Capítulo 12 – Gratidão

Enquanto Kisuke reparava nos olhos ainda howllificados de Shinji, o hollow em si ainda estava causando danos e tentava devorar um humano. Yoruichi gritou, e Shinji balançou a Sakanade, disparando um cero incomparavelmente poderoso em direção ao monstro, desintegrando-o completamente. O loiro de chapéu ficou ainda mais surpreso e muito mais curioso, questionou o outro loiro.

— Hi... Hirako-san... isso foi impressionante! Como você disparou aquele cero sem estar usando a máscara de hollow? Ou, melhor dizendo, por que seus olhos ainda estão assim?

— É Shinji. Pra dizer a verdade, esse é o motivo da minha vinda aqui. Podemos conversar em outro lugar?

— Ah... cla... claro. Podemos ir para a minha loja.

Ao chegarem, todos tiraram os sapatos e sentaram no chão de madeira que beirava um gramado. Ao se encararem antes de reiniciar a conversa, Kisuke ficou surpreso ao ver os olhos de Shinji voltarem ao normal.

— Hirako-san... isso foi...?

— É Shinji.

— Foi o que eu disse, Hirako-san. Você poderia me explicar sobre aquilo lá fora?

— É Shinji, caramba! Eu vou direto ao ponto porque detesto rodeios. Acho que você já deve ter notado um grande aumento de aparição de Hollows nesta cidade. Aquele em especial estava falando o nome "Kurosaki Ichigo", e isso certamente é muito estranho. Seja sincero comigo, Kisuke, isso tem a ver com o Aizen, estou certo?

— Ah, ah... – Deu um longo suspiro. — Era de se esperar. Não posso esconder nada de você. Seu poder de percepção só aumentou com o passar dos séculos.

— Não é hora para elogios. Aizen se mandou com o Hougyoko e agora esses Hollows de alto nível estão aparecendo um atrás do outro. É mais do que óbvio que uma coisa tem a ver com a outra.

— Como também tem a ver com a sua visita?

— Sobre isso...

— Sim! Agora lembrei que você deteve o ataque da Benihime ao chegar. Se não tivesse feito isso, o Kisuke poderia ter derrotado aquele hollow desde o começo. – Yoruichi comentou ao entrar na conversa.

— Acontece, "Senhorita gata", que aquele não era exatamente eu. De qualquer forma eu mesmo derrotei o hollow, não foi? Então pronto. – Rebateu o loiro.

— Espere... se não era você... Então eu não entendi.

— Contando a versão curta, parece que meu hollow interior não está "se aquietando" como deveria.

— Hirako-san...

— Shinji.

— Você quer dizer que...

— Eu estou perdendo o controle. E isso não é nada bom.

— "Nada bom"? Eu diria que isso é péssimo. – A gata comentou novamente.

— O problema maior é que eu não sei de onde está partindo esse descontrole.

— De fato, se você soubesse, seria bem mais fácil resolver.

— Não sei. A verdade é que eu estou com medo de perder o controle e acabar machucando algum dos meus amigos.

— Entendo. Mas isso é bem estranho. Tecnicamente algo assim não deveria acontecer.

— É... mas está acontecendo. Desculpe vir te incomodar com meus assuntos, mas acho que só você poderá me ajudar.

— Relaxe. Isso não é nenhum incômodo para mim. Apenas me diga, os outros Vizards vieram com você?

— É claro. E esse povo consegue viver longe do seu líder? – Falou divertido, abrindo seu habitual sorriso invertido.

— Aiai... dá pra ver que você não mudou nada. – O outro loiro observou ao se abanar com seu leque.

— Digo o mesmo de você.

— Não se preocupe com isso, Hirako-san. Seja o que for que esteja acontecendo nós iremos dar um jeito.

— Fico feliz em ouvir isso, já que foi exatamente por isso que eu vim até aqui.

— Mas não acha que ficar exterminando Hollows pela cidade será um problema para você? A Soul Society poderia tomar ciência do seu paradeiro.

— Pois eu estou tremendo de medo da Soul Society, Yoruichi. Aliás, acho bom mesmo que nos descubram. Eu já cansei de viver nas sombras como se o criminoso fosse eu.

— De alguma forma, você está certo. Isso é um caso a se pensar.

E os três se entreolharam ao degustarem um chá...


Na escola, Byakuya foi se refugiar no telhado após sair praticamente fugido da sala de aula. Sem perceber, acabou trazendo consigo uma pequena barra de chocolate que ganhou do bando de garotas histéricas. Olhou para a guloseima por longos instantes até que foi surpreendido por Orihime, que o viu sair da sala chateado.

