Capítulo 15 – Salvação

Nemu saiu da mansão de Byakuya pouco depois da hora do almoço. Caminhou até uma área afastada da cidade, em um vale de montanhas onde passava um rio desaguado de uma cachoeira. Já tinha ido àquele lugar em uma outra ocasião, pois sabia que era lá que Ishida costumava treinar. Achou que o encontraria treinando lá, aproveitando o fim de semana e não estava errada, pois o mesmo realmente estava lá, de pé, no meio do rio, concentrando o pouco que lhe restara de energia espiritual, a fim de tentar recuperar pelo menos parte de seus poderes.

Avistou o jovem Quincy em seu lugar de sempre, e seus esforços não faziam efeito algum. Cada dia que passava ele estava mais desacreditado e triste por ver que tudo o que fazia era em vão. Nemu lamentou o atual estado de Ishida e sentiu-se culpada, pois indiretamente ela também contribuiu pela perda dos poderes do gênio. Atrás de uma enorme rocha, a mulher observava cada movimento do rapaz e seu esforço para formar um arco de energia e lançar uma flecha. Olhava com angústia para os belos olhos azuis, que marejavam a cada tentativa frustrada de redespertar seus poderes. O Quincy percebeu a presença dela assim que a mesma chegou ao local, mas não estava preocupado com isso, pois sua única preocupação era se concentrar em seu treinamento. Duas horas e meia haviam se passado desde então, até que exausto e com as mãos sangrando, ele caiu de joelhos sobre a margem do rio de solo pedregoso, mais uma vez pensando ser o mais fraco dos seres humanos.

— Saia daí, Kurotsuchi Nemu. Por quanto tempo pretende ficar me espionando às escondidas?

Sem demonstrar nenhuma surpresa, ela saiu de onde estava com o semblante sempre sério e inalterado.

— Você tinha percebido a minha presença desde o início, estou certa?

— Certíssima. Por que vive me seguindo desde que chegou aqui? Eu já nem posso mais ter privacidade para sofrer sossegado?

— Eu peço desculpas por isso, mas sou obrigado a dizer que o método que você escolheu para recuperar seus poderes está completamente errado.

— É mesmo? E por acaso você sabe qual é o método ideal?

— Não exatamente.

— Então porque não me deixa em paz? Não entende que fazendo isso só piora as coisas? Eu me sinto um lixo.

— Não sinta, pois isso não é verdade.

— Me perdoe. Eu não quero ser indelicado com você, mas me deixe sozinho. Por favor, me deixe em paz. Eu não quero ter nada a ver com você ou com qualquer um do Gotei 13.

— Sinto muito mas não posso fazer isso, pois estou aqui para te proteger.

— Me proteger? Isso é algum tipo de piada?

— O que é uma piada? – Perguntou naturalmente.

— Esqueça... – Falou um pouco atordoado, se sentindo um idiota por alguns momentos ao esquecer de que Nemu era uma criação de Mayuri e havia coisas que ela não sabia.

— De qualquer maneira eu não vou sair daqui. Não entende que nas suas condições você pode ser atacado por um Hollow a qualquer momento, e que se isso acontecer, você não poderá se defender?

— Escute aqui, não me trate como um inútil. Eu não preciso que nenhuma mulher me proteja.

— Pode protestar o quanto quiser, mas daqui eu não saio.

Ishida a olhou sério. Os orbes azuis encaravam os grandes olhos esmeraldinos, e ele pode perceber uma determinação fora do normal vindo dela, mas não conseguia entender os motivos da Tenente. O fato é que o gênio ficava nervoso perto de Nemu. Por vezes sonhou com a mulher desde que passou por tudo aquilo na Soul Society, mas ficar perto dela o deixava nervoso de uma forma que ele não entendia nem sabia explicar. Era como se algo nela o repelisse e o atraísse ao mesmo tempo. Estava quase que hipnotizado com a beleza dela quando colocou as mãos sobre os ombros femininos e a questionou incomodado.

— Por que insiste tanto nisso? Aposto que aquele lunático do Mayuri não deve estar gostando nada dessa história, então porque você...

O moreno não teve tempo de concluir a frase, pois um Hollow saiu de uma imensa garganta, partindo para cima de ambos sem demora. Nemu empurrou Ishida para trás, e com as duas mãos conteve o corpo do imenso e pesado monstro, embora tenha sido um pouco arrastada para trás no processo. Sentado no chão, Ishida ficou impressionado com a força dela, pois jamais imaginou que uma mulher aparentemente frágil teria tamanha força física.

— Cuidado! Ele vai atacar você.

— Fique para trás! Eu vou derrotá-lo.

