Capítulo 6 – Decepção

Izuru se sentia o pior dos homens. Nunca foi o tipo de pessoa orgulhosa, muito menos se deixava levar por coisas como uma soberba besta, mas aquela situação era diferente. Ouvir o nome daquele homem enquanto era beijado por quem amava foi como ter um espinho cravado no meio de seu coração. Se sentia destruído, ofendido, humilhado. Poderia ser comparado a qualquer um, mas ser confundido com o pior dos homens era uma dor praticamente impossível de medir ou controlar. Nojo. Era a única coisa que o loiro conseguia sentir naquele momento. Olhar para ela confusa e atordoada diante de si o irritou. Mais ainda. O fato de mesmo depois de sofrer como condenada ela ainda desejar estar com o patife o enojava de uma forma que ele não conseguia explicar. Nanao e Izumi permaneciam tensas. Não sabiam se era melhor saírem de lá ou aguardar alguma ordem do Capitão.

— Izumi-kun, Nanao-san. Acho que não preciso dizer a vocês para apagarem de suas memórias o que acabaram de ver aqui.

— Não se preocupe, Capitão. Nós não vimos nada. – Nanao concordou sem hesitar.

— Tirem esta mulher daqui imediatamente.

— Ah... não seja chato. Vem cá! – Matsumoto falava coisas desconexas e apoiava seus braços nos ombros dele. — Eu estava te beijando. Deixa de ser mau, Ichimaru. Não gosta mais dos meus beijos?

— Tirem logo esta mulher daqui! Eu não quero ouvir mais nenhuma palavra! – Ele gritou revoltado, tirando os braços dela de cima de si.

— Não se preocupe, Capitão. Eu vou levar a Rangiku daqui. – Nanao obedeceu lamentando o acontecido.

— Capitão Kira... o Senhor está bem? – Midorikawa perguntou muito preocupada.

— Me diga um único motivo para eu estar. – Respondeu ríspido. — Me deixe sozinho. Eu não quero ver ninguém.

— Eu sinto muito. Não devia ter perguntado algo tão óbvio. De qualquer forma, eu não queria deixá-lo só. O Senhor não está bem. Eu temo que possa fazer alguma loucura.

— Me deixe quieto, Izumi-kun! É uma ordem! Aliás... a partir de hoje quero que seja minha Tenente. Eu vou tratar das questões burocráticas deste assunto assim que eu puder. Agora me deixe só.

— Si... sim, Capitão...

Izumi saiu sem nada entender. Não queria deixar Kira sozinho, mas também não sabia como ajudar. O estrago que Rangiku causou foi grande e pegou o loiro de jeito. Izumi percebeu que seu Capitão estava apaixonado pela exuberante Tenente, e aquilo foi muito doloroso para ele. Resolveu ficar por perto para evitar que ele fizesse alguma besteira, pois não deixaria que ele se prejudicasse por conta de um amor não correspondido.

Desolado, Izuru caiu sentado apoiando suas costas no sofá. Apoiou os dois braços nos joelhos dobrados, e afundando a cabeça neles, chorou compulsivamente, envolto em uma dor que não conseguia dimensionar. Encostada do outro lado da porta, Izumi ouviu o pranto de seu Capitão e seu coração ficou pequenininho. Tinha vontade de invadir o escritório e dar seu ombro sincero para que o mesmo chorasse o quanto precisasse. Mas não podia. Recebeu uma ordem direta do mesmo para deixá-lo só, mas ficou feliz ao lembrar da última frase dita pelo loiro. Ele queria mesmo que ela fosse sua Tenente? Era difícil de acreditar, mas não pôde deixar de ficar alegre. Rumou até a cozinha, onde pessoalmente tratou de fazer um café fortíssimo e bastante amargo para ajudar o Capitão a se sentir melhor. Retornou assim que o café ficou pronto, e mesmo contrariando a ordem, se atreveu a entrar na sala, pois o faria tomar o café mesmo que fosse à força.

— Capitão Kira. Me desculpe por voltar tão rápido e desobedecer sua ordem, mas não posso deixá-lo sozinho. O Senhor não está bem. Precisa fazer algo para melhorar. Tomar este café irá fazer o Senhor se sentir melhor.

