Capítulo 27 – Infiltração
Naquele ainda início de noite, Yoruichi lia um livro em sua cama, ou pelo menos tentava ler. Fazer algo simples como se concentrar em uma leitura não era nada fácil quando um homem como Ishida Ryuuken estava preso em sua mente, infiltrado ali como se fizesse parte de si mesma. Impaciente e prestes a jogar o livro pela janela, a bela gata foi detida pelo toque do celular de Kukkaku, que acabou esquecendo o aparelho em cima de sua cama antes de seguir para o colégio. Na verdade, estranhou o fato de a amiga ainda não ter voltado até aquela hora, pois ela nem imaginava que naquele momento sua confidente estava realizando o maior de seus desejos, a maior de suas alegrias nos braços do melhor dos melhores homens.
Ela também poderia desfrutar de tal felicidade, bastava querer, mas estava sendo tão dura e orgulhosa como julgou que Ryuuken fosse, e agora sabia bem pelo que Kukkaku passava, como ela se sentia tentando não amar, tentando sufocar seus próprios sentimentos. Sentia que aos poucos aquilo a destruiria. Parou de pensar besteiras e achou melhor olhar o celular, pois podia ser algo urgente. Tamanha foi a surpresa da morena quando ela viu que o toque em questão era uma mensagem de ninguém menos que Ishida Ryuuken. Num literal pulo de gata, ela abriu a mensagem e ficou boquiaberta com o seu conteúdo.
"Shiba Kukkaku-san, muito obrigado pela companhia e pelo jantar de ontem. Agradeço por ouvir meus lamentos e tentar me ajudar, mas creio que ninguém possa fazer nada por mim. Como lhe disse antes, se Shihoin Yoruichi me detesta tanto, não irei impor a ela a minha presença tão desagradável e repugnante. O amor intenso e profundo que ela despertou em mim desaparecerá comigo quando eu morrer. Mais uma vez agradeço a sua ajuda sincera, mas, por favor, é melhor deixar as coisas como estão. – Atenciosamente – Ishida Ryuuken."
Na mesma hora, os olhos dourados marejaram e densas lágrimas escaparam por eles sem autorização. Ishida Ryuuken estava mesmo sofrendo por sua causa? Estaria mesmo apaixonado a ponto de se sentir tão infeliz por sua rejeição? Fechou a mensagem com extrema tristeza e o aplicativo que apareceu aberto foi a galeria com arquivos de áudio que a morena juntara durante todo o dia anterior, e pretendia mostrar a ela o mais rápido possível. O que mais chamou sua atenção foram os nomes dos arquivos de áudio: "Hospital - R".
Depois da mensagem que leu de Ryuuken ela não hesitou em ouvir cada gravação, desde o relato da enfermeira até o jantar de Kukkaku e Ryuuken. Era tudo surreal demais, difícil de acreditar, e Yoruichi recebeu cada informação como uma flecha em seu peito. Achava que ela sairia vitoriosa, que ela dera o golpe final, mas não foi assim. Estava tão infeliz e apaixonada quanto ele, mas não conseguia crer piamente. Não podia se entregar naquela incerteza. Perguntava-se o que aquele deslumbrante Quincy fez com si. Era como se ele tivesse a atingido com a mais poderosa de suas flechas: uma flecha de amor. Estaria ela enganada a respeito dele? Estaria sendo tão injusta e soberba como ele para querer se manter distante? Aquelas informações transformaram sua mente em um verdadeiro caos, mas ela iria agir. Não iria ficar de braços cruzados. Decidiu tirar todas aquelas informações a limpo pessoalmente... assim que o dia amanhecesse...
Era quase uma da manhã. Kukkaku abriu seus grandes e expressivos olhos verdes tendo a mais bela e maravilhosa visão que sua existência já tivera: a inigualável visão de Juushiro Ukitake adormecido ao seu lado. Queria tocá-lo, enchê-lo de carinhos mais uma vez, mas não queria que ele acordasse. Não queria deixar de contemplar aquela literal visão do céu que era aquele homem divino e nu diante de seus olhos. Seu pensamento 'inocente' logo deu lugar a um pensamento sujo ao mirar diretamente no grande membro do Belo Shinigami. Estava sedenta de vontade de colocar em sua boca, chupar ele todo e fazê-lo gozar como um louco dentro dela. Sua intimidade ferveu só de pensar nessa gostosa sacanagem, mas o fato é que eles não poderiam amanhecer naquele lugar, ou certamente seriam presos pela polícia daquele mundo por atentado violento ao pudor.
