Personagens de Stephenie Meyer. História de Tessa Dare.


CAPÍTULO TRÊS

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"Quando eu olho para você, eu penso, comigo mesmo, algo do tipo: Só Deus sabe que provações surgirão na minha vida."

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O pai de Isabella disse uma vez que, quando ela se perdia em um livro, eram necessários cachorros farejadores e uma equipe de resgate para trazê-la de volta. Por outro lado, um galho baixo de árvore também resolvia.

Bam!

- Ai. - Parando de andar, Isabella esfregou a têmpora dolorida e ajustou os óculos com uma mão. Com a outra ela marcou a página do livro em que estava.

Charlotte olhou para ela e inclinou a cabeça, demonstrando pena.

- Ah, Isabella. Tenha dó!

- Você se machucou? - perguntou Rosalie, preocupada.

À frente de todas, sua mãe se virou e soltou um suspiro desesperançado.

- Isabella Marie Swan. Apesar de todo seu amor anormal pela educação, você consegue ser incrivelmente idiota. - A Sra. Swan voltou até a filha, agarrou-a pelo cotovelo, e a puxou através da praça da vila. - Eu nunca vou entender como você se tornou isso.

Não, mamãe. Pensou Isabella, marchando a seu lado. Duvido que você entenda. A maioria das pessoas não a entendia. Mesmo antes da humilhação da noite anterior, ela havia feito as pazes com esse fato. Ultimamente, parecia que somente um lugar, e não uma pessoa, conseguia entender Isabella: Spindle Cove, aquele refúgio litorâneo para jovens de boa família e, bem, personalidade interessante. Fossem doentes, eruditas ou escandalosas, as moças daquele lugar eram desajustadas de um modo ou de outro. Os moradores da vila não ligavam se Isabella cavava a terra ou se andava pelas trilhas rurais com um livro aberto diante do rosto e a brisa soprando seu cabelo. Ela se sentia em casa ali, à vontade.

Até aquela noite...

Quanto mais elas se aproximavam da taverna e da celebração pela vitória na guerra, mais seu sentimento de pavor aumentava.

- Mamãe, não podemos voltar para a pensão? O tempo está medonho.

- Está ameno, se comparado à chuva da semana passada.

- Pense na saúde de Rosalie. Ela está se recuperando de um resfriado.

- Pff. Isso faz semanas.

- Mas mamãe... - Desesperada, Isabella procurou alguma outra desculpa. - Será correto?

- Correto? - A mãe ergueu a mão sem luva de Isabella, mostrando a terra sob suas unhas. - Você quer me falar do que é correto?

- Bem, sim. Uma coisa é frequentar o Touro e Flor à tarde, quando é uma casa de chá para mulheres. Mas quando escurece, vira uma taverna. - Isabella não precisava dizer onde esteve na noite anterior.

- Não me importa que seja um antro de ópio. É a única possibilidade de dança em quinze quilômetros. - respondeu sua mãe. - E Edward certamente estará lá. Vamos receber um pedido esta noite. Posso sentir nos meus ossos.

Talvez a mãe sentisse isso em seus ossos, mas a reação de Isabella estava sendo mais visceral. Seu coração e estômago trocaram de lugar, um empurrando o outro dentro dela.

Conforme elas se aproximaram da porta da taverna, Isabella enterrou o rosto no livro. Fossem romances, histórias ou tratados científicos, os livros eram frequentemente seu refúgio. Naquela noite o livro era literalmente um escudo, a única barreira a protegê-la do mundo. De modo algum ela deixaria Rosalie sozinha, mas Isabella não sabia como poderia encarar novamente Lorde Cullen. Para não falar da amante oculta que riu de suas tolas esperanças. A "amiga" dele poderia ser qualquer mulher naquele salão lotado. E quem quer que fosse, ela podia já ter contado a história para todo mundo.

Enquanto elas entravam no estabelecimento e abriam caminho em meio à multidão, Isabella teve certeza de que ouviu alguém rindo. Rindo dela. Esse era o pior resultado de sua desastrosa visita noturna. Fazia meses que Spindle Cove era o porto seguro de Isabella. E agora ela jamais se sentiria à vontade ali novamente. O eco daquela risada cruel a seguiria por todas as ruas de pedra e trilhas. Edward havia arruinado aquele lugar para ela. E agora ele ameaçava arruinar o resto de suas vidas. No domingo você já poderia me chamar de "irmão". Não! Ela não podia deixar aquilo acontecer. Ela não permitiria. De algum modo ela impediria, mesmo que tivesse que jogar seu livro na cabeça daquele homem.

