Capítulo 10 – Inversão
No colégio, logo acima de onde estavam Byakuya e Orihime caídos no chão, trocando um inocente beijo, um homem de longos cabelos loiros flutuava no céu de cabeça para baixo bebendo a água em uma garrafa. O mesmo homem que destruiu outro hollow na noite anterior observava toda a cena, e viu quando o Capitão da Sexta Divisão deu conta da criatura usando apenas um Kido. Atento, ele apenas acompanhava tudo o que se passava, analisando cuidadosamente cada situação que via.
— Ora, ora... se não é Kuchiki Byakuya. Estou impressionado ao ver como aquele moleque invocadinho cresceu. Não é à toa que conseguiu derrotar aquele hollow com apenas um Kido. Esses Shinigamis... Será que não conseguem nem mesmo usar suas Zanpakutous dentro de um Gigai? – Perguntava para si ao sentir o vento agitar suas longas madeixas e suas roupas, desaparecendo logo em seguida.
Não havia ninguém lá. Nenhum aluno, nenhum professor, nem ao menos um inspetor. Ninguém ali que testemunhasse tal fato. Da janela da sala de aula, apenas Juushiro Ukitake observou o ataque do hollow e a maneira hábil como Byakuya lidou com a situação. Além dele, Ishida também viu tudo de onde estava sentado. Ichigo deu de ombros e resolveu não se importar, já que os Capitães haviam deixado bem claro para ele não fazê-lo. Não apenas isso, mas tanto o Capitão quanto o Quincy preferiram ignorar o fato de Byakuya e Orihime estarem no chão, um por cima do outro, e optaram por não saber por que ambos ainda estavam naquela posição. Da distância em que estavam era difícil para eles ver com detalhes, e os dois não estavam se importando com isso, de qualquer maneira.
Naquele momento só os dois importavam. Orihime não sabia porque tinha feito aquilo, apenas sabia que tinha feito. Dentro de seu turbulento coração ela não sabia se tinha beijado o belo Capitão apenas por preocupação de momento, atração física, medo ou por qualquer outra porcaria que tenha sido. Só sabia que estava ali, deitada sobre o grande corpo do Imponente Capitão da Sexta Divisão do Gotei 13. O irmão mais velho de sua grande amiga Rukia, a quem ela considerava como uma verdadeira irmã também. Que diabos deu nela? Que diabos aconteceu para que ela agir daquela forma? A garota também não sabia. Apenas sabia que estava gostando... e muito. Byakuya, porém, não reagia. Ela não sabia se ele estava desmaiado por causa do impacto que sofreu ao ser atingido pelo cero, mas a verdade é que o seu egoísmo momentâneo a impediu de pensar no atual estado de saúde dele. Ter seus lábios colados ao dele daquela forma tão cálida e simples fora a coisa mais maravilhosa que já lhe aconteceu. Mais maravilhosa do que ela pensaria ser com Ichigo ou com qualquer outro garoto que já deu em cima dela jurando amor eterno na escola. Não. Definitivamente com ele tudo era diferente, e a diferença não poderia ser descrita com palavras, pois nem ela mesma saberia utilizá-las para isso. Mas acima de tudo, Inoue estava envergonhada por ter se atrevido a beijar ninguém menos que Kuchiki Byakuya, e a forma como ele iria reagir a isso a preocupou. Instantaneamente ela decidiu quebrar o breve contato, e embora não tenha sido um beijo de verdade e não passado de um simples encostar de lábios, ela pediu aos céus para que ele realmente estivesse desmaiado e não se lembrasse de nada, porém já era tarde. Ficou surpresa e assustada ao mesmo tempo ao sentir os lábios dele se contraírem devagar, moldando-se aos dela com uma suavidade que ela jamais pensou ser possível vinda de um homem tão sério e frígido como ele. Seus lábios se encaixavam de maneira perfeita, como se fossem um só. E de forma natural, ele abriu a boca pedindo passagem, para uma surpresa ainda maior de Orihime, que como uma marionete, sucumbiu ao irresistível "comando" dado por ele quando sentiu a quente língua do atraente Capitão invadiu sua boca de forma possessiva e envolvente, porém calma e avassaladora, tão avassaladora quanto suas mãos, que se enlaçavam em seus longos cabelos ruivos. Ela só teve tempo para matar sua vontade de antes, e envolvendo o rosto masculino em suas pequenas e delicadas mãos, seus dedos se aventuraram no comprimento dos fios ébano, contrastando com perfeição a sua pele marfim, tão perfeita, que nem parecia ser real. Sentiu a maciez dos lisos fios e seu corpo inteiro se arrepiou, pois nunca imaginou estar mesmo sendo beijada por ele.
