Capítulo 13 – Frustração
Shinji continuou sentado onde estava, ainda com seu instrumento em mãos. Embora ele tivesse dito para Hiyori prosseguir com suas indagações, ele claramente não parecia estar nem um pouco interessado em ouvir o que a pequena tinha a dizer. Lisa observava tudo calada, e já esperava uma enxurrada de socos, pontapés e puxões de cabelo que o loiro receberia da garota. Porém, isso não aconteceu imediatamente, e ao invés disso, a invocada Vizard resolveu ir direto ao ponto.
— Escuta aqui, Shinji careca, o que você pensa que está fazendo? – Questionou furiosa.
— "O que eu estou fazendo?" Pois então seja mais clara, já que eu não saberei responder sem que me diga exatamente o que eu estaria fazendo. – Ele retrucou em seu tom sempre calmo e contido, que tanto irritava Hiyori.
— Não tente sair pela tangente nem mudar de assunto, espertinho. De onde você veio agora, e por que decidiu vir para essa cidade de repente? Você está nos escondendo algo e é bom começar a falar se não quiser que a minha sandália vá parar direto na sua cara.
— Minha vinda a esta cidade não é nada de estranho. Já esqueceram de que Kisuke Urahara mora em Karakura e também esqueceram da dívida que temos com ele? Que mal há em visitar um velho amigo?
— Não minta, idiota! Eu sei que tem algo a mais. Você anda muito estranho ultimamente, e essas suas saídas noturnas...
— Shinji, você sabe muito bem que nós não podemos sair por aí exterminando Hollows. Nossas ações podem atrair a atenção da Soul Society – Lisa foi obrigada a intervir.
— Isso mesmo! Deixe que aqueles Shinigamis imbecis cuidem disso. Esse assunto não tem nada a ver com a gente.
— Tá, tá. Mas que chateação. Se era só isso que as duas tinham a dizer, então ótimo, já disseram. Agora, se não se importam, eu gostaria de continuar tocando. Chispem.
Hiyori cerrou os pequenos punhos. A capacidade que Shinji tinha de irritá-la era superior à das outras pessoas, e sem mais nem menos, voou para cima do loiro e acertou-lhe um forte chute na cara que por pouco não o fez cair do telhado.
— Shinji, seu grande imbecil! Esse assunto é muito sério para você simplesmente nos mandar chispar! Não faça coisas que nos coloque em evidência, entendeu, seu retardado?!
Hiyori já esperava ouvir as reclamações de seu companheiro de séculos, porém, não foi isso que aconteceu, e ele continuou durante longos segundos com o rosto enfiado no chão, e a única coisa que dava para ver era os longos cabelos do Ex-Capitão espalhados pelo chão do telhado como um esplendoroso tapete dourado.
— Ei, Shinji! Mas que palhaçada é essa? Por quanto tempo pretende ficar aí? Anda, levante-se e comece a se explicar adequadamente, porque eu não vou engolir esse seu teatrinho. Você já aguentou surras muito piores do que essa. Então pára de graça!
Instantes depois, Shinji levantou lentamente de costas para as duas garotas. A brisa noturna agitava os cabelos dourados, e neste momento, espessas nuvens de chuva encobriram a luz da lua, e pesadas gotas de água começaram a cair do céu. Ele virou-se, e com uma expressão bastante séria, encarou as duas enquanto se aproximava de Hiyori a passos lentos. Conforme ia chegando perto os olhos do loiro mudaram de corpo como se ele tivesse colocado a sua máscara de Hollow, e Lisa arregalou os olhos assustada.
— Hiyori, cuidado!
O alerta da amiga porém veio tarde, pois num movimento praticamente impossível de ser visto, Shinji agarrou a pequena pelo pescoço e lançou o corpo dela com força rente ao telhado, fazendo várias telhas se quebrarem e afundarem com o impacto.
— Shi... Shinji... o que você está... – Ela tentava falar, mas seu corpo praticamente não se mexia.
— Shinji! Solte-a! – Lisa segurou o pulso do líder dos Vizards tentando detê-lo, mas ele a empurrou com força e a jovem acabou despencando e caiu lá embaixo.
— Lisa!
— Não vou permitir que ninguém me atrapalhe. Quanto você, sua garota dos infernos, que esta tenha sido a última vez que você tocou no meu corpo. Nunca mais ouse encostar suas mãos em mim, se é que você gosta um pouquinho dessa sua miserável vida! – Ele disse furioso, ainda com sua voz howllificada.
