Ela é – Parte II


Ela não ligou para Jason. No começo ficou tentada, mas resolveu tirar um tempo para se dedicar para ela mesma e pouco a pouco foi crescendo. Ela pode e agora, meses depois, ela sabe que pode e é capaz de ficar surpresa com sua própria capacidade em superar o que vem pela frente.

No primeiro mês após o escândalo o contato dela com Diane foi mínimo, sendo Lucca uma ponte entre as duas e o clima na Lockhart & Cavanaugh não era dos melhores, mas elas ainda trabalhavam bem. Já com relação a Peter, fazia pelo menos três semanas que eles não se falavam, desde a semana que assinaram os papéis do divórcio. O começo foi mais difícil, mas depois percebeu que estava vacinada contra todo o tipo de ataque da imprensa e ficou surpresa com a resistência que ela havia criado.

A partir do segundo mês ela teve oportunidades de conversar com Diane e no meio disso tudo ela sentiu a necessidade do pedido de desculpas, mesmo sabendo que não seria o suficiente. Diane falou com o olhar, evitando qualquer palavra e Alicia falou tudo o que ainda estava em sua consciência.

- É um começo – Diane respondeu quando Alicia estava saindo do escritório dela – Mas acho que precisamos ser claras.

- Sim. Não quero viver em um ambiente desagradável – Alicia falou.

- Entendo. Não quero desconfiar de você, então temos que ser claras com relação a tudo, Alicia – Diane se levantou e andou até a frente de sua mesa, sem desviar o olhar e Alicia pensou em como ela sabia demonstrar confiança, talvez mesmo não acreditando em suas próprias palavras.

- Eu... – Alicia olhou no fundo dos olhos da advogada, tentando transmitir certeza – Eu concordo.

- Um novo começo? – Diane esticou a mão para ela e Alicia retribuiu com um aperto de mão, acreditando que as coisas podiam melhorar.

Nesse mesmo mês Eli levou seus negócios novamente para a Lockhart & Cavanaugh e começou a trabalhar na reabilitação de Alicia, visando a imagem da empresa e a reentrada dela na política, sabendo que por trás do divórcio e do terceiro escândalo Florrick havia uma mulher capaz de controlar o próprio futuro.

- Mas ficou parecendo que o abandonei só porque ele renunciou – Ela indagou com Eli.

- No começo sim, mas já estão vendo que você ainda é sócia de uma das maiores firmas de Chicago, o que significa que isso não dependia do Governador – Ele replicou com uma cara séria – Mas de você, uma mulher forte e independente. Só percebemos que você sempre foi a força dele.

Alicia ficou quieta olhando Eli e em seguida sorriu.

- O que foi? – Perguntou ele.

- Você tem razão.

- Sobre...?

- Eu posso – Ela tomou um gole de sua bebida e sorriu triunfante. Eles continuaram conversando até que alguém bateu na porta e ela foi atender.

- Alicia Florrick? – Perguntou um homem. Ele era um pouco mais alto do que ela, os cabelos grisalhos, os olhos parecidos com os dela e aparentemente mais novo do que ela.

- Hm... Cavanaugh. Alicia Cavanaugh – Ela respondeu um pouco perdida nos olhos dele – Posso ajudá-lo?

- Eu preciso de um advogado – Ele sorriu acanhado e quando ela percebeu já estava sorrindo de volta.

- Sr...

- Grant, mas pode me chamar de James – Ele respondeu rapidamente - Me desculpe não ter aparecido em outro horário, mas eu preciso de um advogado.

- Tudo bem, Sr. Grant, mas agora estou com uns assuntos pendentes e eu te indico ir ao nosso escritório amanhã.

- Ah, sim, claro, sem problemas só que o advogado não é para mim. É para o meu amigo e ele está no hospital agora, mas pediu para eu resolver isso, foi muito grave – Ele suspirou com um sorriso triste, encarando o chão.

- Entendo. Eu vou deixar um cartão então, amanhã você pode aparecer por lá – Ela falou com uma voz doce, tentando confortá-lo.

- Sim, muito obrigado – Ele sorriu olhando para ela novamente e andou até o elevador – Eu gosto de você – Ele voltou e falou do nada, enquanto esperava o elevador – Digo... Acho você um símbolo de força. Eu te admiro.

- Obrigada, isso significa bastante – Ela respondeu, sorrindo para ele.

- E você é mais alta do que eu pensava – Ele riu e ela retribuiu tentando entender quem era esse homem misterioso – Bom, acho que vou indo – Ele andou em direção ao elevador e ela ficou o olhando para o vazio, tentando entender o que tinha nesse homem que chamava sua atenção.

Quando ela voltou para dentro encontrou um olhar de reprovação de Eli que estava em pé na sala.

- E nós ainda não conversamos sobre isso – Ele apontou para a porta.

- Eli, não, estou muito bem – Ela suspirou e passou por ele.

- Alicia, sim – Ele continuou, a ignorando – Você está solteira, o que significa que eles vão se aproximar.