- Oh, ele não está aqui.

O comentário lamurioso de Charlotte lhe deu esperança. Isabella baixou o livro e vasculhou a multidão. Os voluntários da milícia ocupavam o local, destacando-se com os uniformes em vermelho e dourado contra as paredes caiadas. Ela baixou o queixo e espiou por cima das lentes, focando no lado mais distante do salão, onde homens e mulheres se apinhavam junto ao bar. Nada de Lorde Cullen. Sua respiração ficou mais fácil. Ela empurrou os óculos nariz acima e sentiu os cantos de sua boca relaxarem, esboçando um sorriso. Talvez ele tivesse ficado com peso na consciência. Mas o mais provável era ele ter permanecido em sua torre, para entreter sua amiga, que se divertia tão facilmente. Pouco importava onde ele estivesse, desde que não fosse ali.

- Ah, ali. - disse a mãe, virando-se. - Ele entrou pelos fundos.

Droga! Isabella sentiu um peso no coração assim que o viu. Ele não tinha ares de um homem com peso na consciência, mas parecia mais sombrio e perigoso do que nunca. Embora ele tivesse acabado de passar pela porta, a atmosfera do ambiente mudou instantaneamente. Uma energia palpável, agitada, irradiava dele, e todos podiam sentir. Toda a taverna ficou em alerta. Uma mensagem não declarada correu de corpo em corpo. Alguma coisa está para acontecer...

Os músicos tocaram o prelúdio de uma dança folclórica. Por toda a sala, pares começaram a se formar. Ele baixou a garrafa. Tapou-a. Recolocou-a em seu bolso. E então direcionou seu olhar, quente e decidido, para as Swan. Os pelinhos da nuca de Isabella ficaram em pé.

- Ele está olhando para você, Rosalie... - murmurou sua mãe, empolgada. - Ele vai tirar você para dançar.

- Rosalie não deveria dançar. - disse Isabella, incapaz de tirar seus olhos dele. - Não uma música dessas. A asma.

- Bobagem. O ar marítimo fez seu trabalho. Faz meses que ela não tem uma crise.

- Não. Mas o último foi provocado pela dança. - Ela balançou a cabeça. - Por que eu sou sempre a única que se preocupa com o bem-estar de Rosalie?

- Porque eu estou sempre preocupada com o seu. Coisa ingrata.

O olhar da mãe a atravessou. Quando garota, Isabella invejava os olhos azuis da mãe. Eles pareciam ter a cor de oceanos tropicais e céus sem nuvens. Mas a cor havia desbotado ao longo dos anos, desde a morte do pai. Agora o azul tinha o tom de um tecido usado durante três estações. Ou de porcelana de classe média quebrada. A cor da paciência quase esgotada.

- Nós somos em quatro, Isabella. Todas mulheres. Sem marido, pai ou irmão no retrato de família. Podemos não ser pobres, mas nos falta segurança de verdade. Rosalie tem a chance de agarrar um visconde belo e rico, e não permitirei que você a atrapalhe. Quem mais irá salvar esta família? Você? - ela riu com crueldade.

Isabella sequer conseguiu formular uma resposta.

- Oh, ele está se aproximando. - guinchou Charlotte. - Ele está vindo para cá.

Pânico borbulhou no peito de Isabella. Será que Edward realmente faria o pedido naquela noite? Qualquer homem sensato faria. Rosalie era sempre linda, mas naquela noite estava radiante dentro de um vestido de seda esmeralda com detalhes em renda marfim. Seu cabelo claro brilhava, incandescente, sob a luz das velas, e sua postura etérea lhe dava o ar de uma lady. Ela parecia mesmo uma viscondessa. E Lorde Cullen tinha todo o aspecto de um lorde poderoso.

O homem atravessou o salão até elas, passando pela multidão, seguindo uma trilha reta, sem se desviar. As pessoas saíam do seu caminho, como grilos assustados. Seu olhar era intenso, determinado, focado... Nela. Em Isabella. Não seja boba. Não podia ser. Com certeza era um efeito produzido por seus óculos. Ele ia falar com Rosalie, é claro. Óbvio. E Isabella o odiou por isso. Ele era um homem horrível, detestável.

