Disclaimer: Naruto não me pertence.

Areia

Quando Gaara deixou Konohagakure para encontrar sua esposa e marchar junto a ela para a guerra, ele esperava tudo menos isso.

A primeira indicação viera quando, ao cruzar os portões da Vila, não viu que sua esposa o esperava. Pouco depois, ao encontrar seu irmão no escritório dele para anunciar sua presença, o homem havia sorrido de modo incomodo e dito "Hinata está um pouco... Diferente. Não sabemos exatamente o que aconteceu, mas ela voltou... Uma nova mulher?" dissera incerto. Ele tentou encontrá-la no quarto de casal de ambos, mas ela também não estava ali. Com pânico começando a correr por suas veias, parou bruscamente uma serviçal e perguntou onde ela estava. A mulher assustada deixou escapar um estrangulado "com os homens dela, senhor! Ela está treinando seu batalhão desde que conseguiu se manter em pé pela primeira vez depois de retornar".

Apenas o conhecimento de que sua mulher estava sozinha com os homens e mulheres de seu exército foi suficiente para fazer Gaara ignorar seu cansaço e correr até as bases de treinamento. Sabia que a rudeza e falta de empatia deles sempre incomodou Hinata. Ela odiava ficar sozinha com eles. Foi por isso que quando finalmente a encontrou, Gaara trancou sua respiração por um momento.

Ali, no centro do dojo, dois soldados lutavam um contra o outro de modo a testar seus treinamentos. Menos de três metros atrás deles, Hinata os observava imóvel e se assemelhava a uma torre, projetando-se mais alta que seus subordinados ao estar em pé e os outros se manterem sentados. Tudo na postura del gritava uma projeção de poder que antes ela não tinha.

Antes os soldados a protegiam por ordens de Gaara e por conhecer o poder destrutivo da menina, apenas por isso. Mas agora era gritante quem era a autoridade ali. Ainda que seus homens já estivessem cientes de sua presença no dojo, era fácil para Gaara perceber que se ela ordenasse que o atacassem, seus homens o fariam. Arriscariam suas vidas contra o Comandante Supremo apenas porque a encarregada deles tinha uma postura de poder que se igualava a dele.

— Continuem a lutar. Eu já volto. - Hinata ordenou. Seu tom era gentil, porém firme. A face dela não demonstrara emoção sequer, mesmo ao para de observar os dois homens lutarem e começar a andar em direção à Gaara.

— Hinata?

— Vamos para um local mais privado. - disse e começou a guia-lo para uma das salas.

Gaara seguiu em silêncio. Estava nervoso, mas de alguma forma sentia que aquela mulher era sim sua esposa. Só que, depois de quase surtar na ausência dela, ir para Konoha para fazer alianças para a guerra que ela e Shukaku viviam anunciando e voltar a passar inúmeras noites insones se sentindo tão solitário quanto o era quando criança... Ele esperava ao menos um sorriso quando seus olhos voltassem a se reencontrar. Não era isso que ele pensava encontrar. Não mesmo.

Observou a mulher a sua frente caminhar de forma elegante, como sua esposa o fazia, mas com uma altivez e segurança que não eram características dela. Observou o cabelo antes longo e cheios de sua esposa, alcançar ralo apenas os ombros dela num corte reto. Ela tinha emagrecido, perdido cabelo e, se as manchas mais escuras refletidas pela lus das velas do dojo eram algum indicativo, estava repleta de cicatrizes. Gaara sentiu-se nauseado. Fechou os olhos e tentou se firmar no que Shukaku estava dizendo dentro de si. Algo sobre Konoha, Hyuugas, lenda e Madara? Não conseguia compreender. A náusea aumentava a cada curva em finais de corredor. Em cada passo a mais em que sua esposa parecia ignora-lo.

"Garoto... Essa não é a sua esposa. Não é a Hinata. Ela é a..." Conseguiu ouvir Shukaku começar a dizer.

Não ouviu a porta se fechando, ou percebeu que as luzes foram acesas.

— Sakuraso. - a mulher disse e piscou os grandes olhos amendoados. - Meu nome é Sakuraso. Acho que Shukaku já deve ter te contado sobre mim?

"Sakuraso, minha esposa."

— A anja que habita o corpo da Hinata. - o homem ruivo sussurrou mais para si mesmo do que para ela.

Pela primeira vez desde que colocara os olhos nela, a mulher sorriu. Não era o mesmo sorriso gentil, doce e tímido de Hinata. Era o mesmo rosto, a mesma pele, mas... Esse sorriso possuía um quê de superioridade e condescendência. Assim como tudo nela, era elegante e contido. O sorriso de uma mulher nascida na nobreza, sem dúvidas. Mas havia algo mais feroz nos olhos dela, algo mais agressivo que fez os pelos do ruivo se eriçarem. Frente à reação dela, a mulher rira. Até seu riso era diferente. Muito mais rouco e arrastado que o de Hinata. Era a risada de uma mulher muito mais velha.

— Não precisa ter medo. Ou tomar uma postura tão defensiva. Você não é um dos meus alvos e, enquanto carregar Shukaku em você, dificilmente se tornará um. Sei que compartilho o corpo de sua esposa, mas sou bastante diferente dela ao mesmo tempo e isso te faz nos estranhar. Mas quem é você para julgar? Quando Shukaku assume o controle você vira outra pessoa também.

Touché.

— O que aconteceu com ela? O que aconteceu com minha esposa?

Sakuraso endureceu o rosto. Seus olhos correram os olhos aquamarine de Gaara. Analisando. Julgando. Decidindo.

Ela desviou o olhar e suspirou.