Byakuya, por outro lado, estava confuso. Há muito tempo o Capitão não se sentia daquela maneira. Desde que sua esposa morreu, ele nunca tinha trocado sequer um gesto de carinho com outra mulher. De alguma forma ele sentia que estava traindo a memória de sua esposa, mas também não podia trair a si mesmo. Ele era um homem adulto, bastante adulto, por sinal, e sabia perfeitamente distinguir o que sentia. Por alguns instantes se lembrou das palavras de Yoruichi e de quando ela disse que a causa da sua amargura e seu mau humor era falta de sexo. Não, ele jamais pensava nisso enquanto beijava a garota, e Yoruichi não estava 100% certa em suas palavras. A verdade é que ele se sentia só. Sentia falta de uma companheira a quem ele pudesse se dedicar, afinal de contas, ele já estava viúvo há mais de 40 anos, e bem ou mal, para quem já foi casado, isso causava um sentimento de vazio dentro de si. Também não podia negar que aquela garota alegre, cheia de energia e gentileza o encantava de uma forma que ele nunca tinha vivido antes. Era difícil de explicar, mas ele gostava de Orihime, e gostava mais do que podia imaginar.
Os corações dispararam em igual ritmo, e logo Byakuya segurou firme as costas de Orihime, colando o peito dela no seu e levantou-se de onde estavam, ainda sem desfazer o beijo, mas o contato foi forçadamente rompido quando de pé, tiveram que lidar com a diferença de altura. Estavam vermelhos, ofegantes e muito confusos. Inoue estava muito envergonhada. Queria simplesmente cavar um buraco e se enfiar dentro dele. Byakuya, por sua vez, estava com a mesma expressão calma e inalterável, como se absolutamente nada o incomodasse, nada o desestruturasse. De fato, nada deixava Kuchiki Byakuya envergonhado. E nem mesmo uma humana linda, encantadora e inocentemente sexy seria capaz de conseguir isso. Byakuya era Byakuya, afinal de contas. E sendo simplesmente Byakuya, ele fez a simplória pergunta sem emoção, e com a sua mesma imponência de sempre.
— Você está bem?
A humana bateu nas próprias roupas, tentando tirar a poeira que vinha delas de quando caíram e rolaram no chão. Um flashback veio em sua cabeça e ela apenas pensava em como rolar no chão com aquele homem tão lindo e, literalmente, tão homem, foi algo incrivelmente excitante, novo e inimaginável. Não apenas isso. Ele era totalmente diferente dos pirralhos com quem a garota estava acostumada a conviver todos os dias naquela escola, entre eles o próprio Ichigo, que apesar de ela acreditar amar desde sempre, de longe era muito diferente de Byakuya. Ichigo era bem maduro para um jovem de sua idade, mesmo assim, haviam momentos em que ele se comportava como o que realmente era: um adolescente que volta e meia tinha o destino do mundo na ponta da lâmina de sua Zanpakutou por várias vezes, e isso o tornava uma pessoa um tanto problemática e instável. Viu que o olhar do belo moreno ainda estava sobre si, e prontamente respondeu à pergunta.
— E... estou. Mas sou eu quem deveria perguntar isso. Kuchiki-san foi atingido por um cero, não foi? – Ela questionou num tom preocupado.
