Capítulo 2 – Adaptação

A lua cheia brilhava grande e ainda mais prateada naquela noite. A discussão entre os três Capitães e a líder do Clã Shiba foi interrompida pela chegada inesperada de Yoruichi, que sentou em um dos postes, anunciando sua chegada. Kukkaku ficou radiante ao ver a amiga, Ukitake e Kyoraku se espantaram, e claro, Byakuya fez cara de poucos amigos ao ver seu eterno desafeto.

— Yoruichi Shihoin... o que você está fazendo aqui nessa forma desprezível? – O moreno perguntou sério e desgostoso.

— Sua gentileza continua impressionante como sempre, Byakuya-bo. – Respondeu em ironia.

— Estamos salvos! – Kukkaku comemorou. — Enfim uma alma boa para nos resgatar neste mundo estranho.

— Só mesmo uma mulher baixa com você para comemorar a presença desta outra mulher, ou melhor, animal. – O Kuchiki alfinetou novamente.

— Agora você morre! – A bela morena se debatia querendo encher o Capitão de porrada, mas Ukitake ainda a segurava por trás. – Me solta, imbecil! Eu vou matar ele!

— Se eu fosse você ficaria mais calma. Quanto a você, Byakuya, é melhor parar com as ofensas se não quiser arrumar um problema maior. – O platinado interviu.

— Então por que não solta esta mulher? Sendo grossa e mal educada sempre foi um problema. Não somente ela como você também. Você é outro problema fazendo coisas que não lhe competem, por isso estamos nessa confusão agora.

Ukitake momentaneamente engoliu em seco. Já tinha ouvido mais que o suficiente calado, e usou um Kido sem aviso prévio.

— Bakudou Nº63: Sajō Sabaku.

O Kido lançado por Ukitake prendeu Kukkaku em uma corda de energia dourada, impedindo-a de avançar. Ela gritou indignada tentando se soltar. O Capitão mais alto se aproximou de Byakuya, o encarando seriamente e liberando sua Reiatsu.

— Que esta seja a última vez que nos falta com respeito. Ninguém aqui é obrigado a aturar suas grosserias. Não somos seus empregados ou alguém que você possa insultar à revelia. Nenhum de nós aqui fez nada de errado e você sabe disso. Eu já era um Capitão quando você ainda usava fraldas, então baixe a sua bola.

Todos ficaram bestas com a reação de Ukitake. Sua Reiatsu era devastadora, e o único que permaneceu de pé sem nada sentir foi Kyoraku. Yoruichi caiu do poste, batendo a cara na cabeça de Kukkaku, que também caiu de joelhos. Byakuya arregalou levemente os olhos azuis, e um fino fio de suor escorreu do canto de seu rosto. Era a primeira vez que sentia a Reiatsu do Capitão do 13° Esquadrão. A pressão era tão intensa que mesmo para ele estava sendo difícil ficar de pé, e já se sentia sufocar. O moreno sabia que estava errado e que os dois Capitães veteranos estavam sendo punidos injustamente, mesmo assim não conseguia deixar de lado sua ponta de arrogância, principalmente diante de duas mulheres as quais ele detestava. Kyoraku, vendo que Yoruichi e Kukkaku estavam sendo prejudicadas pela Reiatsu de Ukitake, achou por bem intervir.

— Ei, ei... calma aí, bonitão. – Falou em tom cômico, tentando melhorar o clima. — Você não quer prejudicar os humanos ou atrair algum hollow liberando toda essa Reiatsu, não é? Acho que o galãzinho moreno já entendeu o recado, e ele não irá querer que eu também entre na conversa caso essa sessão de insultos não pare.

— Tá certo. Vocês venceram. Apenas digam a este gato para ter mais educação. – Kuchiki retrucou derrotado.

— Eh...? Peraí, Byakuya... por acaso você está retrucando com o animal? – Shunsui disse amolado e confuso.

— Nada disso. Apenas acho desrespeitoso falar com os outros nesta forma. Eu me sinto um bobo ao tratar de assuntos importantes... com um gato.

— Ah, ah... – Kyoraku suspirou de tédio. — Pra você até a atmosfera é desrespeitosa.

— Então é isso que te incomoda, Byakuya-bo? Sem problemas. Resolvo já.

Yoruichi rapidamente assumiu sua forma humana, e mesmo Byakuya não conteve o embaraço diante do corpo desnudo da morena. O Kuchiki apenas virou de costas bufando de ódio mentalmente enquanto Kyoraku olhava e babava em sua nudez na cara dura. Ukitake estava morto de vergonha e cobria o rosto com as mãos ao mesmo tempo em que Kukkaku morria de rir dos três Capitães agindo como paspalhos diante de uma mulher nua. Usando um shunpo, Juushiro foi parar atrás da Ex-Capitã e como um raio a vestiu com seu próprio Haori.

