Capítulo 19 – Aceitação

Yoruichi estava desesperada. Chorava de soluçar quando sentou no chão e apoiou os cotovelos sobre a pequena mesa. Kisuke nunca tinha visto sua velha amiga naquele estado. Ofereceu uma xícara de café recém-feito, que só depois de muito esforço ela conseguiu beber. Quando a gata por fim se acalmou, o loiro achou que poderia perguntar...

— Aconteceu alguma coisa grave? É a primeira vez, em séculos de amizade, que eu te vejo chorar. Mas espere um pouco... se bem me lembro, você disse que transou com um Quincy. Então isso significa...

Urahara fez uma pausa e chegou perto da amiga, pegando os ombros dela com firmeza.

— VOCÊ VIOLENTOU O ISHIDA-KUN?! SUA MANÍACA DISSIMULADA! – Disse aos berros, sacudindo a morena com força, a deixando tonta.

— Ficou maluco?! – Gritou de volta, dando um murro no meio do rosto do cientista, que caiu sentado com a mão no nariz ensanguentado.

— Caramba, Yoruichi-san! Também não precisava fazer isso!

— Lógico que precisava! Como pôde pensar que eu faria algo assim como um moleque?

— Então explique direito! Você disse que transou com um Quincy, e o único Quincy que conhecemos é o Ishida-kun.

— É mesmo, sabichão? E você nunca cogitou que ele tivesse um pai?

— Agora que falou... – Pausou ao ir até a geladeira e pegar gelo para o seu nariz. — Ishida-kun nunca mencionou a família dele, mas pelo menos agora estou mais tranquilo em saber que você pegou o Ishida-san ao invés do Ishida-kun.

— Engraçadinho. Não é hora para fazer piadas.

— E o que quer que eu faça? Que eu comece a chorar também? Aliás, eu cansei de te ver voltar depois dessas suas "noitadas de alívio". E o que tem demais? Sexo casual é tão comum para você quanto trocar de roupa.

— Pode até ser, mas você nunca topou fuder comigo.

— Porque eu te vejo como um homem. Você é minha amiga, e eu não consigo te ver de outra maneira. Além do mais, essas futilidades em busca de prazer não me fazem falta.

— Kisuke... você é gay? – O mira de canto, para a surpresa do loiro.

— É claro que não! E você sabe muito bem disso! – Se defende de imediato.

— Assim como eu sei que a Soi Fon tem uma queda por você.

— Agora a louca aqui é você! Nem nos meus piores pesadelos eu iria querer ter algo a ver com aquela desequilibrada. Mas voltando ao assunto principal, eu ainda não entendi o que você teria a ver com o pai do Ishida-kun.

Yoruichi fez um breve relato de tudo o que acontecera entre ela e Ryuuken, enquanto Urahara tomava o seu café.

— Eu até compreendo as circunstâncias, mas querer transar com um cara para dar uma lição nele somente porque ele supostamente feriu o seu orgulho me parece impensado. Agora entendo sua fantasia por médicos, já que um médico Quincy é um exemplar único, e também entendo porque o Ishida-kun nunca nos falou sobre o seu pai, já que, segundo você, o homem tem um gênio terrível. Só o que eu não entendo é porque todo aquele desespero. Ele te ameaçou? Disse que ia te perseguir ou algo do tipo?

— Mas é claro que não!

— Então qual é o problema? Está deprimida porque ele era péssimo de cama e toda a sua tara por médicos caiu por terra?

— Você quer outro soco na cara? Esqueça! Eu vou para o quarto tomar um banho e me trocar. Vocês homens não entendem nada mesmo. São todos uns tolos insensíveis! – Reclama ao sair.

— Mas quem diria que depois de séculos, Yoruichi-san encontraria o amor justamente em um Quincy ainda por cima. – Concluiu tranquilo ao tomar o último gole de café.

A Ex-Capitã tomou um longo banho e guardou com extremo carinho e cuidado as roupas que pegou de Ryuuken em uma de suas gavetas. Deitou em seu confortável futon e não conseguia fechar os olhos. Kukkaku acordou em seguida, pois o efeito do tranquilizante enfim tinha passado. Ao despertar, a exuberante morena reviveu em sua mente todos os momentos de terror que passou naquele lugar terrível, e também toda a paz que sentiu quando Ukitake a salvou. Estava atordoada, perdida e cada vez mais angustiada, pois seu sentimento de culpa só fazia aumentar. Do nada, lágrimas invadiram seu lindo rosto ao lembrar de como ele foi embora da loja e a deixou lá como se fosse um pacote a ser entregue sem nem ao menos se despedir. Yoruichi olhou para o lado ao ouvir o choro silencioso, mas não imperceptível da amiga, e sem hesitação nenhuma comentou:

— Pensando no Ukitake?

