Capítulo 18 – Recuperação
Em sua mansão, Ryuuken acabara de tomar um longo banho. Ao sentir a água gelada bater em suas costas, uma ardência incômoda tomou conta delas, e o belo médico apenas lembrou-se das unhas de Yoruichi cravando-se como verdadeiras garras de gata em sua pele alva. Desistiu de tais pensamentos e vestiu-se costumeiramente em um terno, penteando as ainda molhadas madeixas platinadas. Ao terminar o seu asseio, o galante homem seguiu para a parte inferior de sua casa, indo direto para o escritório, onde horas atrás foi palco de um acontecimento que ele jamais esqueceria. Ao ver a desordem do local, suspirou pesadamente lembrando de cada momento. Preferia não lembrar, não voltar a viver aqueles acontecimentos em sua cabeça, mas era inevitável. Retirou o seu notebook pessoal da gaveta da escrivaninha e o colocou em outro cômodo da casa, uma mini biblioteca que ele mantinha perto de uma lareira para os dias de inverno. Ao passar os olhos azuis pelo chão, Ishida deparou-se com algo que balançou seu coração. Tratava-se do prendedor de cabelo que Yoruichi usava para manter seu penteado, o qual ele mesmo tratou de se livrar. Pegou o objeto do chão e o acariciou de uma forma estranhamente doce para os seus padrões. Colocou o acessório no bolso de seu paletó e saiu, trancando o cômodo antes de seguir para os seus afazeres diários no hospital.
De volta à noite anterior, paralelo a tudo o que aconteceu na mansão de Ishida Ryuuken, os Capitães estavam prestes a começar uma reunião na sala de Byakuya. Após ignorarem o imenso grito dado por Izuru depois que Rangiku quase acabou de matar o pobre Capitão, os outros Capitães precisavam resolver outro problema maior no andar de baixo. Nanao deixou Shinji sozinho por algum tempo, mesmo contra a sua vontade, pois Kyoraku ordenou que ela participasse da conversa. Ukitake, Byakuya, Kyoraku e Kisuke se entreolharam por alguns momentos, como se estivessem competindo para ver qual deles começaria a falar. A Tenente observou tudo aquilo com agonia, pois queria voltar para o lado do Vizard logo, até que Byakuya enfim resolveu começar.
— Então, Urahara? Será que pode nos dizer quem é aquele homem de cabelos loiros que se encontra ferido lá em cima?
— Você fala do cara de cabelo comprido ou o de cabelo curto?
— Não é o momento para fazer gracinhas, Kisuke. – Ukitake interviu. — Isso eu mesmo posso dizer. Aquele homem é Hirako shinji. Ele era o Capitão da Divisão Cinco e superior de Aizen há mais de cem anos atrás. – Explicou o platinado, deixando Byakuya com uma clara expressão de surpresa.
— Ora, não precisa fazer essa cara, Kuchiki. É natural que você não lembre dele, afinal de contas, naquela época seu avô era Capitão e você ainda era um moleque. – Shunsui completou.
— Isso não é importante. O que eu quero saber é porque ele manda aquela energia tão estranha. É como se ele tivesse dois tipos diferentes de Reiatsu.
— E você está corretíssimo. Acontece que Hirako-san é um Vizard, um Shinigami que despertou seus poderes Hollows.
— Não pode ser! Mas isso viola severamente todas as leis da Soul Society.
— Calma, Byakuya. As coisas não são bem assim. Ele foi vítima de uma experiência secreta de Aizen. Há outros sete Shinigamis, entre Capitães e Tenentes, na mesma situação, mas a sua localização é desconhecida. – Completou o Capitão da Divisão Oito.
— Isso significa que eles estão vivendo isolados neste mundo por mais de cem anos?
— Exatamente. E antes que você pergunte, ele está assim porque o Hollows interior dele anda saindo do seu controle e eu agradeço se ele puder passar esta noite aqui.
— Pode, mas tem outra coisa. O que o Capitão Kira e esses outros Tenentes vieram fazer aqui?
— Não sabemos como, mas o Comandante Yamamoto soube dos Vizards e nos mandou procurar a pessoa ou Hollow em questão e levar até ele na Soul Society. Pensávamos ser um Hollow modificado, mas jamais imaginaríamos que fosse um grupo inteiro de Shinigamis. – Nanao começou a explicação.
