Capítulo 11 – Rejeição
Byakuya chegou sujo e ferido depois de seu complicado dia de aula. Kyoraku tomava uma generosa taça do melhor vinho disponível na adega da luxuosa mansão que o Capitão da Sexta Divisão comprou com tudo dentro, e se divertia vendo televisão. O veterano praticamente deu um pulo da poltrona ao ver o moreno surgir naquele estado no meio da sala, e com os olhos arregalados, ele começou:
— O que aconteceu com você, Kuchiki? Você perdeu uma guerra contra uma vaca? Seu cheiro está péssimo.
— Não estou com tempo nem com humor para os seus comentários inadequados, Capitão. Isso não é tudo. Eu fui ferido por um cero disparado por um Hollow enquanto estava na escola.
Virou-se para Kyoraku, que se espantou ao ver as costas do Kuchiki suja e machucada.
— Que barbaridade... Mas como isso aconteceu? Como um Capitão como você foi atingido dessa maneira por um simples Hollow?
— Eu estava protegendo uma das alunas e acabei sendo atingido. Mas isso não é importante. Você tem proficiência em Kidos de cura?
— Eu? Imagina! Eu sou péssimo com feitiços Kido e nunca tive talento para essa arte. Acho melhor você esperar o Ukitake chegar. Ele tem bastante conhecimento médico depois de passar anos lidando com sua doença e seu talento para Kido está a nível de Mestre. Tenho certeza de que ele vai poder te curar rapidinho.
— E onde está o Juushiro? A uma hora dessas ele já deveria ter voltado.
— E como eu vou saber? Ele não é nenhum garoto para que eu fique cuidando dele. Provavelmente ele deve estar de olho naquela Professora a quem ele percebeu ter uma Reiatsu fora do comum.
— Isso não é nada bom. Eu espero que ele não demore muito.
— Está doendo?
— Sim, bastante. O cero de um Menos Grande é muito poderoso. Eu não sei como não sofri mais danos.
— Alguém pode me dizer o que aconteceu? Eu vi algumas gotas de sangue na porta da entrada. Tem alguém ferido? – Ukitake comentou ao chegar.
— Que bom que chegou, Juushiro! Você precisa cuidar do Byakuya. Ele foi ferido ao enfrentar um Menos.
— Entendo... então foi isso que aconteceu no recreio, certo?
— Você viu?
— Claro que sim. Inclusive o que você fez com a amiga do Kurosaki-kun.
— Que? Ah, malandrinho... quer dizer que fica dando em cima das menininhas do colégio, não é? – Kyoraku mencionou malicioso.
— Não é hora para esse tipo de piada, Shunsui. Vamos, Byakuya, tire essa camisa. Eu vou te curar agora mesmo.
Colocou as duas mãos sobre as costas feridas do moreno e o platinado rapidamente usou um Kido para curar as feridas de Byakuya.
— Obrigado. – Respondeu indiferente, já fazendo menção em sair.
— Espere, Byakuya. Precisamos conversar. – Indagou o platinado.
— Sobre?
— E não é óbvio? O que aconteceu hoje.
— Ah, ah... já que os dois bonitões vão conversar sobre assuntos de escola eu estou indo nessa. – Kyoraku disse divertido, subindo para o quarto, levando a garrafa toda de vinho consigo.
— Esse Kyoraku...
— Então, Ukitake? O que quer falar comigo?
— Você disse que eu estava me preocupando com bobagens, mas olha como você chegou.
— Eu devo isso a sua amada Shiba Kukkaku que me deixou nesse estado. Eu só quero tomar um banho e me livrar desse cheiro horrível.
— Não estou falando do ovo. Estou falando desse ataque que você sofreu. Não tem que se fazer de sonso para o meu lado.
— E o que tem de mais? Um Hollow apareceu naquela escola e eu acabei sendo atingido.
— Eu te falei que isso ia acontecer e você negligenciou. Disse que era besteira da minha cabeça. E não foi só isso. Eu andei de olho na nossa Professora nos últimos dias, e aconteceu de ela ter sido atacada. Por isso eu voltei só agora. Acabei de deixa-la em casa desmaiada.
— Ela também foi atacada?
— Exato. Eu acho melhor continuar de olho nela. Diga a verdade, Byakuya. O Genryuusai-sensei não te mandou aqui à toa somente para vigiar a nós, 'castigados', de outra maneira, ele não teria proibido Kurosaki Ichigo de lutar contra os Hollows que aparecem nesta cidade.