— Pode se virar, Byakuya. Ela já está vestida. – Ukitake anunciou.

— Juushiro como sempre sendo um estraga prazeres. – O outro veterano reclamou revirando os olhos.

— Haha! O gentil Ukitake e o pervertido Shunsui. Vocês não mudaram nada. – A gata brincou.

— Mas então, Yoruichi, o que você veio fazer aqui, afinal? – Kukkaku questionou, ainda presa pelo Bakudou de Ukitake.

— Kisuke e eu recebemos informações da Soul Society. O Capitão Geral Yamamoto nos mandou receber vocês assim que chegassem ao mundo dos vivos.

— E por que toda essa consideração do Yama-jii? Pensei que nós estivéssemos de castigo. – Kyoraku brincou.

— É simples. Como vocês ficarão aqui por tempo indeterminado, o Capitão Geral presumiu que vocês fossem precisar de Gigais, por isso pediu ao Kisuke que os fizesse para vocês.

— Mas então vamos ter que ficar dentro dessas coisas? – A morena disse chateada.

— Será necessário para que vocês vivam e interajam neste mundo, mas não vamos discutir isso aqui. É melhor irmos para a loja do Kisuke.

— Acho que o melhor é você colocar umas roupas adequadas. – Byakuya concluiu, novamente implicando com Yoruichi.

— Mas eu acho que ela está muito bem assim. – Kyoraku disse à gargalhadas, espiando as partes dela pelas aberturas do Haori.

— Ótimo. Pois já que temos que ir a algum lugar, é melhor irmos logo. – Completou o platinado.

— Então vamos. Eu não posso me vestir adequadamente como disse o 'senhor certinho' no meio da rua. – Disse Yoruichi.

— Está tudo ótimo... MAS SERÁ QUE ALGUÉM PODE ME SOLTAR DESSE MALDITO KIDO?! – Kukkaku berrou por ainda estar presa.

— AAHH! – Juushiro exclamou espantado. — Me desculpe por isso.

Ukitake libertou Kukkaku de seu encantamento, e todos seguiram para a loja de Urahara.


No quartel da Divisão Três, a festa de promoção do novo Capitão estava quase pronta. Enquanto todos os membros da divisão estavam empolgados para começar a festejar, Izuru ainda estava em seu antigo quarto do mesmo jeito que Shuuhei o havia deixado poucas horas antes. Pior ainda, ele tinha adormecido. Durante o sono ele teve o mesmo sonho perturbador que o atormentava a semanas desde a traição de Aizen. Momo estava gravemente ferida, e tanto o próprio Izuru quanto Rangiku passaram as noites das últimas semanas afogando suas mágoas no sake por causa de Ichimaru. Ser traído por alguém em quem se tem confiança e apreço é algo que não se supera facilmente, e haviam coisas com as quais o loiro de longa franja não se conformava. Uma dessas coisas era o sofrimento de Rangiku, por exemplo. Como uma mulher tão linda e bem resolvida como ela poderia dedicar seu amor a um mau-caráter que não merecia sequer uma única lágrima sua? E nem dele mesmo também. Na imagem de seu sonho ele via a ele mesmo e Rangiku bêbados, sentados no chão aos pés da cama de Momo. Sofriam como dois condenados e se continuassem como estavam, poderiam inundar o quarto onde estava a pobre Tenente ferida. Izuru despertou assustado, abrindo os olhos rapidamente. Seu corpo todo suava frio e ele pôs uma das mãos por baixo da franja para conter o suor que escorria por sua testa.

— De novo... Aquele maldito pesadelo... Como eu queria apagar para sempre essa noite da minha cabeça. Que droga, estou imundo. Acho melhor tomar um banho antes da festa.

Assim que se levantou ele foi surpreendido por uma batida na porta.

— Quem é?

— Um dos oficiais, Senhor. Está tudo bem, Capitão? Como o Senhor passou horas trancado ficamos preocupados. Já está quase na hora da festa.

— Eu estou bem. Não precisa se preocupar. Podem começar sem mim se quiserem. Eu vou tomar um banho e irei logo em seguida.

— Entendido, Senhor.

