Capítulo 4 – Percepção
Os primeiros raios de sol que invadiram o quarto incomodavam o sono da bela mulher, que nada recomposta ou bem disposta despertava naquele momento. Apertava os olhos sem querer abri-los, desejando que a incômoda claridade desaparecesse. Levou tempo até que finalmente conseguisse abrir os olhos e focar em algo real. Olhou para o lado e seus claríssimos olhos azuis contemplaram um Izuru adormecido, e uma pontinha de culpa se instalou em seu coração. Ver como ele se dedicava a cuidar dela cada vez que tomavam um porre era fofo, mas sentia que estava abusando da boa vontade dele. Estava péssima. A dor de cabeça causada pela maldita ressaca era desesperadora. Toda vez que acordava mal, prometia a si mesma que nunca mais iria beber, mas a quem ela queria enganar? Olhou para si mesma por baixo dos lençóis e estranhou o fato de seus seios estarem cobertos demais, bem como as mangas estarem maiores.
— Esse shihakusho...?
— É meu.
— Kira? Por que eu estou vestindo o seu uniforme?
— Não se lembra do que fez ontem à noite?
— O que eu fiz ontem à noite? – Questionou temendo a resposta.
— Você dançou como louca no meio dos membros da divisão e depois caiu bêbada na porta do meu quarto. Quando eu a trouxe para dentro, você gentilmente vomitou em cima de nós dois.
— Mentira! Você está brincando comigo, não é? Diz pra mim que isso é mentira. Eu não posso ter feito isso. – Falou envergonhada, amassando o lençol em suas mãos.
— Você sabe muito bem que eu não sou de fazer piadas. Você não apenas fez isso como também uma de minhas oficiais foi testemunha.
— Ai não! Olha... me desculpa! que Vexame! É sério, Kira, eu sinto muito. Mas se eu estou com o seu shihakusho, então você...
— Não se preocupe com isso. Eu não troquei suas roupas. Pedi que uma das oficiais fizesse isso.
— Menos mal. Que alívio.
— E como se sente?
— Mal. Minha cabeça parece que vai estourar e se partir em milhares de pedaços.
— Vou pegar um café para você bem forte, amargo, horrível e sem um grão de açúcar, porque pelo que vejo, você ainda está bêbada.
— Muito obrigada... e me desculpe de novo.
Rangiku olhava para Izuru enquanto o mesmo se afastava em direção à porta. Ao vê-lo de costas, enxergou a imagem de Ichimaru em sua mente. Fechou os olhos balançando a cabeça incessantemente para afastar qualquer coisa que pudesse lembrar Ichimaru Gin. Pensou no quanto sua mente era estúpida por lhe pregar peças, e aquele traidor do inferno não merecia que ela bebesse ou derramaste uma só lágrima por ele. Lembrou-se de como Izuru era cuidadoso e atencioso com ela, e de como ele cuidava de sua integridade quando ambos bebiam juntos para esquecer a dor que um único homem lhes causou. Acordar na cama do amigo tendo a imagem do loiro dormindo sentado ao seu lado já havia virado rotina nas duas últimas semanas, estreitando ainda mais os laços entre eles. Mas secretamente Izuru sofria. Sua angústia era por ter percebido que tinha se apaixonado. Seu coração ficou apertado. Ele se viu em um perturbador dilema. Como diabos se deixou apaixonar? Como pôde deixar que seus encantadores olhos e sua sempre tão livre forma de ser e seu jeito alegre de agir o envolvessem daquela maneira? Desde quando? Não sabia. Apenas se sentia ainda mais vazio por saber que estava apaixonado pela mulher que sempre dedicou seu amor e devoção ao homem que traiu a ambos da maneira mais suja e sórdida de todas. Como poderia dizer a ela o que sente? Como competir com a lembrança de um fantasma maldito que nunca iria deixar de assombra-los? Não. Definitivamente ele deveria enterrar tal sentimento e deixar as coisas como estavam, sendo apenas o amigo atencioso de sempre. Ele logo voltou com uma xícara de café, entregando a ela de maneira cortês.
— Beba isso logo e volte para a sua Divisão. Se demorar mais o Capitão Hitsugaya é capaz de vir aqui e te arrastar pelas orelhas. – Disse ao virar as costas.
