Personagens de Stephanie Meyer. História de Tessa Dare.


CAPÍTULO QUATRO

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"Se nós fizéssemos isso... eu precisaria de você na minha cama."

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Ela disse "surpresa". Surpresa mesmo. Doçura. Essa foi a primeira surpresa. Ele tinha ouvido tantas palavras ácidas saindo daqueles lábios... mas seu beijo era doce. Suave e doce, com uma pitada de autêntica sensualidade por baixo. Como uma ameixa amadurecida ao sol no auge do verão. Pronta para cair em sua mão ao menor toque.

A queda. Essa foi a segunda grande surpresa. Quando se inclinou para beijá-lo, Isabella caiu nele. Edward apertou os braços ao redor da cintura dela, trazendo-a para perto. Seus corpos se encontraram. Mas essa não é a palavra correta. Seus corpos haviam se "encontrado" há alguns meses, naquela noite no jardim de Summerfield. Seus corpos só estavam atualizando o conhecimento. A sensação de intimidade foi imediata e assustadora. O aroma de jasmim do cabelo dela acionou um gatilho bem no fundo dele, uma memória armazenada não em sua cabeça, mas em seu sangue.

O que lhe trouxe a terceira grande surpresa: prazer... Triunfo. Droga, ele estava querendo aquilo. Edward teria ido ao túmulo sem admitir, mas parte dele estava querendo muito. E já havia algum tempo. Ele não a estava conhecendo através do beijo, mas confirmando verdades há muito suspeitadas. Apesar dos interesses pouco femininos e do excesso de estudos, sob a superfície, ela era totalmente mulher. Isabella não era irritadiça e teimosa em seus braços, mas calorosa e suave, moldando suas curvas à força dele.

Ele poderia fazê-la derreter. Suspirar. Estremecer. Mas saborear apenas aquilo não seria suficiente. Ele passou a língua pelos lábios fechados, à procura de mais. Fazia muito tempo que ele não beijava uma mulher simplesmente por beijar, e Edward havia se esquecido do prazer puro e inebriante que isso podia trazer. Ele queria mergulhar naquela doçura suave. Embriagar-se nela, banhar-se nela. Perder-se totalmente em um beijo com léguas de profundidade.

Abra. Abra para mim. Um som abafado escapou dela, algo como um chiado. Seus lábios permaneceram fechados sob os dele. Edward tentou de novo, arrastando com leveza sua língua até o canto da boca de Isabella. Lenta e reverentemente, da forma que ele sabia que uma mulher gostava de ser lambida - em qualquer lugar. Então, ela abriu os lábios. Edward passou a língua entre eles, provando-a. Deus, ela era tão doce e pura, mas estava totalmente empacada, sem se mexer. Sem respirar. Ele parou de sorver seu suculento lábio inferior antes de tentar novamente. Edward foi um pouco mais fundo dessa vez, revirando a língua antes de retirá-la. O suspiro doce de Isabella tocou sua face, aquele suspiro era uma confissão. Ele lhe dizia duas coisas. Primeiro: ela não fazia ideia de como corresponder seu beijo. Segundo: ela queria corresponder. Ela também andava esperando por isso. Quando eles se separaram, uma sensação de incredulidade mútua pairava no ar.

- Por que... - ela apertava as duas mãos contra o próprio abdome. Por um instante, Isabella olhou para tudo, menos ele. Então ela baixou a voz e perguntou: - Por que você fez isso?

- O que você está dizendo? - perguntou ele, rindo. - Você me beijou.

- É, mas por que você fez... - ela contorceu o rosto. - Todo o resto?

Edward fez uma pausa.

- Porque... é assim que um homem beija uma mulher.

Ela o encarou. Pelo amor de Deus, ela não podia ser tão ingênua!

- Eu sei que você pode não ter muita experiência, mas com certeza alguém já lhe explicou como são as coisas entre os sexos? - ele estendeu as mãos para ilustrar o que dizia e pigarreou. - É assim, procure entender; quando um homem gosta muito de uma mulher, mas muito mesmo...