— E quanto a você? Quem foi a vítima desta vez? Um adolescente virgem ou um playboy mais experiente?

— Eu perguntei primeiro.

— E adianta negar?

— Lógico que não. Está escrito na sua cara. Mas é tão complicado... Eu nunca pensei que fosse sentir o que estou sentindo agora.

— O que foi, amiga? Por acaso você se apaixonou? Logo você que sempre dizia que nenhum homem iria te domar.

— E o que você pode falar se está aí jogada nessa cama apática e morrendo de amores pelo Ukitake?

— Que bela amiga você é! Foi para a rua trepar quando disse que ficaria cuidando de mim.

— Não foi bem assim! Acontece que eu tive vontade de tomar um refrigerante e fui até a máquina da esquina. Só que eu vi a Tenente Kurotsuchi indo para um lugar suspeito no meio da noite.

— E então você resolveu seguir a garota! E onde uma trepa entra nisso tudo? Bem, a não ser em você mesma, é claro... – Comentou ácida.

— Sem graça! De onde tirou isso? Quem falou que eu transei com alguém?

— Vai começar a mentir agora? Eu sinto essa sua aura depravada a quilômetros de distância.

— Verdade... A quem eu quero enganar? Eu segui a Nemu até um Hospital...

— Hospital?! Ui! – Exclamou empolgada, sentando no futon em seguida.

— Que bom. Estou vendo que já pode se mexer.

— Isso é o de menos! Mas agora me conta... Hospital... Ai que tudo! Você sempre falou que tinha fantasias eróticas com médicos.

— Mas eu nunca tinha, de fato, me deitado com um, pelo menos... até agora.

— Não brinca... Então quer dizer que você transou com um médico?

— Não foi com um médico foi com o médico! E você não vai acreditar! Aquele homem é um Quincy. O pai do Ishida-kun.

— QUÊ? O pai daquele rapaz lindo de óculos?

— O próprio. Mas ele é bem diferente do filho. Ele é frio, arrogante, impositor...

— Resumindo: ele tem todas as qualidades para deixar uma mulher louquinha.

— Por mais que seja contraditório... Tem mesmo! Eu nunca devia ter me envolvido. Eu quis dar uma lição nele, mas perdi o jogo.

— Espere um pouco, Yoruichi... está querendo dizer que se apaixonou?

— Acho que sim. Para dizer a verdade, tenho quase certeza.

— Mas ele é bonito, pelo menos?

— Bonito? Ishida-kun já é lindo daquele jeito, mas se você visse o pai...

— Uau! Então o garoto teve a quem puxar.

— Você nem faz ideia! Ele não é apenas lindo... Ele tem charme, elegância e uma pegada... Ai... – Suspirou empolgada só de lembrar. — Uma pegada que eu jamais experimentei com homem nenhum.

— Nossa, você gamou mesmo. Mas e aí? Você arrasou com o bofe? Fez ele se arrastar aos seus pés?

— Foi o contrário. Ele me envolveu, me seduziu com seus beijos e carícias eróticas. Ah, Kukkaku... ele me deixou de quatro como uma gata domada.

— Pelo modo como você suspira só em falar dele... Mas Yoruichi, você foi passiva? Eu não posso acreditar nisso! Você nunca permitiu que nenhum homem te colocasse de quatro.

— Mas esse foi o problema. No começo era como uma transa qualquer, mas depois, no meio de tudo, eu senti que alguma coisa dentro de mim havia mudado, e pude sentir o mesmo nele também. Acho que se eu pudesse definir esta noite, eu diria que nós transamos, mas também fizemos amor, compreende?

— E foi o melhor da sua vida?

— Sem dúvida alguma! Não parece irônico que o melhor sexo que eu já tive foi precisamente com um Quincy?

— Agora estou na dúvida se lhe dou os parabéns ou os pêsames.

— E por que diz isso?

— Ora, você se apaixonou pela pica de ouro do médico gostosão.

— Pode ser que esteja certa. Eu nunca senti isso antes. Eu não paro de pensar nele! Com os olhos abertos, fechados, não importa. É só o rosto dele que eu enxergo o tempo todo.

— Parece que o médico te deixou gamada mesmo com suas habilidades. E agora, o que vai fazer?

— Continuar vivendo como sempre. Eu apenas não quero vê-lo de novo.

— Como assim? Não vai dizer a ele que sente?

— Eu o deixei dormindo e fui embora. Ele nem me viu sair.

— Que maldade, Yoruichi! Você deixou aquele bofe de primeira qualidade amanhecer na solidão depois daquela foda bem dada? Definitivamente você é um ser perverso!

— Isso tudo foi um erro. Eu nunca deveria ter ido atrás dele.

— Parece até piada. Você tem tanto fogo por médicos que acabou se apaixonando por um.

— Mas eu não queria! Ele é um homem egoísta e insensível. Eu não quero vê-lo de novo.