— Além disso, descobrimos algo importante. Byakuya mandou instalar computadores em uma sala no andar subterrâneo desta mansão, e detectamos uma anormalidade nos seikaimon quando vocês chegaram aqui esta manhã. Provavelmente isso tem a ver com o aumento repentino na quantidade de Hollows que andam aparecendo neste mundo. Isto pode ter provocado um distúrbio nas dimensões, formando uma pressão de energia fora do comum, e a energia acumulada deve ter arremessado vocês daquele jeito para diferentes direções, fazendo com que caíssem em partes diferentes da cidade. – Ukitake explicou.
— Mas ainda resta saber o que aconteceu com o Renji. Nós não o vimos desde que chegamos. Ele pode estar gravemente ferido ou até mesmo morto.
— Renji também veio?
— Sim, Capitão Kuchiki. O Comandante disse que ele poderia vir no grupo do Capitão Kira.
— Entendo. De qualquer maneira ele pode se virar sozinho, caso contrário, ele se mostrará indigno de ser o meu Tenente.
— Bya-kun e o seu "enorme" coração... – Kyoraku alfinetou.
— E o que vocês pretendem fazer a respeito do Vizard? – O moreno perguntou, ignorando totalmente a provocação do veterano.
O coração de Nanao tremeu com a pergunta do Belo Capitão, e a primeira coisa que pensou foi que ele iria o entregar a Yamamoto no dia seguinte. A morena ficou na frente do líder do Clã Kuchiki e praticamente suplicou...
— Por favor, Capitão Kuchiki! Pelo que mais ama, não faça nada ao Hirako-san. Não o entregue a Soul Society! Nós vamos dar um jeito de resolver isso. Eu apenas imploro que não faça nada! – Pediu desesperada, segurando os dois braços de Byakuya com força.
O Capitão olhou para a Tenente de forma interrogativa, incomodado com o toque impositivo da desesperada mulher. O olhar gélido e assustador do moreno fez Nanao recuar, soltando os braços dele enquanto os outros Capitães a olhavam surpresos.
— Saiba que eu apenas ajo de acordo com as ordens que me foram dadas. Eu não tenho nada a ver com este assunto. Se o Capitão Kira é o responsável por esta missão, então é a ele que você deve implorar.
Nanao respirou fundo, e um agradável sentimento de alívio tomou conta de si.
— Muito bem, já que não temos nada mais a tratar, eu vou voltar para a minha loja. Amanhã eu voltarei para ver o Hirako-san. – Kisuke falou ao sair.
Instantes depois, eles foram surpreendidos com a chegada de Renji e Orihime, que entraram na mansão apressados.
— Inoue-san? Tenente Abarai? – Ukitake perguntou surpreso.
— Não é hora para fazer perguntas sem sentido! Kira-kun está muito ferido lá em cima. Você precisa ajudá-lo e rápido! – Kyoraku logo se manifestou.
Nanao levou Renji e Orihime para o quarto onde estava o Capitão, mas a estudante não subiu sem antes trocar um longo e apaixonado olhar com Byakuya, fato este que não passou desapercebido pelos afiados olhos verdes de Ukitake. No quarto, Kira virava sua cabeça de um lado para o outro contendo os gritos de dor. Ele não conseguia se mexer, e a dor em seu corpo inteiro era insuportável. Rangiku estava à beira de um ataque de nervos tamanha aflição que sentia, e achou melhor não tocar mais nele. Sua atenção voltou-se para a porta quando ouviu a batida na mesma.
— Pode entrar!
Os claros olhos da ruiva brilharam de emoção e esperança ao ver Orihime, e ela abraçou a garota com muita força.
— Ah... Rangiku-san, eu também estou feliz em vê-la, mas está me machucando.
— Sinto muito por isso, Orihime. Mas foi como se Deus tivesse mandado você aqui. Eu nem acredito que esteja na minha frente agora.
— Fico feliz que a minha presença faça bem. Agora fique calma, e por favor, me conte o que aconteceu.
— É o Kira. Ele está muito ferido. Acho que inúmeros ossos dele estão quebrados. Por favor, ajude-o.
— Mas é claro. Pode deixar. – Disse a ruiva ao se aproximar. — Ah! Eu me lembro dele. Acho que já o vi quando estive no Seireitei. Agora ele é um Capitão. Isso é ótimo.