Ela bateu com o punho no ombro de Edward, e mal conseguiu se segurar para não dar outro golpe.

- Não foi o que eu quis dizer, e você sabe. - ela baixou a voz e espiou o grupo de garotas, que entravam na pensão, ainda perdidas em sua própria conversa. - Por que você fez isso comigo? Um beijo simples era o bastante. O que você estava pensando?

- O que eu...? - ele passou a mão pelo cabelo acobreado, um pouco ofendido pelo tom acusador dela. - Sou um homem. Você esfregou sua... feminilidade em mim. Eu não pensei. Eu reagi.

- Você reagiu.

- Isso.

- A... - ela passou o peso do corpo de uma perna para outra. - A mim.

- É uma resposta natural. Você não é uma cientista? Então deveria entender. Qualquer homem com sangue nas veias reagiria a tal estímulo.

Ela recuou. Isabella baixou o queixo e o observou por cima dos óculos.

- Então você me acha estimulante.

- Não foi isso o que eu... - ele engoliu o resto da frase. A única forma de acabar com uma conversa absurda era simplesmente parando de falar.

Edward inspirou profundamente e endireitou os ombros. Ele fechou brevemente os olhos antes de olhar novamente para ela. Realmente olhou para ela, como se fosse a primeira vez... Ele viu um cabelo mogno e ondulado que um homem poderia agarrar. Óculos formais empoleirados em um nariz suavemente inclinado. Atrás das lentes, olhos grandes - escuros e inteligentes. E aquela boca... aquela boca suculenta, sensual e carnuda. Ele deixou seus olhos percorrerem as formas dela. Havia uma emoção perversa em saber que luxúria ardia por baixo daquele vestido recatado de musselina. Ter sentido suas formas, reconhecido e mapeado o corpo dela com suas próprias terminações nervosas. Seus corpos haviam se encontrado. Mais do que isso. Eles se reconheceram.

Nada mais aconteceria, é claro. Edward tinha suas próprias regras, e quanto a ela... Isabella nem mesmo gostava dele, nem fingia que gostava. Mas ela havia surgido no meio da noite com planos mirabolantes que se equilibravam entre a lógica acadêmica e a aventura impensada. Ela começou um beijo que não tinha ideia de como continuar. Somando tudo, ela era simplesmente... Uma surpresa. Uma brisa fresca, envolvente e inesperada, para o bem ou para o mal.

- Talvez, - disse ele com cuidado - eu realmente ache você estimulante.

A desconfiança fez Isabella apertar os olhos.

- Não sei se aceito isso como um elogio.

- Aceite como quiser.

Ela olhou na direção da Queen's Ruby. O grupo de garotas tinha desaparecido.

- Droga. Nem sei se alguém reparou no beijo.

- Eu reparei. - Ele esfregou a boca com o lado da mão. O gosto de ameixas maduras continuava em seus lábios. Ele percebeu que estava inexplicavelmente sedento.

- Então, quando nós partimos? - perguntou ela.

- Partimos para onde?

- Escócia, é claro.

- Escócia? - Ele riu, surpreso. - Não vou levar você para a Escócia.

- Mas... - Ela piscou furiosamente. - Mas agora mesmo, lá dentro. Você disse que me escolhia.

- Para dançar. Eu escolhi você como parceira de dança.

- Isso! Exatamente! Você me escolheu para dançar na frente de toda essa gente. Para me puxar aqui para fora e me segurar perto demais. Para me beijar no meio da rua. Por que você faria isso se não estivesse pensando em nossa fuga?

- Pela última vez, você me beijou. Quanto ao resto... eu lamento aquela cena nos meus aposentos, noite passada. Senti que lhe devia algum tipo de desculpa...

- Ah. Ah, não. - Ela apertou a mão no peito. - Você está me dizendo que dançou comigo por pena? E me beijou por pena?

- Não, não. - Ele suspirou. - Não totalmente. Eu só achei que você merecia se sentir admirada e valorizada. Na frente de todos.

- E agora, pela segunda vez, na segunda noite, você revela que foi tudo uma fraude. Para que eu possa me sentir rejeitada e humilhada... na frente de todos. - Seus olhos ficaram vermelhos. - Você não pode estar fazendo isso comigo de novo.