— É. Aquele maldito hollow possuía uma habilidade muito estranha. De alguma forma ele pôde mudar a trajetória do seu cero e fazê-lo voltar contra nós quando acreditamos que ele já estava derrotado. Mas que truque mais covarde e sujo. – Respondeu altivo, levando os dedos abaixo do queixo.
Orihime voltou a observar Byakuya, o que mais uma chamou a atenção do Capitão.
— O que foi?
— Nada demais. Eu apenas estava pensando na sua postura.
— E o que você quer dizer com isso? Você diz coisas que eu não entendo.
— Não! É que mesmo diante dessa situação, mesmo estando todo sujo e ainda ferido, você ainda consegue manter sua altivez e essa postura que lembra muito a de um príncipe. – Falou escancaradamente.
— Príncipe? Eu? – O homem rebateu surpreso, piscando os olhos seguidamente.
— Sim. Seus modos, seus gestos e seu tom de voz. Tudo em você é tão polido. Sua educação é admirável.
— Eu sou como sou. Isso não é importante. E, a propósito, quero que me responda uma coisa: porque você me beijou agora a pouco? – Perguntou de forma fria, esquecendo completamente do fato de que ele também correspondeu.
— Eu, eu, eu, eu, eu...! – Gritou morrendo de vergonha agitando seus braços. — Olha, já passou da hora de voltar para a classe. A aula já deve ter recomeçado faz tempo. Hahaha! Eu estou indo. Divirta-se aqui fora e não esqueça de me dizer se você já está bem. Até mais! – Falou ao sair correndo e dando risadas nervosas, deixando para trás um Capitão completamente confuso.
— É... – Suspirou derrotado. — Acho melhor fugir deste lugar por hora e voltar para casa. É o melhor que eu tenho a fazer depois deste ferimento nas minhas costas.
O pôr-do-sol mais uma vez chegou à Cidade de Karakura. Todos os alunos já tinham ido para suas respectivas casas após mais um dia de aula se encerrar. Kukkaku permanecia adormecida no telhado da construção sem se importar com absolutamente nada. A revelação de mais cedo mexeu com o juízo dela, e as palavras de Ukitake ressoavam em sua mente como se estivessem grudadas em sua cabeça. Ele continuava na escola, pois ainda estava intrigado com a Reiatsu de Misato-sensei, e nada lhe tirava da cabeça que ela cedo ou tarde se tornaria um chamariz para Hollows. Ao terminar seus trabalhos para a aula do dia seguinte, a jovem educadora de longos cabelos presos seguiu pelos corredores da escola em direção à saída. Ukitake sentiu a Reiatsu dela se movimentar e desceu ao primeiro andar, dando de cara com Misato. Eles se chocaram quando o Capitão saiu da sala, e ambos caíram sentados, e todos os livros que a Professora trazia, assim como a pasta escolar de Juushiro ficaram espalhados pelo chão.
— Misato-sensei! A Senhora está bem? Eu sinto muito por isso!
— Juushiro-kun? O que faz aqui a essa hora de novo?
— Desculpe, Sensei. É que eu gostei muito dessa escola. Eu fico muito tempo estudando, e quando vou ver a hora passou, anoiteceu e eu ainda estou aqui. A Senhora sai tarde todos os dias? Não tem marido ou um namorado que a leve para casa ao invés de andar sozinha pelas ruas?
A jovem Professora o olhou pasma e seu rosto corou. Ela não acreditava estar ouvindo aquele tipo de pergunta de um de seus alunos, mas uma pontinha de tristeza invadiu o seu castanho olhar por baixo das lentes de seus óculos.
— Ah, ah... – Respirou fundo. — Você ainda é muito jovem e não entenderia. Trabalho é trabalho, e ficar aqui até tarde não é novidade para mim. Quanto ao marido ou namorado... – Respirou mais fundo ainda. — Eu não tenho, e na verdade é uma preocupação a menos.
— Eu entendo. Desculpe fazer uma pergunta tão indiscreta. Sinto muito mesmo por tê-la feito se sentir desconfortável.
— Hum... – Balançou a cabeça negando. — Não tem nada demais.
