Disclaimer: Naruto não me pertence, e sim ao Masashi Kishimoto.

Areia

Ele olhou para o próprio reflexo na água e não se reconheceu. Seu cabelo estava de uma cor bege apagada, seus olhos brilhavam amarelados como o sol num dia de inverno no deserto com gotas negras como brita manchando-o. Sua pele parecia um pouco mais dourada que o normal e seus lábios mais pálidos do que ele estava acostumado. Franziu a testa e expulsou o sentimento de estranheza, ele nascera assim então não havia o que estranhar na sua própria aparência (certo?).

Olhou ao redor enquanto se levantava com calma. Seu olhar afiado escaneando cada grão de areia das dunas que o cercavam. Afundou os pés na areia e respirou fundo o ar seco do clima desértico. Deixou seus sentidos se perderem e sua mente se tornar parte do deserto no qual estava.

Sentiu uma vibração ao norte e começou a correr naquela direção. Seus sentidos atentos e seus olhos se estreitando. Odiava quando invadiam suas terras e tentavam roubar os tesouros guardados pelo deserto. Já lhe bastava os homens que se uniam aos seus protegidos para viver no coração do deserto. Fechou os olhos e grunhiu ao lembrar quando, 400 anos antes, conheceu uma família que andava perdida pelo deserto abandonados à própria sorte, e permitiu que fundassem uma cidade-estado no lugar que sabiam que estariam protegidos. Sunagakure.

Seus pés o levaram longe. Se movia sem realmente se destacar na areia devido às cores naturais do corpo dele, camuflando-se naquele ambiente hostil.

Após alguns minutos correndo sem parar, alcançou um pequeno oásis. Seus olhos vagaram pela vegetação e depois caíram na água. Os escorpiões lhe sussurrando que o estranho se movia na água assustando os girinos que lá habitavam. Então seguiu até a margem do pequeno, mas fundo lago cristalino e observou a sombra que nadava nele. Esperou até que o ser subisse em busca de ar e apertou os olhos em desgosto.

O rosto de uma fêmea humana logo surgiu com lábios partidos em busca de oxigênio.

- O que uma humana faz sozinha em meus domínios? - perguntou com a voz seca carregada de desgosto.

A mulher abriu os olhos e o fitou assustada. O cabelo loiro como as nuvens brancas que ousavam espiar as redondezas do deserto, os olhos prateados com linhas radiais de violeta claro e brilhante, a pele pálida como a de uma raposa do extremo norte, onde nevava nove meses ao ano e chovia gelo nas outras três e lábios tão rubros como morangos se destacavam infinitamente na superfície líquida azulada.

- S-seus do-domínios? - a voz veio fraca e oscilante. Ela arregalou os olhos e pareceu que ia começar a chorar. - E-eu n-não s-sabia! Me d-desculpe. E-estou perdida a dias e ... e...

Ele viu ela começar a hiperventilar e em pouco tempo desmaiar ainda dentro da água. Bufou antes de se jogar no lago e nadou até ela, segurou o pequeno corpo firmemente e seguiu em direção à superfície. Arrastou-a sem se importar se a areia iria ferir a pele fina dela e começou a faze-la cuspir a água que engolira com massagem, sem se importar se estava sendo bruto demais enquanto o fazia e deixando marcas dos seus dedos na pele dela durante o processo.

Quando ela acordou o sol ja se punha e ele conversava baixinho com um grupo de escorpiões amarelados. A moça ajeitou o tecido que a cobria e agradeceu a Kami que havia ido banhar-se vestida ou agora estaria nua. Piscou os olhos e o viu agachado subitamente a sua frente.

- Você disse que está perdida. Mas fiquei curioso do porque, entre todos os lugares, você escolheu se perder no deserto. - ele sorriu cheio de escárnio. - Seus pais nunca te avisaram que há um demônio que vive no deserto e mata os humanos que ousam atravessar seus domínios?

Ela o olhou ainda com os olhos estupidamente raros cheios de medo e desviou o olhar. A queda rápida da temperatura ambiente não era o real motivo pelo qual ela começara a tremer.

- E-eu não tenho pais. -respondeu num sussurro medroso.

Ele a olhou confuso.

- E o que uma órfã faz no deserto?

Ela mordeu o lábio inferior e ousou fita-lo pelos cílios pálidos e grossos.