Ah, pelo amor às tetas. Como isso acontecia com ele?! Edward tinha a melhor das intenções, e então... Suas boas intenções funcionam como granadas de artilharia.

- Agora chega! - disse ela, fechando as mãos em punhos. - Não vou deixar você escapar desta vez. Insisto que me leve para a Escócia. Exijo que você me desgrace. Por uma questão de honra.

O sino na porta da taverna tilintou. Eles se afastaram um do outro com um pulo. Parecia que a festa havia ficado maior que a taverna. Os foliões jorraram do Touro e Flor e tomaram a praça. Fungando, Isabella cruzou seus braços à frente do peito.

- Escute... - ele disse em voz baixa - Podemos conversar em algum lugar? Algum lugar que não seja minha torre à meia-noite?

Depois de uma pausa, ela endireitou os óculos.

- Encontre-me na entrada da praia, amanhã de manhã, pouco antes da alvorada.

- Antes da alvorada?

- Cedo demais para você, Lorde Cullen?

- Ah, não. - respondeu ele. - Eu sou um madrugador.

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- Você está atrasado. - disse ela na manhã seguinte. Os primeiros raios da alvorada refletiam em seus óculos. - Estava lhe esperando.

- Bom dia para você também, Isadora. - Edward esfregou os olhos arenosos, depois o rosto sem barbear. - Tive que me despedir do meu primo.

Ele deslizou os olhos pelo vestido, uma abominação disforme e lúgubre de tecido cinza, abotoado até o pescoço.

- Que diabos você está vestindo? Você fez votos em algum convento desde a última vez que nos falamos? As Irmãzinhas Simplórias da Santa Monotonia?

- Eu pensei nisso. Talvez teria sido a coisa mais sábia a se fazer. Mas não. Este é meu traje de banho. - Ela o perfurou com o olhar. - Eu imagino que você não tenha um.

Ele riu.

- Eu não imagino que tenha.

- Você terá que se despir parcialmente, suponho. Venha, então.

Ele a seguiu pela trilha rochosa até a enseada, estupefato, mas também intrigado.

- Se eu soubesse que tirar a roupa estava incluído na proposta, eu teria sido mais pontual.

- Mais rápido, agora. Precisamos correr, ou os pescadores nos verão.

Eles chegaram à praia. A brisa que vinha do mar tinha um efeito envolvente, calmante, e ajudou a arejar a mente dele. O mundo começava a ficar mais nítido. Edward parou na beira da água. O mar bateu em seus sapatos. Inspirou longa e profundamente, depois observou a enseada salpicada de pedras sob a luz do nascente. Ele nunca tinha apreciado aquela vista antes, àquela hora da manhã. A visão era atemporal. Quase mística. Foi atingido no rosto pela água do mar.

- Acorde. - disse Isabella, tirando os óculos, que guardou em uma pequena bolsa que trazia presa ao pulso. Passando por ele, entrou nas ondas tranquilas. - Estamos perdendo tempo.

Ele observou, incrédulo, aquela garota absolutamente maluca entrar na água. Pelos joelhos. Pela cintura. Então até o pescoço.

- Saia daí! - disse ele, soando embaraçosamente como uma babá, até para seus próprios ouvidos. - Agora mesmo.

- Por quê?

- Porque estamos em abril. E isso está gelado.

E porque fiquei repentinamente curioso para ver você molhada, sem a lama. Não pude apreciar a vista na outra noite. Ela encolheu os ombros.

- Não é tão ruim depois que você se acostuma.

Pelo amor de Deus, veja essa garota. Batendo os dentes, lábios ficando azuis. Por baixo daquele traje horroroso, seus mamilos deveriam estar se tornando pequenos pingentes de gelo. E Isabella realmente esperava que ele se juntasse a ela? Edward e suas preciosas partes, tão sensíveis, a temperaturas extremas?

- Escute, Ingrid. Parece que temos uma confusão aqui. Não vim para nadar. Nós precisamos conversar.

