Capítulo 8 – Depressão

O pôr-do-sol tingiu o céu de laranja no final daquela tarde. Na saída do colégio, os estudantes caminhavam calmamente até suas respectivas casas, bem... quase todos. Misato-sensei ficou até tarde na sala dos professores corrigindo provas e preparando o roteiro da aula do dia seguinte. Na sala de aula, Ukitake continuava estudando. Não que ele estivesse tendo dificuldades com a matéria, mas um pressentimento ruim em relação a sua professora o fez ficar em alerta. Sabia que a mesma estava na sala dos professores, e decidiu esperar que a mulher fosse para casa para garantir que nada iria acontecer a ala. Guardou seus pertences na maleta escolar e a colocou na carteira vazia ao lado. Subitamente, o Capitão começou a passar mal, e após tossir por quatro vezes, desmaiou com seu rosto por cima da mesa, onde os claros e sedosos fios brancos se espalharam por toda a superfície. Em seguida, uma poça de sangue se formou sobre a mesa, pois o líquido carmesim passou a escorrer pela tão bem feita boca do Capitão.

Enquanto isso, Kukkaku seguiu a passos lentos até a loja de Urahara. Andava pela rua cabisbaixa, pensando em como sua vida estava uma merda desde que recebeu esse estúpido castigo do General Yamamoto. Sentia saudade de seu mundo, sua casa, e de quando Kaien estava vivo. Ao lembrar daqueles tempos, a Líder do Clã Shiba se encostou na grade da ponte por onde passava. Observou a correnteza do rio que cortava a cidade, quando aquelas lembranças invadiram a sua mente. Naquela época, o então Tenente de Ukitake recebia visitas constantes da irmã no quartel da Divisão Treze. Olhava com orgulho como seu irmão trabalhava e sempre com esmero o moreno apresentava os relatórios a seu Capitão. Aliás, esse era o ponto-chave: seu Capitão. Escondida por trás das paredes, a bela e chamativa mulher passava horas, literalmente horas, admirando o responsável pela Última Divisão do Gotei 13. Gostava simplesmente de olhar para ele. No primeiro momento, o que mais lhe chamou a atenção foram seus olhos. Aqueles lindos olhos verde claro, tão brilhantes e que transparecia uma sinceridade e uma bondade dignas de um santo. Olhava como ele tratava a todos a sua volta com o maior respeito e educação. Apesar de ser um Capitão, seu cuidado e humildade para com os demais despertava respeito e admiração em todos, inclusive da própria Kukkaku. Em seguida, o admirava como um todo. Por mais que quisesse negar a si mesma, era inevitável não enxergar como Juushiro Ukitake era lindo. Não apenas por dentro, mas sua beleza externa condizia com o seu nobre interior. De longe era o homem mais belo que seus olhos verdes já contemplaram em seus séculos de vida. Perdida em seus pensamentos, os longos cabelos repartidos da morena esvoaçavam com a brisa de fim de tarde quando ela sentiu uma forte oscilação na Reiatsu de Juushiro e se assustou ao mesmo tempo em que alguém lhe tocou o ombro.

— Yoruichi? – Falou surpresa ao ver a amiga, que trazia em mãos uma sacola com algumas coisas para o jantar.

— Sou eu quem digo. O que você faz aqui?

— Estava pensando um pouco na vida. Mas não importa. Venha comigo! – Gritou alterada, puxando a gata pelo braço.

— Pra onde?

— Para a escola. Depois eu te explico.

De volta à sala dos professores, Misato deu-se conta de que havia esquecido um livro importante na gaveta de sua mesa na sala de aula. Rapidamente foi até lá, e deu um grito ao se deparar com Juushiro desmaiado na mesa.

— Juushiro-kun! Meus Deus! O que aconteceu?

