Capítulo 7 – Provocação
Na loja de Urahara, os três Capitães arrumaram suas últimas coisas para a mudança, Yoruichi, Kisuke e Kukkaku observaram atentos, e em dado momento, o loiro não pôde deixar de perguntar...
— Byakuya, isso tudo é realmente necessário?
— É claro que sim. Se você gosta de viver rodeado por essas duas mulheres geniosas e encrenqueiras o problema é seu, mas não sou obrigado a aturar crises de TPM dessas duas.
— Almas menstruam? – Kyoraku perguntou com cara de bobo olhando para Juushiro.
— E como eu vou saber? Não é melhor perguntar a uma mulher?
— Desde que não seja nenhuma dessas duas...
— Por que vocês não socam suas línguas no...
— Kukkaku!
— Por que me interrompeu, Yoruichi? É isso mesmo! Que soquem lá mesmo! Se esses idiotas querem se livrar de nós, já vão tarde. Não sabe o favor que estão nos fazendo. Não é nada pessoal, Shunsui, mas não posso dizer o mesmo desses dois! – Falou seca, apontando para Ukitake e Byakuya.
O platinado lançou sobre a morena um olhar descrente, e sem hesitar virou as costas para ela. Ver os longos e claros cabelos se agitarem e sumirem de suas vistas inquietou seu coração. Mas por que ela sentia tal incômodo irritante se o que ela mais desejava era vê-lo longe, ou melhor, não vê-lo? Deu um cascudo em si mesma para ver se deixava de pensar besteiras, e Kisuke a observou, achando que ela estivesse mais louca ainda.
— Está tudo bem, Shiba-san?
— Tudo ótimo! Muito melhor agora depois que aqueles babacas meteram o pé daqui.
Kisuke deu de ombros e foi atrás de Byakuya, alcançando os três rapidamente.
— Pelo menos posso saber onde irão morar? Será necessário para qualquer emergência.
— Apenas venha com a gente.
Assentiu quase sem ar quando chegaram e ele deu de cara com a imensa e luxuosa construção, que mesmo sendo tão perto de sua loja, ele nunca sequer tinha reparado na grandiosidade da mesma.
— Desculpe, Kuchiki, mas não acha tudo isso um grande exagero? – Questionou chocado, olhando para o moreno.
— Não. Eu sempre morei em uma mansão e não vou me contentar com menos do que isso.
— Sim... claro. Perdão pela minha humilde residência não atender às expectativas de alguém tão nobre como você.
— Não sou tão superficial como pensa, Kisuke Urahara. O que me levou a comprar uma casa e sair às pressas foi uma pessoa chamada Shihoin Yoruichi a quem você conhece perfeitamente bem.
— Acredite, eu posso entender isso. Até eu ficaria revoltado se uma mulher falasse na minha cara que o meu mau humor era por falta de buceta.
Byakuya olhou para Kisuke como se essa simples ação fosse suficiente para matar o loiro intrometido.
— Cof cof... – Tentou disfarçar. — Preciso voltar para cuidar da minha loja. Só tome cuidado para não se perder aqui dentro. – Brincou para não perder o costume.
Ao voltar o loiro de chapéu Foi questionado pelas duas amigas loucas sobre a nova casa de corrida por Byakuya.
— Como é a casa?
— É grande?
— Tem quantos quartos?
— Casa? Uma mansão, melhor dizendo. É gigantesca e também tem uma imensa piscina.
— PISCINA?! – As duas exclamaram uníssonas, fazendo com que Kisuke as olhasse de canto.
— Olha... Vocês nem pensem...
Ambas se olharam com ar de cumplicidade já tramando o que iriam aprontar para aqueles três...
A noite chegou na Soul Society e Izuru ainda não havia retornado à Divisão Três. Todos já estavam aflitos em volta de Izumi, que mais aflita ainda, era questionada pelos outros membros da Divisão.
— Tenente Izumi, o que faremos? Não seria prudente organizarmos uma busca pelo Capitão Kira? Quais são suas ordens?