Com cuidado, pousou os finos dedos no rosto pálido, colocando para trás alguns fios prateados que cobriam sua perfeita face. Aquele simples afago foi o bastante para interromper o leve sono do Capitão, que foi reagindo de forma lenta ao abrir seus olhos esmeralda.
— Desculpe, meu lindo, não queria te acordar.
— Que horas são? – Perguntou preocupado ao olhar pela janela
— Não faço ideia, mas deve ser início ou meio de madrugada.
— Madrugada? Kukkaku-san, isso é mau! Precisamos ir embora. Não podemos deixar que ninguém nos veja aqui.
— Concordo. Mas você está se sentindo bem?
— Estou bem, mas...
— Então bem que a gente podia fazer outra brincadeirinha quente antes de irmos. – O interrompeu animada. — Tem tanta coisa que eu quero fazer com você... – Falou maliciosa, dando uma generosa lambida nos lábios do platinado.
Ele envolveu suas mãos no pescoço dela e a beijou intensamente aproveitando a deixa. Aqueles beijos quentes a deixavam tonta, alucinada e a faziam querer mais, mais e ainda mais. Juushiro desfez tão delicioso contato, pois estava mais preocupado em sair de lá.
— Teremos muito tempo para você matar suas vontades, minha linda, mas por hora, o mais importante é sairmos daqui. Pegue as suas roupas e vista-se depressa.
— Como você judia de mim. Vamos brincar mais um pouco. Devo dizer que você foi espetacular, o mais maravilhoso de todos. Sua performance foi divina. Eu te amo tanto...
Ele a envolveu em um longo abraço e desfez o Kido que selava a sala para que partissem, mas ela logo o puxou pela gravata assim que ele se recompôs, dando um salto na mesa, o puxando para outro beijo fogoso e cheio de luxúria, roubando o ar do nobre Capitão, que não teve como evitar a abordagem súbita.
— Kukkaku-san... – Tentou dizer alguma coisa, mas ela insistiu em beijá-lo.
— Ssssssssshhhhhhhiiiiiiii! Fique quieto. Por que quer ir embora agora se ainda é cedo? Por que temos que ir embora se podemos continuar nos amando pelo resto da noite?
— Mas... Kukkaku-san... entenda que...
Ele tentava falar algo coerente, mas os lascivos beijos em seus lábios, rosto e pescoço o impediam de fazê-lo.
— Eu quero te chupar todo, quero te deixar duro e te chupar até te fazer gozar na minha boca... para depois você meter bem forte, tão forte que vai me fazer ver estrelas e tocar em planetas. Estou louca para gozar de novo em seus braços, seu gostoso. – Falou no ouvido dele sem pudor algum.
Ouvir todas aquelas sacanagens em seu ouvido estava mesmo mexendo com Ukitake, e escutar tudo aquilo regado a beijos empolgados e mãos invasoras por dentro de sua camisa estava a ponto de deixá-lo duro como pedra, bem como ela queria.
— Olha... Essa é uma proposta demasiadamente quente e tentadora... mas não podemos. Precisamos sair logo daqui. Eu te levo até a loja do Kisuke.
— Para a loja do Kisuke? Por que para lá? Por que não me leva com você?
— Eu... adoraria te levar para o quarto maravilhoso que eu tenho naquela mansão, mas esqueceu onde eu moro? Se o Byakuya te pegar na mansão dele é bem capaz de ele te expulsar de lá a pontapés, e como eu jamais permitiria que ele encostasse um dedo em você, não daria muito certo, então é melhor evitarmos problemas.
— Aaaffff... – Revirou os olhos entediada. — Tudo culpa daquele imprestável do Kuchiki. Como eu detesto ele. Que jeito... vamos embora.