Chegou perto, e ficou ainda mais assustada ao ver o sangue sobre a mesa. Afastou os longos cabelos do sangue e ao perceber que ele tinha certa dificuldade para respirar, o recostou na cadeira, colocando a cabeça do homem para trás. Não adiantou muito, e ele continuava tendo dificuldades para respirar. Misato então não pensou duas vezes. Pegou o queixo do Shinigami e uniu seus lábios ao dele, executando uma respiração boca a boca. Naquele mesmo instante, Kukkaku e Yoruichi adentraram na sala e viram tudo. A Shiba sentiu como se o ar lhe faltasse, o chão sumisse debaixo dos seus pés, pois não conseguia crer no que seus olhos viam. Sentiu tanta raiva... um ciúme enlouquecedor tomar conta de si. Algo tão forte que a cegou. Teve vontade de agarrar a mulher e esganá-la com suas próprias mãos. Mas não podia. Era como se o seu corpo estivesse paralisado. As forças lhe faltaram, e ela apenas saiu correndo sem se importar com mais nada.

— Espere, Kukkaku! – Yoruichi chamou indo atrás dela, mas não sem antes observar a mesa suja de sangue.

A professora levou um susto ao ouvir a voz de Yoruichi, mas não viu ninguém lá. Correu até o banheiro e molhou uma toalha, limpando o sangue do rosto do platinado, e preocupada, o chamou novamente, mas ele nada de acordar. Instantes depois, Juushiro reagiu, e os verdes olhos se surpreenderam ao avistar a figura de sua professora.

— Juushiro-kun, está tudo bem com você?

Ukitake olhou ao redor, e ao ver o sangue, lembrou que teve outra crise.

— Ah... isso... – Tentou se justificar coçando a cabeça. — Não se preocupe, Misato-sensei. A verdade é que isso acontece sempre.

— Sempre? Mas como? Isso não é perigoso para a sua saúde?

— Eu sofro de uma doença nos pulmões, mas geralmente eu consigo mantê-la sob controle. Mas o caso é que esqueci os meus remédios.

— Então foi por isso?

— É. Eu já estou melhor. Muito obrigado por isso.

— Não foi nada. Como eu vi que você não respirava direito, acabei fazendo uma respiração boca a boca, mas tive a impressão de que alguém chegou.

— Alguém? Está dizendo que alguém nos viu?

— Não sei ao certo, mas posso jurar que ouvi uma voz feminina que dizia "Espere, Kukkaku".

— "Kukkaku"? Não pode ser! Está dizendo que Kukkaku-san nos viu?

— Você fala da aluna nova que foi transferida com você e o Kuchiki-kun? Acho que sim. Mas repito que eu mesma não vi ninguém. Quando virei para a porta, não tinha ninguém lá.

— Entendo... de qualquer forma eu agradeço de novo pela ajuda, mas será que não seria melhor voltarmos para casa? Já está tarde.

— É. Não quer que eu te deixe em sua casa? Você pode passar mal de novo.

— Não! Imagina! Eu estou bem, de verdade. Aliás, eu ia sugerir a mesma coisa. Que tal se eu a levasse em casa?

— Você? Mas por que?

— Preocupação, sabe? Uma mulher sozinha na rua à noite... sei lá... eu não ficaria tranquilo.

— Então está bem. Eu aceito o convite.

O trajeto seguiu sem problemas, e Ukitake olhou bem os arredores para ver se nada aconteceria. Não sentiu a presença de nenhum hollow, o que o tranquilizou, pelo menos por aquele dia. Ele voltou para a mansão comprada por Byakuya, onde foi questionado pelo mesmo, que estava na sala junto com Kyoraku.

— Onde esteve, Juushiro? A aula já terminou faz tempo.

— Para começar, acho que sou bem grandinho para me cuidar sozinho. Além disso, não me lembro de dever satisfações a você, mas vou dizer. Eu estava na escola até agora e levei Misato-sensei até em casa.

— Não acredito que você ainda esteja preocupado com aquela bobagem.

— Não é bobagem. Mas se você prefere ignorar, eu não. Vou para o meu quarto tomar um banho e descansar. Estou exausto.

— Eu vou com você.

Ao chegarem ao quarto de Ukitake, Kyoraku também questionou o mesmo.