- Eu não sei. -respondeu num sussurro. -Só sei que tenho que ir até um homem chamado Hyuuga Hiroki e prover-lhe filhos. Mas não sei onde encontra-lo ou porque tenho que fazer isso.

- Qual o seu nome, criança?

Ela o fitou e lágrimas encheram seus olhos.

-Eu não sei! - foi tudo o que disse antes de começar a chorar.


Gaara respirou fundo e olhou ao redor. Mais uma vez acessara as memórias de Shukaku enquanto meditava. Isso vinha ocorrendo com frequência desde que Hinata chegara. Antes tudo o que via eram lembranças de batalhas ou homens que ousaram tentar matar o demônio de mil anos de idade que protegia o deserto, mas ultimamente essa garota começara a aparecer.

Saiu do seu lugar sentado próximo a janela e foi até a cama. Com cuidado se deitou ao lado da esposa que dormia tranquilamente sob o calor de três mantas. Deixou a mão vagar pelo rosto dela quase sem realmente toca-la por medo de acorda-la. Permitiu-se sorrir para si mesmo com o peito cheio de orgulho. Mesmo no escuro da noite e adormecida ainda havia um pouco de cor rubra na face alva da morena. Bufou levemente ao pensar que, assim como a moça nas lembranças de Shukaku, ela carregava uma gagueira que aparecia sempre que ela falava e se intensificava quando nervosa, junto a um rubor quase que constante que coloria seu rosto sempre que ele estava por perto. Mas de todas as peculiaridades dela, o desmaio era o que mais o divertia de uma forma meio sádica.

Lembrava - se com nitidez da primeira noite em que, ao invés de ficar andando de forma errante pelo quarto ou sentar próximo à janela, ele efetivamente deitou-se ao lado dela. A quebra da rotina e súbita invasão da bolha pessoal dela fez com que a morena começasse a ficar rubra e a hiperventilar, culminando num desmaio quando ele se aproximou mais ainda para prestar socorro. Naquela noite descobrira que adorava a visão do rosto dela todo vermelho de vergonha. Demorou para reduzir a bolha de espaço pessoal dela e a jornada foi difícil por outro fator básicos: ele também possuía uma bolha pessoal restrita ao toque. Vencer a distancia era o maior problema dela e o menor dele, permitir contato físico era o menor problema dela e o maior dele.

Ainda se enrijecia sempre que ela o tocava, mas ao menos não tentava mais ataca-la. Principalmente depois de consumarem o casamento por volta do terceiro mês de casados por pressão direta do Conselho, sua resistência ao toque havia reduzido drasticamente no que se referia ao toque dela.

Percebeu que ela se moveu na direção dele buscando pelo calor que provia e mais uma vez se permitiu sorrir. A pele dela emitindo luz no escuro logo entrou em contato com a dele e o homem a puxou na direção do seu peito. Fitou a luz própria que ela emitia e permitiu que sua mente insone vagasse pelas memórias mais recentes.

Quando ele decidiu que já era hora de consumar o casamento para não perde-la em alguma manobra política fora do seu alcance, ele esperava muita coisa. Era a primeira vez que o portador de um demônio e uma descendente de anjos iriam fazer mais do que literalmente deitar juntos. Ele percebeu que tremia de medo do que aconteceria assim que iniciou o contato com ela e percebeu que não havia mais volta. Nunca, em toda a sua vida, tivera tanto medo de que Shukaku tomasse o controle do seu corpo e muito menos temera machucar alguém como naquela noite. Havia sido o mais gentil que podia e se esforçado em fazer tudo de forma lenta e cuidadosa.

Quase entrara em pânico quando viu que o brilho suave que ela geralmente emitia havia se intensificado drasticamente, que seu rosto estava mais vermelho que o normal e a respiração dela estava cada vez mais descompassada. Só se acalmara quando, com uma voz tão baixa como um sussurro e com um sorriso envergonhado no rosto, ela afirmara que ele não estava machucando-a. Ele absorveu extasiado a imagem do corpo pequeno dela brilhando como uma lanterna no escuro envolvido pelo dele, enquanto ela o observava com olhos semicerrados e um sorriso tímido nos lábios com as bochechas ruborizadas pelo esforço e pela timidez.