— Então já que é assim, eu poderia acompanhar a Sensei até em casa toda vez que eu ficar aqui até tarde, o que acha?
— Verdade? Se não for nenhum problema para você... Então eu agradeço. Se bem que...
— O que foi? – Perguntou apreensivo ao notar que ela o olhava de forma curiosa.
— É que eu não imagino como você poderia me proteger.
— Por que diz isso?
— É que embora você seja um jovem muito alto, sua aparência é bastante... delicada, digamos assim.
Juushiro nada disse e recolheu todos os pertences do chão até que os dois seguiram até a saída da escola. Chegaram ao pátio ao mesmo tempo em que Kukkaku despertou, e de cima da construção, a morena observou os dois juntos enquanto eles caminhavam para fora.
— Sobre o que me perguntou lá dentro... Por que acha que eu não seria capaz de protegê-la se precisasse?
— Como eu disse antes, você parece ser tão frágil. Aliás, você é um jovem muito bonito. Tanto você quanto o seu amigo, Kuchiki-kun, viraram o centro das atenções. Todas as garotas do colégio ficam de olho em vocês, sabia?
— Isso é sério? Bem, eu confesso que não dou importância a esse tipo de coisa. Para os padrões humanos isso até pode ser verdade, mas eu não sou tão "jovem" quanto pareço.
— Mas o que você quer dizer?
— Ah não! Nada! Eu disse alguma coisa? – Tentou disfarçar ao perceber a besteira que falou. — Mas, voltando ao assunto, Sensei, a verdade é que eu sei me defender muito bem e posso defendê-la também. Eu pratico artes marciais desde muito pequeno. Pode acreditar. A Senhora estará segura comigo.
— Então nesse caso eu te agradeço muito. Vamos?
Ukitake balançou a cabeça assentindo e sorriu para a Professora, que retribuiu com um igual sorriso. Kukkaku ficou sentida ao ver tudo aquilo, e sem perceber ela estava seguindo os dois enquanto eles caminhavam pela calçada em direção à casa de Misato. A caminhada se estendeu por breves minutos, e ao passarem por um parque à beira de um chafariz, notaram que a noite já havia chegado e a lua cheia brilhava altiva junto com ela. Ukitake abriu um largo sorriso ao observar a lua brilhante e grandona no céu acompanhada de suas amigas estrelas. Misato olhou para o platinado curiosa ao notar a felicidade estampada no rosto do aparente rapaz, e como seus olhos esmeraldas cintilavam ao contemplar o belo firmamento noturno. A mulher sorriu também e não pôde deixar de comentar.
— Mas você é mesmo um belo rapaz, Juushiro-kun. Gosta da lua cheia?
— Sim. É muito bonita. No meu mundo não podemos vê-la dessa forma tão nítida.
— No seu mundo?
— Não! "No meu mundo", eu disse? Não... eu quis dizer que na cidade de onde eu vim não se pode ver a lua com tanta nitidez. É muita poluição, sabe, Sensei?
— Sim... entendo. Vamos indo então.
Voltaram a caminhar quando de repente o platinado parou ao sentir uma Reiatsu poderosa. Olhou para trás seguido de Misato, que levou um susto ao ver um imenso hollow sair de uma garganta. Kukkaku ficou impressionada também, mas por nada no mundo revelaria a sua presença.
— Ah! Que coisas são essas?! – A mulher gritou desesperada.
— Gillians... e muitos deles. Parecem serem cinco, eu acho.
— Que? Juushiro-kun, você sabe que bichos são esses?
— Espere... Misato-sensei pode vê-los?
— Como assim? Eu não sou cega! Como eu não poderia ver essas coisas? Estão bem acima de nós!
— É isso. É como eu pensei desde o começo. Misato-sensei tem mesmo uma Reiatsu mais elevada comparada a humanos comuns. Eu sabia que algo assim poderia acontecer.
— E agora o que vamos fazer? Essa coisa vai nos comer!
— Misato-sensei! Fuja daqui agora!
— Que? Mas e você? Não me diga que pretende ficar aqui e enfrentar esse monstro?