— Tanto Kurosaki Ichigo quanto os humanos com notável Reiatsu são alvos fáceis para Hollows, e se ele continuasse lutando com sua péssima habilidade de controlar sua própria Reiatsu, isso apenas chamaria mais Hollows para este lugar.
— Mas porque mandar a nós, Capitães?
— Eu já falei demais. Estou muito cansado por hoje, e se você não se importa, eu vou dormir.
— Mas Byakuya... – Tentou protestar, mas foi inútil pois o moreno rapidamente subiu, deixando o veterano sozinho na sala. — Droga porque ninguém me conta nada? Primeiro Hirako Shinji aparece do nada e cheio de mistérios e agora o Byakuya faz o mesmo... acho que não tem outro jeito senão ir dormir.
E foi exatamente isso que Ukitake fez, mas não antes de jantar, tomar um bom banho e vestir seu confortável pijama, além de passar horas vendo televisão.
Em seu lugar favorito da cidade, à beira de uma cachoeira, Ishida treinava como todos os dias, tentando em vão recuperar seus poderes de Quincy perdidos. Como se não bastasse ter que lidar com sua angústia atual, que era justamente a perda de seus poderes, agora o belo jovem também tinha que lidar com outro tipo de preocupação: Kurotsuchi Nemu. Não fazia ideia de porquê a garota estaria em seu mundo e muito menos enfiada em sua escola. Na verdade, ele também não queria saber. Não queria ter nenhum tipo de contato com ela ou qualquer outra coisa que o lembrasse da fatídica noite em que deixou de possuir suas habilidades conseguidas após tantos anos de treinamento para proteger os humanos. Se sentia mal, impotente, angustiado. Sua cabeça e seu coração enfrentavam uma explosão e uma confusão de sentimentos inimaginável. Por mais que Ishida não quisesse se lembrar, ele também não conseguia esquecer. Não conseguia esquecer aquela ligação estranha que sentia toda vez que via Nemu. De longe, ela não lembrava nem um pouco o seu criador, Mayuri. Era uma figura de aparência doce, como se fosse incapaz de causar mal ao mínimo inseto. Ele a salvou... ela o salvou também, e, de alguma forma, parecia que os dois haviam se conectado para sempre naquela noite. Mas Ishida queria esquecer. Ele precisava esquecer. Afinal de contas, era algo que não poderia ser, e nem ele queria que fosse.
Perto dali, seguindo a fraca Reiatsu que Ishida liberava, Nemu andava a passos lentos até o local, e não demorou muito para que ela avistasse o belo moreno de pé em uma das pedras do rio raso, tentando controlar o mínimo que lhe restava de poder espiritual. Os olhos azuis protegidos pelas lentes de vidro de seus marcantes óculos avistaram a bela Tenente, e um sentimento misto de temor e alegria tomaram conta do Quincy, e, saindo da água, ele caminhou até a margem de chão pedregoso, ficando de frente para a moça.
— Isso é uma agradável coincidência. Eu estava mesmo querendo saber o que você faz aqui. – O rapaz começou, para a surpresa da Shinigami.
— Eu... – Hesitou um pouco, mas continuou. — Eu vim até aqui por sua causa.
— Por minha causa?
A morena não respondeu, pois começou a atacar Ishida, que desviou do primeiro chute, indagando a ela sobre que ideia era essa de ataca-lo, mas Nemu continuou o atacando sem responder, até que o acertou. O rapaz caiu e bateu as costas em uma grande rocha quando ela parou diante dele.
— Pelo jeito é mesmo verdade. Você perdeu completamente os seus poderes.
— Então foi para isso que você veio? Para debochar da minha cara e confirmar que eu realmente não tenho mais poderes?
— Não! Eu jamais debocharia de você. – Ela negou prontamente.
— Foi para isso mesmo que você veio! – Ishida rebateu nervoso. — Você veio a mando daquele maldito Capitão Kurotsuchi só para me ridicularizar e confirmar minha decadência. Pois se você quiser me matar, vá em frente! Afinal, eu não teria chance alguma contra uma Tenente sem os meus poderes mesmo.
— Não diga isso, Quincy. Você poderia, por favor, me escutar?
— E o que você vai dizer? Só faltava falar que veio até aqui para mostrar sua piedade pelo idiota que eu fui quando pensei que você fosse diferente dele.
— Está sendo injusto! Eu... eu... quero ajudá-lo a recuperar seus poderes.
— E por que você faria isso? Por acaso não é a parceira daquele monstro, que por sinal, foi o responsável por eu estar assim agora?
— Não sei por que fala assim comigo. Pensei que você soubesse que eu não sou como o Mayuri-sama.