— Kira... – Chamou, detendo seus passos. — Obrigada por tudo. Olhe só para mim. Estou sendo servida por um Capitão agora. Eu deveria estar extremamente honrada. – Brincou.
— Não precisa agradecer. – Respondeu sério, ignorando a brincadeira.
A ruiva tomou o café rapidamente. Como estava com pressa, decidiu comer em sua própria Divisão. Levantou e calçou o tabi e a waraji¹, indo até a saída do quartel. Enquanto andava, deu de cara com Izumi, que prontamente a cumprimentou.
— Bom dia, Tenente Matsumoto. Acordou bem?
— Bom dia. Acordei bem sim. Obrigada.
— Excelente. Que bom que está se sentindo melhor. Então com licença e tenha um bom dia.
— Espere um pouco, mocinha!
A ruiva pegou a morena pelo braço de forma agressiva, fazendo-a olhar para ela.
— Deseja algo, Tenente? – Perguntou surpresa com a agressividade da mais alta.
— Foi você quem trocou minhas roupas?
— Sim Senhora. O Capitão Kira me pediu que o fizesse, pois ele jamais se aproveitaria da situação.
— Entendo. Eu o conheço bem e sei que jamais faria isso.
— Nunca. Não condiz com o caráter dele.
— O que você sente pelo Izuru?
A pergunta direta da lindíssima Tenente fez o coração da Oficial palpitar. "De onde ela tinha tirado tal questionamento"? Era o único pensamento que vinha na mente da morena.
— Eu... Eu não sei do que a Senhora está falando.
— Não seja cínica. Não venha com esse papo para cima de mim.
— Perdoe-me, Tenente, mas não entendo o seu questionamento. O que eu deveria sentir segundo a Senhora?
— Ora... Acha que eu nasci ontem? Primeiro agradou o Kira com docinhos, depois começou a cerca-lo toda preocupada. Pensa que não percebi como olha para ele? Como os seus olhos brilham e seu rosto cora só de ouvir o nome dele? Você o ama. Não negue, garota.
— Está muito enganada! Eu sou terrivelmente tímida! O que sinto pelo Capitão é a mais nobre admiração e lealdade. Meus olhos brilham de admiração, e jamais deixou de ser algo puro, inocente e verdadeiro. Não tem nada a ver com o que a Senhora está querendo fazer parecer.
A resposta sincera da Oficial pegou Rangiku de surpresa. Não sabia porque tinha questionado a garota daquela maneira se nem ao menos tinha esse direito. Constrangida, a ruiva deu as costas sem ter coragem de encarar a jovem.
— Perdão. Não tinha direito algum de te questionar quando você nem sequer é minha subordinada. E mesmo que fosse... isso seria pessoal, e não seria da minha conta.
Izumi viu a Tenente do 10º Esquadrão se distanciar sem entender o comportamento nem as acusações da mulher. Ao chegar em seu quartel, Rangiku levou uma bronca daquelas de seu Capitão, que sugeriu sua transferência para a Divisão Três, já que ela não saía mais de lá. Depois de fazer manha para Hitsugaya, a ruiva foi tomar um banho mais do que necessário. Deitada em sua banheira, ela ponderou sobre seu comportamento intransigente com a pobre Oficial. E se ela estivesse mesmo apaixonada por Izuru? Não seria nada que pudesse a preocupar. Estaria ela incomodada? Não... não poderia ser.
— Relaxa, Rangiku... isso tudo é coisa da sua cabeça. – Pensou ao mergulhar totalmente na água morna.
Em Karakura, mais um dia de aula estava prestes a começar na escola de Ichigo. Ukitake, Byakuya e Kukkaku andavam pelos corredores do enorme colégio carregando suas maletas com o material escolar. Por onde passavam, atraíam os olhares do resto dos alunos, especialmente pela aparência dos mesmos. Ukitake era bastante alto, e Byakuya era apenas sete centímetros mais baixo. Kukkaku também era bastante "desenvolvida" para uma "adolescente", e para ela estava sendo um tormento usar aquele uniforme, já que Yoruichi fechou os botões e colocou a gravata em forma de laço vermelho no seu devido lugar, apesar dos protestos da morena. Pelo menos a saia, que ia até a altura da metade das coxas foi mantida, mesmo por uma contrariada Yoruichi. Eles foram instruídos a aguardarem do lado de fora, e a professora Misato Ochi entrou na sala de aula onde Ichigo, Ishida, Sado e Orihime estavam reunidos.