Mesmo contrariados, ambos infelizmente tiveram que voltar, e cada um seguiu seu próprio caminho. Chegando à loja, Kukkaku encontrou Yoruichi dormindo preguiçosamente. Olhou para a cama e deu de cara com o seu celular, praguejando por ter esquecido o aparelho. Olhou novamente para a amiga adormecida e exclamou um ótimo "Yoruichi idiota" prometendo esfregar todas as informações que descobriu sobre Ryuuken na cara dela no dia seguinte sem nem sonhar que ela já tinha visto tudo. Acendeu o Smartphone e viu a mensagem do médico platinado que pedia a ela para não interceder por ele. Ela rangeu os dentes de raiva, sem crer que depois de todo o trabalho que tivera, ele tinha dado para trás.
— Homens... Que raça mais frouxa e cabeça dura. Como se eu fosse obedecer depois de todo o esforço que fiz. Se prepara, Yoruichi. Você vai ver e ouvir umas verdades...
Tirou totalmente suas roupas e se jogou na cama, usando apenas o lençol para se cobrir. Naquele resto de noite era certo que ela não dormiria, pois ficaria até o amanhecer pensando em Ukitake, em seus carinhos, seus beijos e a forma como o seu grande e perfeito membro a preencheu de maneira imponente, voraz e gostosa... muito gostosa. A morena teve orgasmos mentais só de lembrar do quão delicioso era o Capitão da Última Divisão do Gotei 13. Abafava gemidos de prazer lembrando de cada segundo que passou com seu amado, pois não queria acordar Yoruichi por conta de seus pensamentos libidinosos e insanos. Ela definitivamente não dormiria naquela madrugada...
Por fim o dia seguinte clareou. Era uma manhã de sábado. Os Vizards acabavam de tomar o café da manhã. O clima estava insuportável, já que Hiyori, com um grande curativo do nariz, assassinava Shinji com o seu felino e maldoso olhar infantil. O loiro tinha ciência de que precisava ter uma conversa definitiva com a pequena e que não poderia mais esperar para dizer tudo o que ela precisava ouvir.
— Hiyori. – O líder se pronunciou, atraindo a atenção dos outros seis Vizards, que aguardavam a reação da menor.
— Que foi? Estúpido! – Respondeu com uma agressividade fora dos padrões até para ela.
— Precisamos conversar.
— Ah é? Pois fale com a parede se quiser, pois eu não estou disposta a falar com traidores.
Sem esperar por tal coisa, Hiyori continuava comendo um pão tranquilamente até que sentiu seu corpo ser erguido como se não passasse de uma grama e ser jogado sobre algo. Era Hirako, que a jogou sobre seus ombros sem se importar com o iminente escândalo que era faria... e fez. Ignorou os protestos de garota magrinha e a colocou em cima do balanço que ela gostava do lado de fora da construção.
— Por que fez isso, idiota?! Eu disse que não queria falar com você.
— Cale essa boca! Você vai falar, ou melhor, você vai me ouvir querendo ou não.
— Não pode me obrigar! – A garota gritou ainda mais alto.
— Ah... eu posso! E fique quieta se não parar, vou usar um Kido para te prender e te obrigar a me ouvir na marra.
— HAHAHA! Quero só ver se você tem mesmo coragem de fazer isso.
Parou diante dela e posicionou a mão direita em direção à garota e a fechando em seguida.
— Bakudou Número 63: Sajō Sabaku. – Disse calmo.
Uma enorme corda de energia espiritual dourada envolveu o corpo de pequena Vizard, que ficou mais irada ainda por ser tratada daquela maneira.
— Você... Nunca me tratou assim. – Falou baixo, para a surpresa do loiro.
— Porque você nunca tinha me obrigado a isso. Não seja criança, Hiyori. Não percebe que o seu comportamento te afasta de todos que querem te ver bem e que gostam de você?
— Você é um traidor! Não é ninguém para me dar lição de moral ou boa conduta.
— Por duas vezes você me chamou de traidor. Posso saber porque me toma desse jeito?
— É isso mesmo que você é! Um traidor! Você estava com uma... Com uma... Asquerosa... e nojenta...
— Shinigami, Hiyori! A Nanao-chan é uma Shinigami, e acho bom você controlar seu linguajar, pois não vou tolerar que a oferenda.
— Eu não aceito isso! Como pôde ficar na cama com ela sem roupa... Como dois animais nojentos. Aquela piranha... e você é um pervertido. Idiota! Eu te odeio! – Gritava e se debatia enquanto presa.
— Quieta, Hiyori! Por que você é assim? Será que não entende que nos apaixonamos?