— Shinji, me solta! Você está me machucando! Por acaso quer me matar? SHINJI!
O grito desesperado de Hiyori fez o Shinigami voltar a razão, e ao perceber o que esteve prestes a fazer, a única coisa que ele teve em mente foi sair correndo e pegar o primeiro objeto que viu antes de ir, no caso, seu violão que estava por perto. Saltou rapidamente do telhado e saiu correndo para o mais longe que conseguiu, deixando as garotas para trás sem entender nada. Assim que se recompôs, a pequena Vizard desceu do telhado ao encontro de Lisa e a viu caída no chão.
— Ei, Lisa! Você está bem? Lisa! – Disse a garota, sacudindo o ombro da amiga tentando reanimá-la.
— Eu... Já estive bem melhor, se quer a minha opinião sincera.
— Eu não entendi nada. O que deu naquele imbecil do Shinji para agir dessa maneira? Ele ficou louco.
— Não seja burra, Hiyori. Será que você não percebeu? Aquele não era o Shinji.
— Eh? Mas como não era? Você está cega ou o quê?
— Cega é você! Será que não viu os olhos dele? Estavam negros, exatamente como nossos olhos ficam quando assumimos nossa forma de hollow.
— Não pode ser! Mas ele nem sequer estava usando a máscara.
— Mas eu não tenho dúvida disso. Eu senti uma força tremenda quando ele me empurrou. E ele usou aquele poder sem esforço algum.
— Eu não entendo! Como ele poderia estar usando os poderes Hollow sem colocar a máscara?
— Não me pergunte. Eu só sei que aquele definitivamente não era o Shinji, e isso só pode significar uma coisa: o Hollow dele está fora de controle.
— Fora de controle? Mas isso não deveria acontecer. Já faz mais de um século desde que nós aprendemos a suprimir nossos Hollows.
— Pois é. Vai ver que depois desses anos todos o Hollow dele resolveu se rebelar.
— Mas se for assim, você não acha que seria melhor avisar os outros e irmos atrás dele? Aquele cabeção pode fazer alguma loucura ou ferir alguém. Não podemos ficar sem fazer nada, temos que detê-lo.
— Eu não acho uma boa ideia. Pelo contrário, acho que o melhor que temos a fazer é deixá-lo sozinho por enquanto. Shinji é esperto e eu tenho certeza de que ele irá conseguir resolver isso por conta própria, além do mais, ele não vai querer expor os amigos ao perigo.
— Se você está dizendo... Além do mais, Lisa, será que foi por isso que ele resolveu vir para esta cidade?
— É claro... Esse sim seria um motivo mais do que coerente para que ele procurasse Kisuke Urahara de novo.
— Sem querer nossas perguntas foram respondidas. Apesar de eu ter odiado a forma dolorosa como isso aconteceu. Estou toda arrebentada. Aquele estúpido pegou pesado.
— Vem dizer para mim? Eu pensei que meu rosto não fosse sair inteiro depois dessa queda.
— Deixa para lá. Esse tonto que faça o que quiser. Anda, vamos entrar para comer.
E as duas foram jantar enquanto o atormentado Shinji corria pelas ruas de Karakura sem um destino claro e com o coração na mão por quase ter matado uma importante companheira. Parou em uma esquina próxima a uma máquina de refrigerante. Comprou uma lata no equipamento e sentou no banco próximo, começando a degustar o líquido com calma, tentando colocar suas ideias no lugar. Perto dali, em cima do telhado de uma casa, o Shinigami encarregado da área local observou a cena e na mesma hora mandou um relatório para a Soul Society, destinado ao General Yamamoto em pessoa.
— Um humano comum emanando Reiatsu de um Hollow? Acho que o General vai gostar de saber disso. – Falou para si mesmo.
Kukkaku tinha decidido ir pra casa e deixar de seguir Ukitake, mas no meio do caminho, a cena dele com sua Professora lhe veio em mente, e a maneira carinhosa como ela o tratava incomodou profundamente a chamativa morena, e girando nos calcanhares, ela deu meia volta e foi em direção à mansão de Byakuya. E na própria mansão, Kyoraku e Juushiro conversavam sobre como o moreno estava agindo nos últimos dias. Os amigos faziam um lanche sentados na beira de uma mesinha no centro da sala.
— Então, amigo? Eu estou te achando chateado. Aconteceu alguma coisa? – O veterano moreno começou, ao tomar um generoso gole de whisky.