— Isso é um chocolate. Você pode comer. – Falou, anunciando sua presença.

— Mas você... isso é de comer?

— Sim. Geralmente as garotas presenteiam os rapazes que gostam com chocolates. Eu sei que para vocês, Shinigamis, isso tudo pode parecer estranho ou uma bobagem... mas alguns humanos são assim mesmo. Eu, em particular, não gosto desse tipo de atitude.

— De que tipo de atitude está falando?

— Falo da atitude daquelas garotas. Acho que você está certo em ter ficado chateado.

— Essas pessoas só enxergam o que está diante de seus olhos e não se importam com o que deveria ser realmente levado em consideração.

— Mas eu não sou assim. Enxerguei algo diferente em você desde a primeira vez que te vi.

— É? Só que eu apenas cansei de ouvir falar da minha beleza. Não vê o que fazem com o Ukitake?

— Não tem nada a ver com isso. É que pra mim... você parece ter o porte de um príncipe.

— Um príncipe? Entendo... não parece ser nada diferente do que eu já ouvi das outras. – Concluiu ao terminar de comer o pequeno chocolate.

— Não! Você entendeu errado! Eu quis dizer que seu caráter, sua nobreza e sua honra são dignas de um verdadeiro príncipe. Na verdade, você parece ser solitário.

Byakuya processou as palavras de Orihime por alguns instantes. Por mais que ele quisesse negar, seria impossível não perceber que ela era diferente das outras. Não percebeu que ao terminar de comer o chocolate o canto de sua boca ficou sujo e ele levou um susto ao sentir o suave toque dos dedos de Orihime sobre sua face. Sua única reação foi olhar para ela seriamente.

— Aconteceu alguma coisa? – Perguntou frio.

— É que a sua boca está suja de chocolate. – Respondeu com seu habitual sorriso e expressão doce. — Sabe... seus olhos são tão bonitos. Poderiam transmitir mais alegria. Para ser bem sincera... seus olhos solitários foi o que mais me chamou a atenção em você. Eu me pergunto por que um homem que tem tudo como você se sentiria assim.

— Solidão... alegria... essas coisas não importam.

— Ah, e falando nisso... sobre ontem... eu queria te agradecer por ter me salvado. Aquele hollow era incrivelmente forte. Eu acho que não conseguiria detê-lo sozinha.

— Não foi só isso que aconteceu e você sabe. Por que age como se não tivéssemos nos beijado?

— Be... beijo? – Orihime falou nervosa. Seu rosto imediatamente ficou vermelho como se ela tivesse tomado um banho de tinta e ela balançou os braços rapidamente em protesto. — Quem aqui falou em beijo? Você não deve se preocupar com isso.

— Por que você nega? Tem medo de alguma coisa?

— Medo? – Questionou ainda corada. — Não é medo. É que eu tenho vergonha.

— Vergonha? Se não estou enganado, foi você que me beijou.

— Mas eu... – Tentou rebater, mas o moreno a interrompeu.

— Quero pedir desculpas por ter correspondido.

Orihime baixou o olhar e seu rosto assumiu uma expressão entristecida. Não quis tocar no assunto antes justamente por temer ouvir o que ele acabara de dizer. O moreno estranhou vê-la sentada com as mãos apoiadas sobre as coxas e imóvel. Observou seu olhar cabisbaixo e expressão triste enquanto ele terminava de comer o chocolate.

— Eu errei ao me desculpar?

— Não... na verdade, sou eu quem lhe deve desculpas. Eu já deveria saber que um homem como você jamais beijaria uma garotinha como eu. Por isso que eu evitei tocar no assunto. Estou morrendo de vergonha. Você deve estar pensando o pior de mim.

— Você é muito estranha. Se eu estivesse pensando mal de você não teria correspondido. Não foi culpa sua. O que me intriga é você dizer que um homem como eu jamais te beijaria. Por que disse isso?

— E não é óbvio? Você é um dos Capitães do Gotei 13, o Líder de um Clã Nobre. Você é super importante no seu mundo. Foi muita pretensão achar que alguém altivo como você desse importância a uma reles humana como eu. – Falou quase chorando.

— Nunca mais eu quero ouvir você dizer isso. – Disse sério, pegando a garota pelos ombros a obrigando a encará-lo.

A humana ficou tensa e surpresa com a atitude dele. Pela primeira vez viu nos belos olhos azuis algo além da indiferença, tristeza ou solidão. Seus olhos expressavam indignação.