— Olha, me desculpe por ter sido rude com você. – Ajeitou os óculos, vendo sua franja esvoaçar frente a seu rosto. — Mas a verdade... é que eu... apenas quero que fique longe de mim.
— Você... Está me rejeitando?
— Eu sinto muito, mas é melhor assim. Eu não queria ter contato com nada que me fizesse lembrar daquela noite, você entende?
— Tudo bem. É claro que eu entendo. Você está no seu direito. Eu apenas queria que soubesse que estarei sempre por perto. Vou ajudar você a recuperar seus poderes, ainda que não queira.
— E por que você faria algo assim?
Ela não respondeu imediatamente, apenas começou a andar se afastando, e Uryuu sentiu um pequeno aperto em seu peito quando ela respondeu baixo e calmamente ao longe.
— Eu apenas quero... agradecer. Afinal... eu estou em dívida com você.
Viu a morena desaparecer de suas vistas, e a última frase dita por ela deixou margens para muitas dúvidas. O que ela quis dizer com "gratidão ou dívida"? E como ela poderia ajudá-lo? Ele não sabia, e também não queria saber, pois julgava que ninguém poderia ajudá-lo agora. E com esse pensamento, mais uma vez os joelhos do Quincy foram ao chão pedregoso, onde novamente seus punhos bateram no mesmo com força e revolta, e o chão foi molhado pelas lágrimas desesperadas do rapaz que só tinha um desejo: poder proteger os humanos inocentes algum dia...
Era quase meia-noite, e Nemu chegou na mansão Kuchiki com o seu sempre rosto indiferente e inexpressivo. Kyone viu quando ela chegou, pois estava subindo as escadas depois de pegar um copo de água na cozinha e estranhou ver a amiga chegar àquela hora.
— O que aconteceu, Nemu-san? O Capitão Kyoraku perguntou por você.
— Desculpe ter demorado, mas fui resolver meu assunto com o Quincy.
— E resolveu?
— Não. Ele recusou a minha ajuda e mal quis me ouvir.
— Que grosseria! Nemu-san não merecia isso.
— Mas... eu vim até aqui com o propósito de ajudar este rapaz e não vou embora até que os poderes dele estejam completamente restabelecidos.
— Nossa... quanta determinação. Por acaso você gosta dele? Por que dá pra notar que ele é um rapaz muito bonito. Não seria nada errado você estar apaixonada pelo garoto Quincy. – Kyone disse animada, só de pensar no futuro romance da Tenente.
— Apaixonada? Desculpe. Esta palavra não consta no meu banco de dados. – A bela respondeu friamente, subindo as escadas para o seu quarto.
No quarto de Byakuya, o moreno finalmente colocou sua cabeça no travesseiro. Estava aliviado, pois não via a hora daquele fracassado dia terminar. Fechou os olhos, e a primeira coisa que apareceu em seu subconsciente foi o rosto de Orihime. Pareceu entrar num sono profundo instantaneamente, pois para ele, tal imagem era quase um sonho. A lembrança da garota lhe veio à tona, e ele se recordou com ternura do beijo que trocaram. A forma como o corpo dela se harmonizou com o seu próprio com perfeição e como suas bocas se encaixaram como uma só. Era difícil para o Líder do Clã Kuchiki admitir, mas ele estava ainda mais convencido de que algo lhe fazia falta. Ele sentia falta de alguém especial para proteger. Uma mulher para amar e preencher o vazio e a solidão do seu coração apaixonado.
Nemu se deitou após tomar um banho e um copo de leite. A frase de Kyone causou um sentimento de dúvida na Tenente, que nunca sentiu algo como amor por alguém nem nada do tipo. Conforme foi vivendo, Nemu aprendeu e desenvolveu sentimentos como tristeza, pois Mayuri a tratava tão mal, que mesmo não sendo programada para tal, ela acabou adquirindo tais emoções de acordo com sua exposição a elas. Esse fenômeno também permitiu que a Shinigami sentisse uma profunda gratidão por Ishida, e junto a ela vontade de ajudá-lo, já que se considerava, em parte, culpada por ele ter perdido seus poderes. Novamente lembrou do que Kyone disse sobre a beleza do rapaz de óculos. Nunca ligou para esse tipo de coisa, mas era impossível não notar que Ishida era verdadeiramente belo. Ela achava os olhos do moreno encantadores, pois podia ver neles a sinceridade e bondade que nunca viu nos olhos de seu criador, e uma consideração e respeito tão grande para com ela, embora fosse uma desconhecida, que a tocou. Era fato que o Quincy não saia de seus pensamentos desde aquela luta, e o encontro recente deles apenas aumentou a determinação de Nemu. E com a imagem do rapaz de óculos em sua mente, a Tenente adormeceu, esperando com ansiedade para poder vê-lo no dia seguinte...