— Não devia beber tanto assim, Shunsui.
— Ora, e por que não? Essa mansão está cheia de bebida finíssima. Eu seria um idiota se não aproveitasse.
— Sinto muito, mas eu passo. Prefiro tomar o meu chá.
— Eu sei disso, irmão. Mas e aí? Não vai me dizer o que está te incomodando?
— É o Byakuya.
— Byakuya? Eu não entendi.
— É. Ao que parece ele anda se envolvendo com uma das amigas do Kurosaki-kun.
— Que? Espere um pouco... você quer dizer que...
— Isso mesmo. Eu o vi aos beijos com Inoue Orihime.
— Mas essa menina não é aquela amiga do Ichigo que tem aqueles poderes de cura impressionantes?
— Ela mesma. Eu não entendo o que ele pretende com isso. E também... você lembra do que ele disse quando praticamente expulsou o dono dessa casa?
— Ah, você está certo... "dane-se as regras por que eu tenho dinheiro". Vendo por esse lado, esse não é mesmo o jeito normal do Byakuya agir.
— Realmente. Quebrar regras não é nem de longe algo que ele diria ou faria.
— Sem mencionar ficar aos beijos com uma garota humana no terraço de uma escola. Hahaha! Acho que o Byakuya se revoltou com o nosso castigo. – Kyoraku falou às gargalhadas, ao continuar bebendo.
— Se eu fosse você, levaria isso mais a sério, amigo. Será que não entende o tipo de problema que isso pode causar?
— E que tipo de problema isso pode causar, Capitão Ukitake? – Byakuya disse seco anunciando sua chegada. — Acaso não sabem que falar das pessoas quando elas não estão presentes é falta de educação?
— Não me venha querer cobrar noções de etiqueta, Byakuya. É bom mesmo que tenha chegado pois precisamos discutir isso seriamente. Eu vi você aos beijos com Inoue Orihime, e acho que precisamos conversar sobre isso.
— E o que teríamos para conversar? Afinal de contas, quem eu beijo ou deixo de beijar é um problema somente meu.
— Está muito enganado, Byakuya. Nenhum de nós está no mundo dos vivos para se divertir com as humanas. O que está havendo? Nem parece você. – Kyoraku se juntou a conversa.
Enquanto os Capitães iniciaram uma discussão, Kukkaku chegou à mansão e acabou entrando na sala, e ficando ao lado de uma das grandes pilastras da luxuosa construção, acabou não sendo vista por nenhum deles e apenas se limitou a escutar a conversa.
— E quem você pensa que é para me cobrar alguma coisa, Kyoraku? Não pense que eu sou um pervertido como você, que se pudesse andaria com uma mulher por dia.
— Não é esse o ponto, Byakuya. A questão é que ela é uma humana. Pense bem no que você está fazendo, pois é algo que pode complicar muito a vida dela e a sua também. Já parou para pensar no quanto você irá magoá-la quando tiver que voltar para a Soul Society? Sem mencionar no problema que isso irá causar caso ela queira ir atrás de você.
— De onde veio isso, Ukitake? Você está me criticando? Logo você que cai de amores por Shiba Kukkaku está criticando o meu envolvimento com uma humana? Jamais imaginei que você fosse tão cínico.
— Como pode dizer isso? Eu não estou te reconhecendo, Byakuya. O fato de eu estar apaixonado por Shiba Kukkaku não é o assunto em pauta aqui. Não tente virar as coisas contra mim.
— E você não tente opinar sobre a minha vida particular. Pela primeira vez estou me sentindo bem como há muito tempo não sentia, então vocês façam o favor de cumprirem o castigo de vocês quietos para que voltemos logo para o nosso mundo e me deixem em paz! – Disse, incomodado ao subir as escadas e deixar os dois veteranos falando sozinhos.
— É, meu irmão... nós vamos ter problemas. – O platinado anunciou de antemão.
— Pois bem, bonitão... sou obrigado a concordar com você... – Shunsui suspirou derrotado.
Era a segunda vez que Kukkaku ouvia da boca de Ukitake que ele a amava, mas sua teimosia e orgulho nunca lhe permitiram baixar a guarda, pois seu ódio e sua fúria jamais lhe permitia enxergar o quão injusta ela sempre fora. Ela foi até lá justamente para brigar com Ukitake, pelo mesmo ter contado à Misato-sensei sobre os Shinigamis. Derrotada, ela esperou que os veteranos deixassem a sala, e saiu de lá sem ser vista.