A garota rapidamente começou a emanar o seu poder incomum, e o loiro sentiu um alívio imediato em suas dores enquanto todos esperavam pacientemente até que ele estivesse curado.
Nanao andou apressada até o quarto ao lado onde Shinji estava. O coração da morena saltou quando viu a enorme cama vazia. Era uma linda cama de casal com espelho de madeira e lençol em tom roxo. Na poltrona próxima à janela, avistou a camisa, a gravata e o sobretudo usados por ele. Ficou apreensiva, pois achou estranho ele sumir, se antes estava inconsciente. O quarto estava iluminado pela luz do abajur e a brisa noturna agitava as cortinas brancas da sacada que dava vista para o jardim da frente da casa. A luz prateada da lua cheia entrava pela porta que dava para a varanda, e algo incomum chamou ainda mais a atenção da Tenente quando ela viu de relance longos fios dourados esvoaçando junto as cortinas.
Aproximou-se e deu de cara com o loiro de costas com os braços apoiados na grade da sacada. Todo o seu tronco estava envolto por bandagem que iam da cintura até um pouco acima de seu peito. Nanao sentiu um alívio gigantesco tomar conta de si, e rapidamente chegou mais perto para conversar.
— Hirako-san? Você está bem? Eu levei um susto quando não te vi na cama. Como está ferido, tive medo, pois pensei que fosse morrer. Mas agora estou feliz em ver que está melhor.
Ele não respondeu imediatamente. Seu semblante estava triste e distante e apenas se agravou quando ele baixou o olhar e reparou nas roupas dela cortadas e em seu braço machucado. Virou o rosto na direção oposta, já que ela estava do seu lado direito, e deu um longo suspiro de lamento, despertando a curiosidade da Tenente.
— O que aconteceu? Não vai dizer nada?
— Eu avisei que era perigoso ficar perto de mim. Você quase morreu por minha causa.
— Isso não é verdade! – Reagiu sem demora, colocando a mão esquerda no topo do braço nu do Ex-Capitão, provocando um involuntário tremor em sua espinha com o inesperado toque de sua suave mão, o que o fez encará-la com surpresa. — Se eu estou viva e falando com você agora foi porque você salvou a minha vida.
— Esqueça o que aconteceu quando você caiu do céu! Isso é diferente! Eu quase te matei com a minha Zanpakutou! Eu nunca me perdoaria se algo assim acontecesse.
— Não! Está enganado. Você me salvou pela terceira vez em um único dia! – Voltou a afirmar com tanta seriedade e segurança nas palavras e nos olhos que deixou o loiro balançado.
— Eu tenho um monstro dentro de mim. Será que não entende? – Indagou inexpressivo.
Nanao assumiu uma expressão séria e colocou as duas mãos sobre os ombros dele para fazê-lo ficar de frente para ela. Seus dedos invadiram a pele de seu dorso e os longos cabelos que caíam pelas costas e pela frente de seu tronco, atraindo para si um olhar interrogativo da parte dele.
— O que eu entendo... – Disse com tranquilidade, olhando profundamente dentro dos olhos claros. — É que você não é nenhum monstro. Isso eu posso ver com perfeição, e o fato de você ter um monstro dentro de si não quer dizer que seja um.
Shinji ficou estático. Não sabia o que responder, pois com apenas uma frase, ela o desarmou, quebrando em pedaços todos os seus argumentos. Não disse nada, apenas olhava de forma intensa e quase hipnótica para os grandes e bem expressivos olhos de Nanao, cuja cor arroxeada lhe parecia algo fúnebre e ao mesmo tempo cintilavam uma sinceridade tão verdadeira, que uma sensação de fascínio tomou conta dele.
— Você não tem medo de mim?
As mãos de Nanao apertaram suavemente os ombros do Vizard, e o toque da morena deixou Hirako bastante incomodado, tentando controlar as consequências daquele toque em seu corpo, que já começava a suar frio diante do gesto despretensioso.
— Nem um pouco.
Deslizou os dedos um pouco mais para baixo até sentir uma fina cicatriz em linha reta que começava no ombro esquerdo e seguia para além das bandagens que ela não podia ver. Um vento passou por eles naquele momento, fazendo os cabelos de Shinji irem para trás, dando a ela uma visão completa daquele detalhe curioso.
— Isso é... Uma cicatriz?