- E eu preciso lhe mostrar uma pequena enseada, depois daquelas pedras. Não há outro modo de se chegar lá que não seja nadando. Conversamos assim que chegarmos. - Ela inclinou a cabeça para o lado. - Você não está com medo, está?

Com medo? Rá! Será que ele ouviu bem? Isabella o havia desafiado?

- Não. - Edward tirou os sapatos e pôs o casaco de lado. Então enrolou as pernas das calças até os joelhos, e também enrolou as mangas até os cotovelos. Ele contraiu o abdome. - Muito bem. Aqui vou eu.

Ele estremeceu ao entrar nas profundezas gélidas. Quando a água atingiu seu umbigo, xingou em voz alta.

- Isto é bravura de verdade, espero que você saiba! Lendas nasceram de muito menos. Tudo que Lancelot fez foi chapinhar em um lago de água morna.

Isabella sorriu.

- Lancelot era um cavaleiro, você é um visconde. O desafio tem que ser maior.

Ele soltou uma risada rouca, a respiração entrecortada pelo frio.

- Por que... - perguntou ele, aproximando-se dela - Você só mostra esse delicioso senso de humor quando está completamente gelada e molhada?

- Eu... - Isabella bateu os cílios com tanta rapidez e força que parecia querer alçar voo com eles. - Eu não sei.

Embora estivesse submersa na água gelada, ela ficou corada. Isabella acionou todas as suas barreiras invisíveis, instantaneamente. Que esquisito. A maioria das mulheres que ele conhecia usava beleza física e charme para esconder seus traços menos agradáveis. Aquela garota fazia o oposto, escondendo tudo o que possuía de interessante atrás de uma fachada simples e formal. Que outras belas surpresas ela estaria escondendo?

- Vamos continuar. - disse ela. - Siga-me.

Nadando com braçadas tranquilas, sem pressa, ela o conduziu ao redor de um arquipélago de rochedos até uma entrada cercada por falésias íngremes. Edward esticou o pescoço e olhou para a encosta rochosa. Ele percebeu, naquele momento, que enquanto vivesse jamais compreenderia o que fazia um homem – ou mulher – olhar para uma parede de pedra e pensar: acho que vou gostar de participar de um simpósio sobre pedras.

- Então, o que nós estamos procurando?

- Não aí em cima. - disse ela. - Aqui embaixo.

- Aqui embaixo?

Ele olhou ao redor, mas não viu nada a não ser água.

- Tem uma caverna. A entrada fica escondida na maré alta. Vou mostrar para você. Segure meu braço.

Ela ofereceu o braço e ele segurou acima do cotovelo. Isabella então agarrou o braço dele de forma semelhante.

- Agora tome fôlego.

- Espere. O que nós...?

Ele não conseguiu tomar o fôlego que ela sugeriu. Isabella submergiu antes que ele tivesse essa possibilidade. Edward se viu sendo arrastado pelo braço, e afundou completamente na água. Ela os impulsionava para a frente, batendo os pés como pequenas nadadeiras. Até que, aparentemente, eles entraram em uma espécie de túnel. Ele sentiu que raspava as costas contra as pedras. Bateu os pés e as acertou. Edward tentou subir, indo para onde deveria estar a superfície da água. Pedra ali também... Ele estava preso. Ele abriu os olhos debaixo da água. Apenas escuridão. Nada para se ver. Preto como piche. Encurralado entre as rochas. Sem ar. Completamente sem ar, apenas água. Ele tentou voltar, mas Isabella o puxou para frente.

Então eles pararam, presos naquela estreita passagem de pedra. Os pulmões dele ardiam, os membros formigavam e suas orelhas ouviam o rugido da água e o batimento frenético de seu coração, que se debatia contra suas costelas. Ele podia morrer ali. Contudo, seu maior medo era que não morresse. Que seus pulmões, de alguma forma, aprendessem a sobreviver sem ar e ele simplesmente ficasse ali para sempre – aprisionado naquele silêncio marinho interminável e escuro. Revivendo aquela noite infernal para sempre. A morte é assim. Estou só. Mas ele não estava só. A mão de Isabella se fechou em volta do braço dele como uma corrente. A outra mão dela agarrou seu pulso e ela o puxou com força. Ele passou pelo restante do túnel de pedra e emergiu, ofegante, do outro lado.