Byakuya se jogou na macia e ampla cama de seu quarto. Virou o corpo para o lado e ajeitou o travesseiro, parando para pensar nas palavras de Ukitake. Ele apenas tinha se deixando levar por seus sentimentos, algo que ele não fazia há tempos, na verdade não se deixar levar por sentimentos era algo que ele já tinha desistido de fazer desde que sua falecida esposa se foi. Mas ele sentia que tudo em Orihime era diferente. Ela foi a única pessoa que o compreendeu e que o fez sentir à vontade naquele mundo tão estranho para ele. E o que tinha de errado em gostar de alguém? Mas Juushiro estava certo. Ele era um Shinigami e ela uma humana. Ambos pertenciam a mundos diferentes, e aquilo, com certeza, significaria um grande problema para ambos.
— Maldição... o pior de tudo é que Ukitake está certo. E agora? O que eu vou fazer? Será que cometi um erro?
E com a cabeça no travesseiro, o moreno passou horas e horas refletindo sobre o assunto antes de pegar no sono...
Shinji andava sem rumo pelas ruas de Karakura. Estava perturbado e carregava seu violão nas costas. Sua mente estava um caos, e ele estava com medo de si mesmo. Ainda não acreditava no que tinha feito com Hiyori, e agradeceu aos deuses por não ter feito coisa pior. Se jogou no banco de uma praça de qualquer jeito e por ali mesmo ele ficou, onde adormeceu, tentando acalmar sua mente confusa.
Ao mesmo tempo, Ishida caminhava pelas ruas da cidade. Acabara de voltar de seu local de treino, ainda sem obter sucesso tão pouco seus poderes de volta. Subitamente parou sua caminhada e olhou para a enorme e moderna construção do outro lado da rua. Era nada menos que o Hospital Geral de Karakura, onde um certo homem especial trabalhava, ou melhor, ele mesmo era o dono e Diretor do local. Dentro do imenso hospital, um belo homem de cabelos platinados, olhos azuis e um par de óculos, examinava algumas radiografias atentamente. O paciente esperava o diagnostico com ansiedade, mas por um instante, o médico olhou para o lado de fora da janela, e seus olhos miraram Uryuu parado na calçada, como se as orbes azuis do mais velho tivessem lhe pregado uma peça. Enquanto olhava profundamente para o pai, Uryuu acabou se perdendo em inúmeros pensamentos.
— Ryuuken... Desde sempre eu nunca consegui entender suas razões e sua maneira de pensar. Por que você simplesmente desprezava o poder que tinha e negligenciava tão belo dom de ter o poder para salvar vidas inocentes? Por que se limitar a fazer isso apenas com um bisturi em suas mãos quando o senhor poderia estar salvando muito mais vidas com suas flechas. Eu sempre pensei que suas flechas seriam como flechas da eternidade, capazes de proteger os humanos com toda a determinação que fosse possível. Mas eu estava enganado. Como sempre, o senhor estava unicamente interessado no dinheiro, e nunca teve intenção alguma de seguir as tradições e o orgulho dos Quincys.
Ryuuken "ouviu" cada pensamento de seu filho como se estivessem se comunicando através de telepatia. Os tão iguais olhos azuis de ambos não perdiam o contato nem por um segundo, mesmo com a distância que os separavam. O ilustre médico não pôde deixar de ponderar todas aquelas palavras de seu orgulhoso filho, e também refletiu.
— Uryuu, não estou surpreso que você não entenda, e você também nunca irá aceitar que não tem talento para fazer isso. A maior prova disso é a sua situação atual. Olhe para você sem poderes e choramingando pelos cantos. Era isso mesmo que eu queria evitar quando lhe proibi de ser um Quincy. Mas meus esforços de nada adiantaram pois você está exatamente do jeito que eu não queria que você estivesse. Se em algum momento da minha vida eu ainda tinha esperança em você, agora eu posso dizer claramente que já não tenho nenhuma. É lamentável meu filho...
Ambos ficaram se olhando por longos instantes que pareciam intermináveis, até que Uryuu rompeu o incômodo contato visual, e a indagação do ansioso paciente tirou o profissional de seus pensamentos.
— Ishida-sensei? Está ouvindo? O que houve com minha radiografia? O que eu tenho, Sensei?