— Desculpe. Eu estou muito descomposto para receber a visita de uma senhorita, mas não esperava que alguém entrasse. – Disse evasivo ao se afastar e pegar sua camisa preta sobre a poltrona. Se vestiu rapidamente, colocando também a gravata e o sobretudo. — Parece que a noite vai ser fria. Sentiu o vento gelado agora?
— É sim... eu senti. – Comentou um tanto decepcionada. — Mas como se sente?
— Estava bem por alguns minutos e por isso levantei, mas estou um pouco tonto agora. – Respondeu meio sonolento, apoiando-se na poltrona.
— Eu sabia. Isso acontece porque você abusa. Não devia ter se levantado, está ferido. Anda, se apoia em mim que eu vou te levar de volta para a cama.
Obedeceu sem contestar, e ela o conduziu devagar até que ele deitasse. Nanao pegou a poltrona e a colocou ao lado da cama, passando a observá-lo atentamente.
— E a propósito, onde nós estamos? Eu só me lembro que fui atacado e que eu estava quase te matando... – Perguntou com a voz embargada, e seus olhos estavam fechando pesadamente.
— Não se preocupe com isso agora. Apenas descanse para se recuperar corretamente. Eu ficarei ao seu lado velando o seu sono. Vai ficar tudo bem.
Shinji mal ouviu a resposta de Nanao, pois adormeceu de forma quase instantânea, como se tivesse perdido a consciência. O pior de tudo é que a mulher já não aguentava mais de sono, pois teve um dia muito difícil, e todos aqueles acontecimentos a deixaram extremamente exausta. A poltrona não lhe parecia nada confortável, e o tamanho daquela cama era bastante convidativo. Com cuidado, a linda Tenente deitou ao lado do Ex-Capitão. Ambos estavam deitados de lado, ficando de frente um para o outro. Nanao sorriu ao olhar o rosto adormecido de Shinji, e uniu sua mão com a dele, que estava pousada sobre a cama. Retirou os óculos e os colocou do lado oposto ao seu travesseiro, adormecendo com um gostoso sorriso no rosto.
No quarto de Izuru, os demais ficaram aliviados quando Inoue terminou de curar o Capitão e ele levantou da cama novo em folha. Olhou para a humana impressionado, pois era a primeira vez que ele testemunhava aquele tipo de poder, e sua curiosidade natural lhe obrigou a perguntar...
— Você... – Ele faz uma pausa. — É uma humana, estou certo?
— Sou sim. – Respondeu sorrindo. — É normal. Todo mundo acha estranho um ser humano com tais poderes. Eu já estou acostumada com isso.
— Acho que consigo entender. Eu posso? – Falou amigável, estendendo sua mão para ela, que assentiu de volta e ele beijou a mão de Orihime, deixando Renji surpreso e Rangiku com uma expressão assassina de assustar, que foi logo notada pelo Tenente de cabelo de fogo. — Eu estou muito agradecido por isso. Pensei que desta vez iria morrer. Quase todos os ossos do meu corpo estavam quebrados. Tive uma perfuração no estômago e por sorte não quebrei o pescoço, senão não estaria aqui para contar.
— Como você fez uma autoanálise de si mesmo ao mesmo tempo em que sentia tanta dor?
— É que o Kira já foi membro da Divisão Quatro e tem um vasto conhecimento médico. Além disso ele manda muito bem no Kido.
— Obrigado por explicar, Abarai. Mas comparado aos poderes desta jovem o meu Kido não é absolutamente nada. A propósito, eu sou Kira Izuru. Prazer.
— Igualmente. Inoue Orihime. É bom ver que já está bem, mas preciso ir. Está tarde e tenho aula amanhã. Cuide-se. – Falou gentil ao sair junto com Renji.
— Cuide-se também. Nossa, essa coisa toda me deixou com fome. Nem acredito que fiquei desmaiado quase o dia todo e não comi nada. Matsumoto-san vem comer comigo?
Rangiku o olhou torto com os braços cruzados antes de esbravejar.
— Coma sozinho! – Exclamou nervosa ao sair, batendo à porta com muita força.
— Nossa... O que deu nela? – Perguntou encolhendo a cabeça e fechando os olhos por causa do barulho.
O loiro desceu as escadas da enorme mansão sem saber onde estava, e ao chegar no hall, seguiu pelo resto da casa até encontrar Ukitake e Kyoraku sentados em poltronas individuais na sala. O mais velho degustava uma taça de vinho enquanto Juushiro, como sempre, apreciava o seu chá. Chegou perto dos veteranos até sua presença ser notada.