— Não é hora para esse tipo de questionamento. Você precisa se salvar!
Não tiveram tempo para contestar, pois o hollow os atacou. Estava sedento pela alma da Professora, cuja Reiatsu seria um verdadeiro banquete para o grupo de Menos. Ukitake pegou Misato nos braços e facilmente desviou da rajada de energia dos Gillians, que certamente mataria um humano comum, caso o acertasse. Saltou no ar onde parou por alguns momentos, e o platinado segurava a Professora como se a mesma fosse uma simples pena.
— Estamos voando! – Ela exclamou perplexa, para a surpresa de Ukitake, que não tinha se acostumado a não usar seus poderes.
— Voando? Não. De onde tirou isso? – Respondeu atordoado ao usar um shunpo que os fez parar no chão instantaneamente.
— Aquele imbecil! – Kukkaku disse para si. — Ainda não entendeu que não pode ficar exibindo seus poderes de Shinigami neste mundo.
— O que foi isso? Estamos no chão? Não, não! Eu juro que estávamos no ar até um segundo atrás.
— Caramba, isso não é importante! A Sensei apenas se confundiu. Tudo que eu fiz foi dar um salto bem alto e nada mais. Eu disse que tinha habilidades. Estou acostumado a lutar.
— Droga não foi isso que eu quis dizer.
Distraído com o discurso da Professora, o platinado quase não percebeu que mais um ataque se aproximava, e ao desviar em cima da hora, acabou recebendo parte do impacto, e tanto ele quanto Misato foram arremessados contra um banco de concreto, e a educadora acabou desmaiando. Ukitake lamentou e a colocou deitada em cima do banco com cuidado.
— Maldição. Droga de hollow. Não pense que vai se dar bem, seu idiota.
— O idiota aqui é você, seu grande imbecil! – Kukkaku exclamou nervosa ao se revelar pisando duro.
— Kukkaku-san? O que está fazendo aqui?
— Não seja idiota, seu idiota. Por acaso não sabe que não pode ficar por aí exibindo poderes de Shinigami neste mundo?
— Olha, me desculpe. Eu esqueci. É apenas a força do hábito.
— Pois trate de controlar essa testosterona e pense. Se quer lutar, saia desse Gigai, senão você terá sérios problemas se mais humanos virem isso.
— Cuidado!
Mais um ataque foi evitado. Ukitake envolveu sua mão pela definida cintura de Kukkaku, desviando com maestria. Ela perdia tempo demais falando, e seria acertada facilmente por causa de sua distração. Ela sentiu seu corpo sair do chão, e sem alternativa enlaçou seus braços nos largos ombros masculinos. Sentiu-se protegida. Era confortável, não... era magnífico estar assim, tão perto, e ao mesmo tempo tão longe dele. Mas Kukkaku não queria... não precisava ser protegida. Ela era forte, independente... mas como resistir àqueles braços? Aqueles braços que a envolviam de forma protetora, incondicional. Sentia em suas próprias mãos a firmeza daqueles ombros, que mais pareciam uma fortaleza indestrutível disposta a repelir qualquer tipo de mal. Juushiro Ukitake era mesmo uma fortaleza, e era assim... bem assim que Shiba Kukkaku poderia passar a eternidade: abraçada àquela fortaleza de bondade, beleza e força que ela tanto amava, mas não queria amar, desejava, mas não queria desejar, e quando novamente a "razão" voltou à sua mente, Kukkaku voltou apenas a ser... Kukkaku.
— Me solta, estúpido. O que está fazendo?
— Fique quieta. Será que não pode falar uma frase sequer sem incluir um insulto nela? Eu tenho pelo menos cinco Gillians para derrotar, e com você berrando no meu ouvido, fica difícil. E já que ninguém está olhando... – Comentou, colocando a morena no chão.
— O que vai fazer?
— Bakudou Número 73: Tozanshō.
Uma imensa pirâmide invertida se formou acima deles, cobrindo todo o parque com uma barreira, e a Shiba ficou boquiaberta com o tamanho da mesma.