Tomou um breve banho quente e vestiu um shihakusho limpo. Os claros cabelos estavam molhados e despenteados, e ele jogou a franja para trás deixando os dois olhos à mostra. Sentado na cama, encarava o Haori jogado na poltrona. Parecia coisa de louco, mas ele ainda tinha trauma daquela roupa.

No imenso refeitório do quartel, a mesa já estava pronta. Doces, salgados e bebidas à vontade estavam à disposição, e todos estavam muito animados. Era uma festa discreta e nenhum outro Capitão foi convidado. Do jeito que Izuru era reservado, achou melhor chamar somente seus amigos Tenentes mais próximos. Ikkaku e Yumichika também estavam lá. Todos já começavam a comer e beber, e nada de Izuru aparecer na própria festa. Rangiku e Ikkaku foram os primeiros a começar a encher a cara, e irritado com a demora de Izuru, Hisagi logo se manifestou.

— Mas que droga! O que houve com o Izuru que até agora não apareceu?

— Deixa comigo, Shuuhei. Eu vou trazer aquele cabeça de ovo frito nem que seja na marra. – Disse Renji igualmente irritado.

Seguiu pelos corredores do quartel onde avistou uma grande porta com o símbolo da divisão. Aquele certamente seria o quarto do Capitão. Entrou para ver se havia alguém e ficou espantado ao ver o grande cômodo vazio. Deduziu que ele estaria em seu antigo quarto, e foi para lá mesmo que ele foi. Abriu a porta nada discretamente, e nem assim Kira perdeu a concentração. O ruivo observou o loiro por longos instantes, mas o mesmo nem sequer piscava os olhos. Ele olhava obsessivamente para o Haori e Renji teve vontade de socá-lo.

— POR QUANTO TEMPO VAI FICAR OLHANDO PARA ESSA MERDA?! – Berrou nervoso. — Todo mundo está lá fora te esperando e você está aqui parado com essa cara de fantasma e não para de olhar para esse maldito Haori! Veste logo essa porra e vamos comemorar! – Esbravejou. — E não esqueça de pentear esse cabelo que está horroroso!

O Capitão não ouviu uma só palavra dita pelo Tenente, o que fez Renji bufar ainda mais de raiva. Se nem mesmo falar mal de seu cabelo o fez reagir era sinal de que ele estava realmente mal.

— KIRAAAA!

— Ficou doido, Abarai-kun?! O que você está fazendo?! – Gritou ao bater os ombros no chão ao cair devido ao susto.

— A pergunta é "o que você está fazendo"? Por que ainda está aqui com essa cara de carranca? Tire essa expressão depressiva e jogue ela fora. Vista logo essa droga de Haori e venha se divertir com a gente! A festa é sua e a noite é nossa! Deixe sua insegurança besta de lado e mande a lembrança de Ichimaru Gin para os quintos dos infernos. Esse cara não merece que você fique mal por causa dele!

Renji o atingiu em seu ponto fraco. A capacidade de seus amigos de perceber seus problemas o deixava irritado. Por que raios ele tinha que ser tão previsível para eles?

— Detesto admitir... mas acho que você tem razão, Abarai-kun.

— É claro que eu tenho! Eu sempre tenho! Vamos beber, nos esbaldar e pegar um monte de gatinhas.

— Eu concedo esta honra a você.

E tomando uma bela dose de confiança, Izuru vestiu o Haori, e depois de pentear os cabelos como de costume, seguiu com o ruivo para o grande salão do quartel onde todos festejavam.


Na loja de Urahara, os três Capitães, juntamente com Kukkaku e Yoruichi sentaram no chão em volta de uma mesa redonda de centro. O loiro olhou bem para os três Shinigamis e a Shiba, e sem poder se controlar, começou a rir freneticamente, batendo seu leque na mesa, enquanto Yoruichi o olhava com uma expressão interrogativa.

— HAHAHAHAHAHA! – Gargalhava alto. — Eu não posso acreditar que o Capitão Geral colocou seus dois Capitães veteranos de castigo e ainda mandou um membro da nobreza como babá! Me desculpem, mas isso é, no mínimo, impagável! E você, Yoruichi, voltou a ser Capitã? O costureiro deve ter errado as suas medidas, ou então o defunto era bem maior. – O loiro continuou brincando.

— Poderia parar com as ironias? Eu não sou nenhum defunto e nem pretendo ser tão cedo. – Ukitake comentou incomodado.

— Vendo por esse lado... É bem maior mesmo.

— Dá para parar de brincar, Kisuke? – Foi a vez de Yoruichi engrossar. — Você precisa explicar a eles o que irão fazer.