Mesmo contrariado, o gênio fez o que ela disse e se manteve afastado. Ela saltou no ar e atingiu a imensa criatura com vários chutes, e apesar de estar bastante afetado, o monstro não era destruído. Enquanto executava seus ataques, a Tenente acabou sendo atingida no braço, e ajoelhou no chão, segurando o local onde foi atingida, mas era como se ela não demonstrasse dor.

— Nemu-san! Você está bem?!

— Estou. Não se preocupe. Já disse que vou derrotá-lo!

Mais uma vez saltou no ar e deferiu um poderoso chute na cabeça do Hollow, mas ao mesmo tempo uma espécie de flecha kojaku o atingiu, fato muito bem percebido por Nemu, porém ignorado por Ishida. Uma pequena explosão ocorreu, e Nemu foi arremessada longe, tendo seu corpo amparado pelo Quincy, mas devido ao impacto e ao peso, os dois foram ao chão onde rolaram por alguns metros. Caíram deitados, com ela por cima dele, que abriu os olhos preocupado. Piscou várias vezes, sentindo o corpo da Shinigami caído sobre o seu.

— Nemu-san? Está tudo bem? Se machucou? – Questionou com a voz trêmula, temendo o pior.

— Eu... Estou bem. Não se preocupe comigo. – Sussurrou baixo perto do ouvido dele, fazendo o rapaz sentir um leve arrepio em suas costas.

— Por que fez isso? Podia ter se machucado.

— Não faz mal que eu me machuque, mas você, sendo um humano, seria pior.

— Não é esse o ponto. Você não tem obrigação alguma de me salvar.

— Eu tenho!

— Mas por que isso?

— Porque indiretamente eu sou a culpada pela perda dos poderes.

— Isso não é verdade. Você não tem culpa do que aquele lunático do Mayuri faz, e não tem porque se machucar por minha causa.

— Mas eu tenho que te proteger.

— Não. Você não tem! Não há razão alguma para você impor qualquer tipo de obrigação para comigo.

— Não se trata de obrigação. É outra coisa... Uma coisa muito importante. É que desde que te conheci, nunca, nem mesmo por um só dia eu deixei de pensar em você. É uma coisa muito estranha. Não consigo explicar, apenas acredito que o meu dever é ajudar você a recuperar seus poderes.

O coração do Quincy gelou. Processou muito bem cada palavra dita por ela, principalmente a parte em que ela disse que ele não saia de sua mente. Custou a acreditar, pois com ele acontecera exatamente o mesmo. A morena não saía de seus pensamentos desde que voltara para seu mundo, por isso se sentia tão nervoso ao lado dela. Um nervosismo estranho, e nenhum dos dois conseguia explicar o que sentia um pelo outro. A atenção de Ishida foi redobrada quando sentiu o indicador de Nemu contornando toda a extensão de seus bem desenhados lábios.

— O que você está fazendo? – Perguntou cauteloso e ligeiramente corado.

— Uma coisa que eu vi quando sonhei com você. – Respondeu direta como sempre, sem ter a menor noção do impacto de suas palavras ou ações.

— Você sonhou... Comigo?

O jovem Quincy estava à beira de um ataque de nervos. Mesmo deitado, sentia suas pernas tremerem como se as mesmas não tivessem forças. Seu corpo inteiro se arrepiou tendo a ponta do indicador da Tenente passeando suavemente sobre seus lábios, e a cada momento ele ficava mais confuso, sem fazer a menor ideia do que pudesse acontecer.

— Seus lábios são macios e sua boca é bonita, tal como eu vi no meu sonho. Nunca tive oportunidade de reparar antes, mas olhando tão de perto... E tocando...

Uma forte brisa soprou no local, fazendo Uryuu se arrepiar ainda mais. Não conseguia controlar o tremor de seu corpo, e até sua boca, que Nemu tanto admirava naquele momento, tremia freneticamente, tomada por uma emoção que o rapaz nunca sentiu antes. Sem tempo para questionar qualquer coisa, os olhos azuis se abriram até o limite quando os lábios quentes dela tocaram os seus num inocente encontro de descobertas e emoções. Ela fechou os olhos, e a única coisa que ele conseguiu foi fazer o mesmo. O rapaz de óculos sentiu seu corpo paralisar quando a mão dela envolveu a lateral de seu rosto, e os dedos finos acariciaram suavemente sua franja. Calafrios tomaram conta de si quando sua boca foi invadida pela língua dela, e teve cada canto explorado lentamente, como se sua boca estivesse sendo prazerosamente degustada. Quando lhes faltou o ar para respirar, Nemu gentilmente se separou, estendendo sua mão para ajudá-lo a se levantar. Mesmo ainda estando confuso, Ishida aceitou, e os dois se levantaram, permanecendo de mãos dadas.

— Mas o que foi tudo isso? Por que você...