Ele nada respondeu, pois continuava do mesmo jeito: com a cabeça entre os joelhos e chorando como uma criança. Ver Izuru daquele jeito cortava o coração de Izumi, que sentou ao lado de seu Capitão, e colocando uma das mãos sobre os lisos fios claros ofereceu a xícara de café com a outra mão.

— Sei que está deprimido, mas precisa reagir. Não pode se entregar a dor assim. Mostre a ela que o Senhor é mais forte. Dê a volta por cima. Olhe, o Senhor tem uma Divisão inteira para cuidar. Vamos, beba isso.

O pranto de Izuru cessou por alguns momentos, e levantando brevemente a cabeça, pegou a xicara e começou a beber vagarosamente. Estava quente, forte e muito, mais muito amargo.

— Tá ruim... – Resmungou. — Horrível!

— O álcool é ainda pior. Sei que não sou ninguém para me meter na vida do Senhor, mas devia parar de beber. Há de concordar comigo que isso não está fazendo nada bem nem para o Senhor, muito menos para a Tenente Matsumoto.

— Por favor, eu gostaria que você não a mencionasse.

— Sei que a ama, mas de qualquer forma, deveria superar isso para o bem de todos. O Senhor não merece sofrer assim. Já passou por problemas demais.

— Você está certa. Se eu pudesse não sentir... Não sentir essa dor tão grande que eu sinto aqui dentro... – Disse triste, apontando para seu coração. — Mas não posso cobrar nada dela e nem culpá-la, afinal de contas ela não sabia dos meus sentimentos, mas eu sempre soube o que ela sentia em relação ao Ichimaru.

— Não fique assim, Capitão. Se quiser chorar, saiba que eu estou aqui. Não gosto de ver o Senhor assim. Me corta o coração. Olhe só... – Envolveu o rosto dele com as duas mãos, afastando a longa franja para vislumbrar seus dois olhos. — Seus olhinhos tão azuis agora estão vermelhos. É muita maldade. – Lamentou, usando seus polegares para secar as lágrimas dele.

— Izumi-kun... obrigado...

Abraçou a jovem Shinigami e chorou em seus ombros por longos minutos. Enquanto ele chorava, sua nova Tenente disse a ele que estava tudo bem, que o respeitava e que lhe tinha um carinho muito especial. Tão especial que ele podia considerá-la como uma espécie de irmã mais velha. O gesto nobre de Izumi emocionou ainda mais Izuru, que ainda trêmulo, levantou meio tonto, tirando uma caixa da gaveta de sua mesa.

— Anda, Izumi-kun. Fique aqui na minha frente.

Ela obedeceu, ficando de frente para seu Capitão, que abriu a caixa frete a ela e a mesma viu a insígnia de Tenente do Terceiro Esquadrão diante de si.

— Mas isso é...

— É para você. A partir de agora é minha Tenente. Acho que você merece.

Amarrou pessoalmente e imponente insígnia no braço esquerdo de sua mais nova Tenente e olhou para ela com orgulho, prometendo a ela que faria um comunicado oficial no dia seguinte. Depois que a jovem o deixou sozinho novamente ele tomou um banho e saiu da Divisão Três sem ser visto.

Na Divisão Dez, Nanao chegou trazendo uma embriagada Rangiku apoiada em seus ombros. Hitsugaya olhou a cena indignado, pois já estava de saco cheio do comportamento de sua Tenente nas últimas semanas. Ordenou que Nanao a levasse até o quarto e cuidasse da ressaca dela, porém seria a última vez que lhe daria algum crédito. A morena colocou a ruiva na cama e sentou ao lado, ficando lá esperando até que o efeito da ressaca acabasse. Olhou para a amiga e suspirou entediada sem acreditar que seu dia literalmente havia sido estragado por causa da burrada que ela havia feito.


