Capítulo 9 – Confusão

Mais um dia começava no imenso curso do universo. Nanao dormiu no escritório da Divisão Oito no sofá ao lado do sofá onde Rangiku estava. Preocupada com o estado emocional da amiga, a morena logo acordou ao ouvir o choro baixo e abafado da ruiva cujo corpo estava virado para o sofá. Levantou de onde estava e foi até ela, fazendo um carinho nas longas madeixas cor de fogo.

— Não fique assim, amiga. Eu sei que a traição do Ichimaru ainda está muito recente e ela te afeta muito, mas você precisa superar isso.

— Mas eu estou pior. Isso não é tudo. Será que não entende?

— É por causa do Kira-kun?

— Sim! Se eu não tivesse feito aquela estupidez de tê-lo beijado e ainda por cima o ter confundido com o maldito do Gin...

— Mas se você não tivesse feito isso, não saberia sobre os verdadeiros sentimentos do Kira-kun. Pelo menos agora você sabe que ele a ama de verdade e ele a respeita como você merece.

— Só que isso piorou tudo! Eu não quero magoá-lo. Gosto tanto dele. Tanto... não seria justo. Gin já prejudicou muito a mim e ao Kira também e eu não queria fazê-lo sofrer, porém não queria perder a amizade dele.

— Então por que não vai atrás dele e se explica? Quem sabe as coisas não voltam a ser como antes?

— Já tentei, mas ele não quer me ver. Quando o procurei para me explicar ele me beijou e disse que estava devolvendo o beijo que lhe dei quando estava bêbada.

— Caramba... que situação. Não sei se entende, mas depois disso, dificilmente o Kira-kun vai querer te ver de novo. Eu até entendo o lado dele. Deve ser difícil ficar perto de você depois do que aconteceu, ainda mais agora que você está ciente dos sentimentos dele. Acho difícil as coisas entre vocês voltarem a ser como antes.

— Você tem razão. Mesmo assim... mesmo ele estando tão chateado comigo... eu só sentia um enorme carinho vindo do beijo dele, sabe? Em nenhum momento ele me desrespeitou ou foi grosseiro comigo. Acho que pela primeira vez... me senti amada.

— Ichimaru Gin é um canalha. Eu custo a crer que você ainda consiga sentir alguma coisa por aquele infeliz que te tratou tão mal. Se fosse comigo eu o cortaria em pedaços com a minha Zanpakutou.

— É aquela velha história de sempre: não podemos mandar no coração. Eu apenas vou lutar para tirar esse maldito miserável da minha mente de uma vez por todas.

— E o Kira-kun?

— Quanto a ele... acho melhor fazer o que ele pediu e deixa-lo em paz.

Terminada a conversa, Rangiku tomou o café da manhã na companhia de sua amiga Tenente e seguiu para a Divisão Dez para começar seus afazeres diários.


Na loja de Kisuke, a campainha tocou logo cedo. Uma animada Kyone e uma séria Nemu surpreenderam o loiro quando o mesmo abriu a porta. Para a surpresa ainda maior de Urahara, Kyoraku também estava com elas.

— E aí Kisuke? Bom dia! – Disse alegremente ao tirar seu inseparável chapéu de palha.

— Bom dia, Kyoraku-san. Nem acredito que hoje você fez a gentileza de vir trabalhar.

— Cof, cof...! Mais ou menos. A verdade é que eu trouxe essas lindas meninas para que você providencie Gigais para elas.

— Então as duas vão mesmo ficar aqui no mundo dos vivos?

— Sim. Foi um pedido delas e do Juushiro. Elas também irão à escola.

— Eu realmente não estou entendendo o porquê de quase metade do Gotei 13 estar enfiado na escola do Kurosaki, mas eu nem vou perder tempo perguntando.

— Eu estou tão surpresa quando você. – Yoruichi disse ao chegar com Kukkaku.

— Nossa, mas quanta idiotice! Se eu fosse aquele velho caduco colocaria o Seireitei todo aqui. Seria mais fácil. – Kukkaku reclamou ao botar sua maleta escolar por cima dos ombros indo em direção à porta.