— Agora sim ninguém vai ver nada, e posso isolar esse monstro aqui para que ele não machuque mais ninguém.
O que Ukitake e Kukkaku não sabiam era que Misato já tinha acordado e estava vendo tudo.
— Bakudou Número 4: Hainawa!
O Kido lançado por Ukitake envolveu o hollow em uma corda de energia espiritual, mas a mesma foi rompida segundos depois pelo grupo de bichos com certa facilidade.
— O que? Como assim um simples Gillian pôde se livrar do meu Kido? Mesmo sendo em cinco, com o meu nível de feitiço isso não deveria acontecer.
— Será por que o seu nível de Reiatsu está extremamente baixo?
— Eh? Quem disse isso? – A Shiba perguntou bastante confusa ao olhar ao redor e não ver ninguém ali.
O questionamento da morena foi interrompido quando o grupo de Menos executou outra investida, atirando jatos de alguma coisa estranha contra ela e Ukitake.
— Bakudou Número 81: Dankū.
A substância melequenta saída do "nariz" do grupo de Gillians foi repelida pelo Bakudou da pessoa desconhecida, que atraiu a atenção de Kukkaku e Ukitake, que ficaram surpresos ao ver uma silhueta masculina de pé, em cima de um dos postes que iluminava a praça do parque. O homem deu um salto e foi parar no chão, próximo de onde os dois estavam, e ele não parecia nem um pouco feliz.
— Escute aqui, merda de hollow, você é muito mal educado. Não sabe como é deselegante atrapalhar a minha entrada? Eu estava conversando, sabia?
Ukitake olhou estático. Aquela voz, aquele jeito próprio de falar, os longos cabelos que esvoaçavam com a brisa noturna banhados pela luz de prata da lua, reluziam como mais belo e valioso dos metais dourados. E quando ele sacou sua Zanpakutou, cuja guarda possui a forma de uma ampulheta e o punho num avermelhado escuro, tão parecido com sua Sōgyo no Kotowari, o platinado teve certeza de quem se tratava. Observou com atenção quando ele usou sua katana com maestria e cortou o grupo de Gillians ao meio, eliminando-os com um só golpe.
— Bem feito! Você bem que mereceu por estragar a minha entrada fodástica, bicho sem noção. E ainda se atreveu a jogar esse catarro nojento em cima de nós. – O loiro protestava, mesmo depois de o hollow já ter desaparecido.
— Eu vejo e não acredito. – Ukitake disse ao se aproximar do homem "desconhecido", usando um sobretudo cinza, uma calça e uma gravata branca e uma camisa preta, que ainda estava de costas para ele. — É você mesmo?
— "Eu mesmo"? Isso depende de quem você acha que eu sou. – Rebateu com outra pergunta.
— Esse tipo de resposta evasiva e invertida... não pode ser outra pessoa senão você. O Capitão da Quinta Divisão do Gotei 13... o homem que há 110 anos fora o superior de Sosuke Aizen. É você mesmo... Hirako Shinji.
— Ora, ora... muito me honra que alguém tão ilustre quanto você tenha se lembrado de mim. O renomado Capitão veterano da Décima Terceira Divisão: Juushiro Ukitake. – Respondeu o loiro ao virar-se para o platinado.
— Mas como isso é possível? A Soul Society julgou que você e os outros Shinigamis haviam morrido ou desaparecido naquele incidente provocado por Aizen.
— Incidente não! Armadilha. Foi tudo friamente planejado por aquele pilantra com o único objetivo de nos transformar em Hollows, mas, como pode ver, a merda que ele fez fracassou até certo ponto.
— Mas por onde você e os outros andaram por todo esse tempo?
— Estivermos exilados neste mundo, vivendo como os criminosos que não somos, enquanto o verdadeiro demônio dessa história se mandou com o Hougyoko e planeja fazer sabe-se lá qual merda maior.
— Eu entendo e realmente sinto muito. Eu tenho muitas perguntas a fazer, mas por enquanto, apenas me responda uma coisa: você está usando um Gigai, estou certo?