— Acalme-se. Vamos esperar mais um pouco. Eu tenho confiança de que ele vai voltar logo.
— Quem aqui vai organizar uma busca?
A voz de Izuru ecoou forte quando a silhueta do mesmo surgiu diante de seus homens. Todos olharam aliviados ao verificar que ele estava bem. Izumi respirou aliviada ao ver que nada lhe tinha acontecido. Ela deu alguns passos à frente, ficando de frente para o loiro.
— Que bom que está bem, Capitão. Ficamos muito preocupados.
— Sinto muito se causei problemas a vocês. Eu apenas sai por aí para treinar e gastar energia. Nada demais. Além disso estou me sentindo bem melhor agora.
— Verdade?
— Sim. Agora vou para o meu quarto e o dia está encerrado por hoje. Vocês já podem descansar.
— Sim senhor! – Assentiram juntos.
Todos foram para seus quartos, mas o que ninguém sabia era que Rangiku havia entrado sorrateiramente na Divisão, ocultando seu Reiatsu, apenas esperando uma oportunidade para falar com Kira, que também foi para seu quarto, mas nem de longe pensava em descansar. Pelo contrário. Queria ficar ainda mais cansado. Cair exausto para esquecer de vez as decepções que sentia dentro de si. Jogou o Haori em um canto e abriu seu shihakusho ao meio, deixando toda a parte de cima de seu corpo exposta. Posicionou-se frente à sua cama e deitou de bruços no chão, onde começou a fazer uma série incessante de flexões. Queria chegar ao cansaço extremo. Drenar cada gota de sua energia para desabar e apagar como se estivesse dopado das desilusões que se tornaram rotineiras. Ainda invisível envolta por uma barreira de Kido, Rangiku adentrou no aposento e deu de cara com a cena. Concentrado na contagem, que para ele já havia passado das 1300, o loiro instantaneamente sentiu a presença da ruiva, mas preferiu ignorar para ver até quando ela pretendia continuar com o joguinho.
A bela Tenente observou toda a extensão do belo corpo masculino por longos instantes. Olhava com atenção a forma como seus alvos e definidos braços se curvavam e esticavam em movimentos rápidos e sua longa franja se movimentava no ritmo de seu pesado exercício. Cada vez que seu rosto subia e descia devido a contração de seus braços, uma gota de suor caía no chão, como se cada uma delas fosse uma parte de sua energia se esgotando. Uma coisa estranha, uma sensação forte tomou conta de Rangiku, que parecia em transe ao observar o loiro. Jamais imaginou que aquele uniforme pudesse ocultar um corpo tão divino. Poderia passar dias, semanas, apenas admirando tal beleza que ela jamais pensou que seu amigo pudesse ter. Céus, ele quente, muito quente. Ela apenas se perguntava como nunca tinha enxergado os belíssimos atributos dele antes. Um calor intenso tomou conta de seu corpo impedindo-a de pensar.
— Por quanto tempo pretende ficar oculta usando um Kido tão ridículo? – Disse calmo ao ficar de pé bem na direção onde Rangiku estava.
A ruiva ficou sem reação ao ser descoberta e só restou a ela desfazer sua barreira. Quase ficou sem ar ao vê-lo de pé frente a si. Contemplar aquele perfeito corpo encharcado de suor que o fazia brilhar era mesmo de tirar o fôlego.
— Já devia saber que esse tipo de Kido não iria funcionar em alguém como você. – Respondeu a Shinigami ao voltar a si.
— Não acredito que teve coragem de me procurar. – Falou seco e inexpressivo.
— Não seja injusto. Eu precisava te explicar que...
— Explicar o que? – Questionou indiferente, voltando a deitar no chão e a fazer seus exercícios. Você não me deve nada e não há o que explicar.
— Eu apenas queria que soubesse que a minha intenção nunca foi te magoar. Foi culpa da bebida. Eu não sabia o que dizia. – Tentou se justificar, mas só conseguiu deixar Izuru com ainda mais raiva.