— Você se apaixonou por uma Shinigami? Uma Shinigami?! E como vai saber se ela sente o mesmo por ti? Se para ela você não passa de uma experiência fracassada tal como fomos para aquele corno do Aizen? Como você vai poder confiar nela? Fala para mim!
— Hiyori... – Suspira duplamente derrotado, pois seria mesmo difícil fazê-la compreender suas razões, e que nada é o que parece. — Você já esqueceu quem é? Esqueceu quem somos? Por que tanto ódio pelos Shinigamis se nós também somos?
— NÃO SOMOS! Somos Vizards!
— Deixe de ser burra, Hiyori! Nós nunca vamos deixar de ser Shinigamis, e para a nossa desgraça, também não vamos deixar de ser Hollows. Entenda de uma vez que esses sentimentos negativos só te fazem mal.
— E por que se engraçou com uma Shinigami? Não percebe que são todos uns facínoras traidores?
— Eu a amo, Hiyori... vê se entende isso.
— Que droga! Ela é uma Shinigami! Esqueceu quem nos transformou nos monstros que somos agora? Foi um Shinigami, não foi? Foi um deles que nos fez isso.
— Vou repetir que nós também somos. Sempre fomos Shinigamis, nascemos Shinigamis, e por acaso somos maus por isso? Somos seres desprezíveis, traiçoeiros e sem caráter como o infeliz do Aizen simplesmente pelo fato de sermos Shinigamis? Pois não somos, Hiyori! Não julgue a todos por conta de um ou dois exemplares que nasceram desprovidos de honra e caráter. Não seja injusta!
— Não... Eu não consigo aceitar isso! Eu não quero ser uma Shinigami! – Gritou como quem se livrava de uma dor enorme, e sem resistir começou a chorar, deixando os seus enormes e expressivos olhos dourados vermelhos de tristeza e fúria.
Com um profundo pesar em seu coração, Shinji desfez o Kido que a continha e deu um terno abraço na carente garota, que se debatia em revolta, tentando se livrar do alento de seu sempre paciente e leal amigo.
— Me solta... – Murmurou quase inaudível enquanto fungava como uma criança birrenta.
— Eu compreendo como se sente. – Respondeu ao ignorar o protesto. — Só que você tem que entender que a Nanao-chan não é o Aizen. Eu não sou e você também não é. Por isso não pode odiar a si mesma por algo que ninguém aqui escolheu ser.
— Aquele filho da puta nos transformou em monstros e de quem foi a culpa?! – Declarou acusadora.
— Ok... Não vou negar a minha responsabilidade. Mas Nanao-chan me fez ver o quanto eu estava errado ao alimentar uma culpa que não fazia sentido. Eu era o superior do Aizen, mas isso me faz automaticamente o culpado? Te digo que não. Hiyori, entenda que ninguém tem culpa das atitudes alheias. Cada um é responsável por si. Cada qual escolhe o que quer ser, o caminho que quer seguir. Nossas escolhas moldam o nosso caráter. Há algum tempo eu também pensava como você. Eu pensava que era um monstro e que era o principal culpado por sermos Vizards agora. Mas Nanao-chan me ensinou a vencer meu medo. Ela me fez compreender que apesar de termos Hollows dentro de nós, não somos monstros. Continuamos sendo quem somos, e isso, Hiyori, ninguém, nem mesmo o cretino do Aizen pode tirar de nós.
— Shinji... por que as coisas têm que ser assim? – Lamentou entristecida, sentada no colo de Shinji, que a acolhia como quem acolhe uma criança pequena. — Em que momento você deixou de confiar em mim?
— De onde tirou isso?
— É a verdade! Seu Hollow se descontrolou, e você preferiu se isolar e nos deixar ao invés de contar com seus amigos e quando volta você vem com uma Shinigami e se diz apaixonado por ela.
— Você sempre foi egoísta. Reclama por eu não ter confiado em você, mas não entenderia as minhas razões.
— Então porque você não me explica?!
— Quer saber porque o meu Hollow saiu do controle? Simples: foi por esse errôneo sentimento de culpa que guardei comigo durante mais de um século. Foi toda essa negatividade que prejudicou a minha mente a ponto de me fazer regredir. Por isso, Hiyori não cometa o mesmo erro que eu. Não permita que sua mente seja corrompida como a minha foi. Se não fosse pela Nanao-chan eu talvez não estaria aqui agora.