— Por que você se menospreza tanto? Por acaso não se dá conta do quanto você vale? Não entende que tem poderes magníficos que nenhum Shinigami jamais sonhou ter e que seu coração é tão grande que o universo inteiro seria pequeno para caber nele? Portanto eu não permito que você se menospreze de novo!

Orihime gelou. Era inacreditável como aquele homem conseguia surpreendê-la. Ele estava certo. A garota sempre fora insegura e nunca tinha confiança em suas habilidades. Sempre se sentiu inferior, e por isso se considerava um peso para os outros. Mas naquela hora sentiu algo diferente. Uma emoção forte tomou conta de si. Não conseguia entender aquele sentimento, apenas sabia que o Capitão lhe fazia bem. Olhar para ele, estar perto, tocá-lo... Tudo aquilo lhe fazia bem. Notou que a boca de Byakuya ainda estava suja de chocolate e abriu um singelo sorriso. Ele a olhou fascinado. Achava loucura a forma como um simples sorriso dela tinha o poder imenso de desarmá-lo e trazer uma imensa paz a seu coração. Somente ela tinha esse poder e aquilo o atraía. Há tempos não se sentia tão bem e estava prestes a cometer uma loucura quando ela lhe tirou a atenção ao dar uma pequena gargalhada.

— O que aconteceu? Tem algo de errado no meu rosto?

— Claro que tem. Sua boca ainda está suja de chocolate.

— Pois vou repetir a pergunta de ontem... por que você me beijou.

— Eu... não sei. Isso é muito constrangedor.

— Tudo bem. Eu também não sei por que correspondi, mas podemos descobrir juntos se você me ajudar a limpar esse chocolate da minha boca.

— E como eu poderia faze...

Nem terminou a última palavra, pois seus lábios foram unidos ao de Byakuya com uma rapidez que somente ele poderia ter. Piscou os olhos tamanho o susto, mas instantaneamente se rendeu ao gesto do belíssimo Capitão, que tinha o excelente talento de saber beijá-la como nenhum outro jamais beijou. Fechou os olhos e só o que sua mente enxergava era o sonho que tivera noite passada e de como acordou esta manhã. Para ela era fato de que somente ele seria capaz de causar tal sensação nela. Não demorou muito para que o ar lhe faltasse e o intenso beijo deu lugar a pequenos e repetidos selinhos que ambos trocavam de forma inocente, porém intensa, sentindo o tentador sabor do chocolate agraciando suas línguas. O beijo foi rompido por Orihime, que se afastou lentamente, pousando os dedos sobre os lábios dele.

— No fim das contas, parece que nós dois ficamos sujos de chocolate. – Disse sorrindo e dando uma piscada.

Se Byakuya se lembrasse de como sorrir, certamente ele teria sorrido naquela hora, mas o que os dois não sabiam era que Ukitake, que tinha ido atrás de Byakuya para falar sobre Misato-sensei, acabou presenciando quando os dois se beijaram pela segunda vez. Ele rapidamente concluiu que o que tinha visto no dia anterior após o ataque do hollow era precisamente o que ele tinha pensado e saiu sem se revelar aos dois.

O platinado voltou para a sala de aula, e grande parte dos alunos da turma de Ichigo já tinham ido embora. Kukkaku estava 'brincando' em um Soul Pager dado a ela por Yoruichi e estava entediada demais para voltar para casa tão cedo. Viu quando Ukitake voltou para a sala e o olhou indiferente. Ele sentou na carteira e começou a ler um livro. Em seguida, abriu o caderno para fazer alguns exercícios. A morena se aproximou e sentou na mesa da Professora com as pernas cruzadas bem de frente para ele. A única reação que o veterano teve foi arquear uma sobrancelha ostentando um semblante interrogativo.

— Por que me olha com essa cara de besta? A turma toda foi liberada. Vai ficar aí fazendo a lição de casa? Por que não se manda?

— Se é esse o caso, eu deveria fazer a mesma pergunta a você. Estou dando um tempo, pois quero ir até a casa da Misato-sensei. É obvio que se ela não veio dar aula hoje é por causa do incidente de ontem à noite.

— E por que você tem que ir lá? Já fez o seu papel de super herói ontem. Não precisa mais se preocupar.

— Alguém como você jamais entenderia minhas razões, por isso nem vou perder tempo explicando.

— ESTÁ ME CHAMANDO DE BURRA?! – Gritou já se exaltando.

— Em algum momento eu disse isso? E vê se para de gritar. Eu não tenho a mínima intenção de brigar. – Respondeu calmo com seus olhos fixos no livro em suas mãos.