Mais uma vez levantou de onde estava, parando perigosamente na frente da ruiva. Continuou se aproximando até que ela deu alguns passos para trás, mas foi obrigada a parar quando a parede a impediu de continuar recuando. O loiro levantou o braço direito apoiando a mão na parede bem ao lado da cabeça de Rangiku, que se sentiu encurralada.
— Detesto gente que faz merda e coloca a culpa na bebida. A única coisa que você fez foi dizer a verdade, falar aquilo que estava confuso em seu coração. O que acabou comigo foi apenas ter sido confundido com aquele canalha, então poupe-me do seu cinismo.
O tom do loiro era calmo e sua voz baixa. Aquela voz grave e calma falando pertinho fez Rangiku arfar, tremer e engolir um suspiro.
— Kira... Sei que ficou chateado comigo por causa disso, mas não foi minha culpa...
— Não estou te culpando por ter dito a verdade e nem poderia ser injusto a ponto de fazer isso. Não se pode mandar no coração. Eu sei disso melhor do que ninguém, mas não me venha com essa de que a culpa foi da bebida, porque isso eu não aceito. Eu preferia que você estivesse sóbria... pelo menos assim poderia achar que era mentira e que você não amasse mais aquele desgraçado.
— Eu sei que você está certo e que é errado colocar a culpa no álcool... Mas eu não quero que nada mude entre nós por causa disso. Quero que continuemos sendo os grandes amigos que sempre fomos.
— Eu não quero ser indelicado com você, mas não pode me pedir algo assim. Saia. Eu não quero mais te ver, e agradeceria se não me procurasse mais.
— Espere um pouco, Kira! Não acha que está sendo muito radical? Eu não queria que as coisas ficassem assim entre a gente.
— O que você quer? Acha que as coisas serão fáceis para mim depois disso? Que tudo vai continuar sendo como antes?
— Eu só quero que...
— Eu sei o que você quer. E será um grande prazer dar a você...
Usou a mão apoiada na parede e pegou a cabeça de Rangiku num movimento rápido, ao passo que a outra mão a envolveu pela cintura, colando seu corpo ao dela e dando-lhe um quente e audacioso beijo. Tão invasivo e excitante que ela nem ao menos teve tempo para reagir ou entender o que estava acontecendo. Apenas se deixou levar, colocando suas mãos na nuca, descendo pelos largos ombros até as costas, sentindo a maciez gostosa daquela pele suada sendo degustada por seus dedos. Ele aprofundou mais o beijo, fazendo sua língua trabalhar em ritmo frenético dentro da boca feminina. Ele não tinha o que sentir. A amava e respeitava, e mesmo estando chateado, era incapaz de sentir raiva ou beijá-la por despeito. Fez isso por amor, mesmo aquele podendo ser apenas o último. Para Rangiku era tudo muito diferente. Por toda sua vida, os poucos beijos que trocou foram sempre com Ichimaru Gin. Mesmo assim eram beijos frígidos e sem emoções, trocados apenas com o único propósito de satisfazer os perversos devaneios dele. Sentiu com Izuru algo novo, diferente. A cada choque entre suas línguas seus sentidos eram testados, e sua intimidade já reagia de forma desejosa. Sentiu-se molhar como nunca antes, e seu corpo estremecer com a forma como ele lhe tocava a cintura e alisava seus volumosos cabelos com intensidade, porém cuidado. Não tinha como não comparar. Izuru era audacioso, mas doce e cuidadoso ao mesmo tempo. Gin não a respeitava, não lhe tinha apreço, e se tinha, sempre fazia questão de nunca demonstrar. Lembrou da manhã daquele dia, quando bêbada, agarrou o loiro. Podia ver as coisas com mais clareza e finalmente saber como era receber um beijo apaixonado, carregado de ternura e apreço. Sua genitália latejava de desejo, e suas mãos se aventuraram pelos forte e macio peitoral do rapaz, chegando ao abdômen e parando estrategicamente no laço de seu obi, que ela agarrou com firmeza e necessidade extrema. Neste momento, o Capitão interrompeu o beijo, se afastando dela de forma gentil.
— Acabo de devolver a você o beijo que me deu mais cedo. Agora, por favor, vá embora. Eu só preciso de um pouco de paz na minha vida.