No Seireitei, Izuru estava em um restaurante juntamente com Renji, Hisagi, Yumichika e Ikkaku. Subitamente o loiro deu de cara com Rangiku, que tinha ido ao mesmo local acompanhada de Nanao, que convenceu a amiga a sair um pouco para espairecer. Ambos trocaram um olhar nada gentil. Parecia que estavam se estranhando. A ruiva se sentiu muito incomodada com a situação, e quando fez menção a sair dali correndo, foi detida pela Tenente da Divisão Oito, que a pegou pelo braço e a fez voltar.
— Você não deve sair daqui. Enfrente isso. Acho que vocês mais do que nunca precisam conversar e esclarecer de uma vez a situação de vocês. Já que se encontraram aqui, quer ocasião melhor? – Falou a de óculos, encorajando a amiga.
— Ah... eu acho melhor não... pelo menos por enquanto. Anda, vamos sentar em outra mesa.
Ambas as Tenentes se sentaram em uma mesa bem de frente para a mesa dos rapazes, que estranharam o fato de elas não sentarem com eles. Renji observou a reação esquisita do Capitão da Divisão Três e a Tenente da Divisão Dez, e com sua tão "controlável" discrição, perguntou no ato.
— Aconteceu alguma coisa entre você e a Rangiku-san?
O Capitão gelou com a pergunta e arqueou uma sobrancelha. E com sua habitual expressão melancólica, Izuru fez Renji se arrepender de ter feito a pergunta.
— E por que você acha que aconteceu algo entre nós?
— Hum... Vocês dois se olharam estranho e as meninas não vieram se sentar conosco. Não acha isso esquisito? – Indagou temeroso.
— Não vejo porque, afinal de contas, as meninas também precisam de um tempo só para elas, não acha? – Rebateu com indiferença, tentando reverter a situação.
— Hum... Se você está dizendo. Então acho melhor deixá-las sozinhas, não é?
— Sim eu acho muito melhor.
Em seguida os rapazes foram servidos com as bebidas. Em outro canto do restaurante, Ikkaku já beijava a quarta garota da noite e já estava completamente bêbado. Yumichika já tinha comido até não poder mais e também estava bêbado. Idem para Hisagi, mas apesar da bebida, ele também havia percebido o clima estranho entre o loiro e a ruiva, mas preferiu não tocar no assunto e dar espaço ao amigo. Renji estranhou ao ver Izuru tomar um simples refrigerante, e mais uma vez não deixou de perguntar.
— O que é isso, Kira? Vai ficar só no refri a noite toda?
— Prefiro assim. Não quero mais ficar me embebedando todas as noites, até porque bebida só traz problemas.
— O que você quer dizer com isso?
— Estou querendo dizer que bebida só nos faz agir como idiotas, justamente por nos fazer comportar como realmente somos. Nos faz ser sinceros e falar para todos o que mais aflige nosso coração.
— Olha, nisso eu tenho que concordar com você, afinal de contas, lembre-se de que bêbados e crianças sempre dizem a verdade.
— Eu sei disso, amigo, e acredite... que aprendi da pior forma.
— Desculpa eu perguntar ... – Insistiu. — Mas tem certeza de que isso não tem nada a ver com a Rangiku-san?
— Você quer saber de uma coisa? Porque não pergunta diretamente a ela? Quem sabe ela não te responde sem dar um soco na sua cara.
— Não, não... muito obrigado.
Kira pegou seu copo de refrigerante e saiu com ele para o lado de fora do restaurante. Rangiku viu a reação alterada de Izuru, e acabou indo atrás dele, sendo bastante motivada por Nanao através de gestos. Saiu apressada para o lado de fora do estabelecimento e olhou ao redor para ver se encontrava o loiro. Não demorou muito para que ela o visse encostado numa das paredes, bebericando calmamente o seu copo de Coca-Cola.
— Kira... Não precisava ter saído daquele jeito do restaurante assim que me viu. Por acaso está fugindo de mim? – A ruiva o enfrentou diretamente.
— Absolutamente não. Eu não tenho motivo algum para fugir de qualquer lugar que seja, mas se este encontro foi por acaso ou não, eu apenas queria me manter distante.