A mulher fechou todas as janelas, trancou a porta e fechou todas as cortinas. Se virou para ele e respirou fundo.

— Isso não vai ser bonito. Por favor, se controlem. - avisou.

Gaara apenas assentiu. Seu olhar pousou em uma cicatriz correndo da têmpora direita até o centro da bochecha da mulher. Meditou consigo mesmo que era produto de uma faca, provavelmente.

Quase engasgou quando a mulher começou a se desfazer da blusa preta de gola alta e mangas longas, das luvas e da calça preta larga. Cada peça de roupa que tocava o chão era como um soco na face dele. Queria se matar ao ver o que tinha sido feito com o corpo de sua esposa.

Haviam marcas de mordidas por todos os lugares. Algumas estavam já num tom rosado claro que indicavam que eram antigas, outras ainda gritavam roxas e com pequenas manchas esverdeadas ou arroxeadas ao redor, indicando que a força exercida no local havia rompido a pele e algumas veias ao redor. Em outros pontos haviam linhas retas, curvas e desenhos feitos com faca ou qualquer outra lâmina de parecesse estar à mão de quem a prejudicou. Pouco acima da linha da calcinha, a pele dela havia sido marcada à ferro com o símbolo de uma cobra na posição de um "O". Haviam queimaduras nas pernas e nos seios, além de marcas de mãos nos braços. Em cada pulso, a pele nela mostrava sinais de ter necrosado e mostrava o ponto em que havia sido acorrentada. Mas foi o modo que ela pôs a mão sobre a própria barriga e sorriu fracamente que mais o atingiu.

— Me desculpe. - Sakuraso disse.

O sorriso vacilante e as lágrimas não derramadas contavam uma história que ia além de abusos físicos e psicológicos.

— Eu não consegui salvá-lo... - ela continuou.

Agora ambas as mãos acariciavam o mesmo local em que ela havia sido marcada a ferro.

Uma lágrima molhou o chão.

Ele não sabia se era dele ou dela.

— Ele era sempre tão bruto - ela riu uma risada sem graça. Começava a tremer com seus olhos perdidos e nublados. — Sempre chegava dizendo que seria bonzinho. Que a amava. Mas também sempre trazia algo para machucá-la. Ele a arranhava. Mordia. Batia. Humilhava. E quando ela começava a desmaiar ele... — os olhos perdido posaram nele e ela soltou uma risada histérica.

Gaara percebeu que estava de joelhos no chão.

— Quando percebia que ela ia desmaiar ele a tomava. A tomava como se tivesse direito. A tomava como se estivesse reavendo algo que fora roubado de si. E se lambuzava. E rir por ter se lambuzado. E a apertava contra si numa dança de casal que ele não deveria fazer. Ele a violou tantas vezes que eu... Que eu..

Em sua imaginação, Gaara podia vê-la. Conseguia enxergar sua sempre doce e gentil, sua mais que pura, Hinata. E a cada palavra dita por Sakuraso, mas que era emitida através do corpo de sua esposa... Ele podia ver sua esposa sendo violada. Sendo estuprada.

— Eu perdi as contas. Meu deus... Eu perdi as contas. Não sei quantas vezes ela acordou sozinha e chorou tentando retirar aquela coisa gosmenta de seu corpo. Aquela coisa entre suas pernas. E não tinha como se limpar. Não tinha banho pra tomar. Era só esperar secar. Esperar secar e saber que ele viria de novo.

A mulher já se abraçava de pé e sorria com o olhar histérico. O sorriso nervoso fixo em seu rosto enquanto se abraçava com as mãos. As mesmas mãos macias de Hinata, que ele sempre admirara, agora um amontoado de ossos e feridas. Todo o corpo roliço dela havia se desfeito em ossos salientes e marcas de dor.

— Foi logo nos primeiros dias, enquanto ainda tínhamos alguma força pra lidar com aquela situação.

Ela voltou a fitá-lo.

Gaara sentiu sua boca ficar ainda mais seca e começou a tremer.

— No começo estranhamos aquela bolha de energia que desconhecíamos, mas que parecia parte de nós mesmas. Depois de ouvir ele gritando sobre estarmos sangrando muito, sobre ser um volume de sangue imenso que impedia que fosse uma simples menstruação... Foi que percebemos. Junto com toda dor e com todo o sangue escorrendo... A fonte estranha de energia ia enfraquecendo...

Gaara encostou a testa no piso. Agora chorava livremente.

— Eu juro que assim que entendi o que estava acontecendo, tentei salvá-lo. Mas era tarde de mais. - Ela riu cansada e trêmula. — Era tarde de mais. Eu sinto muito. Hinata o batizou de Ichiro. - ela riu, dessa vez com menos pavor na voz. — Como estávamos perdendo ele muito rápido e ela estava delirante, ela disse que não havia tempo para pensar em nomes, então o nome da criança seria Ichiro. Nós não sabemos qual era o sexo.

Sakuraso se ajoelhou e abraçou o homem ruivo ajoelhado. E dentro daquela pequena sala eles choraram juntos. Choraram pela criança que havia sido perdida. Choraram por tudo que Hinata passou. Choraram pelo sentimento de culpa de Gaara por não chegar a tempo no dia do ataque. Choraram pelo sentimento de culpa de Sakuraso por não ter conseguido assumir o controle do corpo antes e salvar o bebê de Hinata. Choraram porque agora Shukaku e sua esposa estavam tão próximos, mas nas vésperas de uma guerra e na dor de saber que futuras perdas como essas seriam motivadas pela mera existência dos dois. E agravada pelo amor de ambos um pelo outro.


AAAAAAAAAH

TERMINEI MAIS UM CAPÍTULO!

Nota: um dia eu releio tudo e concerto os português.