— Oh! Kira-kun! Que bom que já está curado! Orihime-chan é mesmo incrível. – Kyoraku começou. — Me acompanha neste trago de vinho? É da melhor qualidade. O dinheiro do Byakuya garante.
— Não, obrigado. Prefiro o chá do Capitão Ukitake.
— Faz muito bem, Kira-kun. A propósito, enquanto você esteve inconsciente, Nanao encontrou a pessoa que emanava a Reiatsu dupla que vocês estavam procurando.
— Tão rápido? Mas isso é ótimo. Então poderemos voltar para a Soul Society amanhã mesmo sem nenhum problema.
— Bem... Kira-kun... Acontece que as coisas não são tão simples assim.
— O que quer dizer, Capitão Ukitake?
E depois que Juushiro contou a Izuru tudo sobre Shinji...
— Entende agora porque você não pode levar o Hirako-kun para o Seireitei? Se isso acontecer, os outros Vizard certamente irão atrás do líder deles, e isso pode ocasionar uma guerra dentro da Soul Society.
— E o que querem que eu faça? Que eu minta para o Comandante Yamamoto?
— Não exatamente. Você apenas pode modificar um pouco os fatos. – Kyoraku comentou como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Isso é o mesmo que mentir. – O loiro rebateu fazendo uma expressão desaprovadora.
— Pense apenas que você está evitando um problema maior. Além disso, os Vizards não representam ameaça alguma, e o Hirako-kun só foi descoberto por que seu Hollow interior saiu do seu controle. – Ukitake completou.
— E não é o mesmo que representar uma ameaça?
— Depende do ponto de vista. Aliás, você pode dizer que era um Hollow incomum com uma genética modificada, e que vocês o derrotaram. – Shunsui disse sorrindo na cara dura.
— Claro... Eu acabo de me tornar um Capitão e os veteranos me pedem logo de cara que eu minta para o Comandante? Sinto muito, mas eu não quero compartilhar este exílio com vocês.
— Então prefere iniciar uma guerra entre Capitães e Tenentes? Os Vizards são um grupo de poderosos membros do Gotei 13 de mais de um século atrás, e seus poderes de Hollows não são brincadeira. – O moreno argumentou.
— E tem outra coisa... – O platinado continuou depois de beber mais um gole de seu chá. — Lutar contra eles é como atacar a nós mesmos. Eu nunca deixei de considerá-los como parte de nós. E o Hirako-kun não será capturado sem oferecer resistência.
— Resumindo: teremos que lutar contra ele?
— Eu não recomendo isso. Juushiro está certo. E você pode dizer que tudo não passou de um engano e que era alguma experiência do Urahara. Ele irá confirmar sem nenhum problema. – Kyoraku continuou.
— Vocês estão me colocando em uma posição difícil. Eu preciso pensar um pouco sobre isso.
— Pense, mas pense bem. Aproveite esta noite para pensar no assunto.
— Acho que farei isso, mas antes podem me levar até a cozinha? Estou faminto.
— É Claro. Por que nós três não assaltamos a geladeira do Byakuya?
Os três Capitães foram até o armário e pegaram vários copos enormes de macarrão instantâneo. Depois de colocarem a água quente, Kyoraku teve uma ideia enquanto aguardavam o preparo.
— Ei, rapazes! Porque não levamos isso tudo lá para cima e fazemos uma festa do pijama no quarto do Ukitake?
— Espere aí! Por que justo no meu quarto?
— Por que é o mais arrumadinho.
O loiro e o platinado acharam a ideia um pouco nonsense, mas por que não? Afinal, eles também precisavam relaxar de vez em quando. Os três levaram os copos de macarrão e os refrigerantes para o quarto do Capitão platinado, e Kyoraku se ausentou por alguns instantes para colocar seu pijama, voltando rapidamente vestido com um pijama verde claro com estampas de uma vaca em formato chibi, atraindo olhares descrentes dos belos rapazes de cabelos claros.
— Ukitake-san... Pelo que mais ama... diga que vai me emprestar um pijama de adulto. – Izuru disse em um tom quase desesperado.
— Anham... – Assentiu o platinado, ainda olhando para o amigo com cara de bobo.