— Olha... eu sei que você tem todo o direito de estar chateado comigo, mas francamente o que há de mau? Você sabe muito bem o que Ichimaru Gin significou em nossas vidas, e não precisa ficar desse jeito só porque eu troquei o seu nome pelo dele. Acho um exagero você me tratar assim. As coisas entre nós não precisam mudar só por causa disso.
— Ah é? E você acha que o que fez foi pouca coisa? Eu vou te dizer uma verdade, Matsumoto-san... Se fosse apenas pelo nome eu juro que entenderia e nem teria me importado. Só que não foi apenas isso. Você me beijou, e este foi o fator decisivo para a minha completa decepção. Você não faz ideia de como eu me senti ao receber aquele beijo cheio de amor, paixão, ternura e devoção vindo de sua parte. Mas não era para mim. Todo aquele sentimento não era para mim, e isso... foi exatamente isso que me machucou muito e eu não quero passar por isso de novo. Eu espero que você entenda o meu lado, e, por favor, não me procure mais.
— É a sua última palavra? Você vai mesmo me rejeitar para sempre?
— Pode se sentir livre para me achar um idiota, mas entenda que essa situação é muito difícil para mim, e creio que em meu lugar você faria a mesma coisa.
— Isso significa que não seremos mais amigos e não vamos mais nos ver?
— É...
— Mas eu não sabia que você estava apaixonado por mim, portanto não pode me culpar por isso.
— Matsumoto-san... Eu não estou te culpando de nada, apenas não posso continuar perto de você.
— Mas porquê?
— Porque uma coisa é sermos amigos sem você estar ciente do que eu sinto, e outra bem diferente é continuarmos sendo amigos depois de tudo o que aconteceu.
— Não acha que está sendo muito radical?
— E você não acha que está sendo muito egoísta?
Rangiku refletiu sobre as palavras de Izuru. Se imaginou no lugar do loiro por alguns instantes e chegou à conclusão de que seria terrivelmente difícil conviver ao lado da pessoa que se ama quando a mesma claramente ama outra pessoa, e sendo esta pessoa quem é, era ainda mais agravante. Baixou o olhar e falou conformada.
— Você tem toda a razão. Eu sou mesmo uma egoísta e não levei em consideração os seus sentimentos. Imagino como deve ter sido doloroso para você estar perto de mim todo esse tempo sem dizer realmente o que sentia. Por que você nunca me contou?
— Se dependesse de mim você jamais iria saber sobre os meus verdadeiros sentimentos.
— Você é uma pessoa estranha. Eu não consigo te entender.
— E do que adiantaria eu lhe contar? A sua idolatria pelo Ichimaru não é segredo para ninguém. Como acha que eu poderia competir com isso? É perda de tempo iniciar uma batalha que já está perdida.
— Eu não acredito que estou ouvindo isso de você! Como pode considerar a batalha como perdida se você nem tentou? Nunca pensei que diria isso, mas você não passa de um covarde.
— Covarde...? – Disse calmamente massageando as têmporas. — E o que você sabe? Acha que foi fácil lidar com um amor platônico? Eu sei muito bem que você ama o Ichimaru e eu devo aceitar e respeitar isso. Eu nunca forçaria a barra ou insistiria em algo que não é para ser, por isso não quis te contar nada e estragar nossa amizade, só que, mais uma vez, Ichimaru Gin conseguiu. Não confunda respeito com covardia.
Cada palavra dita por Izuru atingiu Rangiku como um balde de gelo. Odiava admitir, mas ele estava certo e aquilo a consumia de remorso. Estava se sentindo péssima por ter magoado o Capitão sem perceber, mas também não tinha autonomia para mandar em seu próprio coração. Ninguém tinha, e aquilo sim era mais frustrante. Com o semblante triste e derrotado, a ruiva deu as costas para ele e voltou para o interior do restaurante onde deu de cara com Nanao saboreando um espeto de camarão frito e sendo ridiculamente paquerada por um Shinigami bêbado qualquer, que rapidamente foi atingido por um soco pela Tenente de óculos.
— Ei, gatinha! Porque me acertou desse jeito? Não precisava ser tão grossa. Eu só estava querendo levar um papo com você e te conhecer melhor.
— Não preciso lidar com pervertidos como você. Caia fora.
— Mas que mulher amargurada! Desse jeito nunca vai arrumar um namorado, sua insensível!
— Ora seu...! – Nanao fez o homem correr como louco ao ameaçar dar um soco nele, mas se deteve ao ver Rangiku.
— Vamos embora, Nanao...
— E aí, Rangiku? Como foi? Pela sua cara, acredito que não deva ter sido nada bom.