Se perguntara porque não havia tentado consumar o casamento antes varias vezes naquela noite. Ele podia sentir todo seu corpo relaxar e o monstro dentro de si se acalmar (como se já conhecesse o toque dela. Como se já tivesse experimentado essa sensação com ela antes. Permitindo que os dedos delgados dela vagassem por ele sem que ele sentisse a necessidade de mata-la. Sem sequer cogitar que ela poderia mata-lo durante esse momento tão frágil ).

No fim daquela noite descobriu que conversar sobre "o que os casais fazem para gerar filhos", como denominara ela poucos dias depois, podia faze-la desmaiar. A necessidade de rir nunca lhe parecera tamanha como no momento que ela perdera a consciência.

Sentiu as mãos dela pousarem acima do coração dele e parou de respirar brevemente. Ainda haviam lugares que ele não sentia que eram totalmente confortáveis para se ter o toque de outra pessoa, mas tentava ignorar a sensação de que iria ser traído para deixa-la mais confortável. Ele gostava do sorriso pequeno que ela o presenteava sempre que o ruivo permitia que ela apoiasse o rosto no peito dele ou acariciasse a nuca dele com a ponta dos dedos. Ele gostava de mostrar que por ela, ele deixaria a guarda baixa e receberia ordens sem reclamar. Ele gostava da sensação de, ao menos por um instante, não ser a pessoa que carrega o poder, pois ela era tão melhor que ele quando se tratava de contato.

Ninguém nunca lhe tiraria o folego apenas com um olhar ou um gesto como ela.

Piscou os olhos e apertou os lábios ao ouvir um pequeno ruído semelhante ao choro vindo dela. Esse som o fazia sentir que algo ruim aconteceria em breve. Era o som que ouvia quando era mais novo e lutava na vanguarda, aniquilando os inimigos. Destruindo vidas e despedaçando famílias. Fechou os olhos e tentou voltar meditar sentindo a respiração leve dela contra seu peito.

Horas depois saiu do seu exercício noturno que o fazia descansar sem necessariamente dormir com o barulho da areia chicoteando contra sua janela.

Uma tempestade de areia.

Abraçou a moça ainda adormecida ao seu lado com um pouco mais de força e rangeu os dentes. Agora era oficial, algo ruim iria acontecer.

Esperou com olhos atentos a tempestade acabar e o sol nascer. Assistiu com a melhor máscara de estoicidade a esposa acordar pela manhã com um sorriso calmo antes de se preparar para o dia que se seguiria. Comeu seu desjejum como se essa sensação de que algo errado aconteceria não existisse e mais uma vez a levou para a base das Forças Armadas. Deixou a manhã correr sem problemas e esperou que a tarde o presenteasse com a mesma calmaria. Mas uma simples fala jogou seus planos na lama.

- Retornarei mais cedo para casa hoje. Sinto-me indisposta. - ela havia dito com calma.

Ele olhou para os olhos cansados da esposa e sentiu a bolha de insegurança que crescia em si se mover e gritar para ir com ela. Para protege-la. Para evitar o que viria.

- Quer que eu te leve? - perguntou mesmo sabendo que ela provavelmente recusaria como sempre. Aprendera que ela valorizava tanto seu trabalho como ele mesmo.

"Por favor, diga sim", repetia o ruivo em sua mente como um mantra.

- É melhor que fique aqui. Vou atrapalhar seu trabalho se for acompanhada por você para casa antes do fim do expediente.

Evitou a urgência de bufar e de proibi-la de partir sem ele. Sabia que ela provavelmente iria passar o resto do dia conversando com os funcionários do palácio ou os cozinheiros. Mas hoje não queria que ela o fizesse. Queria ela ao seu lado mesmo conhecendo a aversão dela aos treinamentos violentos como o que ocorria nesse momento.

- Hinata. A verdade.

Ele sabia que ela não estava indisposta e que aquele era o modo dela de disfarçar suas ações para que o Conselho não a reprimisse por falar com servos. Sabia também que ela tinha horror ao modo que os soldados treinavam e preferia se esconder no castelo a assistir uma luta.

- Preciso resolver alguns assuntos, mas se você for minha meta não será cumprida. - ela insistiu.

- E o que é tão importante que você tenha que fazer sem a minha companhia?

Ela pareceu perceber que ele não queria deixa-la ir e sorriu por debaixo do véu.

- Não se preocupe comigo. Não é nada perigoso.