— Ah, isso? Essas últimas radiografias indicam que a lesão em seu pulmão desapareceu completamente, portanto, o tratamento foi um sucesso e em poucos dias você terá alta.
— Verdade, Ishida-sensei? Obrigado. Foi tudo graças a Deus e ao senhor.
— E graças a sua vontade de melhorar também. Eu não sou um Deus. Apenas fiz o meu trabalho.
— É... tem razão. Obrigado, Doutor.
Após sair do quarto de seu paciente, Ishida Ryuuken foi para a sua sala onde sentou na confortável cadeira. Apoiou os cotovelos na mesa e tirou os óculos, massageando as têmporas com os indicadores. Estava surpreso por ter visto o filho parado em frente ao seu Hospital, e, mesmo ele não tendo lhe dito abertamente, já que ambos viviam separados, era fato que Uryuu havia perdido seus poderes de Quincy. Por um momento pensou em fazer algo para ajudar, entretanto, mais uma vez, seus pensamentos foram interrompidos.
— Ishida-sensei. – Disse uma enfermeira ao entrar. — O Senhor tem uma cirurgia em 15 minutos. Por favor, esteja pronto.
— Sim. Eu irei o mais breve possível. – Respondeu calmamente, recolocando seus óculos.
Recolocou os óculos no bem feito rosto e partiu rumo a mais uma de muitas cirurgias de sucesso que faria.
Ishida seguiu seu caminho, e continuou caminhando lentamente em direção a seu pequeno apartamento. Bem perto dali, Nemu o seguia, temendo que ele pudesse ser atacado por algum Hollow. A jovem Shinigami continuou fazendo o mesmo caminho do gênio até chegarem a casa do mesmo, e não foi embora até que o viu entrar no prédio em segurança. Acabou seguindo seu próprio caminho em direção a mansão onde estava hospedada. Kyone já estava preocupada, pois era tarde e a Tenente da Divisão Doze ainda não havia voltado. Kyoraku já tinha perguntado por ela diversas vezes, mas a pequena não soube responder. Ela ficou aliviada ao ver a bela entrar pela porta, pois observava da sacada da escada.
— Nemu-san, o que houve? Por que voltou tão tarde? Estávamos preocupados. O Capitão Kyoraku perguntou muito por você.
— Não tem importância. Eu estava apenas fazendo o que tinha que fazer, afinal foi para isso que eu vim para cá.
— Você estava atrás do garoto Quincy?
— Isso mesmo.
— Ele ainda está negando a sua ajuda, não é?
— É... Mas eu estava vigiando ele de longe, já que do jeito que ele está agora, seria um alvo fácil para algum Hollow que escapasse por aqui.
— Entendo. Mas mesmo assim eu acho que ele ficaria chateado em saber que está sendo protegido por uma garota. Isso deve acabar com orgulho de qualquer homem.
— Não entendi direito o que quis dizer e na verdade isso também não é importante. Preciso achar uma maneira de ajudá-lo a recuperar seus poderes.
— E eu estou certa de que você irá conseguir. Agora vamos dormir mesmo, afinal já está bem tarde e imagino que você deva estar cansada.
A bela morena assentiu com a cabeça, e as duas foram para seus respectivos quartos.
Quando mais um dia de trabalho se iniciou no Quartel da Primeira Divisão, o General Yamamoto logo foi surpreendido pela Inesperada notícia. Achou surreal o inusitado fato de algum humano poder emanar a Reiatsu de um Hollow, e durante horas pensou no que fazer a respeito disso. O velho então acabou chamando Izuru e outros Shinigamis para uma reunião discreta. Não somente ele, mas três Tenentes também foram chamados. Rangiku, Renji e Nanao. Os quatro cumprimentaram o Comandante com um aceno de cabeça e posicionaram-se em fila, esperando para saber do que se tratava tal reunião, até que o mesmo começou a falar.
— Muito bem, eu sei que podem estar achando esta convocação estranha, mas isso tem uma boa razão para acontecer. Como todos vocês estão cientes, eu mandei um grupo de Capitães para o mundo dos vivos para puni-los por suas ações inconsequentes. Porém, esta manhã, fui informado de que algo estranho está acontecendo por lá, e que os Capitães em questão não estão cientes disso. Por esse motivo, quero enviar uma equipe de reconhecimento para lá com o propósito de verificar o que está acontecendo. O problema é o seguinte: fui informado de que na cidade de Karakura apareceu um humano capaz de emanar a reiatsu de um Hollow. Estou preocupado, pois seria completamente impossível um humano poder emanar esse tipo de poder. Por isso, Capitão Kira Izuru da Divisão Três, eu quero que você lidere esta equipe e encontre essa pessoa o mais rápido possível. Matsumoto Rangiku e Abarai Renji irão para lhe dar apoio durante a missão. Quanto a você, Tenente da Divisão Oito, Ise Nanao, eu quero que vá com eles e vigie seu Capitão, Shunsui Kyoraku, pois eu temo que ele não esteja cumprindo as minhas ordens.