— E não foi. Continuamos do mesmo jeito, só que pior.
— Ah... Rangiku.
— Anda. Vamos sair daqui.
As duas Tenentes saíram do restaurante e rumaram para suas Divisões, onde cada uma delas teria uma longa noite de insônia. Encostado na outra parede, Renji ouviu toda a conversa entre Izuru e Rangiku, e como amigo, achou que era seu dever dar o seu parecer ao loiro.
— Cara... mas que coisa... – Falou ao coçar a cabeça. — Não acha que foi muito duro com ela?
— Abarai-kun... Desde quando está aqui?
— Tempo suficiente para ouvir tudo. Me desculpa a intromissão, mas acho que você pegou pesado demais com a Rangiku-san. Aliás, eu não imaginava que você gostasse dela.
— Então se você já ouviu tudo eu não tenho que explicar coisa alguma. A noite acabou para mim. Eu estou indo embora e te recomendo fazer o mesmo. – O loiro disse incomodado dando as costas para o ruivo, que engoliu em seco e continuou bebendo.
— Caramba... acho que agora eu sei de onde vem tanta amargura. Ele está pior do que o normal. Essa cara depressiva é assustadora.
Na Divisão Oito, Nanao se jogou na cama depois de um dia agitado. Depois de comer vários espetinhos de carne e camarão após chegar no restaurante com Rangiku, ela sentia que sua barriga ia explodir de tão cheia. Ao colocar a cabeça no travesseiro, a morena soltou as madeixas negras, que lhe caiam até abaixo dos ombros. Por um momento as palavras daquele Shinigami desconhecido que flertou com ela no restaurante ecoaram dentro de sua cabeça. Será que ela era mesmo uma mulher tão intragável assim? Nunca deu importância ao amor ou a ter namorados, pois achava que a maioria dos homens eram todos uns idiotas e que só pensavam em sexo, por isso nunca se deixou guiar por sentimentos baratos, segundo ela. Rangiku sempre dizia à amiga que isso era porque ela ainda não tinha encontrado a pessoa que finalmente tocaria seu coração. Nanao não estava preocupada com isso, mas o comentário daquele cara abusado a fez refletir sobre seu próprio gênio. Será que ela era tão insuportável a ponto de nenhum homem querer se aproximar dela? Pois estava claro que o homem do restaurante só o fez por estar bêbado. Não que isso a afetasse muito, mas ter uma má fama não era nada interessante ao seu ver.
— Será que algum dia eu vou encontrar... A pessoa que tocará meu coração?
E com esse pensamento estranhamente romântico dentro de si, Nanao fechou os olhos esperando que o sono lhe trouxesse o devido descanso.
As grandes folhas das bananeiras balançavam de um lado para o outro guiadas pela força do vento que se chocava contra elas. As ondas do mar iam e voltavam no azul celeste contrastando com a cor do céu, onde um lindo dia de sol se fazia presente. Horas depois, este imenso azul foi tomado por uma cor escura e a lua cheia invadiu o céu noturno. Redonda, prateada, grande e imponente como ela só. A areia da praia e a Salina marinha voava pelo mar com a força da brisa que soou brava naquela amena noite de outono. Na areia da praia, mãos masculinas percorriam uma delgada e curvilínea cintura feminina. As mãos fortes, grandes e decididas chegaram aos volumosos seios, brindando-lhes com uma carícia impossível de ser descrita com palavras. Só o que se podia ouvir eram os gemidos femininos de prazer e satisfação ao receber tais toques. Logo, sua língua trabalhava em perfeita sincronia, lambendo com perfeição toda a curvatura dos mamilos enrijecidos pela excitação do corpo feminino. Um arrepio seguido de um calor avassalador invadiu o corpo da jovem ruiva quando sentiu-se preenchida pelo membro masculino em toda a sua plenitude, e quando os movimentos e contrações se tornaram mais intensas dentro de si, um grito ainda mais forte foi ouvido quando ela atingiu o ápice do melhor orgasmo de sua vida, que na realidade, havia sido o primeiro. Os corpos suados e cobertos de areia se abraçaram, e seus lábios se uniram em um beijo doce, porém erótico. Ousado, porém discreto. E quando finalmente o ar lhes faltou, se separaram para contemplar a beleza dos rostos um do outro. A belíssima garota ruiva de olhos acinzentados contemplava com amor o lindo rosto masculino de pele alva e olhos azuis que eram tão belos quanto gélidos, tão enigmáticos quanto sinceros, e as madeixas negras que caíram sobre seus ombros cobertos de areia eram a prova do belo momento que os dois estavam compartilhando. Para eles seria apenas um dos muitos momentos de amor que viveriam. Voltaram a se beijar com muito mais desejo e volúpia de antes, sendo apenas abençoados pela luz prateada da Lua.