— Shiba Kukkaku?! – Kyone exclamou surpresa. — Sabia que a Senhora estava aqui, mas não esperava que ficasse tão bonita neste uniforme. O Capitão Ukitake sempre falou muito bem da Senhora. De como ele admira a sua força e o seu jeito valente de ser e claro, como a Senhora é bonita também.

— É mesmo? Pois diga ao seu Capitão para ele não perder seu tempo me elogiando e nem usar uma criança para me mandar recadinhos.

— Mas eu...

— Desculpe, Kukkaku-san, mas é bom que saiba que Ukitake-san jamais mandou que Kyone-chan fizesse o trabalho de "pombo-correio". Este foi apenas um comentário inocente baseado na rotina que ela presencia todos os dias em sua Divisão.

— Já deu o seu recado. Obrigada.

A morena deu as costas e saiu o rumo à escola. Achava tudo aquilo uma palhaçada, mas preferiu fazer tudo de bom grado na esperança de que aquela punição ridícula terminasse o mais breve possível. Olhou para o relógio em seu pulso e logo viu que tinha saído muito cedo. Praguejou um pouco, mas continuou andando mesmo assim, e chegou na classe antes de todos os outros alunos.

Na mansão de Byakuya, o mesmo despertou. Os olhos azuis contemplaram o céu de igual cor pelo lado de fora da janela. Olhou para o relógio no criado mudo e rapidamente levantou, vestiu o uniforme, penteou os negros cabelos e foi tomar café. Ukitake já tinha ido na frente, e por incrível que pareça, chegou na sala de aula pouco depois de Kukkaku. Receoso pelo que ela poderia fazer por causa do ocorrido no dia anterior, o platinado apenas falou um simples "bom dia" para ela, que quase o fuzilou com o olhar, porém não respondeu e nem se mexeu de onde estava. Aos poucos os outros alunos iam chegando, e Byakuya chegou poucos minutos depois de Ukitake. Por alguma razão o moreno acordou ansioso para ir à escola naquele dia. Não sabia bem o porquê, mas inconscientemente olhou para a carteira vazia ao seu lado, esperando a chegada da garota. Ichigo, Sado, Ishida e os outros chegaram com Orihime, que alegremente cumprimentou a todos.

— Bom dia, Kuchiki-san!

Byakuya a olhou de canto, e respondeu calma e secamente como de costume.

— Bom dia.

A garota sentou em seu lugar, e logo os olhares do Kuchiki se direcionaram a ela. Olhava curioso como ela cumprimentava a todos sorridentemente. Aquele jeito alegre o encantava. Não esperava sentir algo assim vindo de uma humana, mas confessava para si mesmo que era bom. Era agradável ver suas lindas feições alegres e a forma como ela brindava a todos com o seu sorriso era algo que aquecia o seu coração gelado. Ria para si mesmo em seus pensamentos, mas jamais permitiria que algum sorriso transparecesse em sua face, pois ele mesmo tinha esquecido de como fazê-lo. A única coisa que lhe interessava naquele momento é que a companhia de Inoue Orihime o fazia relaxar. Além de toda a sua personalidade doce, o Capitão observava discretamente a sua beleza. Era uma linda jovem, não podia negar. Por um momento a lembrança de Hisana lhe veio à mente, assim como o rosto de sua falecida e adorada esposa. Os momentos vividos com ela foram, sem dúvida, os melhores de sua longa vida. Embora cinco anos para um Shinigami não fosse praticamente nada, para ele, aqueles cinco anos foram como viver cinco séculos ao lado da mulher amada. Deleitar-se com a postura gentil da humana que até poucos dias atrás ele nem sequer havia dirigido um olhar era tranquilizante para ele, que encontrava ali uma forma de se distrair e se refugiar um pouco por ser obrigado a executar aquela missão chata em um mundo ao qual ele não estava acostumado. Seus devaneios foram interrompidos quando Misato-sensei adentrou a sala, para o desespero de Ukitake, que percebeu o olhar mortífero que Kukkaku lançou sobre a professora, que rapidamente colocou seus pertences sobre a mesa.