— Muito bem, pessoal, bom dia! Hoje nossa aula irá começar um pouco diferente. Teremos três alunos novos na nossa classe a partir de hoje.
— Três? – Um dos alunos se manifestou e um burburinho começou a ressoar pela sala.
— Silêncio, pessoal. Sei que é estranho três estudantes extras no meio do ano, mas mesmo assim espero que vocês os recebam bem e os ajudem a se adaptarem.
— Será mesmo que isso vai dar certo? – Pensou Ichigo, já temendo pelo pior.
— Certo! Então já que todos estão cientes... – Disse a professora ao ir até a porta. — Ei, vocês três, podem entrar.
Constrangidos, os dois Capitães e a líder do Clã Shiba entraram na sala. Todos se surpreenderam ao ver as três figuras, já que os três eram extremamente belos e nem de longe lembravam exatamente "crianças". Os novos alunos causaram uma euforia generalizada entre os demais. Tanto os meninos quanto as meninas ficaram praticamente histéricos ao vê-los. Kukkaku era um mulherão, e nem mesmo todos os botões do uniforme fechados eram o bastante para disfarçar isso. Byakuya era frio e fechado, e suas feições sérias o faziam parecer mais maduro, mesmo sendo jovem e absurdamente lindo. Ukitake era dono de uma beleza que não podia ser descrita com palavras. Seus claríssimos e platinados cabelos chamavam a atenção por onde quer que passava, e seus adoráveis olhos verdes encantavam qualquer um. Além disso, seu sorriso doce tinha o poder de amolecer até mesmo o mais áspero coração, e nem mesmo Shiba Kukkaku era uma exceção, embora nem ela mesma tenha se dado conta.
— Turma! Chega de cochichinhos, e vocês três comecem a se apresentar. Vamos, digam seus nomes para a classe. – Ordenou a Sensei.
— Nós precisamos mesmo fazer essa besteira? – Kukkaku reclamou, tentando conter sua irritação.
Ukitake, que estava no meio dos dois, ficou ainda mais tenso com a situação, temendo que o gênio forte daqueles dois estragasse tudo.
— Eu não vou fazer isso. – Byakuya negou prontamente.
Atônito com o vexame que estava passando diante da classe por causa dos dois, Ukitake resolveu falar algo para tentar consertar a situação e desfazer a péssima impressão.
— Ora! Vocês não acharam que era sério, acharam? Esses dois estão brincando! – Falou divertido, colocando seus braços por cima do ombro de Byakuya e Kukkaku ao mesmo tempo. — Eles são muito antissociais, verdadeiros bichos do mato. Não liguem para as grosserias deles. Este é Kuchiki Byakuya. E esta é Shiba Kukkaku. Meu nome é Juushiro Ukitake. É um prazer conhecer todos vocês. Espero que possamos ser bons amigos. – Finalizou com um sorriso.
— Aaaarrrrnnnn!
A turma inteira, incluindo a professora Misato, suspirou encantada com a fala mansa e o sorriso gentil do amável Capitão. Ichigo, Ishida, Sado e Orihime olharam espantados como se estivessem envolvidos em algum espetáculo de circo, mas infelizmente era bem real. Enquanto a turma inteira estava encantada com a gentileza de Ukitake, Byakuya e Kukkaku só ficavam com mais raiva, assassinando o platinado mentalmente.
— Ukitake... Espere só até sairmos daqui. Você vai me pagar por isso. – Byakuya disse baixo ao lado dele.
— Nunca pensei que diria isso... Mas concordo com o Kuchiki. Não faz ideia de como eu gostaria de te espancar agora. – Kukkaku completou.
— Pois vão ficar querendo. Agora disfarcem e coloquem pelo menos um sorriso nessas suas caras azedas.
— Prefiro a morte.
— Idem.