- E qual o problema? Nada me impede – Ela disse pegando um pacote de amendoim e abrindo-o, despejou o conteúdo em uma vasilha – Aceita?

- Não – Eli ergueu as sobrancelhas e continuou – Você não está entendendo... Essas pessoas podem parecer boas, só que com más intenções e sob hipótese alguma queremos esperar para ver.

- Acho que tudo sobre minha vida pessoal já foi explanado, Eli. Graças a você – Ela sorriu ironicamente. Ele ignorou e continuou:

- Eles sempre acham alguma coisa, acredite.

- Eli, vai dar tudo certo, estou me dedicando a isso e só isso somente.

- E nem seus filhos e nem seu ex-marido estão por perto. Qualquer relacionamento que você pensar em se aventurar, evite trazê-lo para cá e me avise antes – Ele andou até a porta e ele virou – É isso.

- Confie em mim, Eli – Ela foi até ele e colocou ambas mãos nos braços dele e ele fez uma cara de assustado pelo contato – Não vou sair com ninguém – Ela o virou e o empurrou para fora, fechando a porta e voltou para dentro de casa. Pouco tempo depois, enquanto se preparava para arrumar a casa, ouviu batidas na porta novamente.

- Eli, eu já falei que não precisa bater... – Ela abre a porta com um sorriso que decide sumir quando ela vê quem está parado olhando para ela.

- Oi – Ele sussurrou.

- O que faz aqui? – Ela pergunta sem demonstrar emoções.

- Eu quero conversar – Ele fala apoiando-se no batente da porta.

- O que você quer? – Ela repetiu o mantra e logo se arrependeu, se lembrando da última vez que tiveram essa conversa.

- Eu não costumo pedir desculpas – Ela continua em silêncio ao ouvir a resposta – Mas eu quero pedir...

- Está tudo bem, Jason – Ela afirma com um sorriso falso e tenta fechar a porta.

- Alicia, não – Ele coloca uma na porta e continua – Eu não faço isso. Eu não volto assim.

- Volta aonde? – Ela perguntou cruzando os braços na defensiva.

- Por lugares onde passei – Ele respondeu olhando para o chão - Eu não costumo fazer isso, Alicia.

- Eu entendi isso já, Jason. Não precisa repetir. Você foi embora, eu já entendi. Ignorou minhas mensagens, mas eu sou adulta, já te falei isso. Consigo entender até onde as coisas podem funcionar ou não.

- Eu sei, mas Alicia.. Estou aqui, pois quero estar aqui – Ele sorriu de nervoso e voltou a encará-la – Eu não costumo fazer isso.

- Então não o faça.

- Mas eu quero, eu preciso... - Um suspiro - Não estou conseguindo.

- Não está conseguindo o quê? - Ela peguntou impacientemente.

- Ficar longe.

- E o que você espera de mim?

- Não sei.

- Isso parece simples – Ela sorriu e ele acompanhou.

- Eu na verdade não sei se sei o que eu espero... – Seu tom de voz abaixou e ele se aproximou dela, mas ela deu um passo para trás e ele suspirou frustrado – Eu só queria que-

- Sra. Cavanaugh? – Uma voz a chamou atrás de Jason e os dois se afastaram para olhar o homem que há pouco estava conversando com ela.

- Sr. Grant, aconteceu alguma coisa? – Ela perguntou preocupada sem reparar na maneira que Jason encarava o outro homem.

- Eu... Não... Na verdade, você me disse que daria o cartão e eu acho que não deu – Ele sorriu meio tímido, ela ergueu as sobrancelhas quando finalmente percebeu o olhar de Jason e quando ela pediu licença para entrar e pegar o cartão, o investigador se sentiu mais confiante para enfrentar o rapaz.

- Sou James – Ele esticou a mão.

- Jason – Ele sussurrou daquele jeito, sem pegar a mão dele. Quando Alicia voltou, James decidiu arriscar.

- Sra. Cavanaugh, eu queria saber se a gente não podia... Desculpa aparecer assim, mas eu queria saber se podemos talvez marcar um café para conversar... É... Tomar um café, pode ser?

- Ah... James, eu não sei se... – Ela começou e desviou o olhar rapidamente para Jason que estava com o cenho franzido e continuava na mesma posição anterior – Apareça amanhã no escritório e nós conversamos.

- Certo, certo. Até mais – Ele respondeu olhando para o chão, envergonhado e se retirou.

Jason não conseguiu entender o que tinha acabado de acontecer. Ela estava solteira. Sim. Ciúmes. Não precisava pensar muito para entender isso.

- Jason? – Ela o tirou de seus pensamentos e ele ficou a encarando, tentando enfrentar esse sentimento crescendo dentro dele, imaginando ela fazendo com outro o homem o que ela fazia com ele.

- Eu.. Eu... – Ele estava gaguejando. Merda, pensou – Eu não... Droga - A raiva voltou quando ele imaginou aquele cara que devia ter aproximadamente a mesma altura que ele, encostando nela – Quem era aquele? – Ele deixou escapar.