Mas seu coração batia tão forte que parecia querer sair do peito. Um certo calor começou a se formar entre seus seios. Ela sempre imaginou qual seria a sensação de estar na ponta de um salão de festas e observar um homem lindo e poderoso se aproximar dela. Aquele momento seria o mais perto que ela chegaria daquilo. Ao lado de Rosalie, imaginou. Repentinamente ansiosa, ela olhou para o chão. Depois para o teto. Então ela se repreendeu pela covardia e se obrigou a olhar para ele.

Edward parou e fez uma reverência, para então estender a mão.

- Concede-me esta dança?

O coração de Isabella cessou as batidas. O livro escapou de sua mão e caiu no chão.

- Rosalie, passe-me sua bolsa. - sussurrou a Sra. Swan. - Rápido. Eu a seguro enquanto você dança.

- Acredito que isso não será necessário. -respondeu Rosalie.

- É claro que será necessário. Você não pode dançar com essa bolsa pesada pendurada no seu pulso.

- Eu não vou dançar, mamãe. Lorde Cullen convidou Bella.

- Convidou Isabella. Que ideia. - A mãe emitiu um som indelicado de incredulidade. Que se tornou um engasgo quando a mulher percebeu, finalmente, que a mão de Lorde Cullen estava realmente sendo oferecida para Isabella. - Mas... por quê?

- Porque eu a escolhi. - disse ele simplesmente.

- Sério?

Oh, Deus. Sério? Isabella tinha mesmo dito isso em voz alta? Pelo menos ela conseguiu se impedir de continuar falando o resto dos pensamentos que passavam por seu cérebro embotado, que eram algo como: Sério? Você atravessou o salão daquela forma decidida, perigosa, por mim? Nesse caso, você se importaria de voltar até lá e fazer o mesmo percurso? Devagar, desta vez, e com sentimento.

- Srta. Isabella. - disse ele, em uma voz suave e sombria como obsidiana, acariciando as curvas de seu nome com a língua libertina. - Concede-me esta dança?

Ela observou, muda e encantada, a mão sem luva de Lorde Cullen pegar a sua. A mão dele era quente e forte. Ela segurou a respiração, sentindo os olhos de toda a vila nos dois. Por favor. Por favor, que ninguém ria.

- Obrigada. - ela se obrigou a dizer. - Eu ficaria imensamente... aliviada.

Ele a conduziu até a pista, onde os dois entraram na dança folclórica.

- Aliviada? - murmurou ele, divertido. - As mulheres normalmente se sentem 'encantadas' ou 'honradas' de dançar comigo. Até mesmo 'emocionadas'.

Ela deu de ombros, perdida.

- Foi a primeira palavra que me veio.

E no momento, foi sincera. Mas quando ela se posicionou diante dele e os primeiros compassos da música começaram, seu alívio evaporou. Medo tomou seu lugar.

- Não sei dançar. - ela confessou, dando um passo à frente.

Ele pegou as mãos dela e a girou.

- Mas você já está dançando.

- Não muito bem.

Ele ergueu uma sobrancelha.

- É verdade.

Isabella fez uma reverência para o lado errado e trombou com a mulher à sua esquerda. Desculpando-se apressadamente, ela exagerou na correção, e pisou no pé de Lorde Cullen.

- Bom Deus. - disse ele entredentes, segurando-a perto de si enquanto os dois iam para frente e para trás. - Você não estava exagerando.

- Eu nunca exagero. Não tenho jeito.

- Você tem jeito. Pare de se esforçar tanto. Para que nós consigamos fazer isto, você tem que me deixar conduzir.

A dança os separou e Isabella cambaleou. Ela tentou se convencer de que aquilo significava que ele havia concordado com seu plano. Ele a levaria para a Escócia, porque ele a escolheu. Ele a escolheu em vez de Rosalie. Por que outra razão ele pediria uma dança para ela, se não para criar a impressão de que havia atração entre eles? Mas seus pensamentos foram rapidamente interrompidos pelas batidas de pé e pela música animada.

