ganhar vida sob a luz do pôr do sol e o rosto dele reluzia, o cabelo escarlate brilhando com mais intensidade. Gaara mantinha a pose imponente de antes e a face e os olhos vazios, mas ela podia ver além. Algo nela estalou e ela sorriu com mais força do que havia feito todas as vezes anteriores. Seu peito se aquecia e se expandia e parecia querer explodir em chamas.
Com cuidado ela desfez o véu ao redor do rosto e o que cobria seu cabelos. Os olhos dele se arregalaram por uma fração de segundo ao beberem da beleza dela. Cabelos negro azulados macios como seda adornavam o rosto em forma de coração com uma franja reta cobrindo a testa, as bochechas e orelhas coradas pela timidez e pela proximidade dele destacavam na pele branca como a neve e os olhos lilases cercados por cílios negros pediam pelo calor do seu toque. Os lábios rubros dela, oh e que lábios, vermelhos pelo calor clamavam por um beijo desses que faz o mundo parar. No momento em que ela sorriu-lhe suavemente o tempo pareceu seguir mais devagar. Pareceu que apenas ela existia.
Hinata olhou para a flor e corou ainda mais. Não se considerava digna de tais palavras e queria cavar um buraco esconder-se. Ele a olhava com tal intensitade e suas palavras ditas em tom grave a atingiam de tal forma que não podia evitar o rubor cobrir-lhe a face e as pontas das orelhas, borrões negros se espalharem pela vista anunciando um breve desmaio e ter o coração batendo descompassado em companhia do pulmão arritmico.
Ela retirou as luvas e encaixou a rosa entre as duas mãos. Ele teve que cerrar os olhos quando um feixe de luz escapou subitamente das mãos dela, reabrindo-os quando a luminosidade reduziu. Assistiu assustado como um novo caule nascia a partir da rosa e espinhos e folhas se formava. Ela então segurou a planta pelo caule e deixou que os espinhos machucassem sua mãos. Gaara ia protestar quando seus olhos se encontraram e ele percebeu o olhar suave que ela trazia no rosto avermelhado.
- V-vou enfrentar cada um espinhos que você c-carregar, a-aceitar sua dor e fazer dela minha, mas acima de tudo - ela retirou a mão dos espinhos e segurou a planta pela base da flor com a outra. Respirou fundo para evitar que a gagueira escapasse e ergueu a palma ferida, mostrando a forma que os cortes se fechavam e o sangue parava de gotejar - vou curar cada uma das suas feridas. Sabe por que? Porque como sua esposa devo aceita o seu amor, mas também devo aceitar sua parte mais dura e assustadora. A parte que fere. Prometo também ensina-lo a amar e a ser amado enquanto eu estiver ao seu lado e a Morte não me alcançar. Faço isso porque já não sou Hyuuga Hinata, mas Sabaku no Hinata, sua esposa. Esses são os meus votos.
Quase aplaudiu a si mesma ao perceber que não havia gaguejado ao falar a segunda parte. Ela percebeu com encanto que o olhar dele pareceu suavizar ainda mais e a coloração verde pareceu clarear e ficar mais uniforme. Sentiu a aura dele mudar também e sorriu para si mesma.
Talvez ele não seja o monstro que alegavam que fosse. Tudo que devia fazer era trazer esse homem para fora da casca de monstro e fazê-lo mostrar sua verdadeira face. Porque ela sabia que apesar da voz seca e cortante como o vento do deserto, as palavras que ele emitia eram sinceras. Porque ela sabia que apesar dos olhos que não traiam o dono e não deixavam os sentimentos dançarem por ele, o Sabaku não era tão frio e indiferente como os outros pregavam, ele apenas escolhia esconder suas emoções e se manter alheio a elas. Porque ela sabia que ele fora privado de qualquer afeto no seio familiar durante sua infância, fora privado de qualquer laço de amizade, fora privado de qualquer demonstração de amor.
Assistiram juntos e em silêncio o sol se pôr e só se moveram quando o céu se tornou um manto negro. Saíram do local e voltaram ao escritório. Gaara pegou um vaso de terracota vazio, encheu de terras e depositou a planta que Hinata carregava dentro. Ele a regou com um copo d'água e a posicionou junto a sua coleção de cactos.
Antes de saírem, Hinata empurrou um pouco de poder dentro da planta e o ocultou. Segurou a bola de energia até que começaram a descer as escadas do corredor. Sentiu o cheiro de sangue desaparecer e sorriu para si mesma timidamente. Ajeitou o véu e seguiu o Sabaku.
Gaara sentiu o pulso de energia e ouviu Shukaku se agitar dentro da sua mente um pouco, para se acalmar em seguida. O demônio o alertou sobre o que ela havia feito antes de voltar a dormir e ele escolheu ficar em silêncio sobre o assunto. Ela parecia saber o que fazer e de uma forma estranha ele se sentia mais leve a cada vez que ela fazia algo do gênero. Ele parou e percebeu que já estavam no seu quarto, pois este era exatamente em baixo do seu escritório na torre mais alta do castelo. Abriu a porta e deixou que ela entrasse primeiro. Percebeu que todos os pertences dela já estavam ali. O Sabaku puxou as malas até que ficassem de frente para o guarda-roupa, abriu o móvel e começou a abrir espaço para as coisas dela.
- O banheiro fica na porta branca à minha direita. Vou me banhar quando acabar de abrir espaço pra você.
Hinata concordou em silêncio, pegou sua roupa e correu para o banheiro.
Gaara assistiu-a em silêncio e suspirou. Ao contrário do que os anciãos esperavam, não iria consumar seu casamento ainda. Havia muito o que ser discutido e feito antes de tornarem tudo um passo irreversível na vida de ambos.
Hey, mais um capítulo para a felicidade de quem tá acompanhando!
BarbaraGava, ele realmente ficou muito fofinho! Tenho que deixar ele mais durão, mas meu coração não permite. A parte do Shukaku fica mais clara depois, porque ele meia que ja sabia quem ela é e ele e o Gaara vivem no mesmo corpo e acabam compartilhando sentimentos, por isso o Gaara ta OOC ( spoiler legal aqui). Dor nas costas e varizes são minhas amigas aqui. Vivem pedindo minha alma na fila do INSS. Eu devo ter copiado de algum livro ou fanfic, mas ainda não sei de onde. Enfim, ta aqui mais um capitulo. Beijos e adios!