— Eu também não sei. O caso é que desde que te conheci, nunca consegui tirar você da minha cabeça. Você foi a única pessoa que me tratou com respeito e consideração, que não me enxergou como uma coisa ou um objeto qualquer. Você demonstrou compaixão por mim, e foi o único que conseguiu fazer com que eu sentisse coisas que não estavam programadas.

— Eu apenas fiz o que era certo. Você não tem que se sentir grata por uma atitude que deveria ser comum em todas as pessoas. Por favor, deixe as coisas como estão. Você está com pena de mim porque se sente culpada pela perda dos meus poderes, mas, por favor, não confunda piedade com outro tipo de sentimento.

— Você está enganado. Por que fica sempre na defensiva? Por que não me deixa ficar perto de você?

— Porque é meu problema. Eu não quero envolver ninguém nisso, e também não quero que ninguém me proteja como se eu fosse uma criança inútil.

— Isso não importa. Eu vou descobrir uma forma de devolver os seus poderes, você querendo ajuda ou não.

— Nemu-san, me desculpe. Estou muito cansado e quero ir para casa. Por favor, não me siga.

Soltou a mão dela lentamente e se afastou. A Tenente virou ao contrário e olhou na direção em que a garganta se abriu e o Hollow os atacou. Lembrou rapidamente do momento em que a criatura foi derrotada, e tirou uma conclusão óbvia.

— Não foi o meu ataque que destruiu aquele Hollow. Ishida Ryuuken... Isso sim foi uma grande surpresa...


Ukitake adentrou à mansão atordoado, e ao passar rapidamente pelo jardim próximo à piscina, avistou Kyoraku jogado em uma das cadeiras tomando sol, vestindo uma bermuda rosa claro com bolinhas vermelhas e o resto do corpo peludo exposto e molhado, pois acabara de sair da água e estava se secando com o calor do sol. A primeira coisa que o veterano fez foi acenar com a mão chamando pelo outro veterano, pois o moreno morria de curiosidade para saber como tinha sido o passeio do platinado com sua Professora.

— O que foi, Kyoraku? – Falou chateado, pois não estava com a mínima vontade de ser questionado naquele momento.

— Ei, o que aconteceu com você, bonitão? Parece até que travou uma guerra com o cabeleireiro e voltou careca. Como foi o passeio com sua Professora, ou melhor... Quantos beijinhos você deu nela? – Questionou com um sorriso pervertido nos lábios.

— Somos amigos e eu a protejo. Ela me convidou por estar agradecida por eu ter salvo a vida dela. Não tem nada a ver com as coisas sujas que você pensa. – Disse cruzando os braços e lançando um olhar assassino sobre o amigo, que o fez recuar como um cachorro assustado.

— Calma, calma! – Rebateu agitando as mãos. — Não fique nervoso. Tudo bem então. Se não aconteceu nada demais, por que voltou neste estado? Dá para ver de longe que alguma coisa te deixou extremamente chateado. É muito raro te ver assim.

— Eu só vou te contar se você não fizer nenhuma gracinha. Se for para ouvir besteiras eu nem vou dizer nada.

— Tudo bem, irmão. Eu prometo que não vou fazer nenhuma brincadeira. Pelo jeito a coisa foi séria para ter te deixado assim.

— Shiba Kukkaku nos surpreendeu no shopping.

— O que? Mas o que ela estaria fazendo lá?

— E como eu vou saber? Aliás, não é de hoje que ela vem me seguindo às escondidas, mas acho que desta vez foi coincidência.

— Certo, mas o que aconteceu para te deixar assim?

— Kyoraku... Aquela mulher é louca... Você tinha razão. Ela é completamente desequilibrada. Você acredita que ela avançou como uma fera em cima de mim e da Misato-sensei e bateu na Professora na minha frente?

— Meu amigo... Quando eu disse que achava essa mulher louca eu jamais pensaria em algo assim. Mas o fato de ela ter avançado diretamente na Professora e ter batido nela ao invés de bater em você apenas comprova o que eu venho dizendo há muito tempo. Ela morre de amores por você e é óbvio que fez tudo isso porque estava morrendo de ciúme da sua Professora.

— Eu sei disso. Tivemos uma discussão séria e depois... nos beijamos.

Kyoraku deu um grande salto da cadeira e agarrou os ombros do amigo, dando várias sacudidas, fazendo os claros cabelos de Ukitake se desalinharem.

— O que? Eu não acredito que você fez isso! Até que enfim! Quantos séculos você ia esperar para fazer isso? E como foi? É mesmo tão gostosa como aparenta?

Juushiro não respondeu. Fechou a expressão, e quase saíram faíscas de seus olhos quando ele deu as costas ao Capitão da Oitava Divisão, indo em direção à entrada da casa, mas Shunsui rapidamente o interceptou.

— Certo, certo, me desculpe. Eu não falo mais assim. E então, o que aconteceu depois?