— Você está bem?

— E por que pergunta?

— Já sei de tudo. Você sempre responde com outra pergunta quando passa mal. Não seja mentiroso.

— É... como sempre eu não posso esconder nada de você. A verdade é que eu desmaiei na sala de aula, mas passei pouco tempo desmaiado.

— Mas como assim, Ukitake? Você não tomou os seus remédios?

— O caso é que eu os esqueci no Seireitei. Não os trouxe para cá comigo.

— Que? Mas como você se manteve bem até agora?

— Você sabe que posso controlar a doença através de minha Reiatsu, mas confesso que dentro deste Gigai é muito mais complicado. Eu não estou acostumado.

— Entendo... e o que pretende fazer?

— Sair deste Gigai pelo menos enquanto estiver em nosso tempo livre.

— Mas desse jeito você pode virar alvo de hollows.

— Posso usar um Kido ao meu redor para suprimir minha Reiatsu, já que conseguir os remédios aqui é impossível.

— Então boa sorte e descanse.

Shunsui saiu, deixando Ukitake sozinho. Depois de tomar um banho e sair do Gigai, o platinado se jogou na enorme cama do luxuoso quarto, apenas pensando se Kukkaku viu mesmo sua Professora o socorrendo.

— O jeito é rezar para que tenha sido somente impressão da Misato-sensei, caso contrário, essa mulher é bem capaz de querer me esganar. – Pensou consigo, antes de cair no sono.


Na rua, Kukkaku corria desnorteada até que foi parar em um parque vazio. Sentou em um dos bancos até que Yoruichi por fim a alcançou.

— Por Deus, mulher! O que deu em você? Primeiro me arrasta até a escola, depois sai correndo daquela maneira? Eu não entendi nada.

— Eu... – Ela falou baixo e calmamente, bem oposto de como ela costuma falar em seu normal. — Senti a Reiatsu daquele cara cair bruscamente bem na hora em que você chegou. Por isso voltei para lá correndo, mas quando chegamos...

— Você estava preocupada?

— Se eu soubesse que aquele imbecil estava aos beijos com a professora, eu jamais teria voltado. Como fui burra. Que ódio!

— Pera um pouco, Kukkaku, você não está pensando que eles...

— Pensando nada. Eu vi! Aquele cretino do cabelo branco estava aos beijos com a nossa professora.

— Não! Você está errada. Foi você mesma que disse que sentiu a Reiatsu do Ukitake despencar. Isso sempre acontece quando ele sofre alguma crise de sua doença.

— Eu não acredito!

— A mesa estava cheia de sangue. Mas é claro que você não acredita, afinal, como sempre, você só acredita no que seus olhos podem ver.

— Eu vi o que eu vi. Não importa como você queira expor as coisas. Minha vontade era arrebentar a cara dos dois!

— Kukkaku... Sabe o que é pior do que mentir para os outros? É mentir para si mesma. Mas vou te dar um conselho... Não faça nada. Você não pode bater nos humanos comuns, e se fizer isso, Ukitake pode te detestar pelo resto da vida. Então pense muito bem no que você vai fazer.

— Não sei por que está dizendo isso. Eu não estava preocupada com ele. Mas ele é como todos os homens. Um aproveitador que não perde tempo para dar em cima da primeira que vê pela frente.

— Está visto que você realmente não conhece o Ukitake. Eu o conheço muito bem, e sei que ele nunca foi um homem leviano. Sempre foi uma pessoa séria. E aqui entre nós, acha mesmo que um homem gentil, amável, respeitoso, e, claro, tremendamente lindo como ele não iria despertar paixões aqui no mundo dos vivos? Desculpe, mas se você é cega, os outros 99% da população não são.

— Yoruichi... Por que você não se mata?

A gata não respondeu, e sorrindo cinicamente, andou a passos largos de volta para a loja, e as duas não mais tocaram no assunto.