Na loja, todos se sentaram em volta da mesa para tomar o café da manhã, porém um clima tenso e pesado se instalou durante a refeição. Por causa da madrugada conturbada que tiveram, eles começaram a se comportar de maneira fria. Ninguém disse uma só palavra durante o café, e todos se olhavam de maneira desconfiada, como se quisessem, literalmente, se matar. Ukitake não tinha coragem nem de olhar na direção de Kukkaku, e ela sentia o mesmo em relação a ele. Já Yoruichi lançava olhares assassinos contra Byakuya, que apenas ignorava tudo com sua expressão indiferente e sua maneira fria de agir. Kyoraku se limitou a ficar calado, temendo que também sobrasse para ele. Observando o clima esquisito, principalmente os olhares felinos de Yoruichi, e o fato de Byakuya não estar vestindo o uniforme do colégio, Kisuke resolveu perguntar de uma vez por todas o que estava acontecendo.

— Huhum... – Limpou a garganta, chamando a atenção de todos. — Aconteceu alguma coisa que eu não estou sabendo?

— Aconteceu sim. Aconteceu que eu não fico neste lugar nem um dia a mais. – Byakuya respondeu seco.

— O que foi que você aprontou, Yoruichi? – O loiro de chapéu questionou em tom acusador.

— Eu? Mas é claro... Tudo o que acontece automaticamente é culpa da Yoruichi. – Retrucou ofendida.

— Hipócrita... Agora vai dar uma de vítima para se safar.

— Cale a boca, Byakuya-bo! Eu gostava mais quando você falava menos.

— Eu não tenho mais nada pra dizer. Assim que tomar café vou procurar uma casa para morar.

— Mas e a escola? – Kyoraku o olhou duvidoso.

— Não tenho tempo para essa bobagem hoje. Ukitake, Kyoraku, vocês virão comigo também.

As palavras de Byakuya soaram como um bálsamo para os ouvidos de Ukitake. Morando em outro lugar ele finalmente teria a paz que tanto precisava. Não teria mais que se preocupar em dar de cara com Kukkaku nua ou que a mesma se jogasse por cima dele como louca. Os três Capitães saíram após terminarem o café, deixando Yoruichi, Kukkaku e Kisuke sozinhos na mesa. A Shiba seguiu Juushiro com o olhar enquanto o mesmo se afastava. Uma pontinha de incômodo bateu em seu coração. Um incômodo chato que ela não sabia de onde vinha.

— Bando de idiotas. Esses caras não tem jeito mesmo. Já arrumaram uma desculpa para se livrarem da escola logo no segundo dia. – Comentou a gata.

— E de quem será a culpa? Aposto todos os meus chapéus e a Benihime junto que vocês duas são as culpadas disso tudo.

— Está sendo injusto. Por que acha que nós somos culpadas? Se eles querem sair daqui então que saiam. Na verdade, estarão nos fazendo um favor. Ninguém merece morar numa casa cheia de machos pervertidos. – Kukkaku desdenhou irritada.

— Pois eu espero que você não esteja me incluindo nesse meio. Eu não tenho nada a ver com isso.

— Querem saber? Que se dane! Eu também não vou para merda de escola nenhuma hoje!

— Ma... ma... agora até eu virei um pervertido. – Kisuke lamentou entediado vendo a morena sumir de suas vistas. — O incomodado aqui deveria ser eu. E a propósito, Yoruichi, eu quero saber o que você aprontou para fazer o Byakuya tomar essa decisão.

— Eu não fiz nada. Só falei que a causa do mau humor dele era falta de buceta.

— Você ficou maluca?! Como pôde dizer isso na cara do Kuchiki?

— E o que você queria? Não tenho porque ficar aturando as grosserias e os abusos dele dentro do meu espaço. Se ele está incomodado então ele que se retire. Simples assim.

— Meu Deus... Eu só queria entender a dificuldade que vocês têm em conviver em harmonia.

— O problema é que existem pessoas insuportáveis cuja simples companhia se torna ainda mais insuportável e não há como conviver de forma saudável. Kuchiki Byakuya se encaixa perfeitamente nesta categoria.

— Eu desisto. Façam o que quiserem. – Falou derrotado, pegando sua xícara de chá e saindo, deixando Yoruichi sozinha na mesa.

— Homens...

Assim que saíram da loja de Urahara, os três Capitães olharam a rua em sua volta. Não era exatamente um bairro residencial, já que ali habitava uma loja, mas mesmo assim eles continuaram procurando. Vasculhar uma área grande a pé como humanos comuns não era tarefa fácil, por isso, Kyoraku acabou tendo uma ideia.