— Certíssimo.
— Mas então como você conseguiu usar sua Zanpakutou? Além disso, eu nunca te vi usando Kidos em batalha.
— Quem interrogatório todo é esse? Eu já respondi aquela sua "uma coisa".
Shinji olhou derrotado para o rosto interrogativo de Ukitake. Sabia que precisava contar a alguém sobre isso, e se escolheu aparecer logo diante dele, era porque sabia que o platinado era digno de confiança.
— Muito me espanta que vocês, Shinigamis, não consigam usar suas espadas dentro de um Gigai, e está na cara que a eficácia de seus Kidos também diminuiu consideravelmente. E quanto aos Kidos... só porque você nunca me viu usar, não significa que eu não possa usá-los.
— Faz sentido. Mas você fala como se você também não fosse um Shinigami.
— Só que eu não sou mais um Shinigami.
— Mas como pode dizer isso?
Parado diante de Ukitake, Shinji levou sua mão direita ao topo da cabeça, e tamanha foi a surpresa de Juushiro ao ver uma máscara de ossos se formar na mão dele. O rapaz a posicionou ao lado de seu rosto e prosseguiu com a explicação.
— Shinigamis não saem por aí desfilando com máscaras de Hollows, meu caro.
— Impossível... Essa máscara... você é um...
— Vizard. Respondi sua pergunta?
— Vizard? Mas então...
— Olha, se você quiser a cobertura completa e a apuração dos fatos, pergunte ao Kisuke, afinal foi ele quem nos salvou. – Disse ao dar as costas mencionando sair.
— Espere! Aonde você vai?
— Vou voltar para o meu lugar, mas ainda tenho um assunto pendente com o Kisuke.
— Mas você vai continuar escondido?
— Não exatamente. Diga ao Kisuke que farei uma visita a ele em breve.
Ukitake queria perguntar mais coisas, mas o Vizard desapareceu rapidamente.
— Aquilo foi mesmo real? Aquele cara era mesmo Hirako Shinji? – Kukkaku perguntou surpresa ao se aproximar de Ukitake.
— Sim. Era ele mesmo em carne, osso...
— E cabelo! Aliás... que cabelo! Me deu até inveja. No fundo, eu sempre quis ser loira. – Comentou animada.
— Bela hora para fazer piadas. – O Capitão rebateu revirando os olhos.
— Besta...
Kukkaku murmurou baixinho, sem permitir que ele ouvisse. Jamais permitiria que ele soubesse que eram seus cabelos cor de prata, que eram seus olhos cintilantes e seu rosto lindo que não saíam de seus pensamentos, seus sonhos e suas vontades...
Ukitake pegou sua Professora nos braços e seguiu com para a casa dela. Kukkaku viu a cena um tanto curiosa, pois ficou pensando em que tipo de sujeiras o Capitão estaria pensando ao levar a mulher com ele.
— Espere aí. Aonde você vai com esta mulher?
— E não é óbvio? Vou levá-la para casa e a deixarei dormindo em segurança. Apenas isso.
— Ah, e com certeza você vai dormir junto com ela para garantir essa "segurança", não é?
O platinado balançou a cabeça em desistência, dando as costas para a Shiba, que ficou perplexa ao ver que ele a tinha ignorado totalmente. Ela pensou em protestar, mas já estava cansada de bater boca e foi embora. O veterano deixou a Professora segura em sua casa e se foi, deixando um bilhete para ela explicando tudo.
Em outro lugar da cidade, mais precisamente em um armazém abandonado, Shinji sobrevoava o topo do local. Sempre de ponta a cabeça, desta vez com os olhos fechados e os braços cruzados, ele parecia meditar sobre algo. Perto dali, curtos passos de pezinhos pequenos se aproximavam do telhado, bem abaixo de onde estava Shinji. Para ela, as longas madeixas que voavam com a brisa mais lhe pareciam roupas no varal. A pequena mão apanhou uma generosa mecha de cabelo e a puxou com vontade, fazendo o Ex-Capitão bater com a cara no telhado.