— Bom dia, pessoal! Hoje teremos mais duas alunas novas com a gente. Espero que as tratem bem. – Anunciou sem cerimônia.

— De novo? Mais alunos novos? – Ichigo pensou. — Daqui a pouco vai ter gente saindo até pelas janelas desta sala.

— Pois bem, garotas, vocês já podem entrar.

Ao ver Kyone e Nemu entrarem na sala, Ichigo quase deu um salto da cadeira. Ishida sentiu o seu coração saltar dentro do peito quando viu a bela morena diante de seus olhos. A mulher que ocupava seus sonhos e pensamentos nas últimas semanas estava ali, parada na sua frente, e ele não sabia como reagir diante daquilo. Ele apenas ouviu as duas se apresentarem à pedido da professora.

— Eu sou Kotetsu Kyone. Prazer. – Disse a garota fazendo uma reverência.

— Kurotsuchi Nemu. – Falou seca e sem sentimentos.

— Hum... Vejamos onde vocês irão se sentar...

— Sensei! Posso sentar na sua frente?

— Ao lado do Juushiro-kun? Ah, sim! Tem uma carteira vazia. Quanto à Nemu-san... ah! Ao lado do Ishida-kun tem uma carteira disponível também.

O Quincy ficou constrangido com a proximidade da Shinigami além de surpreso e intrigado pelo fato de ela estar lá. Kukkaku suspirou um "pirralha melequenta" ao ver Kyone ao lado de Ukitake, e todas as atenções foram voltadas para as duas novatas. A Oficial de Juushiro era uma "pirralha" e todos estranharam a sua presença na classe, mas Nemu arrancou suspiros dos marmanjos e olhares indiscretos de Chizuru, fazendo tão ou até mais sucesso do que Kukkaku, devido aos seus belos atributos e ar misterioso. A arredia Líder do Clã Shiba olhava para a euforia de Kyone no decorrer da aula com raiva. A garota parecia ter nascido grudada ao seu Capitão, e ver aquilo deixava a impaciente mulher a ponto de vomitar. Odiava se sentir assim. Aquele ciúme que tomava conta de si cada vez que via alguém perto dele, mas prometeu a si mesma que iria se controlar, pois jamais permitiria que o Capitão da Décima Terceira Divisão percebesse que ela sente ciúmes dele.

A hora do recreio chegou depressa, e logo Ichigo arrastou todos para o terraço do colégio e começou a questionar Ukitake e Byakuya.

— Mas afinal o que está acontecendo aqui? Cada dia aparecem mais de vocês. Não estou entendendo nada. Alguma catástrofe está para acontecer e eu não estou sabendo?

— Kurosaki Ichigo. – Byakuya começou. — Kisuke Urahara explicou a você sobre a punição daqueles três impertinentes. – Disse tranquilamente, recebendo um olhar reprovador de Ukitake.

— Tá bom... e o que isso tem a ver com esse bando de Shinigamis aqui dentro?

— Teoricamente deveriam ser apenas eu e o Ukitake. Quanto à presença do resto, não é assunto meu. E falando nisso, o General Yamamoto tem um recado para você.

— Ele tem? E o que o velhote teria para falar comigo? – O ruivo perguntou com curiosidade.

— Ele disse que caso aparecesse algum hollow nesta cidade era para você e seus amigos se manterem à margem e deixar que eu ou o Ukitake tome conta da situação.

— O que? Mas por que ele daria tal ordem?

— Se quiser saber, pergunte a ele. Eu apenas acato as ordens e não as questiono.

Ichigo, Orihime, Sado e Ishida foram embora, deixando os dois Capitães sozinhos.

— Eu não sabia dessa ordem. Por acaso foi essa a "missão secreta" que o Genryuusai-sensei deu a você?

— É isso mesmo.

— Aquele velho não dá ponto sem nó mesmo. Eu sabia que aquele castigo não era à toa. Por falar nisso, Byakuya, ontem à noite eu senti uma Reiatsu anormal no meio da cidade. Pareceu ser um Menos. O mais curioso é que a presença desapareceu segundos depois, quando senti outra Reiatsu familiar.