— Olhe pra mim quando eu estiver falando! Que tranquilidade mais irritante! – Gritou novamente, esticando a perna direita e dando um chute no livro, que voou das mãos dele, dando a Ukitake uma privilegiada visão por debaixo da saia de Kukkaku.

— Vo... você deveria prestar mais atenção em sua própria saia antes de se preocupar com o que eu faço ou deixo de fazer! – Ele disse envergonhado e suas maçãs do rosto coraram na hora. Ela não pôde deixar de achar a reação dele fofa, embora quisesse sair da situação como a dona da verdade.

— Por acaso você estava olhando para a minha calcinha?!

— Não olhei pra nada! Foi você que a deixou à mostra! Sabe de uma coisa? Melhor mesmo eu ir embora. É impossível manter cinco segundos de conversa civilizada com você. – Falou ao levantar e ir embora com o seu material.

— Mas que coisa... o que deu nele? Pensando bem... acho que qualquer um teria visto a minha calcinha. MAS... eu vou segui-lo. Quero só ver o que ele vai falar para aquela Professora. – A morena pensou, seguindo Juushiro sorrateiramente.


No Sereitei, a Divisão Três acabara de voltar de uma missão. Eles tiveram de lidar com uma grande quantidade de Hollows que estavam saindo de uma caverna devido a um distúrbio desconhecido em um seikaimon. Durante o processo, vários membros da Divisão acabaram caindo dentro de um rio, incluindo o próprio Izuru, que caiu para proteger alguns de seus homens. As águas daquele rio não pareciam ser normais e o Capitão voltou exausto para o seu escritório. Após ser servido com uma xícara de chá por Izumi, o loiro rapidamente foi para o seu quarto, pendurou o Haori em um cabide próximo e se jogou na cama onde dormiu quase instantaneamente. Izumi estranhou o fato de seu Capitão ter ido para a cama no meio do dia, mas já que ele tinha acabado de voltar de uma missão, presumiu que ele estivesse muito cansado, por isso a Tenente achou melhor não incomodá-lo. Pouco tempo depois, seu corpo começou a suar muito e ele balançava a cabeça de um lado para o outro. Estava com uma febre altíssima e logo começou a delirar. No escritório da Divisão Oito, Rangiku e Nanao compartilhavam um lanche vespertino. Tomavam chá com biscoitos, alguns pães e bolos variados. Enquanto comiam, a ruiva de repente sentiu uma forte oscilação na Reiatsu de Izuru, e sem perceber depositou a xícara com força em cima do pires e quase o quebrou, chamando a atenção de sua amiga Tenente.

— O que foi, Rangiku? Aconteceu alguma coisa?

— Você não sentiu? É a Reiatsu do Kira. Ela sofreu uma grande queda agora. Será que... ele...?

— Agora que você falou... – Comentou ajeitando os óculos. — Fiquei sabendo que a Divisão Três saiu em uma missão para reparar um certo distúrbio em um seikaimon esta manhã.

— Um seikaimon? Mas não pode ser. Será que o Kira...

— E você está preocupada?

— É claro que estou preocupada! Todas as missões, por mais simples que sejam, ainda tem os seus riscos. Algo pode dar errado. E se ele não voltar...

— Não se preocupe com isso, Rangiku. O General Yamamoto já recebeu o relatório dizendo que a Divisão Três voltou sem maiores problemas e cumpriu a missão com sucesso.

— Mas se é assim, então por que só agora eu estou sentindo essa mudança esquisita na Reiatsu do Kira?

— Sei lá. Talvez ele tenha sido ferido, e...