Mais escuridão o esperava. Havia ar agora, mas tinha que se esforçar para inspirá-lo.

- Está tudo bem... Você passou.

- Jesus. - ele finalmente conseguiu dizer, tentando secar o rosto. - Jesus Cristo e João Batista. E, aproveitando, Mateus, Marcos, Lucas e João. - Ainda não bastava. Ele precisava usar também o Antigo Testamento. - Abdias. Nabucodonosor. Matusalém e Jó.

- Fique calmo. - disse ela, pegando-o pelos ombros. - Fique calmo. E existem mulheres na Bíblia, sabia disso?

- Sabia. E, pelo que me lembro, todas são sinônimo de encrenca. Que lugar é este? Não consigo ver nada.

- Tem um pouco de luz. Espere um pouco e você vai ver.

Ele inclinou a cabeça. A luz cintilava através de pequenas frestas na rocha acima deles. Minúsculos pontos brancos em um véu negro. Isabella agarrou seu queixo e fez com que ele desviasse o rosto da luz e olhasse para ela.

- Não olhe diretamente para a luz, ou seus olhos nunca vão se acostumar. Olhe para mim e respire devagar. Assim. Inspire... expire.

Ela falava com uma voz calma e tranquilizadora. Um tom muito parecido com o que ela usava para falar com Rosalie durante as crises de asma. O orgulho de Edward tinha sido atingido. Ele não precisava de mimo, mas gostou da voz melosa e hipnotizante de Isabella, e do toque suave dela em sua face. Seu coração começou a diminuir o ritmo. Finalmente, os pontos brancos acima começaram a espalhar um brilho tênue, leitoso, que iluminou as feições dela. Olhos escuros e afetuosos com longos cílios pretos. Bochechas arredondadas e pele clara. Aqueles lábios, molhados de água salgada.

- Consegue me ver agora? - sussurrou ela.

Ele assentiu. Talvez a perspectiva de morrer tenha alterado sua percepção, ou a iluminação fraca – mas Edward a achou linda.

- Estou vendo você.

Passando os braços pela cintura dela, ele a puxou para perto.

- O que aconteceu? Você perdeu a orientação debaixo da água? - Ela afastou uma mecha de cabelo molhado da testa dele. - Preciso me preocupar com você?

Aquela pergunta foi feita com uma voz rouca e doce. Algo fez com que ele demorasse a responder.

- Não. - Ele deu um beijo na testa dela. - Não, querida. Não gaste a sua preocupação comigo.

Então ele a soltou e Isabella se afastou.

- Por aqui, então.

Ela o conduziu a uma plataforma de pedra, na qual ele a ajudou a subir. Era boa a sensação de reassumir o papel masculino com a força. Também foi boa a sensação de segurar na coxa dela. Depois que os dois subiram na borda, Isabella foi tateando ao longo da parede da caverna e alcançou um nicho no alto, de onde pegou um tipo de caixa, e retirou de lá uma vela e um acendedor. A luz quente da chama revelou o lugar, confirmando que era tão pequeno e sufocante quanto ele suspeitava. Mas o brilho daquela vela também criou um espaço pequeno e íntimo dentro daquele espaço dourado.

Edward pensou que ficaria contente em permanecer dentro daquelas bordas no futuro próximo. Sombras brincavam no rosto de Isabella enquanto ela colocava os óculos. Então ela ergueu a vela para iluminar a parede rochosa atrás dele.

- Então, o que tem este lugar?

- É uma caverna de belezas. Veja... Toda esta superfície exposta é uma camada comprimida de vida marinha fossilizada. - Ela deslizou as pontas dos dedos pela superfície irregular. - Passei horas fazendo moldes, decalques e desenhos, recolhendo espécimes onde é possível. Este é um equinoide, está vendo? Ao lado dele, um trilobita. E, apenas alguns centímetros acima, há uma esponja do mar fossilizada. Olhe.