Em outra parte da cidade, num rio aos pés de um vale, Ishida treinava, a fim de recuperar seus poderes de Quincy, perdidos durante sua luta contra o Capitão da Divisão Doze. Lembrava com exatidão do momento em que ostentou o poder total, e que com ele, apenas não matou Mayuri porque não o quis. Outra lembrança que não saia de sua mente era Nemu. A simples imagem dela em sua cabeça era suficiente para fazer o coração do jovem Quincy palpitar. Lembrava com perfeição dos negros cabelos, de seu alvo e inexpressivo rosto, e, principalmente de seus belos e tristes olhos verdes. Por mais que Mayuri a considerasse como uma coisa e a tratasse como tal, para Ishida, ela era uma vida valiosa e insubstituível. Mesmo sendo uma inimiga naquela ocasião, ele não pôde deixar de protegê-la, e ao mesmo tempo admirar a beleza da morena, que com sua lealdade e honestidade, mesmo devotada a alguém que não merecia como o seu Capitão, conseguiu encantá-lo de uma forma inexplicável. Por vezes sonhou com ela desde que voltou ao seu mundo, e sempre lembrava dela com um sorriso. Sua alegria, porém, durava pouco, pois bastava lembrar de que não tinha mais seus poderes para que ele voltasse a ficar deprimido.

De pé em cima de algumas pedras, Uryuu tentava em vão lançar uma flecha. A Reiatsu acumulada era pouca e ele mal conseguia formar seu arco. As flechas que disparava eram mínimas, e as mesmas mal arranhavam algumas pedras. Arrasado, ajoelhou em prantos se achando o mais inútil dos homens. Era sempre assim que Ishida passava seus dias: treinando e se lamentando por não ter mais poder para proteger as pessoas inocentes dos Hollows. Estava desolado, pois desde criança ele sempre desejou ser forte para proteger os humanos, e agora que já tinha o poder necessário para isso, perder tais habilidades significava uma enorme dor para ele. Enquanto o jovem se consumia em tristeza, Nemu e Kyone chegavam à loja de Urahara...

Surpreso com a chegada das meninas, Kisuke logo comentou...

— Mas o que está acontecendo no Seireitei? Daqui a pouco o Gotei 13 inteiro vai aparecer na minha loja.

— Não se preocupe, não pretendemos ficar exatamente aqui. Viemos por que o Capitão Ukitake esqueceu os seus remédios na Soul Society, então eu vim até aqui para cuidar do meu Capitão.

— Pois você não irá encontrá-lo aqui. Ukitake-san está morando na mansão que o Byakuya comprou perto daqui.

— E seria muito incômodo se você nos levasse até lá?

— Pode deixar que eu as levo lá.

— Yoruichi-san... muito obrigada. – A pequena agradeceu antes de ir.

Já era hora do jantar quando Yoruichi chegou à mansão do Kuchiki acompanhada de Kyone e Nemu. Ao ver as três adentrarem sua casa, ele arqueou uma sobrancelha, intrigado com a presença delas lá.

— Desculpe a intromissão, Capitão Kuchiki. – Kyone começou. — Mas é urgente! Vim trazer os remédios do Capitão Ukitake. Eu posso vê-lo?

— Kyone-chan! Que bom vê-la aqui! – Kyoraku comemorou abraçando a menina. — E o que temos aqui também! A bela Nemu-chan! Olha Juushiro está dormindo. Vocês não querem dormir aqui também e falar com ele amanhã? Aposto que o Byakuya não vai ligar se vocês ficarem aqui, não é?

— Contanto que eu não seja incomodado... – O moreno deu de ombros e seguiu para o seu quarto.

O quarto de Byakuya era o mais afastado na casa, no final do corredor, escolhido a dedo por ele, a fim de não ser incomodado por ninguém, já que ficar só e em paz seria praticamente impossível. Enquanto Byakuya subia as escadas, Ukitake descia, para a surpresa dos demais.

— Kyone? Nemu-san? O que fazem aqui?

— Viemos por sua causa, Capitão! Vim trazer os seus remédios e cuidar do senhor.

— Nemu-san também?

— Ela veio por algum interesse próprio.

— Mas e a Divisão Treze?