— Ótimo. Já que agora sabemos seus nomes, está na hora de acharmos os lugares onde irão sentar. Hum... o moreno...
— Kuchiki.
— Isso! Kuchiki-san! Acho que... – olhou em volta. — Você pode se sentar na carteira vazia ao lado da Inoue-san. E quanto à mocinha...
— YYYYAAAAAHOOOO! Shiba-chan! – Chizuru gritou eufórica, chamando por Kukkaku. — Você pode sentar do meu lado. Será uma honra para mim ter alguém tão linda aqui pertinho.
— Hunf... – Bufou e acabou sentando lá mesmo.
— E você... – Olhou para Ukitake, que a olhou e volta interrogativo.
— Juushiro.
— Ah... Juushiro-kun? – Suspirou involuntariamente. Acho que só restou esta primeira carteira na frente da minha mesa.
— Ah, ah... – Falou acanhado, fechando os olhos e coçando os longos cabelos.
— Nya! – Todas as garotas da sala gritaram de uma vez só por causa do jeito fofo de Ukitake.
— Droga! Já chega! Vocês parecem umas retardadas suspirando por esse idiota! Calem essas bocas! – Kukkaku levantou da mesa irritada, sentando novamente em seguida.
— Ai! Tem razão! Quem liga para aquele cara quando eu posso olhar pra você? – Chizuru comentou excitada.
— E cala a boca você também se não quiser que eu te arrebente a cara.
— Opa! – Ichigo interviu. — Acho que não é uma boa ideia chegar perto dela. Segura a onda aí Chizuru.
— Você está certo, Ichigo. É melhor controlar essa sua amiga se ela quiser continuar com todos os dentes dentro da boca.
— Tá...
A aula transcorreu sem problemas aparentes. Tudo estava em paz... pelo menos até a hora do recreio... Byakuya foi até o telhado da construção e se jogou no chão em cima de um lugar mais alto que parecia ser uma das caixas d'água. Deitou para relaxar um pouco, pois toda aquela situação o estava estressando. No pátio, Ichigo Ishida e Sado tentavam em vão segurar uma descontrolada Kukkaku, que imprensando Ukitake em uma árvore, queria cumprir a promessa de quebrar a cara dele.
— Que história foi aquela de me apresentar e falar que eu queria ser amiguinha de todo mundo? – Gritava indignada, empurrando os ombros masculinos com força contra o tronco da árvore.
— Kukkaku-san! Fique calma! Você não pode fazer uma coisa dessa aqui na nossa escola! – Ichigo tentava acabar com a confusão.
— Eu fiz o que achei ser certo. Não podemos destratar as pessoas. Você poderia pelo menos tentar ter um pouco de educação ao se relacionar com os demais, caso contrário, não vamos durar nem três dias aqui.
— E quem falou que eu estou interessada em criar algum tipo de raiz neste lugar?
— Acontece que se não nos comportarmos bem, vamos ficar presos aqui por muito mais tempo do que você pode imaginar. Não torne as coisas mais difíceis do que elas já são.
— Gggrrrrnnn! – Bufou de ódio. — Eu não vou ficar aqui ouvindo sermão de você.
— E eu também não sou obrigado a aturar suas grosserias. – Falou bem calmo, sorrindo para ela.
— O que foi que você disse?! – Berrou alto. — Está debochando da minha cara? Eu vou te dar a surra que te prometi e tirar esse sorriso besta da sua cara.
— Ah! Espere aí, Kukkaku-san! – Ishida pediu, mas ela não escutava.
— Podem parar. Soltem ela.
— Espere, Ukitake-san... tem certeza disso? – Ichigo perguntou temeroso.
— Tenho sim. Já que o problema dela é comigo, ela tem que resolver comigo.
Mesmo temendo, os garotos soltaram a Shiba, que ainda empurrava o Capitão contra a árvore. Antes mesmo que fizesse alguma coisa, a morena sentiu seus fartos seios serem violentamente apertados por trás.
— Nyaa! São tão macios e volumosos! Eu estou no céu! – Chizuru gritava eufórica, apertando os peitos de Kukkaku o máximo que podia.
— Pessoal... – Ishida disse quase num sussurro. — Acho que só temos cinco segundos para correr antes que esse lugar vá aos ares.