— E o que pretende fazer com seus sentimentos? Cavar um buraco e enterrar? Sinto muito dizer isso, mas não vai rolar. Não vê o meu caso? Eu sou uma burra teimosa que sempre soube sobre os meus sentimentos, mas preferi lutar contra ele, enterrar e apenas piorou tudo. E você já começou pela ordem inversa. Vocês transaram logo de cara e se apaixonaram. Eu até conseguia lidar com os meus sentimentos pelo Ukitake até certo ponto.

— Então o que mudou agora?

— Um único beijo. Depois que nos beijamos, foi como se tudo o que eu sentisse por ele tivesse explodido, e agora eu já não sei mais o que fazer com todo esse sentimento.

— Mas eu sempre falei que você amava o Ukitake. Você que nunca quis me ouvir.

— E você quer cometer o mesmo erro que eu? Não querer vê-lo de novo não vai resolver nada.

As duas amigas olharam uma para outra e se abraçaram chorosas, lamentando a "sorte" de amarem tanto aqueles platinados.


O dia amanheceu, e Byakuya saiu cedo para o colégio junto com Ukitake. Depois da bebedeira da noite anterior, Kyoraku tomava um café forte e seguia com Izuru para o quarto onde estava Shinji para que o loiro conhecesse. Os dois Capitães levaram um susto ao ver a Tenente e o Vizard na mesma cama. O mais velho pegou o celular do bolso e tentou tirar uma foto do momento, mas suas mãos tremiam por causa dos ainda nítidos efeitos da ressaca. O Capitão da Terceira Divisão pegou o aparelho da mão do outro e fotografou os dois. Não demorou muito para que Shunsui desse um grito de espanto.

— NANAO-CHAN!

A morena abriu os olhos, assustada ao dar de cara com os dois Capitães, dando um pulo da cama e colocando os óculos em seu rosto em seguida.

— Capitão Kyoraku? Capitão Kira?

— O que está acontecendo aqui, Tenente?

— Não pode ser! Me digam que eu ainda estou bêbado e estou vendo coisas... A minha doce Nanao-chan perdeu a inocência! – Shunsui gritou fingindo um choro escancarado, atraindo o olhar desaprovador da Tenente quando a mesma percebeu que ele se embebedou na noite anterior.

A morena de óculos chegou perto de seu Capitão e pegou os ombros dele com cuidado ao notar sua expressão debilitada. Com cara de bobo, Kyoraku choramingava e dava berros de protesto, achando que sua subordinada, a quem ele tinha tanto cuidado, tivesse feito "coisas proibidas" com um desconhecido. Mas sua pirraça ridícula e nada adequada para um Capitão já estava deixando Nanao irritada e o corpo do veterano saiu rolando até bater de cara em uma das paredes do quarto após ser acertado em cheio por uma joelhada bem dada de sua Tenente. Izuru olhou para a Shinigami com espanto, mas também achava a atitude do mais velho bem exagerada.

— Eu não vou perguntar o que houve aqui, pois sei que não aconteceu nada demais, e mesmo que fosse o contrário, eu não seria ninguém para questionar.

— Fico feliz ao ver que o seu bom-senso não foi afetado depois que se tornou um Capitão.

— Eu jamais faria isso. Os outros Capitães me contaram tudo. Este homem é a pessoa que estávamos procurando.

— E o que vai fazer, Capitão? Não está pensando em levá-lo à força até o Comandante, está?

— É uma situação complicada, mas Ukitake-san e Kyoraku-san me deixaram a par de tudo. Acho que essa missão por si só já foi um erro.

— E o que o Senhor pretende fazer?

— Vamos ficar no mundo dos vivos por enquanto. Preciso que venha comigo até a loja do Urahara-san, pois vamos precisar de Gigais.

— Agora?

— Sim. Agora. Mas antes, será que eu posso fazer uma pergunta?

— É claro que sim, Capitão Kira.

— Qual é o seu interesse no Vizard? Eu notei um grande desespero em suas palavras agora a pouco.

— Hirako-san... não representa nenhuma ameaça. Eu garanto. Desde que chegamos neste mundo ele já me salvou três vezes.

— Entendo... já que ele te salvou, isso significa que você tem uma dívida com ele. É mais do que suficiente para mim. Vamos logo para a loja.

Os dois rapidamente seguiram para loja do loiro, e quando chegaram ao local, Kukkaku já tinha ido para a escola. Yoruichi achou melhor que ela ficasse na cama descansando, mas a morena insistiu, pois estava bem e se encontrava em uma pilha de nervos pois cismou que tinha uma conversa pendente com Ukitake. Depois de resolver o assunto do Gigai, o Capitão e a Tenente retornaram à mansão, onde deram de cara com Shinji no hall da entrada. Os dois ainda não estava em seus Gigais, e ficaram surpresos ao verem o loiro de pé.