— Então ela te salvou?
— Sim, ela me salvou. E não apenas isso. Ela resgatou a minha mente do buraco negro e me trouxe de volta para a luz, e ela conseguiu isso com amor. Através do belo amor que despertamos um no outro.
— Shinji... eu não sabia de nada. Seu ingrato! Por que não me contou?
— E o que você faria? Já que vindo de você, aposto que ia falar que era frescura minha ou até me dar uma boa surra. Agora fique aí e reflita bem sobre suas ações. Mas vou lhe dar um aviso, e somente este aviso... Chega de gritos, agressões e insultos, principalmente com a Nanao-chan, caso contrário, eu serei obrigado a não mais pegar leve com você.
Com a cabeça baixa, suas lágrimas silenciosas caíam sobre o chão arenoso enquanto Shinji a deixava só. Ela não queria que nada mudasse, não queria que nenhum deles se envolvesse com Shinigamis, mas Shinji estava certo. Por mais que tentasse ou quisesse, eles jamais deixariam de ser Shinigamis, e isso ela teria que aceitar.
Hirako voltava para o interior do armazém, quando subitamente foi interceptado por Kensei.
— Shinji... preciso falar contigo.
Naquela manhã, Kukkaku acordou tarde, pois quase não dormiu pensando em Ukitake, e só se sentiria satisfeita quando ele estivesse dentro de si novamente. Sacudiu a cabeça tentando espantar os pensamentos sórdidos e se concentrar na sua boa ação do dia: Yoruichi. Procurou no quarto, mas não a viu. Saiu pelo resto da casa depois de tomar um banho e se vestir, já que acordou suada e encharcada devido aos sonhos eróticos que tivera com seu amado Capitão pelo pouco tempo que dormiu durante aquela noite. Sem ter sucesso na busca pela Ex-Capitã, a bela morena voltou para o quarto morrendo de raiva e de sono também, caindo na cama mais uma vez para enfim voltar a sonhar com o seu adorado Príncipe de cabelos prateados.
Enquanto isso, Shihoin se dirigia ao encontro de seu próprio Príncipe Platinado. Precisava saber se tudo o que viu e ouviu no celular de Kukkaku era verdade. Precisava confirmar por si própria e chegar ao fundo do coração de Ryuuken. Precisava ter certeza de que no fundo ele era mesmo um príncipe que fazia questão de ostentar uma falsa postura de sapo. Era por volta de 8 horas da manhã. Assumindo sua forma de gato, ela entrou facilmente na mansão e se infiltrou portão adentro. O dono da casa estava em seu quarto profundamente adormecido. Sua cama estava feita e ele dormia sobre ela vestindo nada mais do que uma toalha enrolada em sua cintura, deixando o seu alvo e exuberante tronco à mostra. Pulando pelo lado de fora, subiu e andou palas janelas até chegar na varanda da suíte de Ishida, onde viu uma enorme porta de vidro entreaberta que fazia a luxuosa cortina branca esvoaçar levemente para o interior do cômodo devido a refrescante brisa que o invadia.
A gata logo entrou no aposento e teve a deslumbrante visão do médico adormecido. Ele dormia tão profundamente que até parecia estar desmaiado, já que sua cabeça inclinava para a esquerda, bem na direção da vidraça da sacada, e seus óculos estavam em seu rosto. Ao lado da mão dele havia um livro, e o abajur sobre o criado-mudo estava aceso, um claro sinal de que ele adormeceu de repente, e Yoruichi não estava errada em sua cogitação. O lindo médico voltara bem cedo, por volta de 6 horas da manhã depois de um desgastante plantão noturno. Tais atitudes estavam se tornando constantes, pois ele se dedicava cada vez mais ao trabalho a fim de esquecer a lembrança de Yoruichi. Mas tanto esforço estava exigindo muito do corpo e da mente de Ishida, seus colegas médicos avisaram que tal prática prejudicaria a sua saúde, já que o platinado já estava há três dias direto no hospital, e naquele momento sofria uma clara crise de exaustão extrema. Tomou um longo banho e nem sequer se vestiu, por isso estava naquele estado praticamente desmaiado, mas Yoruichi imaginou que ele estivesse apenas dormindo. Deitado no centro da enorme cama redonda, o Quincy repousava, mesmo contra a sua vontade.