— Provavelmente Kurosaki Ichigo o eliminou. Não se preocupe com besteiras.

— Você pode dizer que são besteiras, mas saiba que tinha algo bem diferente nisso tudo.

— O que você quer dizer com "diferente"?

— Não há dúvida de que quem eliminou aquele Menos era mesmo um Shinigami, porém, sua Reiatsu era diferente. Era como uma Reiatsu dupla, como se o ser em questão fosse metade Shinigami e metade hollow.

— Um híbrido? Então só podia ter sido Kurosaki Ichigo possuído pelo hollow interior dele. Não há outra explicação e nem motivos para se preocupar.

— Não. Eu posso afirmar com toda a certeza que aquela Reiatsu não era do Ichigo-kun.

— Espere um pouco, Capitão Ukitake. Se o que você disse foi verdade, isso significa que há outros Shinigamis como Kurosaki Ichigo por aí?

— Eu não sei. Só o que eu sei é que a Reiatsu que senti era notavelmente poderosa e estava sendo suprimida. E te digo mais! Essa presença pareceu ser de alguém que conhecemos há séculos.

Os dois Capitães se entreolharam apreensivos com a última afirmação de Ukitake e começaram a comer seus lanches enquanto eram observados por um grande grupo de estudantes que eufóricas, babavam pela beleza de ambos.

— Nossa! Até que enfim encontramos os novatos! – Disse uma.

— E juntos! – Exclamou a outra. — Nem acredito! São os rapazes mais lindos que já vi na minha vida.

— Concordo! Vou tirar uma foto deles.

— Caramba! Eles são lindos demais!

— O moreno é uma delícia, mas tem uma cara de poucos amigos que dá medo.

— Não. Eu prefiro o de cabelos prateados. Além de lindo é tão gentil. – Falou derretida.

Nesse meio tempo, Kyone chegou em seguida, trazendo o remédio de seu Capitão, e ignorando o grupo de histéricas, foi até os dois.

— Capitão Ukitake, está na hora do seu remédio.

— Obrigado, Kyone. Eu só quero te pedir um favor.

— O que o Senhor ordenar, Capitão.

— Você não deve me chamar de "Capitão" na escola ou na presença de outros humanos. Precisamos nos manter discretos.

— Me desculpe Senhor. Eu não sabia.

— Não tem problema.

Os três continuaram comendo até a próxima aula começar.

Em outra parte do pátio, Kukkaku comia seu lanche sossegada enquanto atraía para si olhares de cobiça dos marmanjos de plantão. Isso acontecia não apenas por ela ser muito bonita, mas também por possuir um corpo de fazer qualquer um subir pelas paredes só de olhar. Sentava com as pernas cruzadas no banco de concreto, e mesmo os grandes seios estando cobertos a muito contragosto pela blusa branca e o laço vermelho, chamavam a atenção por ela usar uma lingerie preta por baixo. As pernas eram um outro detalhe a mais, pois diferente das outras estudantes, ela era a única que usava meias pretas que cobriam toda a perna. Bem, quase toda, pois a meia em questão era uma 7/8 cuja renda aparecia quando a mesma estava sentada. Ao perceber que os depravados estavam de olho nela, a mulher rapidamente se irritou. Perto dali, Ukitake e Byakuya voltavam de seu lanche e se dirigiam de volta à sala de aula quando passaram pelo local bem a tempo de ver a morena esbravejar com os outros alunos.

— Mas qual é o problema de vocês, pirralhos? Por quanto tempo pretendem ficar aí me olhando? Perderam alguma coisa em mim ou estão tirando fotos das minhas pernas, da minha bunda e dos meus peitos? – Gritou enfurecida, deixando os rapazes assustados.