— Eu sei! É que eu apenas não consigo me segurar. Temos aqui dois Capitães de castigo e um Capitão de babá. E pra completar, a líder do Clã Shiba a tira colo! Onde caramba aquele velho enfiou o cérebro? Por que é impossível que esteja dentro daquela cabeça oca. – Falava calmo enquanto continuava gargalhando.

Todos, exceto Byakuya, fecharam a cara e cruzaram os braços diante da encarnação de Kisuke, que ainda se divertia com a situação, até que o Capitão da Sexta Divisão se manifestou.

— Pela primeira vez sou obrigado a concordar com o Urahara. O Capitão Geral só pode ter perdido o juízo para nos impor essa punição descabida.

— Você não está sendo punido, Byakuya. – Kyoraku o interrompeu. — Você está aqui para cuidar de nós, os tão irresponsáveis e nada confiáveis Capitães veteranos. Não esqueça a importância da sua missão. – Ironizou.

O Kuchiki já estava a ponto de surtar. A cada palavra que ouvia, sua vontade de matar alguém apenas aumentava, e Kyoraku junto com Kisuke não facilitavam nem um pouco as coisas.

— Bem, senhores, isso é uma das provas viva do que o grande número de séculos acumulados nas costas é capaz de fazer com a mente de um Shinigami. Mas quem sou eu para julgar? – O dono da loja completou.

— E então? O que vamos fazer neste mundo, afinal de contas? – Ukitake levantou a questão.

— Boa pergunta. Vagabundando com certeza que não irão ficar. – O loiro respondeu prontamente.

— Vamos, Kisuke. Pare de enrolar e dê logo os Gigais a eles.

— Yoruichi sempre cortando o meu barato... – Suspirou derrotado, colocando uma grande caixa sobre a mesa. Pois bem, esses são os seus Gigais.

Os quatro olharam intrigados para aqueles 'bonecos artificiais', já temendo o que teriam que fazer com eles.

— O que são essas coisas? – Shunsui perguntou ao pegar um deles.

— São bonecas infláveis para você satisfazer sua sordidez. – Kukkaku provocou o mais velho. — Isso é um Gigai! Você é surdo ou o que?

— E depois sou eu quem distribui insultos – Byakuya retrucou.

— Mas que saco! Por que não engole essa sua língua?! Para um cara de nenhumas palavras, você está falando até demais!

— Ei, ei... senhorita e Shinigamis, mantenham a compostura. Eu não quero brigas ou barracos dentro da minha casa ou na minha loja, pois tudo o que vocês quebrarem aqui vão ter que pagar. – Kisuke advertiu em tom de ameaça.

— Era só o que faltava ter prejuízos por causa desse cara arrogante aí. – Kukkaku retrucou, apontando para Byakuya, que nada fez a não ser ficar com os olhos fechados.

— Desculpe a minha ignorância, Urahara, mas para que e como iremos usar essas coisas? – Ukitake questionou.

— É bem simples, Ukitake-san. Estes são Gigais, corpos artificiais que serão necessários para que vocês vivam normalmente neste mundo.

— E não podemos viver aqui assim mesmo? – O platinado concluiu a pergunta.

— Impossível. No estado de alma, os Shinigamis só podem ser vistos por humanos que tenham uma leve Reiatsu ou algum tipo de percepção. Vocês não podem viver aqui como fantasmas, por isso, querendo ou não, terão que usar estes Gigais.

— Essa parte eu já entendi, mas como exatamente funciona essa coisa? Esse boneco estranho não tem nada a ver comigo. – Kyoraku observou desanimado.

— Vocês só precisam aproximar seus corpos dos Gigais e automaticamente eles assumirão a aparência de vocês.

— Caramba, que alívio! Então já podemos experimentar...

— Espere, Kyoraku-san! – Urahara interviu desesperado. — Você não pode colocar seu Gigai aqui! Olhem. Nesta outra caixa tem roupas para vocês. Um Gigai não assume as roupas que vocês estão usando, por isso vocês devem adquirir roupas para eles. Usem estas e vocês poderão se trocar nos quartos ao lado.

Yoruichi os encaminhou até onde eles poderiam se trocar. Deixou os três Capitães em um quarto e foi com Kukkaku para outro cômodo para que ela se vestisse e Kukkaku colocasse seu Gigai. A morena achou aquilo tudo muito estranho, e mais estranho ainda foi ver as roupas que lhe foram dadas. Uma saia cinza de pregas, uma blusa branca e uma gravata vermelha em forma de laço. Enquanto Kukkaku vestia a para ela estranha roupa, Yoruichi colocava o Haori de Ukitake sobre a cama, indo até um armário para pegar suas próprias roupas e não demorou muito para que as duas terminassem de se vestir.