— Hirako Shinji, certo? – Izuru começou.

— Um Capitão, certo? – Shinji concluiu irônico. — Então finalmente aquele velhote resolveu mandar alguém para me caçar? E o que vai ser, garoto? Pretende me levar à força para que eu tenha o desprazer de olhar para aquela cara hipócrita e velha dele?

— Nós não estamos aqui para levá-lo a lugar algum. – O Capitão explicou direto.

— Fico feliz por isso, pois, a menos que você consiga pensar ao contrário, é melhor nem sequer cogitar essa ideia. – O Vizard disse sério ao encarar o outro loiro, que nada entendeu sobre o último comentário.

Depois disso, Shinji saiu e foi até a sala de TV, onde se deparou com Renji ainda adormecido. Nanao quis ir atrás dele para que não saísse da mansão, mas Kira a deteve por alguns instantes.

— Nanao-san, Eu quero te pedir um favor. Não tire os olhos dele. Quero que cuide dele e nos avise se ele perder o controle de novo. Eu vou deixar você encarregada de tudo o que tem a ver com ele. Posso contar com você para isso?

— É claro que pode, Capitão! Para dizer a verdade, eu ia mesmo pedir para fazer isso.

A moça logo entrou em seu Gigai e foi atrás de Shinji. Ela o encontrou do lado de fora da casa olhando com atenção para a piscina enorme e sua água azul clarinha, que refletia os raios de sol das primeiras horas da manhã como feixes de luzes verticais sobre a água.

— Hirako-san! – Chamou, atraindo a atenção dele para si.

Os tristes e inexpressivos olhos castanhos foram tomados por um brilho radiante assim que foram agraciados com a visão da bela mulher, cuja voz encantou seus ouvidos ao pronunciar seu nome. Ela vestia uma calça jeans escura, uma blusa social rosa escuro de manga 3/4 com detalhes florais na lateral direita e sapatilhas. Seu cabelo estava preso como de costume, e mesmo as roupas tão simples a deixavam linda. Ele estava sentado em uma das enormes cadeiras à beira da piscina, e a Tenente sentou na cadeira ao lado.

— Que casa é essa? O que significa tudo isso? Você e aquele Capitão foram mandados aqui para me capturar? Não sou mais do que uma presa para vocês? – Ele questionou diretamente.

— Não! Por acaso não ouviu o Capitão Kira? Não temos nenhuma intenção de lhe fazer mal. Pelo contrário! Queremos ajudar... quer dizer, eu quero te ajudar.

— Ajudar em que?

— Quero descobrir o que se passa nessa sua cabecinha. Por que seu Hollow interior está saindo do controle. Eu quero te entender.

— Ora... o que você quer é algo bem difícil. Nem eu mesmo entendo. Eu sou apenas o resultado de uma experiência fracassada de um demônio que eu soube domar. Por causa do meu erro de cálculo, condenei não apenas a mim, como também a amigos importantes, a maldição de vivermos excluídos como criminosos, lidando com outros demônios dentro de nós. No fim das contas, o verdadeiro monstro nessa história toda deve ser eu mesmo.

— Você está errado! Como pode dizer tamanha barbaridade? E isso me lembra... AH! – Exclamou atônita, lembrando que desde que chegara no mundo dos vivos que ela não tinha visto mais o livro que sempre carregava consigo.

— Aconteceu alguma coisa?

— Meu livro... agora que percebi que o perdi.

— Livro? Então gosta de ler?

— Muito! Mas perdi meu livro. E agora...

— Tive uma ideia! Quer sair comigo? Vou te levar a um lugar que você vai achar fantástico.

Nanao hesitou por alguns momentos, mas aceitou sair da mansão com Shinji, pois achou que seria uma ótima oportunidade para tentar entender um pouco mais sobre o interior da mente do Vizard. Shinji e Nanao finalmente saíram, e o loiro a levou para um passeio de trem. A bela ficou maravilhada, pois nunca tinha andado em um veículo do mundo dos vivos. Ver a cidade daquele jeito era muito divertido. O vento forte que entrava pela janela do vagão agitava os dourados fios de Hirako, mas este olhava para fora distante e pensativo. Queria estar concentrado, pois precisava estar sempre alerta, caso o seu "amiguinho do mal" resolvesse se rebelar de novo. Nanao não tirava os olhos das janelas, e por vezes as longas madeixas de Shinji iam de encontro ao rosto dela, que voltou sua atenção ao rapaz. A apatia em seu rosto parecia pior, e a Tenente se sentiu culpada por ser a única se divertir. Ao ver Hirako perdido em seus pensamentos tempestuosos, a Shinigami envolveu as madeixas com sua mão na altura da nuca dele, fazendo ela mesma um rabo de cavalo, obrigando Shinji a olhar para ela.