— Por que isso? Por que me provoca assim? – Lamentou.
— Não é provocação.
Possessa, Rangiku apenas concordou e saiu da Divisão Três quase em prantos, e excitada, muito excitada. Não podia culpá-lo por aquilo e nem queria, afinal, ele beijava bem, mais tão bem, que a única coisa que ela desejava era muito mais daquilo. Ao chegar em sua Divisão, foi confrontada por Hitsugaya, que de pijama a interrogou.
— Matsumoto... fugiu de novo? Não acredito que andou bebendo essa noite de novo.
— Não senhor. Eu juro que desta vez não coloquei uma gota de álcool para dentro do meu corpo hoje.
— Tá, tá! Eu acredito. Vá dormir agora.
Sem alternativa, ela foi dormir, esperando que o cansaço a fizesse pegar no sono...
Mais um dia amanheceu. Byakuya, Ukitake e Kukkaku chegaram à escola, mas Kyoraku estava atrasado para seu trabalho na loja de Urahara, que conformado, apenas suspirou de tédio, já sabendo que algo assim aconteceria. Os Capitães chegaram juntos, mas a morena quase se atrasou. Os três voltaram a ser alvos de olhares curiosos, já que faltaram a aula logo no segundo dia. Ichigo nem se deu ao trabalho de questionar, temendo ser surrado pela bela Líder do Clã Shiba. Enquanto esperavam a chegada da Sensei, Orihime observava atentamente o Shinigami sentado na carteira ao lado. Byakuya lia um livro tentando ignorar tudo a sua volta, ainda sem se conformar com o fato de ser obrigado a estar ali. Contemplava com atenção a beleza do moreno, tentando decifrar um pouco de sua personalidade tão fechada e enigmática. Não era segredo para ninguém que Rukia e Byakuya não eram irmãos de sangue, por isso, Hime não se incomodou em pensar nas razões que os faziam ser tão diferentes. Distraído em sua leitura, o Capitão não percebia a agitação a sua volta, e aos poucos os outros alunos foram chegando, principalmente Chizuru, que berrando, interrompeu os pensamentos da gentil ruiva enquanto gritava seu nome freneticamente ao mesmo tempo em que a puxou de pé e a agarrou por trás, amassando seus avantajados seios.
— ORIHIMEEEEEE! – Exclamou eufórica. — Finalmente consegui pegar você! Coisa linda. Você tão perfeita.
A garota continuou gritando, fazendo Byakuya arquear uma sobrancelha sem gostar nada do que via e ouvia. Levantou de seu lugar, e cruzou os braços frente as duas garotas. Notou a expressão incomodada e desesperada de Orihime, e os gritos de Chizuru, bem como sua atitude eram inadmissíveis aos olhos do Capitão.
— Solte a garota. – Ordenou seco em tom baixo, surpreendendo Orihime.
A curta frase dita pelo moreno atraiu a atenção de Chizuru, que olhou para ele curiosa. A expressão séria e fechada do Nobre Capitão amedrontou a garota, que instantaneamente soltou Orihime, que sentiu um alívio imediato ao ser libertada do agarre de sua excêntrica amiga, que saiu dali com rapidez, deixando os dois quietos.
— Eto... obrigada por isso.
— Não tem porque agradecer. – Sentou novamente em seu lugar. — Apenas me livrei de um incômodo. O escândalo daquela garota não me deixava ler em paz.
— De qualquer forma, sinto muito. Você deve estar pensando que aqui só tem loucos, mas a verdade é que...
— Sim. É exatamente o que estou pensando. Por que permite que te agarrem de forma tão íntima sem reclamar de nada? Se te incomoda, apenas se imponha e a coloque em seu devido lugar.
— Você está certo, mas não posso fazer isso.
— E o que a impede?
— Somos amigas. Não tenho coragem de ser indelicada com ninguém ou desprezar o carinho que ela tem por mim.