Edward olhou. Ele viu pedras, saliências e pedras salientes.

- Fascinante. Então esse é o tópico de sua apresentação no simpósio? Equiqualquer-coisa e trogloditas. É difícil ver como isso pode valer quinhentos guinéus.

- Eles não valem, não por si só. Mas isto realmente não tem preço.

Ela engatinhou de lado para o fundo da caverna, por cerca de dois metros. Como parecia estar esperando que Edward a seguisse, ele a acompanhou. Quanto mais avançavam, mais a caverna encolhia ao seu redor, apertando seus pulmões. Embora ele estivesse encharcado de água do mar, uma fina camada de suor começou a surgir em sua testa.

- Consegue ver isto? - perguntou Isabella, erguendo a vela. - Esta depressão na rocha?

Ele focou o olhar naquele ponto, feliz pela distração.

- Acho que sim.

- É uma pegada. - disse ela em um tom baixo, solene. - Incontáveis eras atrás, alguma criatura caminhou sobre o barro aqui. E a pegada foi preservada, comprimida pela pedra.

- Estou vendo. E isso excita você porque... pegadas são raras?

- Pegadas fossilizadas são raras. E ninguém jamais registrou uma pegada como esta. Ela tem três dedos bem abertos, está vendo?

Edward realmente viu. Seu sapato inteiro caberia em uma das impressões de "dedo".

- Parece o pé de um lagarto. - disse ela.

- Com uma pegada desse tamanho, tão profunda? Teria que ser um lagarto gigante.

- Exatamente! - Mesmo no escuro, os olhos de Isabella brilharam de empolgação. - Você não percebe? O Sr. James Parkinson publicou três volumes sobre fósseis, de vegetais a vertebrados. Ele documentou dezenas de animais grandes, incluindo um jacaré e um elefante primitivos. Mas esta pegada não coincide com nenhuma descrição encontrada nos livros dele. Isto é evidência de uma criatura inteiramente nova, desconhecida pela ciência moderna até agora. Um gigantesco lagarto pré-histórico!

Edward piscou.

- Ora. Isso é incrivelmente... admirável.

Um gigantesco lagarto pré-histórico. Aquilo era a grande descoberta científica que garantiria o prêmio de quinhentos guinéus. Ela viajaria até Edimburgo para defender a existência de dragões. Nenhum cientista com a cabeça no lugar daria um prêmio para aquela coisa.

- Essa pegada... - disse ela, empolgada. - muda tudo. Tudo!

Ele só conseguiu ficar olhando para Isabella.

- Você não percebe?

- Na verdade... não.

Sem conseguir suportar mais o aperto, ele voltou para a entrada da caverna. Edward se sentou perto da borda da plataforma de pedra. A água escura bateu em seus dedos. Ele olhou para cima.

- Existe outra forma de sair daqui?

Sentando-se de frente para ele, Isabella soltou o ar dos pulmões.

- Eu devia saber que isso não iria dar certo. Você tem razão, toda essa história de fugirmos juntos foi uma ideia idiota. Eu pensei que, se você pudesse ver minha descoberta, entenderia as implicações e veria como é garantido que receberá os quinhentos guinéus. Mas parece que você é incapaz de compreender a importância científica.

Ele tomou a decisão consciente de ignorar o insulto.

- Parece que sou.

- Para não falar que eu esperava, também, que você contribuísse com algo para a viagem que não fossem apenas seus comentários desdenhosos. Mas percebo que eu também estava errada nisso.

- Como assim?

- Você sabe. Músculos onde não há cérebro. Proteção. Força. Mas depois daquela situação no túnel... Não posso arrastar você, esperneando durante todo o caminho, até a Escócia...

- Agora espere um pouco. - interrompeu ele, pigarreou e baixou a voz. - Eu possuo uma abundância de pontos fortes. Eu sei boxear, esgrimir, cavalgar e atirar. Sou o primeiro-tenente de uma milícia pequena, mas valente. Eu tenho certeza de que poderia erguer esse seu lagarto gigante e atirá-lo da varanda mais próxima. Eu só não tenho paciência para túneis submarinos.