— Ei, dupla de bonitões, porque não saímos desses Gigais e procuramos pelo ar? Se continuarmos nesse ritmo, nunca vamos chegar a lugar nenhum.

— Ótima ideia, Shunsui! – Ukitake concordou imediatamente. — Com isso poderemos achar um lugar pra morar bem mais rápido.

— Mas onde vamos deixar esses Gigais?

— Relaxa, Kuchiki. Vamos deixar essas coisas na loja mesmo.

E assim os três fizeram. Deixaram seus Gigais na entrada da loja de Kisuke, fazendo o loiro ficar estático ao ver a cena. O dono da loja rapidamente recolheu os Gigais sem saber o que os três planejavam fazer. Não demorou muito para que os Capitães encontrassem uma casa perto da loja de Urahara. Era uma imensa mansão de pintura branca ornamentos luxuosos e detalhes finos. A faixada era enorme e a casa tinha uma placa de venda no portão. Byakuya olhou para a construção satisfeito. Não era qualquer coisa que o agradava, mas aquela casa realmente caiu no gosto do Capitão da Sexta Divisão.

— Então, Byakuya, encontramos? – Juushiro perguntou curioso.

— Claro. Vai ser essa mesmo. Não é muito longe da loja de Kisuke Urahara. Não que isso importe, mas é mais conveniente.

— E como vamos fazer? Vamos precisar do dinheiro deste mundo para adquirir uma casa por aqui. – Kyoraku comentou bem chateado. — Sinto muito, rapazes, mas eu não lembrei de trazer a minha carteira.

— Isso não vai ser nenhum problema.

Os veteranos ficaram com a cara no chão quando Byakuya tirou uma bolada de dinheiro da manga de seu shihakusho.

— Ku... Kuchiki? – Shunsui gaguejou. — De onde você tirou tudo isso?

— Isso não é importante. O importante agora é que vamos ter um lugar para ficar em paz.

— Mas tem uma coisa que eu não entendo nisso tudo. – Ukitake falou coçando o queixo. — Por que você fez questão de nos trazer junto?

— Por acaso vocês esqueceram de que a minha missão aqui é vigiar vocês? Não posso deixar vocês longe das minhas vistas.

— Mas se for esse o caso... então e quanto à Kukkaku-san? – Kyoraku mencionou. — Ela se encontra na mesma situação que nós e você deve vigiá-la também.

— Cale a boca, Shunsui! – Ukitake exclamou chateado.

— Opa... foi mal...

— Ela que faça o que quiser. Yoruichi Shihoin que cuide dela. Não quero esta mulher na minha casa nem morta. – O moreno disse seco.

Ukitake suspirou aliviado e rapidamente eles desceram de volta à loja de Urahara, onde mais uma vez entraram em seus Gigais. Foram andando até a mansão que avistaram e tocaram a campainha, sendo rapidamente recebidos pelo dono do local.

— Muito bom dia. No que posso ajudar os Senhores?

— Meu nome é Kuchiki Byakuya e nós estamos aqui porque queremos comprar esta mansão.

— Ah... Certo. Pois então entrem, sentem-se na sala enquanto vou mandar trazer um café para que possamos conversar direito sobre todos os trâmites e sobre qual será a forma de pagamento e também...

— Não tenho tempo para essas burocracias desnecessárias ou procedimentos irritantes. Nós três precisamos nos mudar para hoje. Isso significa que precisamos desta casa para ontem, portanto deixe de enrolar. Poupe o seu tempo e o nosso e me diga de uma vez quanto você quer. – O Capitão disse sério, balançando aquele enorme punhado de notas na frente do homem, que olhou espantado para tanto dinheiro.

— Mas... Senhor... Precisamos de um contrato primeiro. As regras dizem que...

— Pois danem-se as regras. Eu tenho dinheiro.

Juushiro e Shunsui se olharam espantados com a atitude do Kuchiki, e sem reação se questionaram...

— Juushiro... nós também temos dinheiro, não temos?

— Anham... temos. – Completou, ainda embasbacado.