Os quatro se entreolharam. E era fato que todos eles tinham o mesmo pensamento: o comandante estava mesmo ficando louco.
— Se me permite opinar, General Yamamoto. – Izuru tomou a frente dando alguns passos. — Não acha exagero mandar a todos nós para verificar algo como isso, especialmente quando há vários Shinigamis capacitados naquele lugar? Três Capitães já estão lá, sem mencionar Kisuke Urahara e Yoruichi Shihoin. Se continuar assim, o próprio Sereitei ficará desprotegido.
— O Seireitei não ficará desprotegido, Capitão. Eu não daria uma ordem como essa se não tivesse certeza. Agora vão logo. Vocês têm trabalho a fazer. Podem partir a qualquer momento.
Os quatro ainda se entreolharam pela última vez antes de saírem. Izuru estreitou os olhos, pois não estava de acordo com aqueles métodos, mas já que não tinha escolha a não ser obedecer, acabou indo com os outros para a entrada do seikaimon correspondente. Renji se sentiu feliz, pois já estava com uma certa saudade do mundo dos vivos. Rangiku também não escondia a ansiedade, pois não via a hora de fazer inúmeras compras em todas as lojas que quisesse e comer as delícias do mundo humano até explodir.
O grupo foi até a porta do seikaimon que os levaria até o mundo dos vivos, e uma borboleta do inferno apareceu para cada um dos quatro. Eles adentraram no portal onde sairiam direto em algum lugar da cidade de Karakura.
Enquanto isso, Shinji estava adormecido no banco da praça com a cabeça apoiada em seu violão desde a noite passada. Devido ao acontecido com Hiyori, ele não teve um sono nada agradável. Mesmo assim, num determinado momento de inconsciência, ele sonhou...
De joelhos num chão escuro de um lugar fechado e sombrio, suas mãos seguravam a própria cabeça. Balançava a mesma freneticamente ao mesmo tempo em que gritava em desespero tentando se libertar. Seus olhos refletiam a agonia sem igual do momento que ele passava. As escleras, agora negras, ressaltavam o atual estado de seu coração. Aquele demônio dentro de si o atormentava, o transformava em algo que ele não era, mas que agora, aquela coisa terrível fazia parte de si, e infelizmente ele não podia mudar isso. A íris dourada tomava o controle, e as longas madeixas douradas se agitavam à medida que uma imensa Reiatsu se formava em volta de si. Negra, medonha, macabra... não era Shinji, mas ao mesmo tempo, agora era Shinji. Aos poucos, partículas brancas surgiam no ar, cobrindo o rosto atormentado sob a forma de uma máscara branca. A máscara do faraó... gritos desesperados saem de sua larga boca, mas ninguém o ouvia, ninguém o via, ninguém o podia ajudar. A onda de Reiatsu descontrolada se chocava contra as paredes do lugar fechado, fazendo em pedaços os tijolos alinhados que compunham a construção. De repente, o teto se abriu como se o mesmo tivesse simplesmente desaparecido. Os olhos do antes Shinigami e agora Hollow puderam contemplar um pouco da luz do dia, e, mais ainda, uma figura surgiu diante dele estendendo-lhe a mão. Não sabia exatamente de quem se tratava. Não sabia se era um homem, uma mulher ou uma criança, mas uma coisa ele podia perceber com exatidão: era como se o seu desejo tivesse se tornando realidade e suas súplicas enquanto dominado por aquele poder estranho que ele nunca pediu para ter enfim tivesse dado algum resultado. Alguém veio lhe ajudar. Aquela mão estendida significava que ele tinha uma possibilidade a mais de sair daquele buraco escuro onde se encontrava, e sem hesitar, ele agarraria aquela mão com a maior determinação que pudesse ter em sua mente. Assim ele o fez. Uniu sua mão com a mão de "seu anjo" como se aquilo significasse a própria salvação de sua vida. Era uma mão pequena, delicada, frágil... mas ao mesmo tempo, forte o bastante para puxá-lo para cima e tirá-lo da escuridão em que se encontrava. Assim que foi puxado, a máscara de Hollow se desfez em pedaços e seus olhos aos poucos foram voltando ao normal. Não conseguiu ver de quem se tratava. Ele apenas viu uma sombra que poderia ser de qualquer pessoa. Era impossível distinguir. Quando ele abriu os olhos mais uma vez, a única coisa que ele conseguia enxergar... era o nada.