O Capitão da Décima Terceira Divisão abriu seu closet e pegou um pijama azul de algodão, que por coincidência tinha o mesmo tom de azul dos olhos de Izuru. Para si mesmo, ele pegou um pijama preto de tecido leve e brilhante semelhante a seda. Ao se trocar, Kira percebeu que Shunsui ria dele, pois a calça e as mangas estavam compridas demais. O loiro engoliu seco e dobrou as roupas, já que Ukitake era mais alto do que ele.
— Já que está tudo pronto, preparem seus hashis e vamos comer! – Anunciou o Capitão da Divisão Oito.
E foi o que os três fizeram. Começaram a comer, e Izuru comia como um desesperado, pois nunca tinha experimentado algo assim antes.
— Caramba! Kira-kun estava mesmo com fome. – Comentou o veterano de rabo de cavalo.
— Essa comida é uma delícia! Que macarrão mais interessante. Quando se fica à beira da morte, a fome parece ser triplicada.
— Tem razão. Eu vou sentir falta dessas guloseimas quando voltarmos. – Juushiro finalizou.
— Então vamos a parte que mais interessa nesta festa: Como vai o coraçãozinho de vocês dois? – Kyoraku perguntou malicioso.
Constrangidos, os rapazes cuspiram o caldo por causa da pergunta, e toda aquela nojeira foi parar bem na cara de Shunsui, que na mesma hora se arrependeu de ter perguntado. Ele foi até o banheiro dentro do próprio quarto para limpar o rosto enquanto os dois Capitães riam da cara do moreno por ter sido alvo do próprio veneno.
— Não pensem que escaparam! – Ele voltou rapidamente. — Vou começar por você, Capitão Ukitake! É verdade que você finalmente mandou Shiba Kukkaku para o inferno e não quer mais vê-la nem pintada de ouro? – Perguntou em tom divertido, apontando o par de hashi para a boca do platinado como se o estivesse entrevistando.
— Eh? Do que vocês dois estão falando? – O loiro perguntou confuso. — Eu jamais imaginaria que Ukitake-san gostasse de alguém.
— Não fique chateado, bonitão. De qualquer forma todos vão saber mesmo. Por que não confia e se abre com a gente então?
— Eu me apaixonei, mas nunca cogitei ter nada com ela. Mas a nossa convivência forçada neste mundo mudou um pouco as coisas, e eu apenas descobri que me apaixonei por uma mulher que mostrou ser completamente diferente do que eu pensei que fosse. Eu apenas dei um basta na situação, pois não mereço ser alvo de grosserias e escândalos por algo que eu nem ao menos tenho culpa. – Finalizou cabisbaixo.
— Desculpe por te fazer lembrar dessas coisas, meu amigo. Se isso te deixa triste não precisa dizer mais nada. Mas é aquilo que eu lhe disse desde o início... Não daria certo.
— Não se preocupe com isso. Se esse é o objetivo desta "reunião", por mim não há nenhum problema.
— E quanto a você, loirinho? Não vai nos contar como anda a sua vida amorosa?
— Shunsui! Deixe-o em paz. Ele não tem que nos contar nada.
— Está tudo bem, Ukitake-san. Para dizer a verdade, a esta altura muitas pessoas já devem estar sabendo. Eu me apaixonei pela Matsumoto-san.
— Matsumoto-chan?! De bobo você só tem essa cara de fantasma anêmico! Na verdade, você é bastante guloso! Colocou os olhos logo na bem dotada da Divisão Dez! – Kyoraku alfinetou gargalhando alto.
— Shunsui! – Juushiro exclamou ao repreender o amigo pela segunda vez.
— E o que tem demais? Não é nada estranho se apaixonar por uma comissão de frente daquela.
— Me perdoe, mas você está tristemente equivocado. Eu me apaixonei pela pessoa e não pelo corpo. O corpo nada mais é do que um avatar neste mundo. O que importa é o que levamos dentro de nós.
— Brilhantes palavras, meu rapaz! – Ukitake aplaudiu. É o mesmo que eu sempre falei da Kukkaku-san. É isso que significa amar de verdade.
— Tá bom! Tá bom! Já entendi seus dois chatos apaixonados. Vocês não entendem nem uma piada. – Resmungou o moreno.
— Mas e o Abarai-kun? Acho que ele vai ficar sentindo por não o termos chamado para a festa.