Não levou muito tempo para que os Capitães fossem morar na nova mansão. No fim do dia o proprietário já havia desocupado a casa e eles trouxeram as poucas coisas que tinham no mundo dos vivos para a casa nova.


Rangiku despertou depois de dormir até quase meio-dia. Sua cabeça doía de forma infernal, e a linda Tenente sentia como se todos os neurônios de sua cabeça tivessem sido destruídos. Pegou pesado em misturar tantas bebidas, mas o que estava feito, estava feito. Olhou ao redor de seu quarto e ficou surpresa ao dar de cara com Nanao sentada, velando seu sono.

— Nanao? Por que você...?

— Estava acostumada a acordar e ver o Capitão Kira cuidando de você, não é mesmo? Pois saiba que depois do que você fez hoje, provavelmente ele nunca mais vai querer olhar na sua cara. – Revelou de forma direta.

— Que? Pera um pouco... o que foi exatamente que eu fiz?

— Claro... é natural que não se lembre, afinal, bêbados só fazem merda.

— Por Deus, Nanao! Fala logo! Você está me assustando.

— Já que tem tanta pressa em saber, vou te falar. Você agarrou o Kira e eu dei de cara com vocês dois se beijando no sofá da sala do Capitão. E sabe o que mais? Você chamou o Kira de Ichimaru na cara dele. Sabe o que isso significa? Você chamou o Kira pelo nome do homem que ele mais detesta neste mundo enquanto o beijava. E não era um simples beijo, era o beijo! Você estava praticamente devorando ele.

— Não pode ser! Diz para mim que isso é mentira! Eu não posso ter feito uma coisa dessa!

— Mas fez. E não faz ideia de como ele está arrasado. Olha, Rangiku, sei que não é da minha conta, mas eu tenho certeza de que o Capitão Kira está apaixonado por você.

— Nanao... não diga isso nem brincando! Se for mesmo verdade, então...

— Eu não tenho dúvidas. Deu para ver nos olhos dele, aliás, que olhos, diga-se de passagem. Pela forma como ele reagiu, tenho certeza de que ele te ama.

— Caramba... eu não creio que fiz isso! Como eu ia saber? A última coisa que eu queria no mundo era magoar o Kira. Sempre nos gostamos muito e não seria justo com ele.

— Pois sinto te informar que a merda já foi feita. O loiro não quer te ver nem banhada em diamantes.

— Não! Eu tenho que falar com ele. Preciso explicar que...

— E o que você vai dizer? "Poxa, me desculpa, mas eu gostei tanto de te beijar que acabei gemendo o nome de outro. Mas não se preocupe. Era apenas o Ichimaru Gin." Por Deus, Rangiku! Não piore mais as coisas.

— E o que eu faço? Deixo tudo como está? Não. Eu não quero perder o carinho dele.

— Não seja burra! Você já perdeu. E não foi apenas o carinho. Foi o amor dele que você perdeu.

— Não... eu não posso acreditar que eu fiz essa burrada.

— Pois você o chamou de Ichimaru bem na cara dele, e não foi só uma, mas sim duas vezes.

— Duas vezes?! Não brinca Nanao! Puta que pariu...

— É, Rangiku... sinto te falar, mas você fez uma merda das grandes e se prepare, porque o Capitão Hitsugaya está uma fera com você, e não estranharia se você fosse transferida ou até mesmo rebaixada desta vez.

— Não acredito! Que ódio! Só me faltava essa agora.

— Culpa sua! Quem mandou achar que a bebida resolve todos os problemas. Pois não resolve! Ao contrário. Para você só está piorando tudo. Acha que aquele traidor filho da puta do Ichimaru merece o seu amor? Uma lágrima sua? Ou merece que você se destrua por causa dele? Pois eu te respondo que não. Ele não merece!

— Você está certa em cada palavra que disse, e o Kira também não merece o que eu fiz com ele, mas eu não sabia o que dizia.

— É claro que você sabia. Você apenas falou o que veio do seu coração.

— Você está sendo muito dura comigo. Mas de qualquer maneira, eu preciso falar com ele. Não posso deixar as coisas assim.

— Só que ir atrás dele agora só vai piorar tudo. Ele ficou extremamente magoado e se te visse agora ele só ia sentir raiva. Deixe-o em paz. Vai ser melhor para os dois por enquanto.