O vento soprava com força, e as cortinas esvoaçavam rebeldes. As janelas de madeira batiam uma na outra fazendo um barulho incômodo. Orihime abriu os olhos espantada, pois seu despertador tocara a meia hora atrás, mas a garota nada de acordar. Ao sentar-se na cama, notou seu corpo totalmente suado e sua intimidade encharcada, como se ela tivesse gozado. Apavorada, a humana instantaneamente se lembrou do sonho que acabara de ter. Estava muito confusa e não sabia exatamente o que pensar. Foi até o banheiro e tirou suas roupas para tomar um rápido banho, mas não sem antes parar na pia e jogar bastante água em seu rosto, abrindo bem os olhos ao encarar a si mesma.
— Um sonho? Mas... pareceu tão real. Eu não posso acreditar nisso. Eu realmente sonhei que estava transando com Kuchiki Byakuya? Mas como isso é possível? Nós só trocamos um simples beijo ontem e nada mais? Será que isso... É algo que eu realmente desejo? Não, não... isso não pode ser. Mas pensando bem... Desde que ele chegou aqui que eu não paro de pensar nele. O irmão da Kuchiki-san... Eu não consigo explicar nem definir o que aquele homem possa ser. Meu Deus... o que será que está acontecendo comigo?
Deu um tempo nos pensamentos e nos sonhos sórdidos com o Capitão da Sexta Divisão e foi agir a vida. Depois de tomar banho com a rapidez de um raio, a jovem tomou café voando e foi para a escola em igual velocidade.
Ao chegar no colégio, a garota deu de cara com uma cena inusitada ao entrar na sala de aula. Tanto a mesa de Ukitake quanto a mesa de Byakuya estavam repletas de cartas de amor e presentinhos, e alunas do colégio inteiro faziam fila para ver os Capitães. Kukkaku observava aquilo tudo com tédio e raiva ao mesmo tempo, e sentados em seus lugares, o moreno e o platinado não sabiam o que fazer para driblar o assédio das garotas. Ukitake pediu calma a Byakuya, e ele apenas ficou parado de braços cruzados e olhos fechados, tentando, em vão, fazer com que sua frieza fosse o suficiente para espantá-las. A amiga de Ichigo adentrou o local, tentando entender o que estava acontecendo.
— Né, né, né, né...! Vocês garotas poderiam explicar o que está acontecendo aqui na nossa sala de aula?
— Ora, você não soube, Inoue-san? Acontece que esses dois novatos gatinhos foram eleitos pelo nosso clube das 'beldades escolares' como os rapazes mais belos de todo o colégio, por isso estamos aqui para prestar nossa homenagem a eles.
— Então é disso que se trata toda essa palhaçada? – Byakuya disse extremamente sério levantando-se de onde estava e encarando a Presidente do Clube com seu olhar gélido, esperando que a mesma fosse se assustar e sair dali, porém ele só conseguiu fazer com que a jovem o olhasse ainda mais entusiasmada.
— Vejam, garotas, o moreno fica ainda mais lindo quando está irritado!
— Eu não estou irritado, mas eu realmente vou ficar se essa palhaçada toda não acabar agora mesmo.
— Byakuya, pega leve. – Ukitake tentou chegar a um acordo para controlar o gênio de seu colega de armas.
— Mas o que esse idiota acha que está fazendo? – Ichigo perguntou para si mesmo.
— Vocês humanos são mesmo uma raça estranha, não é verdade? É só com a beleza que vocês se preocupam? E se nós dois fôssemos uns psicopatas ou assassinos, por exemplo, ainda assim vocês nos idolatrariam? Pessoas fúteis e superficiais... eu não suporto esse tipo de coisa.
— Já chega, Byakuya. Não diga mais nada que possa nos comprometer.
— Ukitake-san está certo. Essas garotas são sem noção mesmo. Elas nem tem um conceito de beleza certo, caso contrário, elas teriam eleito a mim como o mais bonito e não vocês. Fica frio, Byakuya. Vamos curtir a aula que está para começar. – Ichigo falou brincalhão, tentando acalmar os ânimos.
O moreno nada respondeu, apenas quase fuzilou o ruivo com o olhar e voltou a sentar em seu lugar. A confusão só foi controlada quando a diretora do colégio entrou na sala de aula e ordenou que todas as alunas retornassem as suas salas enquanto ela fazia um comunicado para a turma de Ichigo.