— Então, Kukkaku? Como se sente?

— Um pouco estranha nessas roupas... eu não vou usar esse laço estúpido no pescoço. Eu me sentiria um gato de raça, sei lá.

— Bem vinda ao meu mundo. Você que sabe. Mas até que o uniforme lhe caiu bem.

— Uniforme? O que você quer dizer com "uniforme"?

— Calma. Logo irá saber. Vamos voltar para a sala agora e ver se os rapazes estão prontos?

— Pode me dar um minuto antes? Preciso ir no banheiro. Você pode ir na frente.

A gata assim o fez, deixando a Shiba sozinha no cômodo. Seu olhar foi de encontro ao Haori de Ukitake sobre a cama e ela logo se lembrou de seus atos de gentileza. Achou o máximo o Capitão ter o impulso de rapidamente cobrir a nudez de sua amiga ao invés de apenas se aproveitar da situação, como seu amigo fez. Não só isso, também lembrou de como ele a defendeu das investidas de Byakuya, embora ela quisesse arrebentar a cara do Kuchiki. Aproximou-se, e por instinto pegou o Haori o aproximando de seu rosto. Ficou assim por algum tempo. Sua mente parecia estar em branco. Ela só enxergava os brancos cabelos e face do belo Capitão, e por alguma razão, lembrar dele a deixava incomodamente calma.

Enquanto isso, Yoruichi voltava para a sala e tentou o máximo que pôde conter o riso quando viu os três Capitães vestindo o mesmo uniforme da escola de Ichigo.

— O que significa isso? Posso saber por que estamos usando as mesmas roupas, aliás, de péssimo gosto? – Byakuya foi o primeiro a reclamar.

— Calminha aí. Você já irá saber. – Urahara tentou explicar. — E quanto à Kukkaku-san?

— Ficou no quarto, mas já está pronta. Ela virá logo. A propósito, Ukitake, eu deixei o seu Haori sobre a cama. Você pode ir buscar se quiser.

— Ah, obrigado. Irei agora mesmo, se não se importarem.

— Pode ir, e traga a Kukkaku-san para que eu possa explicar todos os detalhes.

— Certo...

Juushiro seguiu pelo corredor e avistou uma porta entre aberta que pensou ser do quarto mencionado por Yoruichi. O platinado levou um susto ao ver Kukkaku de pé segurando seu Haori contra o rosto e murmurando palavras sem sentido. Não deu importância ao que ela falava, pois estava ocupado demais admirando a morena naquele uniforme. As meias pretas, a saia curta e a blusa aberta, deixando boa parte dos fartos seios à mostra... estava linda, mas nada adequada para o futuro ambiente escolar que eles nem sequer sabiam que iriam adentrar. Voltando à realidade, ele passou a ouvir algo coerente entre as muitas frases desconexas que ela dizia.

— Odeio... – Murmurava de olhos fechados, sentindo o cheiro masculino que vinha da peça de roupa. — Eu odeio tanto esse homem... odeio... muito. – Falava calma, ludibriada pelo gostoso cheiro da roupa.

Ukitake deu dois passos, adentrando com cuidado, o que despertou Kukkaku de seus pensamentos. Sua única reação foi jogar o Haori de volta sobre a cama por causa do susto.

— O que você está fazendo aqui?! – Gritou histérica, ainda afetada pelo susto que levou ao vê-lo.

— Eu... só vim por que Yoruichi disse que eu podia vir pegar meu Haori, se não se importa. – Ele respondeu baixo e um pouco confuso.

— Não me importo! Pegue logo isso e saia. – Falou ríspida, jogando o casaco na direção do Capitão, que habilmente o pegou.

— Yoruichi pediu que viesse junto. Urahara ainda precisa nos esclarecer algumas coisas.

— Mais? Que droga! As surpresas desagradáveis nunca terminam...

E depois da situação embaraçosa que ambos tentaram ignorar, eles seguiram até a sala onde Kisuke continuaria sua explicação, e foi o que ele fez depois que todos novamente sentaram em volta da mesa.

— Agora que já entramos nessas coisas e parecemos 'humanos normais', o que vamos fazer aqui com isso? – Kukkaku começou.

— Eu não gostei dessas roupas. O material é de má qualidade e eu pareço um estudante do ensino médio. – Byakuya continuou reclamando.

— Ora! Não é à toa que sempre te consideraram tão inteligente. Pois é isso mesmo que vocês são: estudantes do ensino médio. – Urahara revelou direto.