— Isso não é carinho. É abuso. Esse tipo de comportamento e extremamente desrespeitoso. Você parece ter sido feita na mesma forma de Juushiro Ukitake. Ambos são gentis demais para serem indelicados, mesmo se estiverem sendo desrespeitados.
— Você está certo. – Ela sorriu para ele. — Acho que faz parte da minha maneira de ser.
— Sei que é gentil, mas as pessoas se aproveitam disso para abusar da sua boa vontade.
— Hum... – Ela apenas murmurou em resposta.
Ichigo, Ishida e Sado observaram pasmos a forma como Byakuya deliberadamente defendeu Orihime. Jamais pensaram que o Kuchiki se preocuparia em tomar a frente para defender alguém, mas era fato que a atitude impertinente de Chizuru o incomodava. Bem perto deles estava Ukitake, que sentado na primeira carteira, mais uma vez estava rodeado de garotas curiosas, que além de admirarem sua beleza também pegavam em seu cabelo toda hora, fazendo perguntas do porquê de suas madeixas serem brancas, e, o mais curioso, suas sobrancelhas serem pretas. Se maravilhavam com os modos gentis e o jeito fofo de ser do platinado, que mesmo se sentindo envergonhado, respondia a todas elas com um sorriso. Do outro canto da dala, Kukkaku avistava tudo aquilo com o estômago embrulhado. Não sabia como as humanas podiam ser tão idiotas e também nem interessava. A cada segundo que via aquelas garotas com cara de apaixonadas suspirando pelo Capitão da Décima Terceira Divisão na cara dura sua raiva aumentava até que, sem conseguir mais se controlar, levantou bruscamente, se aproximando deles como um raio. Kukkaku parou frente a eles com as mãos na cintura e uma expressão indagadora. Uma aura avermelhada que somente era vista por Ukitake envolvia o corpo da mulher.
— Será que dá pra parar com essa palhaçada?! Não cansam de ficar aí babando por esse idiota? Vocês vem para a escola para aprender ou para ficar caçando homens? Sumam!
A atitude rude da morena assustou as estudantes, que estavam prestes a sair correndo para seus lugares quando Ukitake interviu.
— Não deem importância a esta senhora. Nós não devemos nada a ela. Vamos continuar conversando até a aula começar, está bem?
— "Senhora"? Está me ignorando? – Ela disse ainda mais irritada.
— Garotas, vocês me dão licença por um minuto?
— Ah... É claro que sim, lindo. – Responderam juntas.
— Vamos conversar um pouco lá fora. – Disse sério, puxando a linda mulher pelo braço.
— Aí! O que você está fazendo? – Reclamou ao soltar-se dele. Qual é o seu problema?
— Sou eu que pergunto qual é o seu problema! Por que tudo te incomoda? Você não tem nenhum direito de opinar sobre com quem eu devo ou não devo falar.
— Você está adorando isso, não é?
— Não sei do que está falando. Seja mais clara. Se você falar em código eu não tenho como entender.
— Agora se faz de desentendido? Você está adorando ficar rodeado de 'aborrecentes' humanas cujas calcinhas ficam molhadas só de olhar para você.
— E no que isso te incomodaria? O que eu falo com aquelas garotas é algo inocente, sem nenhuma má intenção. Você está sempre vendo maldade onde não existe.
— Como sempre a errada sou eu. Imagino que seu ego esteja chegando na estratosfera agora.
— É impressionante como você sempre pensa o pior de mim. Não pode falar pelos outros. Não está na mente daquelas jovens para saber o que elas sentem em relação a mim ou não, então não fale o que você não sabe e me deixe em paz.
Deixou a bela morena para trás e voltou ao seu lugar. Momentos depois, a professora chegou e a aula transcorreu sem maiores problemas. Juushiro pediu ajuda à Misato para que ela lhe explicasse coisas que ele fingia não entender, pois queria estudar aquela humana. A professora sorria radiante enquanto falava com ele. A companhia do platinado era bastante agradável e seu sorriso e gentileza encantadores. Kukkaku olhava para aquilo tudo com ainda mais raiva, e estava com vontade de voar em cima dos dois depois de quebrar o lápis que usava para anotar a matéria.