— Não se preocupe, Capitão. Kuchiki-san e o besta do Sentaro estão cuidando de tudo enquanto o senhor está fora.

— Kyone, agradeço a sua intenção e o seu cuidado para comigo, mas eu peço que volte para o Seireitei.

— Mas, Capitão! Quem vai cuidar do Senhor? Eu sempre fiz isso porque o admiro muito! Eu estava acostumada a lembrar da hora exata dos seus remédios, e agora que eu estou aqui para fazer isso, o senhor quer que eu volte?

— Ouça, não é que eu não queira que você fique aqui. – Falou com carinho, pousando a mão na cabeça da menor. — O caso é que eu não quero envolver mais pessoas em um problema que é apenas meu.

— Eu sei disso! Mas essa punição é injusta! E o senhor não me deixe ficar... Por favor, me deixe ficar! Eu quero ficar aqui para servir ao meu Capitão onde quer que ele esteja! – Pediu chorando, para o desespero do platinado, que abraçou sua pequena e devota subordinada.

— A lealdade e o carinho que a garota tem por você é admirável e tocante, Ukitake. – Yoruichi comentou sorrindo.

— É verdade. Deixe a menina ficar, e de quebra, a Nemu-chan também. – Kyoraku completou em tom divertido, observando a linda Tenente com um sorriso maldoso.

— Ah... – Suspirou derrotado. — Tudo bem! Vocês venceram! Podem ficar.

— Oba! Muito obrigada! Eu te amo, Capitão Ukitake! – Berrou eufórica, abraçando com força a cintura de seu Capitão.

— Nossa... obrigado digo eu por gostar tanto assim de mim, pequena.

— A propósito, Ukitake, Kyone-chan poderia ir com você para a escola. Acho que seria muito bom para ela. Posso providenciar os Gigais das duas com o Kisuke amanhã mesmo. Por falar nisso, e este uniforme de Capitão? Você já saiu do seu Gigai?

— Sim. Depois do meu desmaio de hoje à tarde, me sinto melhor fora deste corpo artificial.

— QUÊ? O SENHOR DESMAIOU HOJE?! – A garota de cabelos claros berrou, empurrando o homem até que ele sentasse em uma das poltronas da ampla sala. — Deixa eu ver a temperatura... está com febre? – Falava preocupada, com a mão na testa de seu capitão.

— Não se preocupe, Kyone. Eu estou bem. – Disse sorrindo. — Eu dormi um pouco fora do Gigai e agora me sinto ótimo.

— Que bom, Capitão. Estou aliviada, mas agora que eu estou aqui isso não vai acontecer de novo.

— Obrigado Kyone. Bom, acho que todos podem ir dormir agora.

— Ukitake tem razão. Vocês podem escolher os quartos que quiserem. – O veterano moreno completou.

— Com licença, Ukitake.

— Yoruichi?

— Será que eu posso falar com você a sós? Sei que está cansado, mas é importante.

— É claro que sim. Acho que aqui tem um escritório onde podemos conversar com calma.

Chegaram ao escritório, e o gentil homem abriu a porta para que a gata entrasse primeiro.

— Sente-se. – Apontou para o sofá enquanto ele se sentou no outro lado, de frente para ela. E então? O que precisa falar comigo?

— É sobre a Kukkaku.

— Ah... – Respirou fundo. — Só pode ser problema.

— É que no fim da tarde eu a encontrei na rua e ela me arrastou até a escola onde vimos você com uma mulher, que segundo ela é a professora de vocês.

— Yoruichi... Eu não me lembro de nada e tão pouco faço ideia do que vocês viram. Eu só lembro que desmaiei e quando acordei, Misato-sensei estava cuidando de mim.

— Acontece que quando chegamos, vimos sua professora com a boca colada na sua e Kukkaku pensou que vocês estavam se beijando.

— O que? De onde ela tirou isso? Não procede de maneira alguma! Pelo menos eu sei que não beijei ninguém, embora eu não faça ideia do que aconteceu enquanto eu estava desmaiado.