A morena de óculos nem sequer terminou de explicar, pois Rangiku deu um salto de onde estava e correu a toda velocidade até o quartel da Divisão Três. Enquanto corria, a ruiva escutava seu nome sendo murmurado de forma desesperada. Era a voz de Izuru que a chamava durante o seu delírio. Ao chegar ao quartel, viu que a Tenente Izumi estava vigiando a entrada e ela não conseguiria passar sem ser vista. Sem tempo nem paciência para lidar com uma possível discussão, teve a ideia de usar o mesmo Kido que usou da última vez que entrou no quarto do Capitão, assim ela poderia adentrar ao local sem maiores problemas. E foi isso mesmo que ela fez. Em poucos instantes entrou no quarto de Izuru e o surpreendeu na cama ardendo em febre. Aproximou-se, e olhou assustada a forma como ele balançava a cabeça de um lado para o outro. Afastou o lençol que o cobria e ficou ainda mais apreensiva ao olhar para a abertura do shihakusho e ver o corpo e o rosto do rapaz ensopados de suor. Rapidamente foi até o banheiro que ficava dentro do próprio quarto e pegou uma toalha limpa e uma bacia com água. Em nenhum momento o loiro parou de gemer o nome de Rangiku, e ver aquilo mexia ainda mais com os sentimentos dela de uma forma que ela não sabia explicar. Rapidamente começou a tentar esfriar o corpo do rapaz aplicando compressas de água gelada. Pegou outra toalha e afastou a longa franja dourada para trás, colocando o pano úmido sobre a testa dele. A respiração de Izuru estava ofegante e seus lábios entreabertos procuravam captar um pouco de ar. Rangiku olhou de relance e seus olhos focaram diretamente os lábios do loiro, e ela apenas conseguiu pensar em como eram sexys. No mesmo instante lembrou do segundo beijo que trocaram, especialmente por ela não estar bêbada. A diferença absurda entre o beijo de Izuru e os tétricos beijos que trocava com Ichimaru apenas fizeram a ruiva sentir uma absurda vontade de beijar Izuru novamente. Alguns minutos depois a febre pareceu ceder um pouco e ele parou de balançar a cabeça. A Tenente foi se aproximando, e ficou com o seu rosto a milímetros do dele, fazendo seus lábios roçarem um no outro. Ainda inconsciente, o Capitão não reagia, e recuperando o pouco que ainda lhe restava de sanidade, Rangiku balançou a cabeça tentando afastar tais pensamentos de sua mente e puxou uma cadeira que havia ali, sentando ao lado da cama e esperando pacientemente que ele acordasse. Ali mesmo ela permaneceu, e pouco tempo depois acabou dormindo. Quase três horas haviam se passado desde então, e Izuru voltou a delirar gemendo o nome de Rangiku.

— Matsumoto-san... Matsumoto-san...

E assim ele continuou dizendo o nome da Tenente repetidas vezes até que ela acabou acordando.

— Kira? – Disse assustada ao abrir os olhos e ver que ele tinha piorado de novo. — Meu Deus... A febre voltou a aumentar.

Fez as compressas novamente, tentando o máximo possível resfriar o corpo dele. Afastou totalmente as mangas do shihakusho, deixando todo o tronco do Capitão exposto a fim de facilitar o processo. Passava toalha delicadamente pelos braços, ombros, pescoço peito e pela cintura, parando estrategicamente no meio do abdômen, onde cuidadosamente deslizou seus dedos pela pele alva e músculos definidos. Mordeu os próprios lábios sentindo um calor estranho tomar conta do seu corpo. Mais uma vez teve que se controlar para voltar à realidade e afastar os pensamentos impuros de sua cabeça.

— Matsumoto-san...

Mais uma vez ouviu seu nome, porém sentiu a mão dele pousar sobre a sua, contendo seus movimentos.

— Kira? Que bom que acordou. – Disse aliviada ao vê-lo abrir os olhos azuis.

— Eu... o que eu tive? Você sabe o que aconteceu comigo? – Ele perguntou ainda um pouco tonto.

— Não faço ideia do que tenha acontecido, mas quando eu cheguei você estava com muita febre, quer dizer, ainda está.

— Mas o que você está fazendo aqui?

— Me desculpe... Eu sei que você praticamente exigiu que eu não lhe procurasse mais... Só que eu sou estou aqui porque você estava me chamando.

— Eu... Estava?

— É. Você dizia o meu nome várias vezes durante o seu delírio, e eu senti sua Reiatsu oscilando muito, por isso eu corri para ver o que estava acontecendo com você. – Respondeu naturalmente ao sentar na cadeira.

— E você sabe me dizer por quanto tempo eu dormi?

— Não sei ao certo, mas desde que eu cheguei aqui acho que já se passaram quase três horas.

— Você esteve cuidando de mim durante todo esse tempo?

— Mas é claro. Do mesmo jeito que você sempre cuidou de mim durante as minhas bebedeiras. Comparado a tudo que você já fez por mim, isso não é nada.

— Matsumoto-san... – Disse derrotado, colocando sua mão sobre as mãos dela que estavam sobre a cama.

Fechou os olhos novamente tentando relaxar e apenas sentiu as mãos de Rangiku envolverem a dele com cuidado. Ela aproximou seu rosto e dobrou o braço dele para cima, levando a mão do loiro até o canto de seu próprio rosto, e ele pôde sentir a maciez dos longos cabelos ruivos.

— Kira... Não me expulse daqui. Por favor... não me afaste de você de novo. – Pediu de olhos fechados, desfrutando do toque dele em seu rosto.

— Você quer que as coisas entre nós voltem a ser como antes? – Ele questionou despretensioso.