— Quem ele pensa que é para ficar daquele jeito com a professora? Que ódio! Como esse homem me irrita! Ele está me provocando! Só pode ser isso. – Falou mordida para si mesma.
Enquanto a Shiba continuava reclamando mentalmente sem tirar os olhos dos dois, Ukitake tirou um lenço de seu bolso e tossiu nele, ação que foi percebida por todos que sabem sobre a sua doença, incluindo Kukkaku.
— Juushiro-kun! Está tudo bem?
— Ah... sim! Não se preocupe com isso. Eu apenas me engasguei. – Disse nervoso, escondendo rapidamente o lenço cheio de sangue atrás de si.
— Menos mal. Eu te achei um pouco pálido agora. – Respondeu carinhosa, colocando as mãos suavemente sobre a testa dele. — Será que está com febre?
— Não. Eu estou bem. De verdade. E a propósito... acho que já está na hora do recreio.
— Tem razão! Fiquei tão distraída que não percebi. Certo, cambada, hora do recreio! Encham a pança, mas não se escondam até a próxima aula!
Felizes, os estudantes foram comer enquanto Ichigo e os outros ficaram na sala, para a surpresa de Ukitake.
— Por que todos vocês ficaram? Devem estar famintos. Por que não foram comer?
— Está se sentindo bem, Ukitake-san? – Questionou o ruivo.
— Ah! Fala isso por causa daquela minha tossezinha de agora a pouco?
— Claro. Você sabe que não é apenas uma "tossezinha" – Byakuya rebateu.
— Bem, eu já estou acostumado. Me sinto bem. É sério.
— Tomara mesmo. Cuidado para não ficar desmaiando por aí.
— O sempre tão doce e gentil Byakuya... – Ichigo comentou, vendo o belo moreno se afastar.
O Capitão passou direto pelo corredor, ignorando o fato de Kukkaku estar atrás da porta ouvindo a conversa de instantes atrás. Ukitake não saiu da sala, pois resolveu comer por lá mesmo e terminar a tarefa. Ishida ficou na sala também, porque iria continuar lendo o livro que ainda não tinha terminado.
— Não vai sair para comer com os outros? – Perguntou o Quincy.
— Eu poderia fazer a mesma pergunta a você. – Rebateu o Shinigami.
— Tem certeza de que está bem, Ukitake-san?
— Tenho sim.
— Então por que não foi aproveitar o recreio lá fora?
— Porque gostei muito dessa matéria e queria terminar o exercício que Misato-sensei passou.
— Entendo. Em todo o caso, eu quero que saiba que se não estiver se sentindo bem pode nos dizer.
— Não se preocupe. É sério. Sei lidar com a minha doença e eu também não quero incomodar ninguém.
— Não diga isso. Não é nenhum incômodo. Então divirta-se com a sua tarefa e se precisar de ajuda pode me perguntar.
— Tudo bem. Muito obrigado, Ishida-kun.
Durante o recreio, Byakuya estava aproveitando o seu lanche calmamente quando Orihime o avistou sentado em um dos imensos bancos de concreto. Aproximou-se do líder do Clã Kuchiki com o seu melhor sorriso e o deixou confuso com sua atitude.
— Podemos lanchar juntos de novo? – Perguntou meiga.
— Faça o que quiser. – Ele respondeu indiferente.
Orihime olhava como Byakuya degustava uma típica obento japonesa. Nela tinha tudo de mais gostoso e tradicional da culinária japonesa, como yakisoba, tenpura, sushis e sashimis, e também odangos de sobremesa. Uma invejável marmita. Os acinzentado olhos da jovem brilharam ao ver os modos sutis e a maneira educada como Byakuya comia, totalmente oposto dos maus modos da grande maioria dos garotos a sua volta. Ele era refinado, culto, e se não fosse por sua personalidade fria, talvez ele fosse uma companhia tão agradável quanto Juushiro Ukitake. Seus olhos brilharam mais ainda ao verem os espetinhos de odango.
— O que houve? Não vai comer seu lanche?