Ao perceber que um dos rapazes estava mesmo tirando fotos dela com o celular, a morena perdeu a cabeça e tirou um ovo cru que tinha dentro de sua lancheira, rapidamente o lançando contra o depravado, porém, o estudante desviou, e o ovo acertou em cheio a testa de Byakuya, para o desespero de Ukitake. O nojento líquido escorreu pelo cabelo e pelo rosto de Byakuya até chegar na camisa de seu uniforme. Ainda incrédulo, o moreno não podia assimilar tudo aquilo. Os dois olharam ao redor e viram um grupo de estudantes no canto da parede, quase todos com aparelhos de celular tirando fotos da bela líder do Clã Shiba.

— Fique calmo, Byakuya. Alguém poderia explicar o que está acontecendo aqui? – Ukitake questionou, tentando compreender a situação.

— E você ainda pergunta, Ukitake? Será que não viu o que aconteceu? Esta mulher louca jogou essa coisa nojenta na minha cabeça.

— Epa! Não fale assim comigo! Trate de me respeitar, Kuchiki!

— Mas que hipocrisia. Quem você pensa que é para falar de respeito quando está mais do que visto que você nem sabe o significado desta palavra?

— Parem com esse bate-boca. Isso não vai levar a lugar algum.

— E você não se meta, cabeça de neve! Não tenho porque aguentar insultos deste Senhor.

— E eu tenho porque levar ovada?

— Já chega vocês dois! E por que diabos você jogaria um ovo em alguém?

— Pergunte a este bando de moleques pervertidos que não paravam de tirar fotos minhas.

— É mesmo? E você se incomodou com isso? Pensei que esse tipo de coisa alimentasse o seu ego, já que você adora chamar a atenção e ficar se exibindo por aí. – Byakuya disse com ironia.

— O que? O que você acha que está insinuando? – Kukkaku gritou raivosa.

A confusão estava ficando tensa e Ukitake estava em uma situação difícil. Achou melhor intervir antes que as coisas ficassem piores.

— Calados! Até agora vocês só fizeram discutir. – Falou, indo até os jovens. — É verdade que estavam tirando fotos dela?

— É claro que sim. – Respondeu um deles.

— E por que fizeram isso?

— Mas como porquê? Você é cego, por acaso? Ela é muito gostosa.

— Seu pirralho desgraçado! Eu vou arrebentar a sua cara! – A morena correu para cima do grupo, mas Ukitake a segurou pelos braços.

— Vocês não deviam ter feito isso. Não se invade a privacidade das pessoas desse jeito. É melhor vocês saírem daqui. – O platinado disse serenamente.

— SAIAM! – Kukkaku gritou histérica, fazendo os rapazes correrem desesperados para longe dali.

— Você é a culpada de tudo isso. Considerando a maneira como você não se veste, ainda quer bancar a "Dama Recatada"? Você é mesmo uma mulherzinha de quinta. – Byakuya disse nervoso.

— Você disse mulherzinha de quinta?! Pois engula isso junto com todos os seus dentes! – Gritou, aproveitando um momento de distração de Ukitake ao se soltar dele, acertando um belo soco em Byakuya, ferindo o canto da boca do Capitão.

— Sua maldita! Como se atreveu a tocar em mim?

— Cale essa sua boca! Não me ofenda mais! Quem você pensa que é para me julgar? O modo como eu me visto ou me comporto não interfere no meu caráter. Isso não dá direito a ninguém invadir a minha privacidade e me insultar. Você é ridículo!

— Sua... – O moreno disse ao se aproximar, mas Ukitake se colocou no meio dos dois.

— Nem pense em encostar nela, Byakuya.

— E você acha que eu vou deixar barato esta agressão? Eu estou sujo e sangrando por culpa dela, fora os insultos.

— Foi você que começou a insultá-la e eu não vou permitir que você coloque sequer um dedo nela. Não é assim que se trata uma mulher ou se resolvem os problemas.

— Mas é assim que esta mulher pede para ser tratada.

— Kukkaku-san, saia daqui agora.

— Não vou sair. Não preciso de homem nenhum para me defender. Posso cuidar sozinha de tipos como este aí, e você não me dá ordens.