Rangiku abaixou a cabeça. Estava muito triste. Triste por ainda pensar em Gin, por ainda desejar os beijos que trocaram poucas vezes. Estava destruída por ter magoado alguém que sempre lhe foi tão carinhoso e atencioso por causa de um amor que ela nem sequer sabia se era amor, ou uma atração ou gratidão qualquer. Nanao a deixou só, e a única coisa que a ruiva conseguiu fazer foi chorar compulsivamente.

Enquanto isso, no quartel da Divisão Três, Izumi foi até a sala de Kira, mas não encontrou seu Capitão. Aflita, a nova Tenente do Terceiro Esquadrão correu até o quarto e sem se preocupar com o fato de poder ser repreendida, adentrou com tudo no aposento e ficou ainda mais apreensiva ao ver que também não tinha ninguém. Tentou se concentrar para sentir a Reiatsu de seu Capitão, mas era como se o mesmo tivesse desaparecido daquele mundo.

— Capitão... Onde o Senhor está...? Não faça nenhuma besteira, por favor...

Ao mesmo tempo em que Izumi o procurava, Izuru estava no quarto cercado por uma barreira de Kido onde estava Momo. Visitar a amiga ferida era a única coisa que podia lhe dar um pouco de alento naquela hora difícil. Como sempre fazia, o loiro afagava as madeixas escuras de sua querida amiga e lhe dava bom dia. Naquela vez não foi diferente.

— Hinamori-kun, bom dia. Ou melhor, agora já é o período da tarde. Espero que tenha amanhecido melhor hoje. Quero muito te ver abrir os olhos e sair desta cama. Meu sofrimento não é nada comparado a dor que aquele maldito do Aizen causou a você. Mas temos que superar. Sabe, Hinamori-kun, hoje meu dia foi um inferno. Mesmo de longe Ichimaru Gin continua fazendo mal a todos. Esse canalha não merece o amor da Matsumoto-san e eu também não merecia ser comparado a ele. Isso poderia ter vindo de qualquer pessoa, mas...

— Kira-kun...

A voz fraca que saiu como um pequeno fio era a Reiatsu da inconsciente Momo tentando reagir. Mesmo em seu coma ela era capaz de ouvir tudo a sua volta. O contato feito através da Reiatsu surpreendeu o loiro, que sentado no chão, deu um pulo para ver como estava a amiga inerte.

— Hinamori-kun... Por acaso você...?

— Kira-kun... Eu ainda não voltei, mas quero que saiba que você precisa superar toda essa dor. Eu sei que você consegue. Não se deixe abater.

— Essa é a Reiatsu da Hinamori-kun. Obrigado, minha amiga. Pode estar certa de que eu irei me lembrar dessas palavras.

Ao sair da barreira, sua Reiatsu foi sentida por Rangiku de seu quarto. Pulou de sua cama e tentou procurá-lo, mas já era tarde, pois o loiro já estava longe. Usou shunpo para cobrir uma grande área e logo ele estava em uma floresta afastada do Seireitei. Saltou e começou a dar socos, chutes e a cortar as árvores com sua Zanpakutou. Gritava repetidas vezes o nome de Ichimaru, amaldiçoando o homem de falso sorriso e expressão cínica. Os gritos e o esforço físico o fizeram extravasar a raiva que sentia, mas nada era suficiente para fazer passar a dor. Decepção. Esse era o único sentimento que o loiro conseguia sentir. Mas por que estava tão decepcionado? Afinal eles sempre foram amigos e Rangiku não lhe devia nada. Sabia disso. Tinha ciência de que sempre seriam amigos, por isso nunca contou a ela sobre seus verdadeiros sentimentos. Se jogou no chão coberto pelas folhas das árvores, onde cansado, meditou sobre tudo o que tinha acontecido.

Nesse meio tempo, Izumi apareceu na Divisão Dez, dando de cara com Rangiku, que ainda procurava por Izuru nas proximidades.

— Ah! Izumi, não é? – Perguntou a ruiva ao esbarrar na jovem Shinigami de cabelo castanho. – Você viu o Kira? Eu preciso muito falar com ele!