— Ah sim! É que eu estava admirando o seu. Esses odangos parecem deliciosos.
— Ouvi falar que esses doces são muito caros e que só se comem no final do ano.
— Exato! Por isso mesmo estou impressionada. Como conseguiu?
— Com dinheiro tudo se torna muito mais fácil.
— Oh...
— Mas não precisa ficar olhando com essa cara de pidona. Posso dar a metade a você. Veja, aqui tem dois espetos.
— É sério? – Disse eufórica. — Obrigada!
Empolgada com esse gesto gentil do gélido Capitão, Orihime inconscientemente o abraçou, gesto esse que surpreendeu o moreno. Os inocentes braços femininos em volta de seu pescoço, as mãos dela envolvendo seus cabelos e seu rostinho tão perto do dele... Tudo isso por um momento mexeu com o Kuchiki. Orihime era doce, meiga, e tinha um sorriso capaz de comover até o mais gelado coração.
— Bem... não precisa agradecer. Apenas coma. – Ele falou um tanto sem graça, quebrando o abraço lentamente.
— Sim. Me desculpe. Acho que me excedi.
— Não tem problema...
Ver a garota comer aquele doce com tanta paixão e entusiasmo trouxe um sentimento de paz para Byakuya. A tempos não se sentia tão bem, e essa era a primeira vez que isso acontecia desde sua chegada ao mundo dos vivos. Os olhos brilhantes, o sorriso inocente e puro por um segundo o fizeram tremer. Não negava que a garota era mesmo linda e adorável, e sua companhia deixou de ser um incômodo para ele e até se tornou algo bom. Quase no fim do recreio, Ukitake saiu da sala e foi atrás de Byakuya.
— Com licença, Kuchiki. Se já terminou de comer, eu preciso dar uma palavrinha com você, Orihime-chan não se importa?
— Eu? Não. Imagine. Vocês podem conversar à vontade. – A jovem sorriu ao sair.
— É uma menina encantadora, não acha? – O platinado comentou sem perceber.
— Quem?
— Orihime-chan. Você estava com ela, então porque pergunta?
— Você me procurou para falar de algo importante ou de mulheres?
— Eu quero falar sobre a Misato-sensei.
— Então é sobre mulheres. Não me diga que se apaixonou pela professora?
— Não é nada disso. Você pirou? Eu quero dizer que tem algo estranho nela.
— E o que seria?
— Reiatsu acima do normal. Percebi isso nela e em outras duas amigas do Ichigo-kun.
— Fala daquela garota dos cabelos curtos e da outra que ataca as mulheres por trás?
— Exatamente. Acho melhor ficarmos de olho nelas.
— Se nem mesmo Kurosaki Ichigo, que convive com elas, se preocupou, porque nós iríamos perder nosso tempo?
— Eu ouvi do Ishida-kun. Ao que parece, Ichigo-kun é péssimo para detectar esse tipo de coisa.
— De qualquer forma os amigos dele podem resolver.
— Byakuya... não é essa a questão. Elas até podem virar alvo de hollows. Não podemos negligenciar isso.
— Então resolva você. Eu não vou me meter.
— Como sempre é impossível falar com você.
Chateado, Ukitake deu de ombros, deixando o seu colega Capitão sozinho.
No quartel da Décima Terceira Divisão, enquanto cuidava das questões burocráticas do Esquadrão, Kyone ficou assustada e deveras preocupada ao abrir uma das gavetas e perceber que Ukitake havia esquecido sua caixa de remédios. Correu como um raio, passando pela Divisão Doze, onde quase esbarrou em Nemu.
— Tenente Kurotsuchi? Me desculpe! Eu estou com pressa.
— Aconteceu alguma coisa para te deixar assim?
— É algo urgente. Acabo de descobrir que meu Capitão foi para o mundo dos vivos sem levar os seus remédios.
— Mas e agora? O que você vai fazer?
— Vou atrás do General Yamamoto. Preciso da permissão dele para levar os remédios do meu Capitão o mais rápido possível.
— E eu poderia ir junto?
— Mas o que a Tenente iria querer fazer lá?