— Não! Nem para isso teremos tempo. – Chad concluiu.
— MAS QUE PORRA É ESSA?!
O grito estridente de Kukkaku quase ensurdeceu todos em volta, e a mulher bruscamente tirou as mãos da estudante depravada de si, virando para ela com o punho erguido.
— SUA MALUCA! AGORA VOCÊ MORRE!
— CHEGA!
A voz firme e decidida de Ukitake soou cheia de autoridade aos ouvidos da Shiba. Ele a pegou pelo braço, virando-a para si, e fez com que ela o encarasse. Os profundos olhos verdes a olhavam com seriedade e repreensão. A morena rapidamente "se acalmou", dando a deixa necessária para que Ichigo e os outros sumissem dali com Chizuru, deixando os dois sozinhos.
— Eu ainda estou esperando a surra que você me prometeu. – Juushiro começou, soltando o braço dela.
Seus olhares se encontraram de forma profunda. Ukitake esperava mesmo ser surrado, mas o corpo de Kukkaku não se movia. Perguntou-se mentalmente o que poderia estar acontecendo, já que estava acostumada a distribuir pancadas para quem quer que fosse, mas a verdade é que seu corpo pareceu estar paralisado naquele momento.
— Por que você... Por que você tem que ser tão... ah! Eu detesto você! – Gritou, dando as costas e sumindo da frente dele.
— "Detesta"? Bom, é menos pior do que um "eu te odeio". – Suspirou derrotado, sentando debaixo da árvore para descansar um pouco.
Mas aquele estava longe de ser um momento de descanso para o Capitão da Décima Terceira Divisão. Enquanto ele sentava cruzando os braços e fechando os olhos, Kukkaku o observava de longe encostada na parede lateral do prédio do colégio. Lembrou-se da doença que cercava o gentil homem e deixa-lo sozinho talvez não fosse uma boa ideia. Dava esse pretexto para si mesma, quando na verdade apenas queria continuar olhando... e olhando para ele cada vez mais. O pobre platinado não completou nem três minutos de descanso, pois do nada, um grupo de alunas alucinadas apareceu e o cercou.
— Olhem, garotas! É ele! O novato de cabelo platinado! – Gritou uma.
— É ele mesmo! É tão lindo! – Exclamou a outra.
— Qual é mesmo o nome dele?
— Juushiro-kun.
Enquanto as estudantes enlouquecidas formavam uma roda em volta de Ukitake, o mesmo olhava sem jeito, não fazendo a menor ideia do que aquelas garotas estavam falando ou fazendo.
— Com licença, garotas... Mas eu posso ajudar em alguma coisa?
— Pode sim! De onde você veio?
— De que cidade foi transferido?
— E esse seu cabelo? É uma cor tão exótica. Que tintura você usa?
— Vocês podiam, por favor, fazer uma pergunta de cada vez?
— É claro, lindinho.
— Como eu disse na classe, meus amigos e eu viemos de longe. Uma província no interior do Japão. Quanto ao meu cabelo... já nasceu assim. Eu não uso nada nele.
— Incrível!
— Isso é tão emocionante.
— É mesmo.
As estudantes não paravam de falar um minuto em volta de Ukitake, e Kukkaku, observava toda a cena irritada e impaciente com aquela rasgação de seda toda. As meninas passavam a mão nos longos cabelos dele, o deixando envergonhado com perguntas indiscretas, do tipo se ele tinha namorada ou de que tipo de garota ele gostava. O homem já estava se sentindo incomodado com tanto assédio e mal sabia o que responder a elas. De repente, todas as garotas ficaram em silêncio quando Kukkaku se aproximou a passos lentos envolta por uma aura de raiva capaz de assustar qualquer um. Ukitake olhou impressionado e ao mesmo tempo amolado, pois não estava nem um pouco a fim de recomeçar uma discussão.
— Mas que putaria é essa aqui? Vocês estão cegas? Por acaso nunca viram um homem de cabelo branco não? Só porque é branco não significa que ele seja um velho. Estão vendo isso aqui? – Gritou, puxando uma longa madeixa de Ukitake.