— Mas quem foi o maldito que... – Tentou se recompor levantando o rosto, e seu olhar parou bem diante da franzina garota. — Maldita Hiyori! Só podia ser você mesmo! Que diabos acha que está fazendo?
— Essa pergunta é minha, seu grande imbecil. O que você acha que está fazendo? Você não é um pombo para ficar por cima dos telhados e ainda mais de cabeça para baixo. Você pirou de vez?
— Vê se não enche! Você sabe muito bem que eu gosto de ficar por aí de cabeça para baixo. Além disso, se eu pareço um pombo, um urubu, uma calopsita ou qualquer outra droga de ave que seja, isso não é da sua conta. Me deixe em paz, garota!
— Você e essa sua ridícula mania de fazer as coisas ao contrário. Está sempre invertendo tudo. Você anda purificando Hollows, não é? De onde você veio agora?
— Primeiro: fazer as coisas invertidas faz parte da minha natureza. Como se você não soubesse sobre a minha Zanpakutou. Segundo: desde quando você se preocupa com o que eu faço ou deixo de fazer lá fora? E terceiro: você já devia estar dormindo a uma hora dessa pirralha.
Hiyori cerrou os estreitos punhos de raiva e acertou um bem dado soco em Shinji, que despencou lá de cima e só não foi ao chão por que habilmente deu um salto no ar, pousando em seguida.
— Ficou louca, Hiyori?! Por que fez isso?! Pretende me matar?
— Não me trate como uma criança, seu idiota! Sabe muito bem que eu odeio quando você faz isso!
— E você não puxe o meu cabelo! Sabe que eu detesto quando você faz isso.
— Não mude de assunto, bobão! Eu sei que está acontecendo algo de errado. Você está escondendo algo, não está? Anda logo! Desembucha, Shinji careca!
— Posso saber o que há de estranho em exterminar alguns Hollows? Ou por acaso você acha que eu os deixaria devorar seres humanos?
— E que diferença faz? Eu odeio humanos mesmo.
— Só porque você os odeia não significa que eles não devam ser protegidos. São pessoas inocentes, Hiyori.
— Blábláblá... E o Kiko? Você fala demais, Shinji. Não é isso que eu estou perguntando. Por que viemos para essa cidadezinha, afinal?
— Porque aqui andam tendo muitas aparições de Hollows ultimamente.
— E daí? Eu já disse que isso não tem nada a ver com a gente. Deixe isso com os Shinigamis, entendeu? Nós não somos mais Shinigamis, droga!
— Escute bem, Hiyori... Você pode odiar o que você quiser... – Balançou a cabeça em negativo. — Mas não pode mudar os fatos. Eu vou entrar.
— Ei! Volte aqui, Shinji! Não se atreva a me deixar falando sozinha! Ei! – Gritou em vão, pois o loiro já tinha entrado no armazém que lhes servia de abrigo provisório.
Andou alguns metros por dentro da construção até se aproximar do cômodo onde estava dormindo até que ele parou ao ver alguém à sua frente.
— Está acontecendo algo de errado, não está? O seu hollow anda te dando trabalho. – Indagou séria.
— Lisa... – Suspirou ao colocar as mãos no bolso do sobretudo.
— Não adianta suspirar, Hirako Shinji. Se tem algo de errado acontecendo com o seu Hollow interior, você deveria nos contar. Somos companheiros ou não?
— É sério... Foi mal, Yadomaru. Eu apenas não estou a fim de tratar de coisas difíceis por agora.
— Mas Shinji...
— Até amanhã. – Falou em seu tom brincalhão entes de se recolher.
Jogou-se em sua cama macia em seu quarto, que ficava estrategicamente isolado no terraço da construção, e declarou derrotado...
— Ah, ah... a Hiyori não é brincadeira. Estou quase me arrependendo de ter deixado meu cabelo crescer de novo. Kisuke Urahara... precisamos ter uma palavrinha. Amanhã será um longo e conturbado dia...
つづくcontinua...