— Um engano. Eu nunca planejei beijá-la. O caso é que ela conseguiu me tirar do sério e acabou acontecendo. Mas por um lado foi bom, pois serviu para que eu me desse conta de que ela é incapaz de sentir qualquer coisa boa.

— Espere um pouco, Juushiro... Está querendo dizer que ela não sentiu nada quando você a beijou? Nada, nadinha mesmo? Nem sequer tesão?

— Não. Isso eu tenho certeza de que ela sentiu. Mas também foi isso. Todavia eu não esperava que ela sentisse nada, só queria que ela entendesse o que eu sinto por ela. Mas foi em vão, meu amigo. Para ela eu nunca vou deixar de ser o homem odioso que 'tirou a vida' do seu irmão mais velho.

— Pois é, eu acho que já disse isso antes, mas tornarei a dizer. Esqueça ela. De qualquer forma, nunca daria certo.

— Mas eu nunca cogitei ter nada com ela. E se não fosse por esse castigo idiota imposto pelo Genryuusai-sensei, continuaríamos como dois estranhos e estaria tudo ótimo.

— Capitão Ukitake! Capitão Ukitake! O Senhor está aí? Responda, por favor!

— Ora, é a Kyone-chan!

— É melhor eu ir atrás dela. Não vai ser nada conveniente para a garota te ver nesse estado deplorável. Você parece um cachorro molhado.

— Hahaha deixa de ser ruim...

— Kyone! Eu estou aqui! – Respondeu.

— Capitão, por onde o Senhor andou a manhã toda? Precisa se cuidar. Aqui está o seu remédio. Tá vendo? O Senhor está pálido. Vamos entrar para que o Senhor descanse melhor.

— Fique tranquila, eu não estou me sentindo mal. Vou tomar o remédio e descansar. Você pode se divertir ou fazer o que quiser.

— Obrigada, Capitão.

E depois de se medicar, Ukitake se trancou em seu quarto onde passou o resto da tarde ouvindo música e se lamentando repetidas vezes por ter agindo por impulso e cometido o erro de ter beijado Kukkaku.


Os Shinigamis que chegaram à cidade de Karakura pela manhã ainda enfrentavam problemas. Cada um deles caiu em uma parte diferente da cidade. Izuru e Rangiku foram parar em uma praia afastada cercada de pedras formadas por erupções vulcânicas. A areia era áspera, e grande parte do solo era formado por pedras menores e outras pedras maiores que dificultavam o acesso ao pequeno vale onde eles caíram. Rangiku estava por cima de Izuru, e aos poucos, os claríssimos olhos da ruiva foram se abrindo à medida que ela recuperava a consciência. A primeira coisa que sentiu foi um aperto em sua cintura. Tratava-se dos braços do loiro, que com seus dedos enlaçados, mantinha o corpo de Matsumoto preso ao dele como se fosse a coisa mais importante a ser protegida. Ela teve dificuldades para se soltar, mas assim que pôde levantar o rosto, deu de cara com uma cena que a fez entrar em desespero. Izuru estava ferido. Escorria sangue por seu nariz e boca e seu corpo havia sofrido todo o impacto da queda e do peso deles sobre si. A Tenente o sacudiu pelos ombros levemente e o chamava repetidas vezes, mas o inconsciente Capitão não tinha como responder. Desesperada e temendo pelo pior, Rangiku começou a chorar, pois naquele mundo desconhecido e no meio do nada, ela não tinha para quem pedir ajuda, e ela também não tinha domínio sobre os feitiços Kido para curar ferimentos. Não havia nada que ela pudesse fazer, e só conseguiu dar um forte soco no chão e gritar desesperada, achando injusto apenas ela ter saído ilesa enquanto seu precioso amigo estava gravemente ferido, podendo até morrer por sua causa.

— Kira... você é injusto... Muito injusto... Por que teve que fazer isso? Por que teve que me proteger colocando a sua vida em risco só para salvar a minha? Não devia ter feito isso... IDIOTAAAAAAAAAAAA! – Gritou desesperada, dando novamente um soco no chão, abrindo uma cratera no meio das pedras.