— Muito bem, turma! Eu tenho uma notícia para vocês. Infelizmente, Misato-sensei acordou se sentindo mal e não vai poder vir dar aula a vocês hoje, sendo assim, vocês estão dispensados para fazerem o que quiserem. Podem ficar aqui na escola exercendo as atividades extracurriculares em seus clubes ou podem ir para suas casas. Isso é tudo. – Falou ao se retirar.
Ukitake e Byakuya se entreolharam desconfiados, pois a ausência da Professora só podia ter a ver com o ataque que ela sofreu de um Hollow na noite anterior.
Enquanto isso, bem próximo da loja de Urahara, uma outra garganta se abriu, de onde saiu um gigantesco Hollow com uma enorme máscara esquisita. A criatura murmurava o nome de Kurosaki Ichigo, e já estava começando a causar danos aos prédios da cidade. Kisuke e Yoruichi degustavam um chá em volta da mesa quando a mesma começou a tremer e o líquido espirrou inevitavelmente sobre a mesma.
— Ah, ah... Mas o que será que está acontecendo? – Perguntou o relaxado loiro.
— Não adianta tentar adivinhar! Vamos lá fora ver. – Yoruichi reclamou.
Ambos ficaram impressionados ao verem o tamanho da criatura e não entendiam como um bicho daquele poderia ter escapado por uma garganta de forma tão fácil.
— Yoruichi, fique para trás. Eu vou cuidar dessa coisa.
— Faça como quiser. Eu realmente não estou a fim de suar. – A gata observou sarcástica.
Kisuke segurou sua bengala firmemente e a mesma tomou a forma de sua Zanpakutou em questão de segundos.
— Ora, ora... você vai apelar para isso logo de cara? Aquele monstro parece ser mesmo bastante ameaçador para te obrigar a ir com tudo desse jeito. Mas tá aí uma coisa que eu adoraria ver. Quantos séculos fazem desde que você liberou a Benihime pela última vez?
— Nada disso importa, mas você poderá ver agora.
Os dois correram para o local exato onde estava o Hollow, e Urahara apontou sua katana para a criatura sem perder tempo.
— Okiro¹... Benihime.
Ao liberar seu Shikai, rapidamente o gênio usou seu ataque Nake Benihime, lançando uma rajada de energia poderosíssima em direção ao alvo, porém seu raio carmesim foi interceptado por um segundo raio igualmente vermelho, fazendo ambas as técnicas se anularem. Tanto Kisuke quanto Yoruichi se entreolharam extremamente surpresos, sem entender de onde poderia ter vindo aquilo.
— Você viu o que eu vi? – Perguntou a gata.
— Se você viu o mesmo que eu, então nós dois vimos um cero. – Kisuke respondeu ainda confuso.
— Mas veio dele?
— Impossível. Eu o ataquei de frente. Não teria dado tempo para um contra-ataque. Eu tenho certeza de que não veio dele.
— Mas então...
A especulação de ambos foi interrompida quando diante deles um homem se aproximava a passos lentos. Vestido com uma calça e gravata pretas e uma camisa alaranjada carregando uma Zanpakutou na mão direita, os cabelos do loiro esvoaçavam com o vento produzido pela explosão dos ataques. Kisuke suou frio ao ver que a máscara de ossos que o homem à sua frente usava acabara de se quebrar em pedaços diante deles. Mesmo depois da máscara se esvair, as escleras de Shinji continuavam pretas e sua íris dourada, fato que preocupou ainda mais o Ex-Capitão do 12º Esquadrão.
— Inacreditável... você é... Hirako Shinji! Quantos anos faz que não nos vemos? A propósito, da última vez que te vi, seu cabelo estava bastante curto. Fiquei surpreso ao ver que você teve coragem para cortá-lo, mas é bom ver que você adotou o mesmo estilo de antes.
— E quem se importa com isso? Kisuke, precisamos conversar e a coisa é séria.
つづく continua...
Nota¹ 'Okiro' significa acorde, desperte. É o comando de liberação da Benihime de Kisuke.
Nossa o que falar desse Capítulo? Como o próprio título diz, a mulherada foi completamente rejeitada pelos bonitões da história. Foi um festival de pé na bunda que não acabou mais kkkkkkkkkk Será que elas irão conseguir conquistar os gatos? É sempre um prazer ver a Benihime em ação e o que será que aconteceu com meu adorado e queridíssimo Shinji? Isso nós saberemos no desenrolar da história. Beijão e obrigada por acompanharem.