— Saia daqui logo! – O platinado falou alto e muito sério, assustando a bela mulher e surpreendendo Byakuya. Sem alternativa, ela deixou os dois sozinhos, mas claro, ficando escondida atrás da parede e vendo tudo.

— Você ficou louco, Ukitake? Como pôde defender aquela mulher depois de tudo o que ela fez?

— Sou eu quem não te reconheço mais, Byakuya. Que ideia é essa de cogitar bater em uma mulher?

— E quem disse que eu ia bater nela? Aliás, ela não é uma mulher. É uma qualquer que anda por aí se exibindo. Uma pessoa sem moral que acha que tudo se resolve mediante a violência. Alguém como ela não merece que eu você a defenda.

Ukitake se irritou com os insultos de Byakuya. Por mais que ele estivesse chateado, não era certo julgar uma pessoa pela maneira de ser. Apertou o punho direito com força, se controlando para não acertar o outro lado do rosto do Capitão da Sexta Divisão.

— Cale a boca, Byakuya. Você reclama dos insultos de Kukkaku-san, mas você está se ouvindo? Como questiona a honra dela a troco de nada se você nem pode provar o que disse?

— Eu não entendo a sua postura, Ukitake. – Comentou ao se recostar em uma árvore no meio do pátio. — Por que se empenha tanto em defender esta mulher? Por acaso você é como aqueles garotos e também se apaixonou pelos belos atributos dela?

Kukkaku ficou apreensiva e temeu pela resposta do veterano Capitão. O sangue de Ukitake ferveu ao ouvir cada palavra de Byakuya. Ele não apenas ofendeu Kukkaku como ofendeu a ele também. Cansado de ser insultado, o platinado deu um soco na árvore atrás do moreno, parando o punho no tronco ao lado do rosto dele. Tal gesto surpreendeu a ele e Kukkaku também. Byakuya sentiu o ar provocado pela força do golpe de Ukitake tocar seu rosto, fazendo um pequeno corte abaixo de seu olho esquerdo. Ele só teve tempo para ouvir as indagações do veterano.

— E se eu realmente estivesse apaixonado por ela? Qual seria o problema? Você está muito enganado se acha que eu sou como todos os homens. O que eu amo é a essência da pessoa, a garra, o caráter. Aparência é o de menos. O que vale é o interior das pessoas. Muito me admira que logo você, que se casou com uma moça pobre de Rukongai esteja dizendo tamanha besteira.

— Pois sou eu quem estou admirado. Nunca te vi tão exaltado. O que deu em você? Por acaso você ama mesmo Shiba Kukkaku? Pode falar. Está escrito na sua testa, por isso não suporta que ninguém a insulte.

— Quer saber a verdade? Eu amo Shiba Kukkaku. Amo como nunca amei e acho que nunca seria capaz de amar mais ninguém, por isso muito me irrita que você a trate com tamanho desrespeito sem nem ao menos ter motivos para isso.

— Eu não posso acreditar que um homem como você, com toda a sua educação, calma e classe esteja mesmo apaixonado por uma mulher que, embora tenha o status, faz questão de se comportar como uma pessoa primitiva e sem educação.

— Sei de tudo isso, mas não tive culpa. Apenas me apaixonei. Você deve saber muito bem disso, pois já se apaixonou e sabe que isso não depende da nossa vontade. Eu não escolhi amá-la, mas para o meu azar aconteceu, e também aconteceu de ela repetir sempre que pode que me odeia. Acha que é fácil para mim lidar com tudo isso?

— Tudo bem. Você venceu. Eu sei como se sente, e não quero brigar com você por isso.

— Pois eu também detesto brigas, por isso eu peço que vocês tentem conviver em paz, pelo menos aqui neste colégio enquanto esta punição sem sentido do Genryuusai-sensei durar.

— Então eu acho que podemos esquecer este incidente.

— Por mim tudo bem. Vamos voltar para a sala?

— Imundo como estou? Impossível. Vá na frente e dê qualquer desculpa se perguntarem por mim.