— Sim. Eu não quero perder sua amizade. Você é muito importante para mim.

Kira abriu novamente os olhos, mexendo o polegar, limpando uma lágrima que sentiu cair dos olhos dela. Lançou-lhe um olhar repleto de carinho e um sorriso tímido brotou em seus lábios.

— Você não sabe como eu senti falta disso. Eu sempre me senti tão reconfortada quando você sorria assim pra mim. Embora você sempre sorrisse de forma tímida e contida, para mim este sempre foi o melhor sorriso, pois é sincero, livre de cinismos ou ironias.

— Bem diferente do sorriso do Ichimaru, estou certo?

— Por Deus, não me entenda mal. Eu não estou te comparando com ele. Não quero que você pense assim.

— E o que teria de estranho nisso? Você pode não dizer abertamente, mas é normal fazer esse tipo de comparação dentro da sua cabeça. Fique tranquila quanto a isso. Acho que eu no seu lugar também não poderia evitar.

— Mas... Kira, você...

— Por que veio aqui tão rápido, sendo que, como você mesma disse, eu havia pedido que não me procurasse mais?

— É que eu tive muito medo... Um medo enorme de perder você.

— Relaxe. No que depender de mim, aquela noite de porra está completamente esquecida.

— É sério?

— Claro. Eu fui um estúpido ao desprezar você. A culpa não foi sua. Se quer que as coisas sejam como antes, então elas serão como antes. Você pode contar comigo como sempre.

— Isso quer dizer que você me perdoa?

— Não há nada para perdoar. Sou eu que te devo desculpas. Agi como um idiota, mas agora acho que me sinto um pouco mais aliviado, porque você já está ciente dos meus sentimentos. E sobre isso... – Ele fez uma pausa. — Eu apenas gostaria que você não mudasse a sua maneira de agir. Finja que não sabe de nada e continuaremos sendo amigos como sempre fomos.

— Essa é a sua única condição?

— Sim.

— Ótimo. Obrigada por me perdoar isso significa muito para mim.

— Não diga isso. Muito obrigado por você ter vindo. Eu não tenho palavras para te agradecer por isso eu estou verdadeiramente grato. Sem querer eu acabei de chamando e isso serviu para aprovar muitas coisas.

— Que coisas? Eu não entendi.

— Isso serve para provar que eu estava sendo um tolo quando tentei me afastar de você.

— Tudo bem. Esqueça. Todos nós erramos mas o melhor de errar é tomarmos consciência do erro e nos corrigir. Eu estou tão feliz.

Enquanto Izuru e Rangiku se acertavam no quarto do Capitão, Izumi estava do lado de fora e estranhou a ausência de seu Capitão durante a tarde toda. Um dos oficiais foi até ela e comunicou que vários membros que foram na missão de mais cedo e caíram na água do seikaimon estavam passando bastante mal, com febre alta em seus quartos. A Shinigami ficou extremamente preocupada e foi procurar por Izuru. Procurou por toda a Divisão, no escritório também, mas não o encontrou. O último lugar que restou foi ir até o quarto dele, e como achava que não encontraria ninguém, abriu a porta com tudo sem avisar e deu de cara com a cena. Os dois estavam do mesmo jeito de antes. Rangiku ainda mantinha a mão de Izuru sobre o rosto dela e os dois estavam de olhos fechados e uma expressão feliz. A Tenente observou aquilo bastante confusa e pensou o pior ao observar que Izuru estava com todo o seu tronco exposto. Ela estava tão atordoada que sem perceber, as palavras saíram de sua boca.

— Capitão! Desculpe entrar assim, mas foi informada de que vários membros da divisão que foram na missão com o Senhor esta manhã estão de cama e passando muito mal.

Ambos abriram os olhos então tu assustados e processar uma informação dita por ela.

— Olha, queridinha, quanto ao Capitão, você não precisa se preocupar, pois, como pode ver, eu já cuidei muito bem dele. Se eu fosse você, acionaria a Divisão Quatro e tomaria as providências para cuidar do resto dos membros que foram afetados.

— O que? Como você se atreve a falar assim? Eu nem quero imaginar quais métodos você usou para "cuidar" do meu Capitão. E além do mais, é muita cara de pau sua ter coragem de colocar os pés aqui. A sua presença faz mal ao meu Capitão, por isso exijo que se retire daqui imediatamente.

— Izumi-kun, ela está aqui porque eu a chamei. E não se preocupe mais com isso, pois a partir de agora, Matsumoto-san pode voltar a frequentar esta Divisão como sempre fez.