Numa atitude ousada, a gata subiu na cama e sentou ao lado dele. Seus olhos dourados brilharam de excitação ao ver aquele corpo divino, como se desenhado por um Deus tivesse sido, diante deles. Ficava rendida por aquele rosto perfeito, e os claros cabelos a hipnotizavam. Era lindo. O mais belo exemplar do sexo oposto que ela pôde contemplar, o homem por quem se apaixonou sem querer, sem autorizar, e tudo por conta de sua própria soberba. Sentada como estava, ela apenas passou a velar o sono de seu amor e ficou assim durante horas, até que, as 10 da manhã, Yoruichi achou estranho ele não se levantar para trabalhar e começou a se perguntar se estava tudo bem com ele. Pouco tempo depois, o platinado foi reagindo lentamente. Os olhos safira se abriram, mas pareciam inexpressivos e sem brilho. Com certo esforço se sentou, e Yoruichi deu um pulo para fora da cama para que ele não a visse.
— Adormeci? – Pergunta tonto ao olhar para o relógio da parede. — 10 horas da manhã?! Não pode ser! Preciso voltar para o hospital... mas estou exausto... minha visão...
Teimando consigo mesmo ele se levantou e andou até a porta do banheiro. Subitamente sua vista escureceu eu o Quincy desmaiou, pois não aguentava mais tantas horas de trabalho forçado. O coração de Yoruichi gelou quando viu seu amado ir ao chão, e a única reação que ela conseguiu ter foi assumir sua forma humana e socorrê-lo rapidamente. Abaixou-se e ergueu o corpo do Quincy, já que para ela tal coisa seria fácil, e o colocou com calma sobre a cama. Sem se importar com sua nudez, a gata abriu as pernas e ajoelhou sobre ele sem tocá-lo. Delicadamente tirou os óculos do médico, cujos lábios entreabertos denunciavam seu estado de inconsciência.
— Ryuuken... – Murmurou bem próximo de seu rosto, mas ele não teve nenhuma reação.
Seu hálito quente e provocante tão próximo não surtiu efeito algum nele. Era fato que estava verdadeiramente desacordado, e antes que o desespero lhe tomasse conta, ela uniu seus lábios aos dele em um cálido beijo. Um beijo doce, cheio de amor, de um sentimento que ela descobriu através dele, descobriu através daquele homem que julgou tão soberbo, arrogante, implacável, mas que despertou nela o maior e mais bonito dos sentimentos, das sensações. Não entendia porque estava ali, em cima dele. O fato é que ele a atraia para si. Não conseguia resistir àquele rosto divino, aquele corpo escultural que a chamava para si... seus cintilantes olhos safira que a faziam perder o chão, o foco... a sanidade... Tudo nele era irresistível, provocante, e a levava a fazer e pensar as mais quentes e sórdidas loucuras. Sua vontade era tirar aquela toalha e fazer o que quisesse com aquele lindo corpo, mas estava deveras preocupada com ele. O médico estava desmaiado, e ela tentava reanimá-lo com seus beijos, com afagos em seus prateados cabelos, mas nada adiantava. Seus lábios tremeram de susto, de desespero, e mais uma vez encontrou os inertes lábios do Quincy.
Em sua inconsciência, Ryuuken não conseguia reagir. Deixou o seu corpo atingir o cansaço extremo, o ápice da exaustão, e somente assim, desfalecido como estava, ele podia não mais pensar em Yoruichi... Mero engano. Ele a sentia... Sentia que estava por perto, que seu corpo colava-se ao dele, que tinha sua boca na sua, sendo tomada, subjugada, dominada. Não podia ser. Aquilo tinha que ser um sonho. Queria corresponder. Queria sentir a língua dela dentro de sua boca, "brigando" com a dele por espaço. Queria passear suas mãos pela sedosa pele morena e fazê-la se arrepiar, tremer de prazer, como fez quando se amaram. Mas não podia. Nem tinha forças para se mexer, mas sua mente ia se recuperando de modo lento. Sem que Yoruichi esperasse, Ryuuken abriu a boca, dando passagem para a ardente língua da morena, que se surpreendeu e se emocionou com a reação, em saber que ele estava bem. Sua língua se movia calma, vagarosa, pois nem sequer tinha forças para ir além, nem mesmo para abrir seus belos olhos.