— Ai! O que você acha que está fazendo?!
— Ora, cale a boca! Vocês estão vendo só? Isso aqui é um cabelo de verdade! Agora parem de amolar e voltem para as suas salas, suas intrometidas.
As pobres garotas saíram correndo espantadas com a braveza de Kukkaku, deixando-a sozinha com Ukitake. Sem olhar para ele, a morena também o deixou só, pois queria aproveitar o resto do tempo para descansar de toda aquela besteira.
No telhado da escola, Byakuya continuava descansando. Depois da confusão armada por Kukkaku no pátio Orihime decidiu ir atrás do Capitão, já que ele estava sentado ao seu lado na sala de aula, porém eles nem haviam se falado. Na verdade, ela sempre quis conversar com ele de forma mais sincera, pois tinha bastante curiosidade pelo fato de ele ser irmão mais velho de Rukia. Chegando no telhado, a ruiva avistou os pés do Kuchiki numa parte mais alta da construção, e levando sua lancheira de obento, anunciou sua chegada.
— Eto... Kuchiki-san... finalmente o encontrei. Desculpe a intromissão, mas preciso trocar umas palavrinhas com você. Estou subindo.
Orihime começou a subir os pequenos degraus de ferro presos no concreto da parede e ficou surpresa ao ver uma mão masculina estendida para que ela chegasse ao topo. Byakuya puxou Inoue pelo braço, trazendo-a para cima e ela rapidamente caiu sentada ao lado dele.
— Você... eu já te vi antes.
— Sim! Inoue Orihime.
— Claro... você é aquela amiga do Kurosaki que invadiu o Seireitei como um Ryoka. – Falou seco e sem emoção.
— É... vejo que se lembrou de mim. Misato-sensei mandou que sentasse ao meu lado.
— Entendo. Mas eu nem tinha percebido.
— Hum... – Tentou puxar algum tipo de assunto. — Eu fico feliz por termos salvo a Kuchiki-san. Somos amigas e eu gosto muito dela.
— Poderia ser mais direta? Diga logo o que quer comigo.
— É que eu não sei o que você, Ukitake-san e Kukkaku-san estão fazendo aqui, mas o caso é que...
— Pergunte ao seu amigo, Kurosaki Ichigo. Ele tem todos os detalhes. – Respondeu ríspido ao cortá-la.
— Não se trata disso.
— Então o que? Por acaso está querendo dizer que você está me incomodando deliberadamente a troco de nada.
— Não! – Ela engoliu em seco. — É que nós humanos temos nossas regras de conduta. Sabe, sempre que chega algum aluno novo, temos que recebe-los da melhor maneira e ajuda-los a se enturmar.
— Então vá atrás do Ukitake. Eu não estou interessado.
— Bem... é que nós temos o costume de dividir os lanches na hora do recreio.
A garota pegou seu obento e forrou uma toalhinha no chão, tirando uma fileira de onigiris de dentro da mesma. Byakuya olhou curioso para o alimento desconhecido quando ela gentilmente lhe ofereceu um para que experimentasse.
— Isso? – Questionou monossilábico.
— Onigiri. Bolinhos de arroz. Receita especial que eu mesma fiz. Anda, pode comer!
O moreno observou o bolinho intrigado, já que a cor lhe parecia estranha. Não apenas a cor, como a aparência também. Mas o que tinha a perder? Sem cerimônia pegou o alimento da mão da jovem e deu uma mordida. Inoue olhou para ele esperançosa, curiosa para saber a opinião do imponente homem, que fazia uma expressão de estranhamento. Juntou as sobrancelhas franzindo a testa, e Orihime já concluiu que ela não tinha gostado. Apesar da expressão fechada do seco Capitão, foi impossível Inoue não notar a beleza do moreno, que mesmo franzindo o cenho, conseguia ser sutilmente belo de qualquer forma.
— O que você usou nessa coisa? – Perguntou frio.
— Hum... deixe-me ver... é bolinho e arroz, então misturei doce de feijão com uva passa junto a alga nori e o gengibre em grãos.
— Está... delicioso. – Revelou, causando euforia na doce garota.