— Finalmente consegui um olhar seu. O que foi? Não está se divertindo?

— Meu cabelo está batendo em você? Me desculpe por isso. – Ele respondeu seco, ignorando totalmente a pergunta e juntando seus cabelos para a parte da frente de seu tronco, do lado oposto ao que ela estava.

— Para onde exatamente estamos indo? – Ela mudou a pergunta.

— Vamos ao shopping. Vou te mostrar um lugar que você vai adorar. Aliás, vamos descer na próxima estação.

Os dois desceram e saíram da estação. Ao dar de cara com o prédio do imenso shopping, os olhos de Nanao brilharam de empolgação, já que na Soul Society não tinha nada parecido com o que ela acabara de ver.

— Vamos entrar?

Ela concordou com a cabeça e eles entraram. A Tenente ficou encantada com as cores, luzes e as vitrines das lojas. Agora ela entendia por que Rangiku ficava louca toda vez que ia para o mundo dos vivos, mas diferente da ruiva, ela não era materialista e amava apenas olhar para tudo aquilo. O clima não estava quente, na verdade, Shinji ainda trajava seu sobretudo cinza, e sem que ele soubesse, Nanao o achava um charme daquele jeito. Ao passarem pela praça de alimentação, a linda Shinigami olhou com intensa curiosidade para um grande cartaz com a foto de um sorvete. Vendo o interesse dela pelo doce gelado, Shinji pediu dois sundaes, e eles sentaram em uma mesa no meio da praça para degustar.

— Nossa isso é delicioso então geladinho comentou ela depois de comer a última colher.

— Infelizmente na Soul Society não temos essas comidas legais.

— Uma pena mesmo desculpe o tempo não está muito favorável para sorvetes mas eu quis tanto provar.

— Eu já percebi que adora comer. Não precisa se desculpar por isso.

Nanao ruborizou ao se lembrar do episódio do lámen, e ficou receosa por parecer uma maníaca por comida, achando melhor mudar de assunto.

— Ah! E onde é este lugar especial que disse que me levaria?

— É verdade. Podemos ir agora mesmo. Eu também já terminei.

Shinji levou Nanao até o hall dos elevadores e eles subiram para o 5º andar, onde estava localizada a enorme biblioteca que o loiro queria mostrar a ela. O lugar era imenso e ocupava todo aquele andar do Shopping. O estabelecimento era dividido em duas partes, sendo uma delas a biblioteca e a outra a livraria. Além dos livros também tinham computadores com jogos e bancos confortáveis ao redor das pilastras, onde haviam caixas com fones de ouvidos em cima das mesmas. Ao ver todos aqueles livros, Nanao sentiu uma alegria imensa dentro de si. Não conseguia mensurar sua felicidade, tão pouco sabia por qual o livro iria começar. Shinji disse a ela que podia começar por onde quisesse, enquanto ele sentou no banco junto da pilastra. Retirou o fone de ouvido da caixa e escolheu um ritmo de música para ouvir, estilo este que não poderia ser outro senão jazz. Sentou mais relaxado e se concentrou na música, fechando os olhos e pensando em como sua vida tinha mudado no último dia que se passou. Não fazia ideia de que Nanao dormiu ao seu lado, e ela agradecia a todas as forças celestes por isso. Ele pensava em como era difícil estar sozinho, sem a companhia de seus amigos Vizards. Ter que ser isolar e fugir mais uma vez por causa das ações traiçoeiras e covardes de seu Ex-Tenente era revoltante, e o loiro se sentia cada vez mais perdido. Sua mente mergulhava em um mar de confusão que parecia infinito, profundo e frio. Não sabia o porquê daquilo. Não sabia quando iria acabar, ou se iria acabar. Ele não sabia de nada, nem tinha vontade de nada. Ele apenas queria gritar, sair correndo, ou, simplesmente, deixar de existir. Sentir a música acalmava a sua mente de alguma maneira, como que, de certa forma, ele esquecesse, mesmo que por apenas aqueles três ou quatro minutos de cada música, todos os problemas pelos quais passava. Shinji também pensava em Nanao. Em como aquela bela Shinigami tinha o poder de afetar os seus sentidos e deixá-lo perturbado, ainda que sem querer. Talvez fosse essa inocência ímpar que ela possuía suficiente para encantar seu coração de um modo que ele não queria, ou, pelo menos, não se permitia. Ele apenas lembrava dos belos olhos dela, de como era bom contemplá-los, e de como eles eram doces e verdadeiros. Tentou afastar de seu interior essas ideias absurdas, enquanto se concentrava na música para ter um pouco de paz dentro de si.