Depois de caminhar durante horas pela cidade desconhecida, Nanao foi parar na zona industrial da cidade. Não muito longe dali, Shinji tocava seu violão no alto de um dos prédios, no mesmo lugar onde estava desde de manhã. A música fazia muito bem para a alma do líder dos Vizards, e tanto ouvir quanto tocar lhe fazia relaxar. Parou um pouco o que fazia e caminhou até a beirada da laje para ter uma visão do alto da cidade. Os olhos castanhos percorreram a grande metrópole com rapidez, e como se fosse atraído por um imã, o loiro avistou a Tenente caminhando pelas ruas amplas, sem fazer ideia de onde estava. Estranhou tal fato e deduziu que talvez ela nunca tenha vindo ao mundo dos vivos. Deixou seu violão encostado próximo à caixa d'água do grande edifício, e achou melhor ficar de olho na Shinigami. Saltou do alto do prédio de cabeça para baixo e aterrissou no chão com maestria, porém, acabou perdendo a morena de vista e começou a procurar por ela a pé. Nanao Continuava caminhando pelo local estranho. Estava perdida e irritada, pois não conseguia sentir a Reiatsu dos Shinigamis que vieram com ela, e isso a estava preocupando muito. Mais à frente, passou por um trecho em obras e estava tão atordoada com sua atual situação que não viu a placa alertando que o local estava sendo escavado e que era perigoso transitar por ali. Olhava para os lados, tentando em vão achar algum de seus amigos, mas era inútil. Subitamente, sentiu seus pés afundarem ao cair em um enorme buraco, resultado de uma das escavações para um aterro sanitário que estava em construção ali. Caiu com tudo no chão e bateu o braço direito nas paredes de terra, e logo a ardência e a dor tomaram conta de seu corpo. Levantou com dificuldade, pois suas nádegas doíam por causa do impacto que recebeu. Olhou em volta e viu que estava presa em um buraco não muito grande, porém profundo, onde ela mal podia ver a luz através da abertura por onde caiu.

— Maldição! Era só o que me faltava! De onde saiu essa merda desse buraco? – Praguejou o máximo que pôde.

Deu um grande salto com a intenção de voar e deixar aquele lugar, mas tamanha foi sua surpresa ao levar outro tombo.

— Que merda foi essa? Como assim eu não posso voar? Que diabos está acontecendo neste mundo?

Enquanto a inteligente mulher reclamava da situação, pelo menos três ratos apareceram por perto, para o desespero da Tenente, que começou a gritar.

— Socorro! Alguém me tire daqui! Por favor! Alguém me ajude! Por favor, tem alguém aí?! Eu preciso de ajuda! – Gritou desesperada, mas não havia ninguém por perto.

Shinji continuava seu caminho à procura de Nanao, até que passou pela tal placa da obra alertando distância. Olhou confuso, pois percebeu que a Reiatsu dela estava mais forte justamente na direção em que a placa indicava para não se aproximar.

— Isso é brincadeira? Uma Shinigami não seria tão estúpida a ponto de ignorar um aviso... Ou seria? De qualquer forma, estou sentindo a energia espiritual dela nesta direção e não tem jeito. Vou ter que seguir por este caminho mesmo. – Concluiu o loiro.

Enquanto Shinji se aproximava, Nanao continuava em pânico, pois sempre teve pavor de ratos desde que um deles invadiu a sua cama quando ela era criança. Apavorada, ela se encolheu e sentou abraçando os joelhos em um canto do buraco, enquanto gritava para os bichos se manterem longe dela. A Tenente chorava, e seu corpo inteiro tremia de nervoso. Como não parava de gritar para manter os ratos longe, não foi difícil para Shinji descobrir o paradeiro da morena. Ele acabou vendo o buraco formado no chão, e perguntou rapidamente.

— Ei! Tem alguém aí?

Ouvir a voz de Shinji foi como se um bálsamo acariciasse seus ouvidos. Aquilo significava que ela finalmente queria sair daquele lugar onde caiu por puro azar.

— Eu caí aqui embaixo! Me ajuda a sair daqui, por favor!

— Não acredito... E não é que ela foi parar ali mesmo?

Sem demora, Shinji pulou para dentro do buraco e foi surpreendido por Nanao, que ao ver um dos ratos se aproximando, pulou na frente de Shinji, encolhendo as pernas e se segurando no pescoço dele. Seus rostos praticamente se chocaram, e a Tenente corou instantaneamente. Seus olhares se encontraram, e Nanao sentiu uma segurança fora do comum nos desanimados olhos do loiro, que apesar de sempre estarem inexpressivos ou melancólicos, passavam uma segurança que ela jamais havia sentido nem mesmo nos olhos do Capitão Kyoraku. Era mágico. Parecia que todo o medo que ela guardava dentro de si tivesse desaparecido em questão de segundos, apenas com o único gesto de abraçá-lo, como se estivesse se agarrando a uma pequena fenda de esperança para se salvar do pânico pelo qual passava. Shinji não conseguia entender nada. Ele jamais adivinharia o motivo pelo qual a Tenente se jogou em cima dele daquela maneira, mas também não se importou, pois naquele momento, ele havia se dado conta do quão linda Nanao era. Fazia muito tempo que não via alguém tão linda como ela. Seus olhos azuis violeta estavam cheios de medo e pavor, mas eram tão fascinantes, que o loiro não deu muita importância para tal detalhe. Ele quase sorriu, mas o momento de encanto mútuo logo foi interrompido quando ela desviou o olhar e ainda se viu dentro daquele buraco, no mesmo lugar onde os ratos ainda estavam. Nanao rapidamente empurrou Shinji, começando a protestar logo em seguida.