— Isso sou eu que pergunto! Onde está meu Capitão? Eu senti a Reiatsu dele aqui agora a pouco.

— Vejo que ele foi rápido em promovê-la ao posto de Tenente. – Observou, ao ver a insígnia do Terceiro Esquadrão no braço esquerdo da garota.

— Pois se o Capitão me promoveu é porque acha que eu mereço. De qualquer maneira, não vou permitir que você chegue perto dele novamente.

— Escute, garota, este assunto é entre o Kira e eu e você não tem porque se meter.

— Deixe-o em paz! Já não foi o suficiente o quanto o magoou esta manhã? O Capitão desapareceu, e se alguma coisa ruim acontecer a ele a culpa vai ser toda sua! – Gritou acusadora.

— Olha só! Não pense que só por você ser uma Tenente agora tem o direito de falar comigo desta maneira. Você não tem o direito de me proibir de nada. Eu vou falar com o Kira e não será você quem irá me impedir.

— Pois que se danem as patentes! Não vou permitir que você machuque o meu Capitão de novo, entendeu?!

— Estúpida! – Rangiku gritou alterada, acertando uma bofetada na recém promovida Tenente, que quase caiu ao virar o rosto. — Vai negar que ama o Kira depois disso? Você é mesmo muito cínica!

Izumi virou o rosto de volta lentamente, encarando a mais alta com revolta. Fechou o punho direito com força e abriu a mão, aproximando-se rapidamente e acertando Rangiku com uma bofetada duas vezes mais forte que a fez cair sentada e tonta.

— Nunca mais se atreva a encostar em mim. Você não sabe de absolutamente nada. Cínica é você que gemeu o nome de outro homem enquanto beijava o meu Capitão. O que eu sinto por ele é um enorme carinho fraterno, e mesmo assim não lhe devo nenhuma satisfação. E repito que se alguma coisa de ruim acontecer com ele, espero que consiga viver em paz com sua consciência. – Falou séria e deu as costas, deixando Rangiku atônita no chão.

— Merda... MERDAAAAAAAAAAAA! – Exclamou Matsumoto, socando o chão com toda a força, onde uma enorme cratera foi aberta.


Na base de operações da Divisão Doze, Nemu prosseguia com sua pesquisa. Já havia chegado à solução mais plausível, mas para conseguir colocar seu plano em prática, a Tenente precisaria ir até o mundo dos vivos. Não tinha ideia de como fazer isso, então decidiu ir até a Divisão Oito pedir ajuda. Encontrou Nanao no escritório atolada de deveres por causa das irresponsabilidades e relaxamento de seu Capitão. A bela de óculos arredondados olhou para a sua colega, intrigada com o que ela fazia ali.

— Nemu-san? Algum problema?

— Nanao-san, preciso de sua ajuda para ir até o mundo dos vivos.

— Assim, de repente? Mas o que você precisa fazer lá?

— Eu preciso... pagar uma dívida com a pessoa que me tratou bem neste mundo, que me tratou como uma pessoa e não como uma coisa.

— Um humano?

— Não... um Quincy.

— Espere... está falando daquele garoto Quincy que invadiu o Seireitei e ajudou a resgatar a Kuchiki-san?

— Ele mesmo.

— Hum... entendi. Ele é muito bonito. – Nanao comentou maliciosa. — Aposto que ele tocou seu coração, não foi?

— Que? Eu não entendo do que está falando.

— Ah, bobinha... – Deu tapinhas no ombro da amiga. — Vai dizer que você não reparou o quanto ele é lindinho?

— Ainda não entendo do que fala, e não é por isso que quero ir atrás dele. – Respondeu fria e inexpressiva.

— Ah é... – Suspirou, pousando o livro sobre a mesa. — Então... por que precisa ir até ele?

— Descobri que depois da luta com Mayuri-sama ele perdeu seus poderes de Quincy. E para que ele recupere seus poderes, é necessário receber uma flecha de um outro Quincy muito próxima do seu próprio coração.

— Inacreditável...

— Então? Vai me ajudar?

— Pode deixar comigo. Eu irei ajudar. Considere feito. – Sorriu sincera.

つづくcontinua...