O dia estava nublado, e quando as nuvens permitiram que os raios de sol dessem o ar da graça, o conturbado sono de Shinji foi interrompido pela incômoda claridade. Abriu os castanhos olhos diante do incômodo e estalou o pescoço para ambos os lados, tentando conter a dor causada pela péssima posição em que dormiu por cima de seu violão. A coluna também gritava de dor, e a camisa social preta que ele sempre gostava de manter impecavelmente alinhada, estava amarrotada e sua gravata branca frouxa pela noite mal dormida. Olhou para si por alguns instantes, e não gostou nada da conclusão à qual chegou.
— Cara... isso é o que os humanos chamam de "chegar ao fundo do poço". Olha onde eu vim parar. Passar a noite na rua e jogado num banco de praça... Ah, Hirako Shinji... Você já esteve melhor... bem melhor. Maldição. O que eu vou fazer agora? Esse Hollow maldito inventou de ficar de sacanagem com a minha cara a essa altura dos acontecimentos? Tô ferrado... se eu não consigo parar isso através dos métodos normais, então como... ah, merda, o que eu estou dizendo? Eu quase matei a Hiyori ontem. Não... definitivamente não posso voltar para junto dos meus amigos.
Enquanto Hirako resolvia seu conflito interior, sua atenção foi voltada para o céu quando ele viu uma espécie de vórtice cinza aparecer bem próximo de onde ele estava. Olhou para cima estático, sem crer no que estava vendo, porém, sabendo perfeitamente do que se tratava e o que poderia acontecer.
— Sem dúvida alguma... aquilo é um seikaimon descontrolado. Alguém está vindo da Soul Society para cá, mas algo deve ter dado errado no trajeto. Bem, é melhor eu me mandar daqui, pois não estou nem um pouco a fim de saber no que isso vai dar...
Levantou-se de onde estava com a clara intenção de deixar o local rapidamente, mas seus olhos castanhos e inexpressivos se abriram até onde podiam, e seu semblante se apavorou quando ele viu uma pessoa literalmente cair do céu através daquele vórtice. Vendo que a pessoa em questão iria cair com tudo de encontro ao chão, o loiro não pensou duas vezes e decolou no ar, voando de encontro a pessoa que vinha caindo. Sem demora, seus braços ampararam o corpo aparentemente frágil a quem ele logo concluiu ser uma Shinigami. Era Nanao, que assustada, e ao mesmo tempo surpresa, nada conseguia dizer ou entender, e nem sabia como tinha parado ali. Ela só conseguiu olhar para baixo e constatar que estava no ar, e sua confusão era maior por estar nos braços de um completo estranho. Observou o homem que a salvou da enorme queda que levaria. Ele se vestia e se portava de forma elegante, mas a primeira coisa que a morena observou foi o fato de ele não usar o uniforme padrão de Shinigami e ainda assim estar voando com ela no ar, algo que, para um humano, seria fisicamente impossível. Inevitavelmente ela teve que iniciar um breve interrogatório.
— Ei... quem é você e como fez isso? – Indagou confusa.
— É uma pergunta interessante. Você quer saber a verdade? Neste momento, nem eu mesmo sei quem sou. – Responde evasivo, evitando olhar para ela.
— Você é estranho. Como assim não sabe quem é? Será que nós poderíamos descer? Seria interessante colocar os pés no chão, não concorda?
— Descer? Sim claro, descer. Me desculpe por isso. Na verdade, é a força do hábito.
Shinji pousou com Nanao, e a mesma ficou pasma ao ver a forma como ele voava magistralmente. Ainda com a Shinigami nos braços, o loiro a colocou delicadamente sentada sobre o mesmo banco onde ele estava, bem ao lado de seu violão, e ficou de pé na frente dela posicionando seu corpo de lado e colocando as mãos no bolso da calça. Um vento soprou naquela hora, agitando os cabelos de ambos.
— Essas roupas... você não parece ser um Shinigami, então como pode voar assim com tanta habilidade?