— Jura?! Que legal! É uma surpresa agradar alguém com um gosto tão refinado quanto o seu. – Falou orgulhosa ao se vangloriar. — Espere só até o Kurosaki-kun e os outros saberem disso.
— Já sabemos! – Ichigo disse ao chegar no local junto com Ishida, invadindo a 'privacidade' dos dois.
— Kuchiki Byakuya... gostou mesmo do lanche da Inoue-san? – Ishida comentou surpreso.
— Alguém pode me explicar o que está acontecendo? Por que Capitães da Soul Society estariam na nossa escola de repente... e Kukkaku-san também?
— Expliquem isso à garota. Eu estou saindo.
— Ah... 'gentil' como sempre. Ei, Byakuya! Espero que não tenha esquecido de que não pode usar seus poderes como quiser aqui no mundo dos vivos. Trate de controlar essa testosterona.
Mas foi inútil, pois o Capitão nem sequer ouviu a indagação do ruivo, saindo de lá em alta velocidade.
— Típico... mas que recreio, hein... – Ichigo literalmente se jogou no chão em derrota, sofrendo tanto quanto os castigados...
Após saber o motivo da presença dos Shinigamis entre eles, Orihime apenas teve a mesma reação de todos que souberam: ela riu. Ninguém acreditava que o velho Yamamoto fosse tão quadrado e cego para não perceber que estava sendo injusto. Depois disso, todos voltaram para o resto da aula, mas depois que todos entraram eles deram falta de alguém. Preocupados, eles foram atrás de Ukitake, que era o único que faltava.
— Mas que droga! Ukitake-san não voltou. Será que ele se perdeu? – Ichigo comentou aflito.
— Pior ainda! Ele pode ter passado mal. – Ishida completou.
— É verdade... Precisamos ir atrás dele!
— Calma, Kurosaki-kun. Não é necessário todos irem. A aula já vai recomeçar. Deixem que eu irei atrás dele. – Orihime disse com um sorriso.
— Hunf... idiota... – Kukkaku resmungou de tédio.
Orihime saiu pelo pátio atrás de Juushiro. Já que a construção era grande e eles não tinham muito tempo até a próxima aula começar, a garota se concentrou na Reiatsu do Capitão. Estava fraca, por isso a ruiva levou tempo para encontra-lo. Lembrou-se do incidente com Kukkaku e correu até onde havia sido a briga e ele realmente estava lá do mesmo jeito: sentado de olhos fechados e braços cruzados. Hime se aproximou sentando no chão e tocou-lhe o ombro para ver se estava tudo bem.
— Ukitake-san? Está bem? Por acaso passou mal?
— Hã? Inoue-san? – Disse baixo, levando uma das mãos às têmporas. — Eu adormeci?
— Não sei. O recreio já acabou, e como você não voltava, ficamos preocupados.
— Desculpe. Acho que perdi a noção do tempo. Estou um pouco tonto.
— Se não estiver se sentindo bem, podemos ir para a enfermaria.
— Não é necessário. Poderia apenas me ajudar a levantar?
— Claro!
— Obrigado – Ele agradeceu, apoiando-se nos ombros de Orihime, que desajeitada quase caiu.
— Desculpe. Eu quase caí. É que você é muito alto.
— Sou eu que peço desculpas. Meu mal-estar é mesmo um problema.
— Não se preocupe com isso. Somos amigos e vamos cuidar de você. Anda, vamos voltar.
Os dois sorriram e voltaram à aula. Um clima um tanto estranho se formou no decorrer da mesma. Ukitake sentiu algo em relação a alguns alunos, Tatsuki e Chizuru, em especial. Mas havia mais uma pessoa. A própria Professora Misato. Juushiro sentiu uma forte aura sobre ela. Não tinha dúvida de que aquelas três possuíam um nível de Reiatsu fora do comum para os padrões humanos e resolveu ficar de olho. Pensou não ser nada demais, por isso decidiu não contar nada a ninguém. Sentado na carteira frente a ela, o Capitão passou a seguir cada movimento que ela fazia, prestando atenção em tudo. Kukkaku percebeu o olhar insistente dele sobre a mulher e acabou quebrando ao meio o lápis que tinha em mãos. Pouco tempo depois a aula chegou ao fim, para alívio dos três, que voltaram exaustos para a casa, onde Urahara os recebeu em sua loja como sempre.