Lágrimas de emoção rolaram pelo rosto da gata, e um alívio percorreu o seu ser ao senti-lo reagir. Aquele estado inerte, indefeso, fez com que ela quisesse protegê-lo, amá-lo, mas não podia fraquejar. Não podia dar a ele o calor de seus beijos, o prazer de suas carícias sem antes saber de toda a verdade, conhecer a fundo quem era o verdadeiro Ishida Ryuuken. Não queria que ele despertasse por completo e a visse ali. Para piorar, seus aguçados ouvidos de gata detectaram passos indo em direção ao quarto.
Veloz, ela voltou a sua forma de gato e ficou sentada na cama. Um segundo depois, o fiel mordomo de Ishida entrou no quarto e se deparou com a inusitada cena ao ver um gato sobre a cama de seu patrão. Olhou curioso, mas não fez nada para espantar o bichano.
— Pobre Mestre Ishida... Depois de trabalhar por três dias e três noites seguidas no hospital, acabou tendo uma exaustão extrema. Descanse, Mestre. E pensar que o Senhor fez tudo isso para tentar esquecer uma gata selvagem que lhe tirou a razão em apenas uma noite...
O último comentário pegou a morena de surpresa. Por acaso ele estaria falando de si? O Mordomo pegou um dos lençóis e cobriu o quase despido corpo de Ryuuken, aliviado por ele estar descansando, pelo menos um pouco. Antes de sair, virou-se para a gata e disse convicto:
— Não tenha medo, bichano. Fique aqui com o meu Mestre. Embora não pareça, ele tem uma grande estima e carinho pelos animais, e estou certo de que ele ficaria feliz ao ver um gato tão bonito quando acordar.
Yoruichi miou de volta como se concordasse. Na verdade, estranhou o fato do empregado lhe dizer aquilo, mas sentiu como se no fundo ele soubesse que era ela. Ficou feliz com o convite, pois mesmo se tivesse que se responder, não arredaria as patas dali até que o seu amado acordasse bem.
No telhado da casa de Chizuru, Rangiku acordava toda dolorida por ter dormido no chão. Depois de se lembrar do que fazia ali, ela flutuou sobre as janelas do andar de cima até encontrar o quarto principal da casa, e sem hesitação entrou pela janela, dando de cara com uma imagem dolorosa para ela. Kira dormia e Chizuru fazia o mesmo ao seu lado com a cabeça em seu peito e segurando sua mão. Kyone estava jogada em uma poltrona próxima e também dormia. A franzina subordinada de Juushiro logo sentiu a forte presença da Tenente, já que ela estava com uma intensa oscilação em sua Reiatsu, devido a raiva que sentia naquele momento. Abriu os olhos e deu de cara com a ruiva, que ostentava faíscas em seu olhar, e ela logo temeu uma grande confusão.
— Te... Tenente Matsumoto... não é o que a Senhora está pensando.
— Ah... não é? Essa fedelha... Essa ninfeta juvenil oferecida está dormindo com o Kira e não é o que eu estou pensando?
— Fique quieta... Quem você pensa que é para invadir a minha casa? – Chizuru indagou furiosa ao ser acordada pelo escândalo feito por Matsumoto.
— Sua pirralha! Eu exijo saber o que aconteceu aqui!
— Não seja abusada! – Falou séria ao levantar da cama. — Você é uma mulher frívola e superficial, incapaz de enxergar além do que os seus olhos podem ver. Se eu dormi com ele foi por afeto! Isso você não entenderia. Mesmo que eu amasse o Kira-kun ele jamais poderia me corresponder porque teve o infeliz azar de ter se apaixonado por alguém egoísta como você. Ele está vestido, eu também, e Kyone-chan ficou aqui a noite toda. Você nem se preocupou com a saúde dele! Sua única preocupação foi saber se nós transamos, pois infelizmente te digo que não! Ele está mal assim por sua culpa! Por tratá-lo como um mero objeto sexual... Como uma coisa que você usa para obter prazer e depois joga fora. Se não ama o Kira-kun então por que o persegue tanto? Por que não o deixa ser feliz? Por que insiste em machucá-lo com sua imposição tão prejudicial? O coitado bebeu todas. Tomou sake até desmaiar e desde ontem ele não acorda. Tudo culpa sua! Ele está se destruindo por culpa desse maldito amor que ele sente por você, e você não merece... não merece! – Esbravejou indignada, desabafando tudo o que estava entalado em sua garganta.