Ukitake concordou e foi na frente. Kukkaku, que ainda não tinha saído de onde estava, caiu sentada no chão, sem acreditar no que ouviu. Cada palavra dita pelo Capitão machucou seu coração, pois ela não fazia ideia de que Juushiro tivesse tais sentimentos nobres por ela, mesmo ela o tratando da pior maneira possível. Não teve coragem de voltar para a aula. Teria vergonha de olhar para ele de novo. Se sentiu pequena, estúpida, indigna... fugiu para o telhado onde remoeu esse turbilhão de sentimentos. Acabou adormecendo sem perceber.

Incomodado, Byakuya foi até uma espécie de tanque do lado de fora, próximo aos banheiros onde tinham várias torneiras para os alunos se refrescarem após saírem da aula de educação física. Colocou sua cabeça debaixo da torneira com certo receio. Aquele lugar parecia sujo, e ele pensou que sairia ainda mais sujo dali ao invés de se limpar. Abriu a torneira e sentiu o líquido gelado cair sobre sua cabeça, molhando os longos fios negros. Orihime passou pelo local enquanto ia de volta para a sala, e sem entender o que acontecia, acabou chamando por ele.

— Kuchiki-san? O que está fazendo? – Perguntou inocente, assustando Byakuya, que acabou batendo a cabeça na torneira.

— Ai! – Resmungou baixo, tirando a cabeça de debaixo da água e a encarando.

A garota olhou para o Capitão com curiosidade. Ele estava totalmente descomposto com os cabelos molhados caindo sobre seus ombros, molhando ainda mais sua camisa, que já estava molhada por causa do líquido que escorreu de dentro do ovo. Não só isso. Reparou também nas cascas do ovo sobre os ombros e em algumas partes das madeixas escuras. Se aproximou do belo homem com cuidado, e fechando sua delicada mão, deixou apenas o polegar e o indicador posicionados, retirando com cuidado um pedaço de casca no topo da cabeça de Byakuya, que levantou seu olhar seguindo a mão dela.

— Puxa, parece que você sofreu algum tipo de acidente, estou certa? – Perguntou divertida ao observar a casca do ovo em sua mão. — E também... pelo jeito, o cheiro desse ovo não está nem um pouco agradável.

— Eu... eu...

— Não diga nada! – Exclamou, erguendo a palma da mão na frente do rosto dele para fazê-lo se calar. — Eu posso te ajudar com isso.

Byakuya ficou sem reação para contestar, sair ou simplesmente ignorar a garota. Apenas deixou que ela fizesse o que quisesse, afinal de contas, o que ele teria a perder? Olhou cauteloso quando Orihime tirou um lenço rosa de seu bolso e foi até a torneira para molhar o pequeno paninho. Novamente se aproximou do Capitão com cuidado e delicadamente passou o lenço úmido pelo rosto sujo de Byakuya, que não entendia o porquê, mas era como se não pudesse se mover diante da doçura e o sorriso lindo que a humana possuía. Fechou os olhos azuis por alguns instantes, e sorriu mentalmente. Devia estar mesmo muito louco ou solitário para se sentir feliz com aquele pequeno gesto vindo de uma humana tão peculiar. Inoue olhava atentamente para o moreno. Era lindo, e sua beleza singular chamara sua atenção desde a primeira vez que o viu na Soul Society. Agora que estava tão perto dele, não pôde deixar de apreciar ainda mais suas feições que, apesar de másculas, eram bastante delicadas ao mesmo tempo. Ficou tentada em tocar os lisos fios negros, mas se deteve ao pensar que ele poderia interpretar aquilo como um abuso, mas confessava para si mesma que estava adorando apreciá-lo tão perto de si. Seu olhar acinzentado parou abaixo do olho esquerdo do Kuchiki, onde a menina viu um pequeno corte. As pontas dos dedos longos e finos tocaram o local com suavidade. Fez o mesmo no canto dos lábios do belo homem, que também foram feridos por Kukkaku. Usando seus poderes, a ruiva curou os pequenos ferimentos, deixando Byakuya impressionado. Ela ainda se perdia diante da beleza do gélido homem, cuja frieza dava a ele um charme diferenciado. Inoue foi surpreendida quando sentiu a mão gelada do moreno sobre seu pulso.