- Ou cavernas. - ao silêncio ofendido dele, Isabella continuou. - Não adianta negar. Dá para afirmar apenas pela sua respiração difícil.

- Eu não...

- Pelo amor de Deus! Você está embaçando meus óculos. Você tem medo de lugares pequenos?

- Não é medo... - disse ele. O silêncio dela comprovou sua descrença. - É uma aversão. Tenho aversão a lugares pequenos e escuros.

- Você devia ter me dito isso antes de entrarmos na caverna.

- Ora, você não me deu essa oportunidade.

- Podemos voltar por onde viemos?

- Não! - Naquela câmara maior, com o benefício das velas, a caverna não era tão ruim. Mas ele não voltaria nadando por aquele túnel-túmulo. - Você disse que a entrada fica acima da água na maré baixa? Então vou esperar a maré baixar.

- Isso vai demorar horas. As pessoas vão se perguntar o que aconteceu conosco.

Ele ficou encantado com uso de "nós" naquela frase, como se nem tivesse ocorrido a ela a ideia de nadar de volta deixando-o para trás, sozinho. Ele havia reparado nessa característica dela ao longo dos meses. Isabella sequer contemplava a ideia de deslealdade. E era por isso que ela o desdenhava tanto, supôs Edward. Ela apertou o dorso do nariz.

- Oh, céus. Agora teremos que ir para a Escócia. Se alguém reparar que desaparecemos juntos esta manhã... Se alguém viu nosso beijo noite passada... Se a sua amante decidir fofocar... - Ela baixou a mão. - Isoladamente, essas coisas podem passar despercebidas, mas todas elas juntas? É bem provável que eu já esteja arruinada.

- Essa é uma conclusão exagerada. - disse ele, ignorando o fato de que cada um dos três eventos já era bem condenável por si só. - Vamos cuidar de uma crise por vez. Quantas velas você tem?

- Esta e mais uma.

Edward fez um rápido cálculo mental. Três a quatro horas de luz. Mais do que suficiente. Um arrepio violento estremeceu seu corpo.

- Você está com frio?

Ele podia pensar em formas piores de passar algumas horas do que abraçando uma mulher para se aquecer. Ela alcançou um nicho na parede rochosa.

- Eu guardo um cobertor aqui. - Agachada ao lado dele, Isabella o abriu sobre os dois. Ela manteve um espaço de vários centímetros entre seus corpos. O calor atravessava suas roupas molhadas.

- Imagino que você não tenha uísque aqui...

- Não.

- Pena. Ainda assim – velas, cobertor... Você deve passar bastante tempo neste... lugar. - disse ele, após pensar durante alguns segundos uma expressão mais diplomática do que buraco infernal. Ele sentiu Isabella encolher os ombros.

- Geologia é o meu trabalho. Alguns cientistas têm um laboratório. Eu tenho uma caverna.

Uma dúzia de réplicas irônicas surgiram na cabeça de Edward, mas ele percebeu que provocá-la, àquela altura, o deixaria muito vulnerável. Ela era uma cientista. E tinha uma caverna. Enquanto ele era um aristocrata sem objetivos que tinha... nada.

- Eu já planejei tudo. - disse ela. - Há uma carruagem que vai de Eastbourne a Rye. Ela passa às terças e quintas por volta das 6 horas. Se nós caminharmos até a estrada, poderemos acenar para o condutor. Seguimos com ela até a próxima cidade, e de lá para o norte. Chegaríamos a Londres amanhã à noite.

Ah, estar em Londres na noite seguinte. Agitação. Comércio. Sociedade. Clubes. Salões de festas e teatros reluzentes. Céu sufocante com fumaça de carvão. Lâmpadas brilhando nas ruas escuras.

- E lá... - ela interrompeu os devaneios de Edward. - Nós pegamos a carruagem do correio.

- Não, não, não. Eu lhe disse na outra noite, um visconde não viaja em uma carruagem do correio. E este visconde em particular não viaja em carruagem pública.

- Espere um pouco. Como você achou que viajaríamos para Edimburgo, se não em uma carruagem pública?