Rangiku ouviu cada palavra quieta. Não podia rebater. Não tinha nenhum argumento. "Objeto..." Foi essa palavra tão fria que ela usou? A mesma palavra que o próprio Izuru usou em sua última discussão com ela? Estaria ela mesmo errada? Estaria sendo egoísta e prepotente ao se impor daquela maneira sem levar em consideração os sentimentos dele? Sem saída, ela girou nos calcanhares e foi embora em direção à mansão, lamentando amargamente a sua maneira burra de fazer as coisas.
Kyone e Chizuru se surpreenderam com a atitude da ruiva de ir embora quieta e deixar o loiro em paz. Assim que ela saiu, o Capitão foi recuperando a consciência, e abriu os olhos, para o alívio das meninas.
— Capitão Kira, o Senhor está bem?
Ele olhou em volta, mas sua cabeça girava por causa da ressaca. Levou alguns instantes para fixar seu olhar e reconhecer as duas.
— Kyone-chan... e Chizuru-chan também? – Perguntou ainda tonto.
— Fique tranquilo e não se esforce, Capitão.
— Me sinto estranho. Mal... estou com uma dor de cabeça insuportável.
— E não é para menos. O Senhor bebeu bastante. Bebeu tanto que até desmaiou. Mas não se preocupe. Cuidamos do Senhor. Chizuru-chan vai trazer um café bem ruim daqui a pouco.
— Muito obrigado por isso, mas onde estamos?
— Na minha casa. – Chizuru respondeu ao chegar com o café.
— Obrigado. – Ele agradeceu ao pegar a xícara que ela gentilmente lhe estendeu.
— Bem, agora que está tudo resolvido, acho melhor eu voltar para saber como está o meu Capitão.
— Sim. Obrigado, Kyone-chan.
— Agora que estamos sozinhos, queria te dizer uma coisa. – Chizuru o olhou um pouco hesitante.
— É alguma coisa ruim?
— Pra você deve ser... acontece que agora a pouco, antes de você acordar... aquela ruiva peituda esteve aqui e foi embora furiosa.
— Matsumoto-san?
— É... – Murmurou um tanto tristonha. — Por que você gosta dela? Por que dedica o seu amor a uma mulher egoísta que não te valoriza?
— Eu não posso te responder... convivemos juntos há tantos anos, partilhamos tantas alegrias e tristezas. Não foi difícil me apaixonar pelo jeito cativante dela. Mas infelizmente ela se apaixonou por um desgraçado. Se eu pudesse escolher não amar...
— Posso te pedir uma coisa?
— Claro que pode.
— Um beijo. Posso te dar um beijo?
Os olhos azuis se abriram até o limite com o pedido inusitado da jovem.
— Chizuru-chan... me perdoa. Mas eu não acho conveniente... nos beijarmos. Eu não quero que se sinta mal.
— Ao contrário. Você beija tão bem. Seus beijos me acalmam, me fazem feliz. Eles me transmitem uma paz tão grande, que eu nunca conseguiria nem mesmo se apertasse os seios mais gostosos do mundo.
— Acho que posso entender. Então isso significa...
— Que graças a você eu pude entender o que se passava comigo. Pude perceber que eu posso gostar de quem eu quiser. Você me ensinou isso.
— Puxa! Eu fico verdadeiramente feliz por isso.
— Eu sei que você nunca poderia me corresponder, mas não estou triste. Não se sinta culpado. Eu não me apaixonei por você, mas se continuasse te beijando, provavelmente não resistiria.
— Chizuru-chan... Eu...
Ela se aproximou e envolveu o rosto dele com carinho. Guiou seus lábios certeiramente, dando um beijo no rosto pálido do loiro, que ruborizou como uma criança.
— Obrigado...
Não muito longe, em outro ponto da cidade, uma figura sinistra observava os arredores da casa de Uryuu. A pessoa em questão via quando o Quincy e Nemu trocavam um suave beijo de despedida, pois mais uma vez a Tenente passou a noite com Ishida. Ela seguiu de volta para a mansão enquanto era observada.
— Malditos! Eu juro que eles irão me pagar...
つづくcontinua...