- Um cliente – Ela falou – Em potencial...

- E clientes te chamam para tomar café agora? – Ele não estava conseguindo se segurar.

- Tecnicamente ele não é meu cliente – Ela respondeu friamente.

- O que quer dizer?

- Não, Jason. Você veio aqui se justificar, eu faço as perguntas – Ela virou as costas e andou até o balcão da cozinha, deixando a porta aberta e ele acreditou que fosse um sinal para ele entrar. Ele entrou e ficou parado na frente dela e por alguns minutos os dois ficaram se olhando sem falar nada.

- Eu quero—

- E depois o quê? – Ela o interrompeu – Você segue com sua vida e eu sigo com a minha? – Quando ele não respondeu, ela continuou – Vou entrar em uma campanha, Jason. Senado é o meu primeiro passo. Estou construindo minha carreira por mim e para mim, pela primeira vez. Quero me dedicar totalmente.

- Isso é bom – Ele deu um passo para frente, mas parou – Só que eu acho...

- Jason, não vai dar certo – Ela cruzou os braços novamente e encostou no balcão.

- Alicia, eu só queria conversar – Ele admitiu com um sussurro. Com mais uns passos ele a alcançou e colocou as duas mãos no balcão, uma de cada lado dela e ela fechou os olhos, sentindo a testa dele se aproximar da dela. Então ela sentiu os lábios dele passeando sobre o maxilar dela e quando percebeu, o puxava pela cintura, encaixando seus próprios lábios nos dele, mas sem se mexer – Eu gostei desse.

- O quê? – Ela sussurrou de volta sentindo a respiração dele.

- Plano – Ele murmurou contra a testa dela – Voltar. Você.

Ela fecha os olhos e ele a beija. Não tão romântico, mas firme, pois ele é assim. E é assim que ela gosta. Era a atração dela.

Ela gemeu quando sentiu a língua dele pedindo permissão para explorar e a perna dele se impondo, afastando as dela para que a pressionasse contra o balcão. Quente, molhado, um leve gosto de álcool que enfrentava algum resquício de incerteza.

E ela queria senti-lo mais do que estava sentindo, então deixou suas mãos percorreram as costas dele, parando na cintura, trazendo-o para mais perto dela e ele interrompeu o beijo, buscando ar e aproveitou para encará-la.

Os olhares se perderam por um instante. Sem pudor.

- Errado?

Ele perguntou erguendo as sobrancelhas.

- O que acha?

Ela deu de ombros e ele a fitou por um segundo.

- Posso?

Ela assentiu. Sabia o que queria dizer. Sabia se entregar, pois confiava nele. Ele sabia cruzar fronteiras na intimidade dela.

No caminho para o quarto, quando ele a girou, a pressionou contra a parede no corredor e deixou seus dedos percorrerem o corpo dela, ela se lembrou como sentia falta dele e das mãos dele. E ele, quando a sentiu quente e úmida se fechando ao redor dele, levando-o com ela, se sentiu feliz por ter voltado.


- Não é assim que funciona – Ela disse. A voz misturada com a respiração ofegante o tirou do êxtase e ele a encarou enquanto puxava um lençol para cobri-los.

- Acho que funcionou muito bem – Ele sorriu apoiando a cabeça em uma das mãos, deitado ao lado dela e colocando uma mão em sua cintura, a puxou para perto.

- Isso não é engraçado – Ela o fitou – Eu acabei de falar para Eli que só ia me dedicar à campanha. Jason, eu sei que não somos... Compatíveis – Ela falou com um olhar triste – Eu sei disso.

- Alicia, não pense muito.

- Não consigo.

- Asa Norte, então? – Ele perguntou a tirando da seriedade.

- Asa Norte – Ela afirmou com um sorriso.

- Você... Não sai da minha cabeça – As palavras dele a deixaram muda. Pareciam verdadeiras. Ele queria dizer essas palavras isso há um tempo, mas queria que quando elas saíssem, elas a alcançassem, mesmo sem saber qual seria a reação dela – Eu... Não pense muito agora, pois agora – ele respirou contra o ouvido dela – Quero sentir você.

- De novo? Sou irresistível, não é? – Ela sorriu contra a boca dele.

- Enquanto o tempo permitir e sim – Ele se posicionou nela e ela se deixou levar novamente, sabendo controlar seu destino.

O mundo já te preparou para muitas coisas e agora ele que se prepare para você. Ela lembrou das palavras de Lucca dita há uns dias atrás e sorriu.

Ela merecia ser inconsequente, com um pingo de juízo e ao falar com veemência, acreditar no que diz. Demorou, mas ela foi aprendendo. Ao sofrer, achava respostas antes de se sentir fraca. E com Jason, fez a escolha que não havia feito muitos anos atrás. Hoje ela escolhe, quando se irrita, transa, controla antes de ser controlada, esperneia, mas toma decisões e contém os danos.

Ela mudou e hoje ela é porque quer ser.

Fim