— Mas, Capitão! Eu vi o estado em que o Senhor ficou por causa dessa mulher. Como pode querer vê-la de novo?

— Acontece que ela e eu somos amigos há muitos anos. Já nos perdoamos e aquele incidente ficou esquecido.

— O Senhor é quem sabe. Espero que não se magoe novamente.

— Sobre o incidente, eu acredito que aquela água presente no seikaimon que enfrentamos hoje seja prejudicial a nós, Shinigamis, por isso acione a Divisão Quatro e solicite a assistência deles para os outros membros agora mesmo.

— Sim Senhor, Capitão. Estou indo agora mesmo.

— Izumi-kun.

— Senhor?

— Antes de entrar no quarto de qualquer um você deve bater na porta.

— Mil perdões por isso, Senhor. Irei cumprir suas ordens imediatamente – Disse ao sair.

— Quanto a você, Matsumoto-san, é melhor voltar para a sua Divisão. Eu não quero ter problemas com o Capitão Hitsugaya. Ele pode pensar que eu estou atrapalhando mais ainda o seu trabalho.

— Entendo. Eu irei voltar, mas podemos beber juntos esta noite?

— Matsumoto-san...

— Pela sua expressão, acho que isto foi um "não".

— Acertou.

Sorriram um para o outro e a ruiva voltou para a sua divisão.


Juushiro Ukitake seguiu a pé até a casa da Professora, fingindo não saber que Kukkaku o seguia descaradamente. Quando chegou à casa da Professora, foi recebido pela mesma, que pediu que ele sentasse frente à mesa de centro de sua sala enquanto ela fazia um chá para os dois. Ukitake prontamente se negou, alegando que ele mesmo faria a bebida, pois ela ainda estava convalescendo. A educadora pediu desculpas ao seu aluno por estar vestida com um felpudo roupão rosa claro, já que não esperava nenhuma visita. Kukkaku espiava os dois pela janela da sala do lado de fora da casa, curiosa para saber no que daria aquela conversa.

— Juushiro-kun, estou surpresa que tenha vindo me ver. – Começou ao tomar seu chá.

— Surpresa? Não deveria. Afinal, eu estava preocupado por que a Senhora não foi nos dar aula hoje e só pode ter sido pelo que aconteceu ontem. Aliás, sobre isso... eu gostaria que a Senhora guardasse segredo e não dissesse a ninguém o que aconteceu.

— Está brincando? Quem iria acreditar se eu dissesse "olha, um monstro gigante e horrendo me atacou noite passada, por isso eu não vim dar aulas hoje".

— É. Seria mesmo complicado. As pessoas até poderiam pensar que a Senhora está louca.

— Pois é. Não é todo dia que vemos um monstro pela cidade querendo nos comer. A propósito, a sua visita foi uma agradável coincidência. Não parei de pensar sobre o que aconteceu. Eu vi o que você fez depois que me colocou no banco da praça. Por favor, me diga quem é você na realidade.

Naquela hora, tanto Ukitake quanto Kukkaku gelaram. Por acaso aquilo significava que ela tinha visto tudo? A morena ficou mais apreensiva ainda, apenas pensando se o veterano seria burro o bastante para contar tudo a ela. Ele, por outro lado, sabia que de nada adiantaria esconder a verdade, já que ele não sabia mentir, e considerando que ela já disse ter visto tudo, ele se encontrava sem saída.

— E o que exatamente a Sensei viu? – Ele perguntou com cautela.

— Como eu disse. Eu vi tudo. Vi como você usou poderes estranhos e prendeu a criatura, depois um homem de longos cabelos loiros com uma máscara esquisita apareceu e acabou de vez com aquele bicho. Quem são vocês? Imagino que vocês não sejam normais, já que aqueles poderes não são coisas que um humano comum teria.

— Droga! – Kukkaku pensou consigo. — Não acredito que essa Professora sonsa viu tudo! Agora deu merda! Não tem jeito. Aposto que aquele idiota vai contar tudo pra ela!

— Misato-sensei... acho que eu não poderia esconder nada mesmo se quisesse.

— Eu sei que não pode. Só de olhar dá para perceber que você seria incapaz de mentir.

— É mesmo? E por que a Sensei diz isso?

— Porque você é uma pessoa verdadeira. Seus olhos transmitem exatamente o que se passa dentro da sua alma. Você tem um excelente e enorme coração. É bondoso e honesto também. E uma pessoa com suas qualidades não conseguiria mentir, mesmo se esforçando para isso.

— Misato-sensei...

— Então, por favor, pode se abrir comigo. Eu prometo que não vou contar a ninguém, e também queria entender o que está acontecendo.