— Não se preocupe, Kira-kun. Se ele sumiu é porque certamente o Byakuya deve ter precisado dele.
— Pode ser que tenha razão...
— Mas e você, Kira-kun? Não vai investir na ruiva?
— Nem um pouco. Como o Ukitake-san disse, eu nunca cogitei ter nada com ela, e se dependesse de mim ela nunca saberia sobre os meus sentimentos.
— Mas então ela sabe? Como ela soube?
— Ela ficou sabendo depois de uma noite em que fomos beber juntos.
— Já vi tudo... Gente bêbada só faz merda.
— Olha só quem fala...
— Deixa de ser ruim, Ukitake! Você percebe o que eu passo com ele, Kira-kun?
— Não sei de nada.
Kyoraku continuou bebendo, pois tinha roubado uma garrafa de vodka do bar de Byakuya, e já tinha tomado quase a garrafa toda, e seu rosto já estava vermelho por causa do álcool.
— Kyoraku, é melhor parar de beber assim, caso contrário, o Byakuya vai te fazer pagar por todas essas garrafas. – O platinado disse preocupado.
— Isso se ele não morrer antes... – Izuru completou.
— Por causa de uma birita? Somos almas, isso é o de menos.
— É claro... Meus pulmões que o digam...
— Deixa disso, Ukitake. Você também deveria beber um pouco e aproveitar.
— De jeito nenhum. Sem chance.
— Ah... Estou satisfeito! – O loiro exclamou feliz ao se jogar para trás no tapete macio.
— Faz bem mim ficar feliz, pois barriga cheia, coração contente. – Brincou o bêbado Kyoraku.
— Espere um pouco, Shunsui... de onde você tirou essa frase?
— Isso saiu de um famoso programa de humor aqui do mundo real.
— Que besta. Nem parece um veterano. – Kira falou escancarado.
— Kira-kun, ele não te ouviu... – Juushiro comentou entediado, enquanto Izuru ria feito bobo dos micos do veterano Capitão.
A breve festa dos Capitães terminou no quarto de Ukitake, e o platinado arrastou o amigo à força para o seu quarto enquanto Izuru foi para o quarto que estava ocupando antes onde passaria a noite.
Enquanto isso, Renji tirava um cochilo no sofá da sala de TV. O ruivo desabou de cansaço depois que Orihime pediu para ir ao banheiro, quando na verdade, seu interesse era "ter um particular" com o dono da mansão. Em uma parte afastada do jardim, Byakuya se encontrava sentado em um dos bancos de madeira onde mantinha Orihime em seus braços, e a mesma estava deitada com as pernas dobradas para se apoiar melhor.
Os dois trocavam um calmo beijo apaixonado, onde suas línguas brincavam gentilmente uma com a outra, e as mãos de ambos acarinhavam os longos cabelos que possuíam. Aquela parte do jardim era pouco iluminada, criando o clima perfeito para os dois. Aos poucos o beijo ia ficando mais profundo, exigente e ousado, e as carícias acompanhavam o mesmo ritmo. Aproveitavam ao máximo aquele cálido beijo, onde seus corações se aqueciam ao sentirem o gosto um do outro em um indescritível sentimento de paz que ambos só conseguiam sentir quando estavam juntos. Eles começaram a explorar novos lugares.
A mão direita de Byakuya descia devagar pelos ombros nus, cobertos apenas pela larga alça da blusa de malha branca e justa que marcava a sua fina silhueta, e a mesma estava um pouco levantada por causa da posição em que a garota se encontrava. A mão masculina chegou à cintura, causando um arrepio na ruiva. Ele continuou até parar na coxa e a apertou levemente por cima da saia rodada rosa, que caia na mão dele até que o moreno sentiu por fim a maciez da gostosa pele da perna dela em seus dedos. Ao experimentar o aperto em sua coxa, Orihime perdeu o ar por alguns instantes e ofegou, separando seus lábios de dele para capturar um pouco da atmosfera, voltando ao beijo em seguida. Foi a vez de ela se aventurar, quando sua pequena mão deixou os cabelos negros e desceu pelo pescoço até chegar na abertura da caríssima camisa azul marinho e se adentrar no espaçamento entre os botões abertos.