— Também acho. Para mim ela estava te reanimando com uma respiração boca a boca, mas você sabe como é o gênio da Kukkaku.

— Sei bem... se ela já pensa o pior de mim sem motivos, imagine vendo algo assim?

— Eu quis te contar para que você ficasse ciente. Eu a aconselhei a não fazer nada, mas é bem provável que ela caia por cima de você como um leão enfurecido.

— Se ela se jogar em cima de mim como da última vez não vai prestar. Eu não sei porque ela me persegue ou porque se incomoda tanto comigo. Sabe de uma coisa, Yoruichi? Eu não vou mais permitir que ela me ataque. Shiba Kukkaku pode dizer milhões de vezes que me odeia, mas não tenho por que aguentar suas agressões, nem mesmo vou permitir que ela machuque humanos inocentes.

— Você a ama?

Baixou a cabeça com a pergunta repentina que o pegou de surpresa. Por um minuto as palavras não queriam sair de sua boca.

— Não precisa responder. Seus olhos são tão transparentes quanto duas esmeraldas brutas.

— Seria pedir muito que não contasse a ninguém?

— Obviamente acho que apenas Shunsui sabe a respeito, então não se preocupe comigo.

— Eu sou mesmo tão previsível? Uma pena que logo ela não perceba. Seu ódio por mim não tem justificativa, mas eu também não vou ficar deprimido por algo assim. Vou viver a minha vida como sempre vivi e ela que faça o que quiser da dela como sempre fez.

— Por que você não luta por ela?

— Porque não adianta amar quem nos odeia.

— Ela não te odeia, Ukitake.

— Então a maneira como ela me trata significa o que? Sinônimo de amor? Desculpe, Yoruichi, mas eu dispenso.

— Tudo bem. De qualquer forma você já está ciente, então tenha uma boa noite.

Depois que Yoruichi se foi, Ukitake novamente se jogou na cama, mas não sem antes vestir seu confortável pijama verde escuro. A maciez do colchão acolhendo seu corpo cansado depois de mais um dia era reconfortante, e desfrutava desse tão merecido descanso. Fechou os olhos, e a única coisa que veio em sua mente foi o rosto de Kukkaku. Aquele momento em que a viu quase nua e que em mais um de seus excessos de raiva, a bela mulher se lançou contra si, fazendo seus corpos se encontrarem. Lembrou da sensação de ter o corpo da mulher amada em contato com o seu, sua respiração praticamente misturada com a dela e a forma como seus lábios se tocaram tão suavemente. Recordou de como ele teve que se controlar ao máximo para não beijá-la com todo o amor que ele vinha contendo a décadas.

Mal sabia ele que o mesmo acontecia com ela. No quarto que dividia com Yoruichi, a morena, usando apenas uma curta camisola branca e uma calcinha minúscula de mesma cor, se revirava no futon repetidas vezes. Uma maldita insônia lhe atacava e a mesma tinha nome, sobrenome e patente: Capitão Juushiro Ukitake. Não parava de pensar que ele estivesse se envolvendo com a professora e tal hipótese fazia seu coração doer. Lembrou de quando quase se beijaram e de como ela esteve a ponto de fazê-lo se sua amiga não tivesse chegado. Chegou a conclusão mais fatídica e terrível de todas: o desejava. Desejava contemplar para sempre aquele rosto lindo que mais parecia ter sido desenhado pelo mais benevolente dos Deuses de tão perfeito que era. Queria ter para si seus olhares amorosos e ter aqueles claros e macios cabelos cor de prata entre seus dedos. Desejava como louca aquele corpo perfeito, e provar do gosto daquela desejosa boca, que parecia uma perdição só de olhar. Não apenas o desejava, o amava, mas não queria admitir, não queria aceitar a ideia de amar o homem no qual ela cria piamente ser o culpado pela morte de seu irmão, e ela continuaria negando esse sentimento para si mesma até a hora de sua morte... se preciso fosse.