— O que exatamente você quis dizer com isso, Kisuke Urahara? – Byakuya perguntou ameaçadoramente, fechando a expressão.

— Sua inteligência evaporou no último minuto? Eu estou dizendo que vocês irão frequentar a escola aqui no mundo dos vivos.

— Isso é algum tipo de piada? – Foi a vez de Ukitake se manifestar.

— Esta foi uma ordem direta do Capitão Geral Yamamoto. E ele disse que não adiantava Byakuya contestar, pois a ordem já foi dada.

— Mas isso é desleal! Não foi isso que o Yama-jii disse na reunião.

— Peraí! – Kukkaku gritou ao levantar, dando a Kyoraku uma bela visão por debaixo de sua saia. — Tá dizendo que eu também vou ter que ir para uma escola?! Esse velho está pensando que somos um bando de burros, analfabetos ou algo do tipo? Pois o jumento é ele se acha que vamos aceitar isso! – Continuava gritando, ao acertar Kyoraku com um belo chute, fazendo seu rosto bater na mesa.

— E mais uma coisa! – Kisuke levantou a voz. — Se algum de vocês se recusar a obedecer, Byakuya terá permissão para punir a pessoa em questão até mesmo com a morte, se necessário.

— O QUE DISSE?! Pois esse imbecil que se atreva a encostar um dedo em mim!

— Vê se para de gritar, Kukkaku! – Yoruichi berrou, fazendo todos eles se calarem. — Eu sei que é injusto, mas ordens são ordens e vocês terão que obedecer. Agora parem de agir como bebês chorões e façam o que deve ser feito.

— Tá certo. Já deu para entender até onde chegou a insanidade do Yama-jii, mas por que só eu estou vestindo uma roupa diferente? – Kyoraku perguntou ainda mais confuso.

— Quanto a isso... – Yoruichi fez uma pausa. — É porque o Capitão Geral têm uma missão especial para você.

— Viu isso, Juushiro? O Yama-jii sabe valorizar o meu talento. Aposto que ele me confiou uma missão muito importante. – Disse ao se vangloriar.

— Certamente que sim. – Respondeu Kisuke, dando um avental ao mais velho.

— Mas o que é isso? – O moreno de ondulados cabelos indagou, já temendo pela resposta.

— Simples. Você irá trabalhar aqui na minha loja. O Capitão Yamamoto disse que você terá que pagar por todo o sake que beber por aqui. – O loiro explicou.

— E vamos combinar, Kyoraku... – Yoruichi continuou. — Você não enganaria ninguém disfarçado de estudante.

— Ah, ah... Estou começando a concordar com o Byakuya. Esta situação já está passando dos limites do ridículo.

— Eu até que achei uma ótima ideia, afinal vai ser bom trabalhar e sentir um pouco de satisfação por isso, ainda mais para você, que sempre foi um Capitão preguiçoso. – Kukkaku alfinetou.

— Certo, certo! Acho que todos já entenderam tudo e também acho que já está muito tarde para continuar as explicações, por isso voltem aos quartos onde vocês estavam inicialmente e se preparem para dormir porque amanhã será um longo dia. – Kisuke anunciou ao se retirar.

Sem alternativa, eles voltaram para os quartos, inconformados com o que teriam que viver nos próximos dias. Se ajeitaram no espaçoso quarto vago onde tinha uma pilha de futons em um dos cantos. Ukitake e Kyoraku não se importaram, mas Byakuya olhou com indiferença, sem gostar nada da situação.

— Vamos ter que dormir nesses futons finos e de péssima qualidade? É como dormir diretamente no chão. Eu, o 28º líder do Clã Kuchiki, não posso aceitar isso.

— Não pense que nos sentimos bem com isso, mas entenda que aqui não é nossa casa, por isso não estamos em posição de exigir nada.

— Juushiro está certo. Eu apenas espero que esse castigo sem sentido não dure muito tempo ou eu vou acabar pirando.

— Quem vai acabar entrando em colapso sou eu se tiver que continuar vivendo neste lugar tão primitivo e sem o mínimo de conforto.

— Relaxa, Kuchiki. Deixa de frescura. Apenas durma porque amanhã será outro dia e teremos tempo para pensar no que faremos para nos organizar. – Kyoraku finalizou.

Os três arrumaram suas camas, e Byakuya se virou no canto mais distante, do lado oposto ao dos outros dois Capitães, que colocaram seus futons lado a lado para bater um papo antes de dormir, e assim o fizeram depois de cerca de meia hora ao se certificarem de que Byakuya estava dormindo.