— Seu burro! É idiota por acaso? Como pretende nos tirar daqui se você mesmo pulou para cá?

— Insultos à parte, a pergunta certa a ser feita aqui é: por que você, sendo uma Shinigami, simplesmente não saiu daqui voando?

— Eu não sei! Por alguma razão estranha não consigo voar. Acho que não posso usar meus poderes corretamente neste mundo. É tudo muito confuso. Eu não sei o que está acontecendo. Preciso achar os meus amigos rápido, mas agora vai ser muito mais difícil, já que você se enfiou aqui também ao invés de ficar do lado de fora e dar um jeito de me puxar.

Ela ia continuar protestando, mas se calou quando sentiu ser pega pela cintura e decolar com uma rapidez assustadora, aterrissando segundos depois de igual maneira. Shinji a colocou de pé em terra firme longe do local onde tinha caído. Virou as costas para ela e cruzou os braços para confrontá-la.

— É a segunda vez que eu te salvo, mas fico impressionado pela forma como você agradece. Você é rude, me insulta e sofre por antecipação. Se eu desci até lá é porque obviamente eu poderia tirá-la dali sem maiores problemas. Não precisava ter falado daquele jeito.

— Você está repreendendo o meu comportamento, mas acha que é educado falar com alguém dando-lhe as costas?

Uma brisa agitou levemente os longos cabelos loiros quando ele novamente se virou e a olhou para ela de modo sério.

— Vou seguir o meu caminho novamente, e de agora em diante procure olhar para o chão enquanto estiver andando neste mundo. – Falou dando as costas mais uma vez, andando na direção oposta à ela.

— Espere! – Ela correu ficando mais uma vez na frente dele. — O meu nome é Ise Nanao. Desculpe pelos meus maus modos. Sei que errei falando daquele jeito, mas foi porque eu pensei que você tivesse cometido um erro.

— Entendo. Obrigado por me dizer seu nome. Adeus.

— Não vai embora! Eu estou sozinha neste mundo que eu não conheço. Será que você poderia me ajudar a achar os meus amigos?

Shinji a olhou desconfiado, mas percebeu nos olhos da morena que ela não estava mentindo. E mesmo contrariado, ele acabou aceitando ajudá-la na busca.


Várias horas se passaram e a noite estava chegando. Arrasada, Kukkaku vagava pelas ruas da cidade. Nuvens cinzas invadiram o céu alaranjado de fim de tarde, e a Shiba caminhava sem rumo, sem se importar com quanto tempo passou andando e muito menos com onde ela poderia estar. Foi parar em um bairro estranho, repleto de estabelecimentos duvidosos e ruas estreitas, onde meliantes e até mesmo membros da yakuza costumavam se reunir. A morena passava por um beco com o rosto apático e olhar perdido, sem notar um grupo de quatro homens parados na esquina. Eram todos jovens com menos de 25 anos, de boa aparência e bem vestidos. Trajavam ternos pretos de marcas caras, cujos tecidos brilhavam devido à qualidade. Cada um deles usava uma camisa de estampas variadas, alternando as cores como cinza, vinho, verde escuro e roxo. Os homens se cutucaram entre si, dando leves cotoveladas uns nos outros, já que aquele era um bairro perigoso, onde as únicas mulheres que se atreviam a pisar ali eram as prostitutas que infestavam os cabarés frequentados pelos bandidos.

— Cara, você viu o que eu vi?

— E como não ver?

— Acho que essa é a mulher mais gostosa que eu já vi na minha vida!

— Gostosa é pouco! Viu aqueles peitões?

— Os peitões e todo o resto! Meu Deus... ela é toda boa! Fiquei de pau duro só de olhar.

— Nem me fala, mano! Já pensaram nessa mulher na cama?

— E por que vamos pensar? Vamos tê-la para nós!

— Eu tô dentro!

Os quatro passaram a vigiar todos os passos de Kukkaku até que a mesma parou em uma esquina e sentou no degrau da fachada de um bar cheio de pivetes. Os rapazes pararam de andar quando ela ali ficou.

— Está tudo pronto? – Perguntou um deles.

— Preparado. O tranquilizante está pronto para ser usado. – Respondeu o outro, mostrando uma seringa ao comparsa.

A gangue se aproximou da mulher, que ignorou completamente a presença dos quatro.

— E aí gatinha? O que uma mulher tão tesuda quanto você está fazendo aqui sozinha? – Falou um dos rapazes de cabelo castanho.

A morena arqueou uma sobrancelha e nada respondeu, deixando os quatro homens surpresos.

— O que foi? Você é surda? Não ouviu o meu amigo? – Disse o outro rapaz ruivo. — Por que não responde?