Ela cambaleou por mais uma série de passos. Então vieram deliciosos momentos em que ela não precisou fazer nada a não ser ficar parada e aplaudir. Então teve que ir para frente de novo. Para ele. Edward a puxou para perto.

Indecentemente perto.

- Diga 'ai'. - murmurou ele.

Ela piscou, confusa. O quê? Edward a beliscou forte na parte inferior do braço.

- Ai! - ela exclamou. - Por que você...?

Ele passou um braço pela cintura dela. E então o contraiu, fazendo-a tropeçar. Os óculos dela ficaram tortos no rosto.

- O que foi, Srta. Swan? - disse ele dramaticamente, em voz alta. - Você torceu o tornozelo? Que pena!

Alguns momentos depois, ele a conduziu, cambaleante, pela porta vermelha do Touro e Flor. Eles se afastaram alguns passos da entrada. Edward a apressou, a sapatilha dela prendeu em uma pedra e Isabella tropeçou de verdade. Edward a amparou antes que ela batesse o joelho no chão.

- Você se machucou? - perguntou ele.

Ela balançou a cabeça.

- Estou bem, a não ser pelo orgulho.

Ele a ajudou a se equilibrar. Mas não a soltou.

- A coisa não saiu como eu planejei. Eu não sabia da sua... dificuldade em dançar. Se eu soubesse, teria...

- Não, está bem assim. Foi ótimo. A dança, nós sairmos no meio. Você... me abraçando à vista de todos. - Ela engoliu em seco. "Foi tudo ótimo."

- Foi mesmo?

Ela aquiesceu.

A sensação dos braços dele, envoltos em sua cintura, era realmente boa. E o calor complexo, ardente, em seus olhos verdes estava rapidamente derretendo a inteligência dela. Mais um minuto daquilo e ela se tornaria uma pateta diplomada. Ela olhou de relance para a porta. Com certeza alguém viria atrás deles. Ou, no mínimo, espiaria pela janela. Ninguém estava pelo menos um pouquinho preocupado com sua reputação? Ou seu tornozelo? Alguém precisava ver os dois juntos, para que sua fuga fosse convincente. Do contrário, aquele abraço perigoso, desconcertante, seria inútil.

- Por quê? - perguntou ela, incapaz de se segurar. - Você poderia ter Rosalie.

- Imagino que sim. E se eu decidisse casar com ela, você não poderia me impedir.

O coração de Isabella bateu com tanta força dentro do peito que ela teve certeza de que Edward poderia senti-lo.

- Mas você me escolheu esta noite. Por quê?

Um sorriso irônico surgiu na boca de Edward.

- Você quer que eu explique?

- Quero. E com sinceridade, não... - Não como na noite passada.

- Com sinceridade. - Ele refletiu sobre a palavra. - Sinceramente, sua irmã é linda, elegante, reservada, dócil. É fácil para um homem admirá-la e imaginar toda uma vida diante de si. Casamento, casa, louça, filhos. Não é uma perspectiva sem seus atrativos. Mas é tudo muito arrumado e pronto.

- E quando você olha para mim? O que é que você vê?

- Sinceramente? Quando eu olho para você... - Ele tocou a parte de baixo das costas dela. - Eu penso, comigo mesmo, algo do tipo: Só Deus sabe que provações surgirão na minha vida.

Ela se retorceu nos braços dele, tentando se soltar.

- Solte-me.

- Por quê?

- Porque eu quero bater em você.

- Você pediu sinceridade. - Ele riu, mas a manteve perto. - Você... você se debatendo é exatamente o que quero dizer. Não, você não se encaixa no molde de beleza, elegância e previsibilidade. Mas anime-se, Illiana. Alguns homens gostam de ser surpreendidos.

Illiana?

Ela olhou para ele, horrorizada. E emocionada. E horrorizada por estar emocionada.

- Você... É... O mais...

Um sino badalou. A porta do Touro e Flor abriu e um punhado de garotas da vila, rindo, surgiram cambaleantes, envoltas em uma onda de música e animação. Isabella prendeu a respiração. Se as garotas virassem para aquele lado a veriam com Edward. Os dois juntos.

- Então... Surpresa! - sussurrou ela.

E colou seus lábios aos dele com força.


Essa Bellinha intelectual também não deixa barato. Ô mulher obstinada, viu? haha

E aí, estão imaginando no que esse pequeno gesto vai dar? hehe'