— Se quiser posso escolta-la, caso alguma coisa aconteça, e também preciso coletar alguns dados no mundo dos vivos.
— Então você pode vir comigo falar com o General?
— Mas é claro. Podemos ir agora mesmo.
As duas foram até o quartel da Primeira Divisão onde foram recebidas por Yamamoto. Kyone explicou a ale o acontecido.
— E foi isso, Senhor. O Capitão Ukitake não pode ficar sem os seus remédios. Eu estou acostumada a cuidar dele. Por favor, Senhor, deixe que eu vá até lá para levar os remédios do meu Capitão.
— Entendo. Neste caso, eu permito que você e a Tenente Kurotsuchi partam para o mundo dos vivos.
E mesmo sobre os protestos de Mayuri, Nemu acabou acompanhando Kyone até o mundo real.
Na Divisão Dez, Rangiku cochilava no sofá do escritório. Estava exausta das tarefas diárias do Esquadrão, por isso pegou no sono rapidamente. Seu sono era tão pesado e intenso, que a bela sonhou.
Deitada sobre um tapete de flores, a Shinigami repousava. Abriu os olhos com cuidado, e surpresa, deparou-se com Ichimaru Gin, que lhe estendia a mão para que ela se levantasse, acompanhado de seu largo e traiçoeiro sorriso, embora mantivesse os olhos fechados. Ao ficar de frente para o Ex-Capitão, sua surpresa foi maior quando ele abriu os olhos. Aquelas orbes avermelhadas, medonhas, insinuantes... e malignas. Não gostava dos olhos de Gin. Seu olhar remetia a algo ruim, um incômodo que ela não conseguia explicar. O homem estreitou o olhar e sem avisar, beijou a Tenente lascivamente, de forma possessiva e invasora, tomando para si não apenas os lábios, como também o ar da linda mulher. Sem demora, abriu o shihakusho da ruiva, e de forma nada gentil, apalpava os grandes seios de forma voraz, causando dor em Rangiku, que assustada, o afastou e arrumou suas roupas antes de sair correndo dele. Em seu caminho, Izuru apareceu, e ela não perdeu tempo. Abraçou o amigo sem demora, e o mesmo a confortou com todo o seu carinho. A envolveu em seus braços de forma protetora, e com suas mãos acarinhava os volumosos cabelos ruivos. Rangiku sentiu um alívio. Uma sensação de segurança tão boa tomava conta de si que ela não podia se imaginar viver sem ela. Tal bem-estar só era conseguido através de sua amizade com o loiro. Romperam lentamente o abraço, e a Tenente o olhava ainda com os olhos marejados. Colocou a mão no rosto de Kira, afastando a longa franja, como sempre fazia, para ter a visão completa de seus olhos. Lindos olhos. Era o que Rangiku achava. Totalmente opostos aos de Ichimaru, os olhos de Izuru além de possuírem a bela cor do céu, eles eram transparentes, sinceros, puros, honestos, e embora tristes, transmitiam o fundo de sua alma e toda a bondade e determinação que nela havia.
Um singelo sorriso apareceu nos lábios dele, sorriso este que Rangiku conhecia bem. Já sabia o que ele queria dizer quando sorria. Ele lhe dizia para que ela não chorasse, pois tudo ficaria bem. Não precisava temer a presença do fantasma de Ichimaru Gin, pois ele estava ali para confortá-la o quanto ela precisasse. Com cuidado secou as lágrimas que molhavam o bem desenhado rosto e lamentou a tristeza vinda de seus claros olhos. Pousou um beijo doce em seu rosto seguido de um leve sorriso destinado a ela. Seu corpo reagiu, e antes que ela percebesse, a mesma já tinha unido seus lábios aos lábios do belo loiro.
Assustada, Rangiku deu um salto do sofá ao acordar, batendo de cara no chão. Não podia acreditar no sonho que acabara de ter. O que aquilo poderia significar? Sem resposta, a Tenente levou as duas mãos ao topo da cabeça, e em cima do tapete onde estava, caiu em prantos.
つづく continua...