— Não ligue para eles. O que acha de uma suruba a cinco? Aposto que você vai adorar, gostosa. – Falou o outro moreno.

Kukkaku levantou de onde estava e encarou os quatro homens com uma expressão de ódio. Cruzou os braços, fazendo os vastos seios imprensarem entre si, deixando os rapazes babando de tesão.

— Vão para o inferno, bando de idiotas pervertidos! – Gritou enfurecida, mas isso não os intimidou.

— Mas que linguajar mais feio para uma senhorita. – O rapaz moreno falou, enlaçando a mão no ombro dela.

— Não me toque, desgraçado! Vocês não se atrevam a colocar essas mãos imundas em cima de mim.

— Ah, não seja difícil. Uma mulher que vem até este lugar da cidade vestida assim só pode ter vindo atrás de uma suruba, então não me venha bancar a dama recatada agora. – Falou o ruivo, ao agarrá-la por trás.

— Tirem as mãos de cima de mim, seus animais! – Gritou a mulher ao empurrar os dois.

Os outros dois rapazes foram para cima dela, mas ela os acertou com fortes socos, deixando todos impressionados com a sua força.

— Olhem... a gata é do tipo selvagem. Fica calminha, gatinha. Aposto que você vai adorar o que vamos fazer com você.

O grupo mais uma vez foi para cima dela, e enquanto três deles seguravam a garota, o outro fincou a seringa no topo do braço direito da Líder do Clã Shiba, que sentiu o seu corpo inteiro ficar dormente de forma instantânea, e ela já não conseguia mais se mexer.

— Filhos da puta malditos! O que fizeram comigo?!

— Calma, gostosa. Isso foi só um tranquilizante para você ficar bem mais mansinha e relaxada, e prometo que você vai adorar o que temos preparado para você.

— Malditos miseráveis! O que vão fazer comigo?

Sem responder, os quatro bandidos levaram Kukkaku até um dos vários bordéis que haviam naquela rua. A farra e a putaria rolavam soltas naquele antro, e ninguém ali se importou com o fato de quatro homens carregarem uma mulher para dentro de um quarto no andar de cima do prédio à força. Naquele ambiente repleto de safadezas tudo era permitido.

Enquanto isso, na mansão, Ukitake tinha acabado de abrir os olhos. Estava tão relaxado ouvindo música na poltrona de seu quarto que acabou adormecendo. Olhou pela janela e viu o céu escuro, não apenas pela noite que já havia chegado, mais também por causa das nuvens cinzas que o cobriam, anunciando a eminente tempestade que viria.

— Já escureceu? Por quanto tempo será que eu dormi? Bem, não importa. Acho que vou tomar um banho.

Foi até seu armário para procurar outra camisa, mas sentiu uma forte oscilação na Reiatsu de Kukkaku como um flash em sua cabeça. Sentiu aquilo como uma energia ruim, um forte pressentimento de que alguma coisa muito grave estava acontecendo com ela. Vendo o tempo fechar do lado de fora, Juushiro pegou um sobretudo preto com capuz e vestiu. Saiu correndo para fora da mansão em direção à rua, seguindo a energia da Shiba da melhor forma que conseguia.

No bordel, os quatro covardes amarraram Kukkaku na cama. Embora ela não pudesse se mexer, isso não os impediu de fazer tal atrocidade. Já tinham tirado praticamente todas as roupas dela, e apenas a deixaram com a pequena calcinha preta e suas botas. Lágrimas amargas escorriam dos olhos dela ao ser usada daquela forma. Os quatro homens queriam abusar do corpo dela, e todos eles já estavam nus e excitados, e mal podiam esperar para profanar o corpo da indomável e exuberante mulher. Se fartavam nos seios da morena e no resto de seu corpo também, mas ainda queriam aproveitar um pouco mais antes de violá-la. Os toques deles eram brutos e selvagens, e os seios dela foram tomados por uma dor sem igual. Ela chorava tanto pela dor em seus seios e no resto de seu corpo, quanto pela humilhação de estar sendo agredida daquele jeito por um bando de humanos lixosos. Jurou a si mesma que quando tudo aquilo passasse, ela acabaria com eles com suas próprias mãos.

— Meu Deus... O que esses desgraçados estão fazendo comigo? Estão profanando o meu corpo e abusando de mim. Humanos nojentos. Não, eu não quero isso... Não quero que esses seres odiosos me toquem. Ukitake... me ajuda. Me tire daqui... por favor... – Pensou chorando, sentindo um imenso nojo dos toques daqueles homens desprezíveis em seu corpo. — UKITAKE! – Gritou, atraindo a atenção deles.

— O que foi, piranha? Não nos distraia. Nós estamos muito ocupados aqui.