- Quero que um dos meus homens te acompanhe.

- Mas...

- Hinata.

Ele não podia deixa-la sozinha agora. Não ao sentir que algo ruim iria acontecer. Sentia-se desconfortável com a ideia de permitir que ela voltasse ao castelo desprotegida. Os "e se" dançando em sua mente. Então chamou um dos seus homens e o encarregou de protege-la. Sabia que era um soldado competente e leal e não hesitaria se tivesse que se matar ou matar a própria família para assegurar a segurança de Hinata.

- Daisuke, quero que você só volte quando tiver certeza de que ela está segura dentro do castelo. Estamos entendidos?

- Hai, Gaara- sama.

- Ótimo. - o ruivo então se virou para a esposa.- Em três horas volto para casa.

Ele assistiu com o coração na mão a forma que ela começou a se afastar. Viu Daisuke enviar um olhar que prometia servir como o ordenado e se permitiu respirar com menos força.
Foi quando ouviu Matsuri começar a falar e percebeu que Hinata ainda estava no local que percebeu que aquele era o ponto em que tudo ruía.

- Gaara, eu não entendo como ainda consegue manter esse estorvo por perto. - a garota começou destilando acidez. - Desde que ela passou a vir para cá com você, não fez nada além de se esconder nas sombras, gaguejar e andar poucos passos atrás de você. Ela não tem voz própria ou opinião e não se une às sessões de treinamento. Como alguém que sequer sabe erguer uma espada vai proteger seus filhos?

Ele respirou fundo e sentiu sua antiga dor de cabeça voltar. Odiava quando Matsuri começava seu discurso contra a escolha de união dele. Sabia que as palavras dela feriam Hinata e que, mais cedo ou mais tarde ela ultrapassaria a zona crítica aceitável do senso comum e realmente feriria Hinata.

Percebeu que sua esposa parou próxima a passagem que dava num dos corredores que desembocavam no hall de entrada e percebeu a dor na expressão dela.

- Ela se cobre como alguém da capital do nosso país. Se protege do sol como se a luz a fizesse derreter. Até quando você manterá uma mulher que sequer consegue se erguer sob o nosso sol como sua esposa? Uma mulher que não sobrevive ao nosso clima e não pode lutar não é elegível para acompanhar um homem como você. Ela é inútil como sua esposa.

Algo dentro dele estalou com aquela palavra. Inútil era o último adjetivo que ele daria à esposa. Sentiu que estava cheio daquelas falas hipócritas que "visavam o bem dele", pois eram conselhos de pessoas que realmente se importavam com seu líder.

Olhou novamente para Hinata e viu ela começar a sair. Algo no modo que as paredes ao redor dela escureceram ao invés de clarearem fez toda sua máscara calma cair.

Ninguém quebraria a pureza dela senão ele.

Se Sabaku no Gaara preservava a inocência da esposa, quem são os outros para feri-la?

Quem é Matsuri para tentar destruí-la?


Fiiim

De mais um capítulo. Hehehe, gostaram?

BarbaraGava, hahaha se no mangá/anime o Gaara fosse assim eu roubava ele pra mim. Eu acho que perto da amada ele deve ser assim. Gostou deles fazendo amor? Eu me esforcei pra deixar fofo! Morte ao Hiashi e a Matsuri! A voz misteriosa foi uma dessas idéias que brotam do nada e ficam, hehehe. Vou ver no que bai dar essas minhas paixonites pela vida... casquinha do sorvete é o que há de bom nos ingredientes das meninas superpoderosas! Minhas notas nas provas ficaram boas ( menos matemática) tô de cara.o.O hehe, Beijos!

TiaLua, uh, eu acho que é o Gaara aquele que vai botar a Matsuri nos eixos. O próximo capítulo é uma "festa" sobre isso. E sim, eles já estão casados porque eles já o eram por procuração e casar religiosamente os dois ficou meio inviável. Gostou da ceninha? Em breve tem mais! Minha filha, que fanart é esse? Necessito AGORA! Minha fic segue mais ou menos nessa linha, até porque sempre acreditei que o demônio e o hospedeiro tinham que se apaixonar igualmente por alguém para que desse certo. Vou passar meu email em privado pra você daqui a pouquinho, com certeza vou ter que ler! Obrigada pela review e beijos! Obs.: espero que goste do capítulo.