Nanao se divertia com uma criança no meio de todos aqueles livros. Estava tão feliz que poderia morar para sempre naquele lugar. Escolheu um livro de capa dura e bastante grosso, parecido com o exemplar que ela perdeu. O livro tratava de flores e ensinava a fazer arranjos, bem como falava de outras plantas. Exausta de tanto ler, e depois de passar praticamente o dia todo lá, a bela passeou o seu olhar pelo local até encontrar Shinji em um dos bancos com os olhos fechados. Ela pensou que ele tivesse desmaiado de novo por causa de seus ferimentos. A Tenente tinha esquecido completamente do detalhe de que Shinji ainda não estava recuperado, e seu coração palpitou por vários instantes. Pegou uma das mãos dele com força, e sentando ao seu lado, colocou a mesma junto da sua sobre seu coração, fechando os olhos ao pensar no pior. Ainda ouvindo sua música, o loiro sentiu alguém lhe tocar e ficou surpreso ao abrir os olhos e ver Nanao daquele jeito. Sentiu as batidas agitadas do coração da Shinigami e gelou, sem entender o comportamento da inteligente moça. Com sua mão livre, abraçou o lado esquerdo do rosto de Nanao, que se arrepiou não apenas pelo susto, mas também pelo toque do Ex-Capitão em sua face. Ao abrir seus lindos olhos novamente o coração da Tenente saltou mais uma vez ao ver Shinji a mirando curioso e sem que notasse, lágrimas inconvenientes desceram pelos encantadores olhos roxos, molhando a mão do loiro, que amparou as lágrimas com seus dedos de imediato.

— Qual o problema? Por que esses olhinhos tão lindos e brilhantes estavam tão tristes e chorosos? Hirako disse gentil, e suas palavras soaram tão doces que Nanao não se conteve e avançou, dando um abraço apertado em Shinji, que entendeu menos ainda a sua atitude.

— Capitão Hirako, não me assuste assim! – Exclamou, sem nem ao menos perceber o que estava fazendo ou dizendo.

Shinji gentilmente desfez o inocente abraço e a olhou espantado.

— De onde veio isso? Como assim "Capitão Hirako?"

— Que vergonha. Perdão por isso, mas como eu soube que você era um Capitão, acabou saindo sem querer. Você gosta muito de música, não é?

— E você de livros. Eu quero tomar um pouco de ar fresco. Quer subir até o terraço?

— Na verdade, eu estou com muita fome.

— É mesmo. Acho que fiquei tanto tempo ouvindo música que perdi a noção de quantas horas se passaram. Você pode ir lá e comprar o que quiser. Também estou faminto. Eu te espero no terraço então.

— Sem problemas. Vou tentar não demorar.

Nanao fez a festa na praça de alimentação e comprou várias comidas tipicamente japonesas. Ela seguiu de volta para o terraço com uma bandeja cheia de iguarias como okonomiyaki, tenpurá, takoyaki e até onigiris. Enquanto esperava pela comida, Shinji desfrutava da brisa fresca que soprava naquele quase fim de tarde. Aproveitou que estava sozinho e retirou seu sobretudo, a gravata e a camisa.

— Acho que não preciso mais disso.

Pouco a pouco o loiro foi retirando as bandagens que cobriam seu tronco. Sentado em um enorme bloco de concreto que fazia parte do terraço, ele empilhava as ataduras que tirava de si. As últimas vinham manchadas de sangue, mas, ao terminar, seu corpo estava intacto, como se jamais tivesse recebido um golpe sequer da Zanpakutou de Urahara, restando-lhe apenas a curiosa cicatriz que Nanao observou anteriormente, e que ele desviou do assunto. Nanao voltou com a comida e colocou a bandeja no quadrado de concreto no meio do terraço atrás de Shinji. Ficou intrigada ao ver as roupas do loiro em cima do bloco, bem como as bandagens, e chegou mais perto, tentando entender o que estava acontecendo. Andou até ficar de frente para ele, que estava de pé, e seu rosto assumiu uma expressão de surpresa ao ver o corpo do rapaz completamente intacto. Sua atenção voltou-se para a curiosa cicatriz, que ela só tinha visto em parte anteriormente, e que já tinha despertado uma grande curiosidade nela. Ao desviar seu olhar da fina cicatriz, que começava em seu ombro esquerdo e "cortava" seu corpo no transversal até parar do lado direito de sua cintura, Nanao passou a observá-lo como um todo. A brisa de fim de tarde agitava seus longos cabelos dourados que se misturavam com o brilho dos últimos raios de sol daquele dia. A morena olhava quase sem ar para o belo corpo esbelto do homem à sua frente. Mais do que beleza, ele atiçava a sua curiosidade mais profunda. Sentiu um pouco de vergonha ao ver um homem daquele jeito perto de si, mas mesmo assim não conseguia parar de olhar, de pensar, de desejar... Desejar tocá-lo e sentir com suas mãos a textura de sua pele, e mais uma vez desfrutar da maciez de suas longas madeixas entre seus dedos. Sacudiu a cabeça em negativa, sem crer que estava tendo tais tipos de pensamentos quando ele se pronunciou para chamar a sua atenção.