— Ouça, garota, se você é uma Shinigami que possui nível de Tenente deveria tomar mais cuidado ao atravessar o seikaimon para este mundo, caso contrário, esse tipo de instabilidade pode acontecer.
— Ah, não! Agora definitivamente você deve me dizer quem é! Como sabe de tudo isso?
— Acho que ao invés de tentar insistentemente descobrir quem sou eu, você deveria estar me agradecendo por ter salvo a sua vida, não acha?
— Chega de brincadeiras. Este assunto é muito sério. Se você tem algo a ver com a Soul Society, deveria me dizer quem é.
— Que postura mais rude. Eu não sou ninguém. Apenas posso dizer que há muito tempo eu já fui como você. De qualquer forma, de nada por tê-la salvado. Fico feliz por não ter se ferido. – Finalizou ao pegar seu violão para sair dali.
— Ei, loiro! Espere! Não pode ir embora assim, precisa me dizer o seu nome.
— Nome? Acho que não seria uma boa ideia te dizer, mas se eu não disser, você viverá para sempre se perguntando o nome da pessoa que salvou sua vida, sendo assim...
Aproximou-se novamente da Tenente, e ela piscou os olhos, confusa, sem entender o que ele faria. Pegou a mão dela com cuidado e se ajoelhou, beijando as costas da mão com carinho. Direcionou os olhos castanhos diretamente para os dela e prosseguiu.
— Hirako Shinji. É um prazer conhecê-la.
Nanao ia dizer seu próprio nome, mas Shinji usou um shunpo e desapareceu da frente dela sem esperar pela resposta. A morena abraçou sua mão na outra, as posicionando em direção ao peito, tocada com a cena. Agora ela precisava saber o que estava acontecendo, pois não estava vendo os outros Shinigamis que vieram com ela.
Shinji continuava andando sem rumo, e comprou um copo de macarrão instantâneo em uma loja de conveniência, iniciando o pré-preparo, colocando água quente no copo e saindo com ele para uma parte afastada da cidade. Posicionando o hashi entre os dedos, começou a comer no terraço de um prédio qualquer de uma área industrial, e pouco tempo depois foi surpreendido por Lisa, que foi atrás dele e se aproximou a passos lentos.
— Lisa... o que está fazendo aqui? – Perguntou entediado.
— Como assim o que eu estou fazendo aqui? Ficou louco? Por acaso esqueceu o que aconteceu ontem à noite? Você quase matou a mim e a Hiyori? Ficamos preocupadas. O que está acontecendo com você?
— Lisa, eu sei que é complicado, mas por enquanto, apenas preciso que vocês me deixem sozinho.
— Shinji, não seja egoísta. Você não pode simplesmente nos ignorar assim. Se está passando por algum problema grave, não seria melhor contar com ajuda dos amigos?
— Eu não posso fazer isso, Lisa. Se decidi me afastar de vocês foi justamente para mantê-los em segurança. Você mesma viu o que aconteceu ontem. Eu não quero machucar mais ninguém.
— Hiyori estava preocupada com você.
— As palavras "Hiyori" e "preocupada" na mesma frase? E comigo, ainda por cima? Você só pode estar de brincadeira. – Disse divertido, cuspindo parte do caldo do macarrão devido ao espanto.
— É o seu Hollow, não é? Você está com algum problema para controlá-lo?
— Essa é a Lisa. Esperta como sempre. Pois já que entendeu, explique àquela garota cabeça dura que neste momento é importante se manterem longe de mim. Eu vou tentar dar um jeito de resolver isso o mais rápido possível.
— E você já pensou em como vai conseguir resolver esse problema?
— Mais ou menos. De qualquer forma, preciso pegar algumas instruções com o Urahara.
Shinji olhou para Lisa e ela pôde ver os olhos castanhos cheios de preocupação. Sem alternativa, a morena se afastou, deixando o loiro sozinho como ele precisava estar...
つづく continua...
Muito bem, meus amados amores, o que eu tenho a dizer sobre este Capítulo? Só o que eu tenho a dizer é que a partir de agora as coisas vão ficar mais movimentadas e interessantes, eu espero. E espero também que o texto esteja agradando e divertindo a vocês todos. Agora vamos esperar para ver o que essa cambada toda vai fazer no nosso pobre mundinho. Um beijo a todos e muito obrigada por lerem e gostarem da história. Até o próximo Capítulo.