Alisar a pele pálida do peito rígido causou um calor fora do comum nela, especialmente em suas partes íntimas, que ela sentiu encharcar. Logo, Inoue se lembrou do sonho que tivera com ele, e de como todas as sensações maravilhosas que sentia junto dele lhe pareciam tão reais. O Capitão percebeu que o beijo dela ficava cada vez mais intenso e suas carícias mais ousadas quando quase todos os botões de sua camisa já estavam abertos. Ele mesmo estava prestes a começar a ficar excitado e achou por bem parar antes que ficassem "animados" demais. Ele rompeu o beijo e afastou seus rostos, mas ela permaneceu com os olhos fechados e a face vermelha de calor e de timidez também. Quando abriu os olhos, ela pôde ter a visão dos lindos e enigmáticos olhos azuis do ainda mais lindo Capitão.
— Eu amo os seus beijos. – Ela diz diretamente.
— Eu também. – O moreno respondeu quase sem querer, deixando a garota feliz da vida com a rápida afirmação.
Byakuya adorava mesmo os beijos de Orihime, e a forma como ela oscilava entre o romântico e doce até o audacioso e invasivo. Mas aquilo não podia continuar. Precisava conversar com ela sobre um assunto delicado, mas de forma alguma queria magoá-la. Continuou com a jovem em seus braços, e ela fazia leves carícias em seu rosto.
— Você é lindo. Eu poderia passar a vida inteira olhando para o seu rosto... Para o brilho dos seus olhos...
— O mesmo eu posso dizer de você. Você é linda, princesa. A mais linda de todas.
— Eu queria te ver sorrir.
— Sorrir? – Disse um tanto espantado? — Eu... Quer dizer... há muitos anos... décadas... eu esqueci como é a sensação de dar um sorriso.
— Está querendo dizer que você não sabe sorrir?
— Infelizmente não.
— Não se preocupe com isso, meu amor. Vai ver que ao meu lado você vai aprender rapidinho.
— Não duvido. De qualquer maneira, minha linda, precisamos conversar sobre algo importante.
— AAAHHH! – Ela berrou de repente.
— O que foi, princesa?
— Já está muito tarde! Esqueceu que temos aula amanhã?
— É verdade...
— Então podemos deixar esta conversa importante para amanhã?
— Já que não tem jeito... Quer que eu a leve em casa?
— Melhor não. Se você for junto, com certeza eu não vou te deixar ir embora.
— Pois então eu teria que recusar o convite, mas também não quero que ande por aí a essa hora sozinha. Um Hollows pode te atacar, por isso, querendo ou não, eu vou te levar para casa. – Determinou ao levantar. — Agora me abrace.
— Com o maior prazer. – Falou baixinho e rindo à toa, e como um flash eles estavam diante da porta do apartamento de Orihime.
— Chegamos. Já pode abrir os olhos.
— Inacreditável! Isso foi um teletransporte?
— Eu sou um Shinigami e não paranormal. Isso foi um shunpo.
— Hahaha! Verdade! Às vezes eu esqueço que você é um Capitão.
E depois de trocarem outro longo e apaixonado beijo, Byakuya voltou rapidamente para a sua mansão, contendo-se com todas as forças para não entrar naquele apartamento e cometer uma loucura.
Ainda era madrugada, e o dia estava quase amanhecendo, mas ainda estava escuro. Kisuke vestia uma camisa simples de meia manga e uma calça de moletom cinza como pijama. Ele acordou de repente e foi até a cozinha. Como tinha perdido o sono, esquentou a água e decidiu fazer um chá. Assim que terminou de fazer a bebida e se servir ao sentar no chão em frente à mesa de centro, ele ouve um barulho vindo da porta. Não leva muito tempo para que Yoruichi esteja de pé diante dele. O loiro arregalou os olhos ao ver sua velha amiga chegar vestindo uma camisa e um sobretudo masculino. Sua expressão estava arrasada e seus cabelos soltos também o deixaram surpreso.
— Yoruichi-san? O que aconteceu? Eu pensei que estivesse em seu quarto dormindo junto com a Kukkaku-san. Essas roupas, seu cabelo... o que houve? – Questionou intrigado.
— Kisuke... – Respondeu com os olhos marejados. — Eu transei com um Quincy.
— Ah... e eu achando que era algo importante. Estou acostumado a te ver chegar no meio da noite depois de... espere um pouco... você disse um Quincy?
A gata assentiu com a cabeça quase chorando de culpa e remorso naquela noite...
つづくcontinua...