— Vamos comer? Você tem bom gosto. Soube escolher comidas ótimas. – Disse despreocupado, como se ficar sem camisa diante de uma garota fosse a coisa mais natural do mundo.

A Tenente engoliu em seco e tentou controlar uma estranha sensação que se apoderava de si ao vê-lo daquele jeito. Uma sensação de calor fora do comum, apesar do clima estar bem agradável. Os dois aproveitaram bem a refeição, e Shinji mal tinha notado que estava despido por todo aquele tempo. Ele olhou para Nanao um pouco constrangido, e quando se levantou e pegou a camisa para se vestir, foi detido por ela, que também se colocou de pé na frente dele.

— Não se vista ainda. Não sem antes me explicar duas coisas: a primeira: o seu corpo é perfeito. cof cof... Quer dizer, ele está perfeito. Nem parece ter sido atingido por um golpe de Zanpakutou. Como se recuperou tão rápido? E também... – Se aproximou de Hirako, colocando o indicador sobre o ombro dele, traçando toda a extensão da cicatriz até chegar na cintura.

Aquele toque tão inesperado da Shinigami fez um arrepio subir pelas costas de Shinji, que se controlou ao máximo para não dar um longo suspiro na frente dela. Revirou os olhos tedioso antes de responder.

— Esta minha "regeneração rápida" é por causa do meu lado Hollow. Alguma vantagem essa merda teria que trazer, pelo menos. E quanto a sua segunda pergunta... – Ele fez uma pausa um tanto hesitante. — Esta cicatriz foi feita em mim por uma pessoa muito especial, uma amiga de longa data.

— Amiga especial? – Ela ergueu uma sobrancelha. — Imagino que ela deva "te amar" muito para tentar te matar desse jeito.

— Isso é o de menos. Se eu fosse parar para pensar, ela tenta me matar todos os dias.

— E como consegue falar dela com tanto carinho apesar disso?

— Porque quando Hiyori me feriu, ela estava na mesma situação que eu estava na hora em que te ataquei com a minha Zanpakutou ontem.

— Isso quer dizer que ela...

— Sim. Ela também é uma Vizard. Esta cicatriz é o símbolo daquela noite infeliz na qual eu e meus amigos nos tornamos esses monstros que somos agora. – Revelou com tristeza ao tocar o próprio peito.

— Mas você não deve se angustiar assim. Não pode pensar que são monstros. Eu posso ver que você está muito longe disso. Você me salvou três vezes. Que tipo de monstro faria isso?

— Pode me esclarecer isso de que eu te salvei três vezes? Pois de acordo com as minhas contas, foram somente duas.

— Está enganado. Foram três. Quando você me atacou com sua espada ao ser controlado por seu Hollow, no último instante você tomou o controle e me empurrou para trás. Por isso mesmo você só me atingiu de raspão, e quando muito eu apenas sofri um arranhão. Se você tivesse mesmo me atacado, é quase certo que eu teria morrido.

— Eu jamais me perdoaria se algo assim acontecesse. – Falou com um olhar triste e a cabeça baixa.

— Sei que o que vou dizer agora é algo praticamente impossível, mas você precisa tentar afastar esses sentimentos negativos da sua consciência. Será que não são esses pensamentos ruins os responsáveis pelo descontrole do seu Hollow?

— Talvez você tenha razão. Não faz ideia de como eu agradeço suas palavras e seu apoio, mas eu ainda não concordo com isso.

— Com o quê, exatamente?

— Com o fato de estarmos aqui juntos.

— Mas foi você mesmo que me convidou para sair.

— É mesmo. Mas eu já expliquei mil vezes que é perigoso ficar...

Ele foi impedido de continuar indagando, pois Nanao pousou sua mão suavemente sobre os lábios dele.

— Você precisa aceitar e lutar contra aquilo que você não pode mudar. Acredite, se isolar não vai resolver nada.

— Não se trata de aceitar ou não, são fatos! Eu quase te matei ontem, você mesma viu! E eu não tenho como garantir minhas ações. Do mesmo jeito que consegui te salvar, eu poderia ter te matado. Por favor, fique longe de mim. É a única forma de mantê-la segura. Eu nunca me perdoaria se chegasse a te machucar.

Nanao o olhou com uma expressão reprovadora, e do nada, atingiu o Vizard com uma bela bofetada, que não apenas o surpreendeu como também fez os longos cabelos cobrirem quase todo o seu rosto. Colocou a mão sobre a face em chamas e jogou os cabelos para sua posição de costume. Não questionou sobre o tapa que acabara de levar, apenas andou até a mureta que limitava a área do terraço do prédio e cruzou os braços em cima do batente, aproveitando a brisa que soprava calmamente. A Tenente voltou para o lado dele, e uma leve pontinha de arrependimento se instalou nela.