Kukkaku continuava chorando, e enquanto corria, Ukitake ouviu quando ela chamou por ele como se ela tivesse gritado bem na sua frente. Continuou correndo, e logo o platinado finalmente estava diante do prédio onde ocorria o abuso contra Kukkaku, e ele não esperou duas vezes para entrar lá. Quando o Capitão da Divisão Treze cruzou a porta de entrada, foi como se um holofote tivesse sido aceso em sua direção, pois todos pararam o que estavam fazendo para olhar para ele. Os olhos femininos brilhavam e os masculinos o invejavam. Dois segundos foram suficientes para que ele estivesse rodeado de mulheres que o assediavam e quase todas queriam sair no tapa para ver qual delas iria para o quarto com ele. Sem tempo para esse tipo de besteira, Juushiro ignorou todos eles e subiu apressadamente até o andar onde sentiu a Reiatsu desesperada da Líder do Clã Shiba. Um dos homens estava prestes a tirar a calcinha de Kukkaku, mas quando estava quase desamarrando a lateral da pequena peça de roupa, ele e os outros três foram surpreendidos quando Ukitake abriu a porta com um chute, e o barulho da mesma contra a parede deixou os homens atordoados.

Abalada, Kukkaku não conseguiu dizer uma só palavra, apenas continuou chorando. O platinado olhou para a cena e ficou em choque. Ele não podia acreditar que na face da terra houvesse homens capazes de fazer tamanha atrocidade. Como existia tanta gente ruim a ponto de fazer uma covardia como aquela? Estava tão enojado que ele fechou os punhos de tanta raiva, e sua Reiatsu começou a sair do controle. Uma aura branca o envolveu, e logo o prédio inteiro começou a tremer. As pessoas no andar do térreo pensavam se tratar de um terremoto. Quando ele olhou para o estado de sua amada sua raiva dobrou, e a pressão exercida sobre os humanos diante da gigantesca Reiatsu do Capitão era tamanha, que os quatro não tiveram sequer como reagir, e caíram desmaiados no chão. Em seguida, Juushiro retirou seu sobretudo e cobriu o corpo de Kukkaku. Depois disso ele a desamarrou e a tomou em seus braços, saltando com ela pela janela, deixando para trás aquele lugar tenebroso. Um temporal começou a cair naquele momento, e Ukitake envolveu a cabeça de Kukkaku com o capuz do sobretudo enquanto caminhava com ela nos braços no meio da chuva. Sem se importar com o mau tempo, ele a levou a pé até a loja de Urahara, e durante todo o trajeto, eles não trocaram sequer uma única palavra.

Dentro da loja, Kisuke e Yoruichi desfrutavam de uma xícara de chocolate quente enquanto a gata expressava sua notável preocupação com a amiga que passou o dia todo fora e não tinha voltado. Eles mal sabiam que do lado de fora, os dois estavam lá, prestes a entrar e explicar tudo. Ukitake parou diante da propriedade de Kisuke mas quando ia entrar, foi detido pela morena.

— Espere. Não entre ainda. Como soube onde me encontrar?

— Eu ouvi você me chamando.

— Pensei que já não quisesse mais me ver.

— Não quero, mas também não sou o tipo de homem que negligencia esse tipo de coisa. Como isso aconteceu?

— Eu estava caminhando sem rumo pela cidade até que aqueles desgraçados me viram e começaram a me julgar pela minha roupa. Pensaram que pelo fato de eu usar roupas curtas eu seria obrigada a me deitar com eles.

— Entendo... Está tudo bem agora. É melhor entrarmos. A chuva está muito forte.

Os dois estavam prestes a entrar quando foram surpreendidos por Kisuke e Yoruichi, que foram até a entrada da loja, e imediatamente o loiro recebeu um olhar sério do platinado.

— Urahara, precisamos da sua ajuda.

つづくcontinua...

Pois é galerinha, a mulherada estava a perigo neste capítulo. Há algumas coisas que eu queria esclarecer sobre este texto. A Nanao ter medo de ratos é algo que eu quis inserir na história para quebrar aquele estereótipo de inabalável, que é a expressão que ela parece ter sempre que eu a vejo no Anime. E este trauma dela vai servir para outra coisa posteriormente na história.

Nemu finalmente tomou iniciativa e agarrou o Quincy bonitão. E podem apostar que esse amasso o Ishida filho não vai esquecer.

Sobre o que aconteceu com a Kukkaku, a minha intenção com esse trecho foi passar a ideia de que nenhuma mulher merece ser discriminada, agredida e muito menos abusada por conta das roupas que usa. O respeito deve partir de todos, independente da condição de qualquer pessoa, e a morena precisava tomar um choque de realidade para entender que por mais independente que ela pareça ser, ninguém vive sozinho, e todos, até mesmo ela, em algum momento de sua vida, também podem precisar de ajuda, e o orgulho só serve para nos afastar das pessoas que verdadeiramente nos amam. Espero ter esclarecido tudo e até o próximo capítulo.