— Então, Juushiro? Guardou bem o seu Haori?

— Sim guardei em uma das gavetas.

— Menos mal. Você sabe como o Yama-jii é rigoroso quando se trata de nossos Haoris de Capitão. Se algo acontecer a eles, poderemos receber uma punição ainda pior do que esta.

— Eu não duvido nada... – Falou, dando um pesado suspiro.

— Mas e aí? Agora que podemos conversar tranquilamente, pode me explicar porque esse seu comportamento tão calmo? Você parece nem ligar para esse castigo que nos foi imposto tão injustamente. Você está de acordo com isso?

— Eu estou calmo, Shunsui. E tenho calma porque não vamos ficar aqui por muito tempo.

— E como você pode ter tanta certeza disso?

— Pense! O Gotei 13 ficou sem três Capitães por causa do Aizen, e agora, Genryuusai-sensei mandou mais três Capitães para o mundo dos vivos. Isso significa que a Soul Society ficou sem praticamente metade de seus Capitães. É apenas uma questão de tempo para que ele reconsidere e veja que errou. Então seremos chamados de volta.

— Eu não tinha pensado por esse lado, mas agora que falou... isso me deixa um pouco mais tranquilo.

— Ah... – Ukitake deu outro suspiro cansado. — Eu não sei o que se passa na cabeça do Genryuusai-sensei. Ele nem sempre age de forma justa e nunca dá o braço a torcer, sem mencionar que reconhecer seus erros é praticamente impossível.

— Poxa... muito obrigado por matar a pouquíssima esperança que você mesmo me deu segundos atrás.

— Desculpe por isso.

— Mas e então? Agora pode me contar o que vem te incomodando ultimamente?

— A mim? Nada em particular.

— Ora, não minta! Pra cima de mim, bonitão? Quem você pensa que engana?

— Então diga você o que tanto me incomoda.

— Shiba Kukkaku.

— E o que tem ela? – Falou surpreso, arqueando uma sobrancelha, porém tentando transmitir indiferença.

— Não se faça de bobo. O jeito como você enfrentou o Byakuya. Dificilmente você engrossaria com alguém assim por causa de uma simples provocação. Eu já estava vendo a hora das suas Zanpakutous se chocarem.

— Pois eu ia querer ver ele tentar.

— Juushiro... O que te irritou foi o Byakuya ter insultado a Kukkaku-san. Sei que você tentou defende-la da forma mais sutil possível, mas você não pode enganar os meus olhos.

— Shunsui... Onde exatamente você quer chegar?

— No seu coração. Fala para mim... Desde quando você ama a Shiba?

— Quantos séculos? Não sei. – Respondeu evasivo.

— Sai dessa, meu bom amigo. Essa mulher te odeia, e mesmo que não te odeie, imagine como seria se relacionar com uma mulher geniosa como ela? Eu prefiro manter a minha integridade física, por mais bem dotada e atraente que ela seja, e olha que isso ela é, e muito.

— Você está muito enganado! – Exclamou sério, levantando a voz.

— Fica quieto! Vê se fala baixo! Por acaso quer acordar o Kuchiki?

— Que seja! Já que me conhece tão bem, deveria saber que, ao contrário de você, eu não sou homem de me deixar levar por atributos físicos em uma mulher.

— Então você é cego? O que você viu de bom nela, afinal?

— Eu não vou responder isso. Podemos dormir agora? – Indagou chateado.

— Como você quiser... – Suspirou derrotado.

E os veteranos dormiram, pela primeira vez, temendo pelo próximo dia...


A festa seguia animada na Divisão Três. A maioria dos oficiais já estavam bêbados e empanturrados de tanto comer. Rangiku extravasava toda a sua mágoa para com Gin através do álcool e da dança. Ela se acabava na pista improvisada por eles no meio do salão, como sempre atraindo a atenção de todos os marmanjos em volta. Izuru a olhava friamente enquanto se divertia, ao mesmo tempo em que ele degustava uma taça de vinho e alguns petiscos. Via como vez ou outra seus mamilos apareciam de tanto que ela requebrava seu corpo, fazendo com que a roupa saísse do lugar, mas o loiro sempre vinha cuidando dela nos últimos dias, que se resumiram a um ciclo de bebedeira noturna e ressaca do dia seguinte. O agora Capitão sempre teve mais bom senso do que a irresponsável Tenente, e nunca bebeu até literalmente cair, como a ruiva sempre costumava fazer. Achava por bem que pelo menos um dos dois mantivesse um pouco de sanidade para que pudessem chegar inteiros em seus quartéis. Izuru sempre acabava levando Rangiku a salvo para a Divisão Dez usando um Kido que ocultava sua presença, para evitar a óbvia bronca que ambos certamente levariam. Essa rotina se manteve por pelo menos duas semanas desde o ocorrido com Aizen...