De volta ao quarto de Ukitake, o mesmo sempre fazia uma espécie de "ritual" antes de dormir. Falava baixinho e repetidas vezes, quase como um mantra, uma frase. Depois outra frase... e essas duas frases destinadas a uma única pessoa. Adormeceu... e sonhou com o momento em que poderia ter sua amada em seus braços sem nenhum tipo de sentimento negativo que os pudesse separar. Em sua cama, Kukkaku podia sentir, receber cada palavra como se as mesmas acariciassem seus ouvidos e acalmassem seu sempre tão arredio coração. "Kimi wa... Hitori janai." "Hitori janai." "Mamoritai... zettai ni"¹.

E os dois por fim adormeceram, pensando, desejando e amando um ao outro, mesmo sendo apenas dentro de seus corações.


Rangiku se debatia em sua cama. Não conseguia dormir, e, na verdade, não queria. O pesadelo que teve mais cedo a torturava, deixando o coração da ruiva cada vez mais confuso. Estava aterrorizada com a visão que teve de Gin, e apenas o desejava longe de si. Ao ver Izuru a protegendo, sua mente foi tomada por um intenso e agradável alívio. Estar com o loiro a fazia sentir bem. Um sentimento de paz invadiu o seu ser. Ela só sabia que era bom. Gostava da sua companhia, sua amizade e seus abraços acolhedores, e, porque não dizer também, de seus beijos? Aliás, que beijos. Depois que o tempo passou e ela pôde pensar nas coisas com mais calma, percebeu o quanto seu amigo era especial. Aquele beijo que trocou com ele quando estava "dominada" pelos efeitos do álcool serviu para esclarecer muitas coisas. O que recebeu como resposta foi um beijo terno, cheio de carinho e respeito, coisa que ela jamais recebera de Ichimaru. Lembrou do segundo beijo com malícia, de como seus corpos chamavam um pelo outro... a pele dele suada sendo acariciada por suas mãos que só queriam mais dele, e mesmo o Capitão alegando estar magoado, nem por um momento o seu beijo deixou de transmitir o que ele verdadeiramente sentia por ela: amor. Precisava dormir, mas não queria, pois se continuasse tendo pesadelos como o de hoje, acabaria enlouquecendo. Atormentada, a ruiva novamente vestiu seu uniforme e saiu correndo sem rumo pelo Seireitei, onde deu de cara com Nanao, que fazia uma ronda noturna, e ambas foram ao chão por causa do impacto.

— Rangiku? Ficou doida? O que faz aqui a essa hora correndo com tanto desespero? – A morena disse ao se recompor.

— Nanao! – Gritou em prantos abraçando a amiga. — Eu estou desesperada.

— Acalme-se. Vamos para o quartel da Divisão Oito e no meu quarto você me conta tudo, está bem?

A ruiva concordou ainda chorosa e a morena achou melhor conversarem no escritório, onde depois de se servirem de uma xícara de chá, a moça de óculos aguardou para ouvir o relato de sua amiga.

— O que aconteceu, Rangiku? Por que você está assim?

— Nanao... você acha possível... amar dois homens?

— O que? De onde você tirou tamanho disparate?

E depois que Rangiku contou sobre o pesadelo que teve, Nanao fez uma expressão confusa, tão confusa como a mente de Rangiku naquele momento.

— Olha... eu diria que você está bem perturbada. Eu acho que não é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo, e, se me permite dizer, para mim, o que você sente pelo Ichimaru nunca foi amor. – A Tenente de Kyoraku disse ajeitando seus óculos.

— Sentia... o que eu sentia por ele, você quer dizer.

— E ainda não sente?

— Não! Eu estou confusa. Não sei!

— E o que o Izuru, quer dizer, o Capitão Kira, tem a ver com isso?

— Você não entendeu o que eu disse? É como se o meu coração estivesse dividido entre esses dois. Eu não sei o que eu sinto ou o que eu penso sobre eles.

— Pois para mim está muito claro. Se as coisas são como no seu sonho, você está apaixonada pelo Capitão Kira.

— Não... isso não é possível... Não é possível que com apenas dois beijos...