— O que você fez? – Questionou frio ao quebrar o contato.

— Você estava machucado, então eu te curei.

— Hum... – Respondeu monossilábico, baixando levemente a cabeça e desviando o olhar.

— Mas não pude fazer o mesmo por sua camisa. Acho que não vai poder voltar para a aula com o uniforme molhado e sujo.

— Eu nem ao menos pensava nisso. Morreria de vergonha. Estou nojento.

Orihime sorriu e voltou a analisa-lo atentamente. A camisa molhada marcando o corpo de pele alva era, no mínimo, tentador. Não era uma jovem dada a tais pensamentos, mas era inevitável não sentir um calor descomunal invadir seu corpo subindo por seus pés até o último fio de seu cabelo. Nunca esteve tão próxima de um homem... tão homem, digamos assim. Seu coração acelerou ao vidrar seu olhar nos ombros largos e no peito musculoso destacado pela camisa molhada. O mesmo acontecia com Byakuya, que fascinado pela beleza da garota, não percebeu uma garganta se abrir no céu bem acima deles. Um Menos Grande surgiu atrás do Capitão e lançou um cero rapidamente. Orihime gritou assustada, e Byakuya sentiu a forte energia se aproximar de si. Fazendo uso de sua velocidade mais do que aprimorada, pegou Inoue em seus braços e desviou com facilidade do ataque, que destruiu algumas árvores presentes no local. Segurando a cintura da garota firmemente com sua mão esquerda, apoiando o corpo dela sobre o seu, ele saltou no ar e disparou um Kido com a mão direita.

— Hadou Número 33: Sōkatsui.

Segurando firme o ombro de Byakuya, Orihime observou possessa o hollow se desintegrar e virar fumaça, agradecendo aos céus por todos os alunos já terem se recolhido para a aula, e ninguém ter presenciado a situação.

— Impressionante! Esse Kido foi realmente espetacular. Usou um feitiço sem encantamento e mesmo assim causou um estrago significativo, derrotando um Menos Grande sem esforço. Só mesmo um Capitão poderia fazer tal coisa. – Disse empolgada, olhando para Byakuya com fascínio.

— Está enganada. Dentro desse Gigai o meu poder espiritual foi consideravelmente reduzido. Se eu estivesse fora do Gigai, meu Kido teria sido muito mais forte.

— Mais forte? Mas se esse já foi devastador...

Byakuya não deu atenção ao que ela dizia, pois sentiu um baque de energia perto de si. O cero disparado pelo Menos de alguma forma fez uma espécie de curva e ia atingir Orihime em cheio, mas ele só teve tempo de se virar e receber todo o ataque sobre si. Eles caíram e rolaram pelo chão, e Inoue se deparou desesperada com um ferido Byakuya, cujo corpo inerte estava caído no chão por debaixo dela. Levantou o rosto devagar, e ele a encarava preocupado.

— Você está... bem?

— E... estou.

Ela respondeu hesitante se sentindo culpada pelo acontecido, já que o distraiu com o seu falatório desnecessário. A respiração dele ofegava e os lábios entreabertos a procura de ar seguido da voz grave que saiu como um fio apenas para saber se ela estava bem mexeu com a jovem humana como nunca antes. Os brilhantes olhos azuis do belo Capitão a miravam com um misto de preocupação e alívio. Reagiu com apreensão quando tais olhos se fecharam e seu corpo agiu por conta própria quando ela uniu seus finos lábios aos dele em um beijo doce e inocente.

つづくcontinua...


Então, amados leitores? Eu não sei se a parte de ByaxHime ficou decente ou muito tosca kkkkkkkkkkkkkkkkkk não sei se o Capitão bonitão ficou um tanto OOC, mas... eu também quis fazer ele e o Ukilindo se entenderem, já que ia dar merda se eles resolvessem mesmo partir pro pau. Vamos ver se agora a Kukkaku toma vergonha na cara e para de perseguir o Ukidivo.