— Então, Senhores? Como foi o primeiro dia de aula? – O loiro perguntou, tendo Yoruichi e Kyoraku como espectadores.
— Perguntem ao Ukitake. – Byakuya falou estressado, indo direto para o quarto.
— O mesmo digo eu. Perguntem a ele. – Completou a Shiba, fazendo o mesmo.
— Sobrou para mim? Sério, gente, acho que não vou aguentar isso por muito tempo.
Depois que Juushiro relatou a situação, os outros três apenas riram imaginando todo o constrangimento que eles passaram no primeiro dia de aula. Depois do jantar, Kyoraku e Juushiro deitaram no telhado da loja para conversar um pouco. O moreno não conseguia conter o riso diante do relato do amigo.
— Ah, Juushiro... desculpa eu rir, mas só de imaginar aquelas garotas em volta de você te achando um adolescente de cabelos brancos... é impagável!
— Meu amigo... não é brincadeira. Aquelas jovens pareciam loucas. Era tanto assédio que pensei que elas fossem me agarrar. Acho que só não fizeram isso por que a Kukkaku-san expulsou todas elas.
— Eh? Ela fez isso? – O veterano observou ao tomar um gole de sake.
— Fez. Bem, isso depois de quase querer me matar só por que eu os apresentei à classe.
— Espere... está dizendo que ela se irritou ao te ver rodeado de garotas?
— Se irritou? Ela praticamente virou bicho! Fez uma cara que até me deu medo.
— Ah... Juushiro... você é cego?
— Que? – Olhou para o amigo mordendo um biscoito.
— A morenona está ligada na sua! Não vê que aquela reação é um típico ataque de ciúmes que as mulheres não conseguem esconder.
— Impossível. Shiba Kukkaku me odeia. Ela faz questão de repetir isso na minha cara sempre que tem chance e quando não tem também.
— Mas você também gosta dela.
— Não gosto.
— Tá bom... então eu sou o papai noel.
— Não diga bobagens, Shunsui. Você mesmo disse que ela seria incapaz de amar alguém. Então pronto.
— Por Deus, bonitão. A quem você quer enganar? Somos mais que amigos, somos irmãos. Por que não confia em mim e confessa o que eu posso ver nos seus olhos transparentes como água?
— Não são transparentes... são verdes. Você deveria descansar também.
— Tá bom... – Bebeu o resto do sake, vendo o amigo sair do telhado entrando na loja novamente.
No quarto das garotas, Kukkaku jogava a maleta escolar num canto enquanto Yoruichi entrava no local. Viu a amiga arrancar o laço do uniforme e abrir os botões. Desatou também o botão da saia e deixou a gata chocada ao ver o que sua velha amiga usava por debaixo do uniforme: o conjunto de lingerie preto que compraram no dia anterior.
— Ku... Kukkaku... você está usando isso por baixo do uniforme do colégio?
— Hã? E qual o problema? Não pode? Foi você quem me mostrou isso na loja e achei tão confortável. Meus peitos ficam no lugar certinho usando isso, então não vejo problema.
— Acontece que há lugares certos pra usar determinadas roupas, e...
— O que? Tem medo que algum marmanjo levante a minha saia? Ora Yoruichi, com quem acha que está falando? O primeiro que sequer pensar nisso não vai viver para contar.
— Caramba... Kukkaku, você é caso perdido mesmo! Fique aí que eu vou até a cozinha.
A gata saiu, deixando a porta com uma pequena fenda aberta. Do lado oposto, Ukitake vinha pelo corredor com um copo d'água em mãos. Com a camisa do uniforme para fora da calça e totalmente aberta com a gravata pendurada ao redor dos ombros, ele andava relaxado até o quarto que dividia com Byakuya e Kyoraku quando sentiu outra vertigem. Apoiou a mão livre na primeira coisa que sentiu por perto para não cair, esbarrando na porta, que escancarou, dando a ele a visão da bela Shiba seminua diante de seus verdes olhos...
つづくcontinua...
Nota¹ Tabi são as meias brancas e waraji as sandálias de palha usadas pelos Shinigamis.