— Ouça com atenção. A Senhora é uma humana que possui um elevado nível de Reiatsu, que nada mais é do que um elevado poder espiritual. Não é qualquer humano que desenvolve esse tipo de energia espiritual, e geralmente esses humanos acabam virando alvo de monstros chamados Hollows, que são seres humanos que se convertem em monstros depois que morrem e suas almas são corrompidas.

— Então foi por isso que eu fui atacada?

— Exatamente.

— E onde você se encaixa nessa história?

— Eu sou um Shinigami. Meu trabalho é purificar essas Almas em que realizem segurança para Soul Society. E como a Senhora mencionou... Eu estou longe de ser humano.

— Então você tem todos esses poderes porque é um Shinigami?

— É exatamente isso.

— E o outro rapaz com uma espada e uma máscara esquisita Ele também é um Shinigami?

— Sim. Nos conhecemos há bastante tempo.

— Ah, claro. Eu já ia esquecendo. Muitíssimo obrigada por ter me salvado daquele monstro horrível. Se você não estivesse por perto, eu não sei o que teria acontecido comigo. A gratidão que eu tenho por você vai ser eterna.

— Não precisa agradecer. Não foi nada. Para dizer a verdade, é para isso mesmo que eu estou aqui.

— O que quer dizer com isso? Você já sabia que isso iria acontecer?

— Mais ou menos. Eu já tinha percebido o seu grande nível de Reiatsu, por isso fiquei alerta.

— Então aqueles dias que você ficava depois da hora...

— Isso. Eu estava fazendo a sua segurança secretamente. Agora, se me der licença, eu preciso voltar para casa. Fico feliz em ver que esteja bem, e espero que amanhã tenhamos aula.

— É claro que sim. Muito obrigada por sua visita. Vou levá-lo até a porta.

Kukkaku foi atrás para continuar espionando, e viu quando Misato pegou a mão direita de Ukitake antes dele ir embora e a beijou. O platinado coçou a cabeça, desconcertado e com as maçãs do rosto levemente coradas com o gesto inesperado da Professora, e a Shiba sentiu suas entranhas ferverem de raiva.

— Jamais perca a bondade a inocência que você tem. Você é um rapaz muito especial. Nunca duvide disso.

— Ah... Obrigado. Até amanhã então.

Os dois se despediram, e irritada, Kukkaku parou de seguir Ukitake e foi na direção oposta, indo para a loja de Urahara.


Enquanto isso, Shinji voltava para o galpão abandonado que lhe servia de casa junto com os outros Vizards. Em um baú antigo, ele retirou uma espécie de case onde havia um violão guardado. Subiu no telhado mais alto da construção e começou a tocar uma música linda, mas um tanto triste e melancólica. O som chamou a atenção dos outros Vizards, mas somente Lisa e Hiyori foram até ele para verificar o que estava acontecendo.

— Ah, achei você, Shinji careca. Pare de tocar essa coisa. Precisamos conversar.

O loiro a encarou sério, ato este que surpreendeu a garota.

— Pois muito bem... então prossiga.

つづくcontinua...

Bom meus queridos eu não sei exatamente o que dizer sobre este Capítulo... O Shinji está pirando e o que será que está acontecendo com ele? Uma observação sobre o Shinji: Eu quis fazer ele tocando violino, mas por que isso? É algo simples. Como meu querido Capitão Loirinho é fã de músicas e gosta de jazz, não acharia nada estranho que ele soubesse tocar algum instrumento. Mas o que jazz tem a ver com violino? Olha se alguém aí souber, me avise, por que eu mesma não sei, pois não entendo quase nada de música. Mas escolhi o violino por achar que combina com o estilo do Shinji, já que eu, particularmente, eu enxergo ele com um jeito mais polido, sério e refinado por baixo daquela superficial capa cômica.

Por outro lado, parece que o nosso querido, honorável e eterno cubo de gelo gostoso está se apaixonando. Ai ai Byakuya eu quero um pouco da sorte da Orihime kkkkkkkkk quanto a IzuxRan... Kawaiiiii ^^ eu estou adorando cada vez mais esses dois juntos xD quem dera eu encontrasse um Izuru na minha cama... cuidaria com todo o amor do mundo kkkkkk E essa Kukkaku... virou um GPS ambulante do Ukilindo! Ela não deixa ele dar sequer um passo sem vigiar o homem. Ela não dá, mas também não o deixa em paz kkkkkkkkkk

Espero que tenham gostado do texto e que estejam comigo no próximo capítulo. Beijão ^^