— Como era a sua relação com o Ichimaru? Como ele a tratava?

— Ah, Nanao... – Respirou fundo ao bebericar um pouco do chá de camomila. — Não tínhamos uma relação... tínhamos um caso. Eu me lembro como se fosse hoje...

[Flashback ON]

O vento agitava as cortinas do quarto do então Capitão da Divisão Três. A quente noite de verão estava ainda mais quente dentro daquele quarto. Gemidos femininos e abafados grunhidos masculinos eram ouvidos no cômodo, mas o gemidos femininos não eram necessariamente de prazer. Eram de dor. A mancha vermelha no lençol da cama do Capitão era a prova da pureza de Rangiku, que acabara de lhe ser tirada. O homem de cabelos claros e boca grande a mirou satisfeito por ter sido o primeiro. Por tê-la violado sem permitir que nenhum outro o fizesse antes de si. Ela não estava pronta, mas isso não foi impedimento para que Gin satisfizesse seus desejos sórdidos. Agarrou Rangiku, e como um animal faminto a arrastou para o seu aposento durante uma festa de fim de semana em seu quartel quando ninguém estava olhando. Lá, sem nenhum cuidado, a possuiu de forma fria e fútil, sem se preocupar com ela em nenhum momento. Ele não era carinhoso, não era gentil. Seus toques eram frios e carregados de luxúria. Era a única coisa que Ichimaru sentia: luxúria e mais luxúria, e apenas usava e abusava do corpo de Rangiku como bem queria, pois sabia que ela nunca diria "não" a ele. Por isso, naquela fatídica noite, a invadiu sem consideração, sem carinho, amor ou cuidado, pois o mesmo não sentia nada disso. Aquele pênis grande e deveras possessivo adentrou a vagina seca e despreparada da virgem ruiva, cujo desesperado grito de dor certamente poderia ter sido ouvido pelo Seireitei inteiro se o local não estivesse selado pela barreira de Kido que Ichimaru criou.

— O que você fez? Que dor foi essa? – Perguntou assustada.

— Relaxe, minha querida. – Respondeu cínico. — Só tirei sua virgindade, algo que estava me atrapalhando. Agora sim poderemos sentir o prazer total?

— "Poderemos"? Você chama essa dor de prazer? Só pode estar louco.

Ignorou os protestos da Tenente e continuou suas investidas. Cada vez que tentava continuar o ato, o mesmo se tornava chato para ele e doloroso ao extremo para ela, pois a mesma não tinha lubrificação, e as dores causadas pela penetração a faziam chorar. Não apenas a dor física, mas a dor moral por ser tratada daquela forma pelo homem que sempre acreditou amar a fez cair em um mar de lágrimas. Ichimaru a soltou de qualquer jeito na cama e a olhou com desdém ao se vestir e abrir a porta.

— Aonde vai?

— Vou voltar pra festa e beber. Nem para trepar decentemente você presta.

Bateu a porta, deixando uma machucada Rangiku sobre a cama desabando em lágrimas. Foi apenas a primeira de muitas noites como aquela...

[Flashback OFF]

Nanao ficou aterrorizada com o relato de Rangiku, e depois de velar o choro da amiga por longos minutos, a mesma acabou adormecendo no sofá do escritório.

Enquanto isso, em Karakura, um homem de aparência jovem flutuava no céu de cabeça para baixo, observando atento uma pequena garganta se abrir perto dali. Um Menos saiu da mesma, mas foi habilmente exterminado por um único golpe da Zanpakutou do desconhecido de cabelos loiros.

— Ora ora... as coisas parecem estar ficando interessantes nesta cidade. – Pensou consigo, lambendo os próprios lábios...

つづくcontinua...

Nota¹: As frases de Ukitake: "Kimi wa... Hitori janai." (Você não está sozinha, no caso, Kukkaku) - "Mamoritai... zettai ni" (Quero te proteger... definitivamente). Bem, acho que é só por hoje, já que não tenho nenhum leitor com quem interagir kkkkkkkk