Ele deu de ombros.

- De qualquer forma, nós não iremos viajar para Edimburgo. Mas... se fôssemos, teríamos que achar outro meio de transporte.

- Como o quê? Tapete mágico? - irônica, como sempre.

- Algo como um cabriolé particular, com cocheiros contratados. Você viajaria dentro dele, e eu iria fora, a cavalo.

- Isso custaria uma fortuna!

- Quando se trata de viajar, tenho minhas condições. - Ele deu de ombros. - Eu não viajo de carruagem fechada, e não viajo à noite.

- Também não viaja à noite? Mas as carruagens mais rápidas viajam à noite. A viagem demoraria o dobro do tempo.

- Então, que bom que nós não vamos, não é mesmo?

Ela ergueu a vela e o encarou.

- Você só está arrumando desculpas. Você quer romper nosso acordo...

- Que acordo? Nós nunca fizemos qualquer acordo, Illiana!

- E então fica inventando essas 'condições' ridículas. - Ela gesticulou como se riscasse itens de uma lista. - Nada de carruagens públicas. Nada de viagens noturnas. Que tipo de homem faz essas regras?

- O tipo que quase morreu em um acidente de carruagem! - disse ele, irritado. - À noite. Esse é o tipo.

A expressão de Isabella suavizou. E também a sua voz.

- Oh...

Edward tamborilou os dedos na pedra. Ele havia se esquecido de que ela não tinha como saber daquela história que circulava pelos salões e inferninhos todas as temporadas. E passava das mães para as debutantes, de jogadores para cantoras de ópera – sempre em sussurros pesarosos. Você ouviu falar do que aconteceu com o pobre Lorde Cullen...

- Foi há pouco tempo? - perguntou ela.

- Não. Faz alguns anos.

- O que aconteceu?

Soltando um suspiro pesaroso, ele apoiou a cabeça na pedra irregular e úmida.

- Eu era garoto e estava viajando com meus pais. Um eixo quebrou e a carruagem tombou. Eu sobrevivi ao acidente praticamente sem ferimentos. Mas minha mãe e meu pai não tiveram a mesma sorte.

- Eles se machucaram?

- Eles morreram. Ali, na carruagem, bem na minha frente. Meu pai teve uma morte quase instantânea. Minha mãe, lentamente, e em tremenda agonia. - Ele fez uma pausa. - Eu não conseguia sair. Do jeito que a carruagem tombou, de lado, a porta ficou travada. Eu não podia sair para pedir ajuda, não podia fugir. Eu fiquei preso ali, a noite toda. Sozinho. Um fazendeiro que passava me encontrou na manhã seguinte.

Pronto. Isso a ensinaria a não pressioná-lo.

- Oh. - Ela segurou em seu braço. - Oh, Deus. Sinto muito. Agora eu entendo porque você tem med... Quero dizer, porque você tem aversão a lugares fechados e escuros. Que horror.

- Foi um horror mesmo. Demais. - Ele massageou a têmpora, incomodado. - Basta dizer que não tenho nenhum desejo de passar novamente por essa situação. Então eu tenho algumas regras simples. Não viajo à noite. Não viajo em carruagens fechadas. Ah, e não durmo sozinho. - Uma careta contorceu sua boca. - Essa última não é tanto uma regra, mas um fato.

- Como assim? - menina curiosa, sempre muito curiosa.

Edward hesitou por um instante. Ele já havia revelado tanto, parecia não fazer sentido esconder o resto.

- Eu simplesmente não consigo dormir sozinho. Se eu não tiver companhia, fico acordado a noite toda.

Ele se aproximou do calor suave do corpo dela e apertou o cobertor ao redor deles, fazendo questão de chegar perto o bastante para que seus lábios tocassem levemente a orelha dela, acariciando-a com suavidade.

- Então, talvez você queira refazer seus planos, querida. Se nós fizéssemos essa viagem... eu precisaria de você na minha cama.


Holy shit... Agora começa a confusão mesmo hahaha´

Vamos lá, queridas da Maa, deixem suas reviews e façam de mim uma pessoa mega feliz! Até sábado!