— Me perdoe. Eu não queria ter te batido, mas vê se para de se lamentar! Não é fugindo que você vai resolver os problemas. Não vai reclamar por eu ter te batido?

— Eu mereci. Olhe para mim. De Capitão no Gotei 13 a um pobre coitado que dorme em banco de praça no mundo dos vivos. Que decadência... e pensar que tudo isso aconteceu por minha causa...

— Sua causa? Não entendi.

— Eu sempre soube que o desgraçado do Aizen era coisa ruim, por isso eu o quis por perto, para vigiar os passos do infeliz, mas aquele lixo é tão venenoso que fez com que a minha desconfiança se voltasse contra mim, por isso mesmo a culpa foi minha. Ele era meu subordinado, e por culpa do meu erro de cálculo eu e meus amigos...

— É por isso que digo que você não é um monstro, pelo contrário! Mesmo sofrendo tudo o que sofreu, você não mudou, não permitiu que sentimentos destrutivos como desejo de vingança contaminassem o seu coração. Você se manteve firme. O motivo pelo qual os outros Vizard te veem como um líder é porque apesar de tudo você nunca se corrompeu, se manteve digno e honesto aos seus princípios, e isso nem mesmo aquele crápula do Aizen será capaz de tirar de você. – Nanao falou convicta.

As palavras da linda Tenente tocaram fundo o coração de Hirako, e seus sentimentos sobre ela ficavam cada vez mais confusos. Havia momentos em que ele tinha a impressão de que ela estava gostando dele, mas não queria, de forma alguma, que tal coisa acontecesse, pois já não bastava ele mesmo estar convicto de que ele sentiu algo forte desde que a viu cair do céu, mas ele, por si só, julgava não ser o homem certo para ninguém, por esse motivo não queria se envolver.

— Confesso que estou muito surpreso. A primeira vista você me pareceu fria e do tipo que não entende ou se importa com os sentimentos alheios.

— Em parte você está certo. Eu era assim mesmo.

— Era? E o que a fez mudar em tão pouco tempo? – O loiro questionou curioso.

— Você. – Respondeu direta, fazendo Shinji piscar várias vezes de embaraço.

— Eu?

— É. Não sei porque, mas quando te conheci te achei tão diferente, tão único, que não teve como não ficar curiosa a seu respeito.

— Curiosa? – Suspirou em tom de decepção. — Entendo e não posso culpá-la. É natural que alguém como eu, resultado de uma experiência fracassada feita por um filho da mãe almofadinha que não tinha nada melhor para fazer, desperte curiosidade nas pessoas, ainda mais para uma moça tão linda quanto você. Eu devo ser um ótimo material de pesquisa.

— Material de pesquisa?

— Esqueça. De qualquer maneira é melhor sairmos logo daqui. – Disse ao virar ao contrário, andando para pegar suas roupas de volta. — Vamos voltar, e por favor, depois disso fique longe de mim o máximo que puder. Tenho medo de me descontrolar de novo de repente, e aqui não tem ninguém que possa te ajudar caso isso aconteça.

— Eu não tenho medo! – Exclamou nervosa ao interceptá-lo, segurando seus ombros e o fitando com firmeza.

— Mas que merda... Você está me colocando em uma situação difícil. Qual é o seu problema, afinal?

— Eu não tenho medo, e você também não deveria ter. Aceite o que tem dentro de você, mostre para ele que você está no controle, e que por nada desse mundo você se igualaria a esse monstro. Mostre que Hirako-san pode vencer isso!

— É Shinji.

Ignorando as indagações, e movida por um simples impulso que não sabia de onde vinha, ela o abraçou forte, colando a lateral de seu rosto próximo ao coração do rapaz, que não fez nada para se livrar dela, pois estava surpreso e comovido com as atitudes da Shinigami. As mãos dela deslizavam pelas costas nuas, e Shinji sentia os dedos da jovem esquentarem ainda mais. Abraçou-a de volta de forma protetora, retribuindo o carinho. Nanao suspirou, aspirando e absorvendo com todos os seus sentidos o cheiro da pele dele, as batidas de seu coração e o calor de seu corpo. Era uma sensação ótima, indescritível. Shinji abaixou a cabeça, apoiando o queixo no ombro dela, ficando mais juntos. Ambos fecharam os olhos, aproveitando cada segundinho da paz que um transmitia ao outro.

— Shinji-san... – Murmurou sem querer.

Enquanto abraçados, sem que notasse, um sorriso maligno brincou nos invertidos lábios de Shinji, e sua máscara de Hollow se formou involuntariamente na metade esquerda de seu rosto, e sua Zanpakutou foi parar em sua mão direita, apontando sua lâmina perigosamente para ela.

— Nanao-chan...

つづくcontinua...