Renji, Hisagi, Ikkaku e Yumichika já tinham bebido além da conta, e se divertiam pela construção dançando e se agarrando com várias meninas que encontraram pelo caminho, todas elas membros da Divisão Três também. O Capitão continuava sozinho em uma das mesas. Nutria por Rangiku um sentimento de proteção, carinho, e talvez algo bem mais forte que isso. Observava muito incomodado a maneira que os outros homens a olhavam e como outros até tinham a audácia de tocar nos seios da ruiva, que ludibriada pelo álcool, não retrucava. Vendo que aquilo lhe fazia mal, o loiro resolveu levantar e sair de lá, a fim de não continuar machucando seu coração ao observar a mulher que a cada segundo que passava ele entendia ser por quem havia se apaixonado. Desde quando, ele não sabia. Só sabia que o que sentia pela belíssima Tenente do Décimo Esquadrão era forte e verdadeiro, e também sabia que não teria a mínima chance diante de um fantasma, especialmente um fantasma que arruinou a vida de ambos. Desanimado, saiu a passos lentos rumo ao quartel da Décima Divisão, e foi até o quarto onde Momo se recuperava de seus ferimentos quase mortais causados por Aizen. Olhou em volta, e colocando a mão sobre a parede, descobriu o quarto selado onde a jovem estava. O cômodo havia sido selado por Hitsugaya, que usou um Kido para mantê-la oculta do mundo exterior por precaução, mas sendo um expert em Kido como o loiro era, para ele foi simples entrar no local, voltando a selar o quarto em seguida com sua própria Reiatsu. Olhou a menina prostrada na cama e quase veio a prantos. Sua tristeza poderia aumentar ainda mais naquela noite? Estava confuso, irado, se sentia traído. Carregar o peso daquele Haori em seus ombros era como uma maldição. O título que lhe fora dado não significava nada, afinal, ele sempre continuaria guiando sua Divisão como sempre fez, mas ocupar um cargo que antes foi da pessoa que mais admirava e por quem foi traído o perturbava, e ele precisaria de bastante tempo para assimilar tudo aquilo. Voltou a olhar para Momo e suspirou em lamento. Queria voltar no tempo, apagar tudo o que aconteceu, mas infelizmente não podia...

— Hinamori-kun... se soubesse como eu me sinto agora... aposto que você sente o mesmo. Tínhamos igual devoção a nossos Capitães, e fomos traídos da maneira mais baixa, mais suja... a pior de todas. Como eu queria que nada disso tivesse acontecido. Me perdoa. Fui um imbecil ao erguer minha espada contra você. Eu nunca vou me perdoar por isso. Nunca...

Depois de desabafar com sua grande amiga, Izuru fez um breve afago na testa da enferma e se retirou do quarto, selando o cômodo com um Kido novamente. Ao sair, ele deu de cara com Hitsugaya, que não se surpreendeu nem um pouco ao vê-lo ali.

— Veio visitar a Hinamori mesmo no meio de sua festa de promoção, Capitão Kira?

— Não se preocupe, Capitão Hitsugaya, a barreira de Kido está intacta.

— Eu não duvido disso. E onde está a Matsumoto?

— Está aproveitando a festa, de toda a forma eu já estou voltando.

— Obrigado pela visita. Estou certo de que a Hinamori ficaria feliz em vê-lo. – Falou sincero.

— Eu queria muito poder conversar com ela agora... – Respondeu ao se despedir.

O loiro se afastou enquanto o jovem platinado o mirava. Era fato que a amizade dos dois por Momo era verdadeira e incondicional. Ao voltar para a sua Divisão, Izuru ficou surpreso ao ver que todos haviam se recolhido e a festa tinha acabado. Foi informado por um dos oficiais que Hisagi deu a festa por terminada ao notar a ausência do Capitão. Surpreso, ele foi até o quarto principal, e deu de cara com Rangiku desmaiada na porta...

つづくcontinua...


N/A: Apenas uma observação sobre este capítulo: Quando eu uso o termo 'rapazes' para me referir aos Capitães lindosos, me baseio na aparência física deles, porque apesar de eles terem séculos e séculos de vida, já que eles são almas e não envelhecem (para a nossa alegria) não acho nada estranho ou errado chamá-los de rapazes xD