Personagens de Stephenie Meyer. História de Tessa Dare.
CAPÍTULO SETE
.
"Quero ver você mudar de ideia quando estiver próxima da minha perfeição física..."
.
A estrada para Londres era empoeirada, esburacada e acidentada – uma desgraça.
E Isabella ficava mais feliz a cada quilômetro que passava. Quer dizer, ela se alegrava em silêncio, sem mover sequer um músculo. Ela não tinha nenhum espaço para se mover. Quatro pessoas dividiam o assento dentro da carruagem. Mais dois passageiros dividiam o banco do condutor. Isabella quase tinha medo de contar quantas pessoas viajavam no teto da carruagem. Do seu ponto de vista, através da janela, as pernas desses passageiros estavam penduradas como estalactites. Além dessas pernas, de vez em quando ela conseguia enxergar Edward montado em seu cavalo ao lado do coche. Ela invejou o ar fresco e a liberdade de movimentos de que ele desfrutava.
Mas, de modo geral, ela estava empolgada. As decisões dolorosas e os preparativos frenéticos haviam ficado para trás, e agora ela podia simplesmente desfrutar da alegria de ter feito aquilo. Depois de passar toda sua infância desejando ardentemente fugir de casa, ela tinha enfim conseguido. E aquele não era um feito infantil, uma corrida para a floresta com uma cesta de piquenique preparada às pressas e um bilhete petulante dizendo simplesmente "Adeus."
Aquela viagem tinha um significado sério, profissional. Era praticamente uma viagem de negócios. Naquela manhã Isabella tomou as rédeas de sua vida. Mas ela se sentia feliz por não fazer a viagem sozinha.
Quando eles paravam para descansar ou trocar os cavalos, Edward se destacava no papel de noivo atencioso. Ele permanecia ao lado dela e cuidava de pequenos detalhes, como procurar bebidas ou ficar de olho em seus baús. Ele fazia questão de tocá-la frequentemente. De forma sutil, pondo a mão em seu cotovelo, ajudando-a a subir na carruagem. Ela sabia que os toques não eram para o prazer dela ou dele, mas para informar aqueles que os acompanhavam. Aquelas pequenas indicações tinham um objetivo. Toda vez que ele a tocava, estava dizendo, sem palavras: Esta mulher está sob minha proteção. E cada vez que ele enviava essa mensagem, ela sentia um arrepio.
Isabella se sentiu especialmente grata pela proteção quando eles chegaram a Londres no fim daquela tarde e foram até a hospedaria. Ela estava tão cansada da viagem que mal conseguia se manter em pé. Edward cuidou do dono da estalagem, registrando os dois sob um nome fictício sem nem mesmo piscar. Ele se certificou de que todos os baús dela fossem levados para o quarto, pediu um jantar simples e até mesmo enviou um mensageiro comprar algumas coisas para a viagem – algumas camisas limpas, lâmina de barbear –, em vez de ele mesmo ir às compras e assim deixar Isabella sozinha.
Na verdade, Edward a fez se sentir tão segura e confortável que eles já estavam jantando o prato de carne assada com cenouras cozidas quando Isabella, de repente, caiu em si – a realidade a atingiu em cheio. Ela estava em um quarto pequeno, com uma única cama, a sós com um homem que não era seu parente, nem seu marido. Ela largou o garfo, acompanhou seu último bocado de comida com um belo gole de vinho, e passou lentamente os olhos pelo quarto. Era isso. Sua ruína a caminho: carne assada, cenouras cozidas e papel de parede feio, descascando.
- Você está muito quieto. - disse ela. - Você não me provocou o dia todo.
Ele ergueu os olhos do prato.
- Isso é porque estou esperando, Ingrid.
Isabella cerrou os dentes. Ela nem se preocupava mais em corrigi-lo.
- Esperando o quê?
- Que você recupere o bom senso. - Ele fez um gesto com o braço, mostrando o quarto. - Que cancele tudo isto e exija que eu a leve para casa.
- Ah... Bem, isso não vai acontecer.
- Você não vai mudar de ideia?
- Não. - Ela balançou a cabeça.
Edward serviu mais vinho para os dois.
- Você não fica apreensiva de dividir este quarto comigo, esta noite, sabendo o que isso vai significar para você amanhã?
- Não. - mentiu.
Embora ele estivesse sendo absolutamente solícito e protetor desde que os dois partiram de Spindle Cove, ela não conseguia evitar de ficar inquieta na presença dele. Edward era tão belo, tão determinado, tão... tão masculino. Sua personalidade parecia ocupar todo o quarto. E, céus, ela tinha concordado em se deitar com ele. Se a ideia dele de "deitar junto" implicava algo mais do que simplesmente ficar um ao lado do outro, ela não sabia o que iria fazer. Medo e curiosidade lutaram dentro dela quando Isabella lembrou de seus beijos hábeis e excitantes na caverna.
- Se não posso dissuadi-la...
Ela fechou os olhos.
- Não pode.
Ele bufou.
- Então pela manhã vou procurar lugar em uma carruagem que vá para o norte. Nós deveríamos dormir o mais cedo possível.
Ela engoliu em seco. Enquanto ele terminava de comer, Isabella decidiu buscar abrigo em um refúgio conhecido. Pedindo licença, ela se levantou da pequena mesa de jantar e foi até seus baús, abrindo o menor – onde trazia todos os seus livros. Ela retirou seu diário. Se ela quisesse se apresentar no simpósio dentro de uma semana, precisava organizar suas descobertas mais recentes e acrescentá-las ao seu texto. Pegando um lápis, que prendeu entre os dentes, ela fechou o baú e levou o diário de volta à mesa. Ela afastou para o lado os pratos de comida vazios e ajeitou os óculos, arrumando-se para trabalhar. Abriu o diário na última página escrita e o que ela viu ali a deixou horrorizada. Isabella sentiu um aperto no coração.
- Ah, não. Ah, não. Não, não não.
À sua frente, Edward ergueu os olhos da comida. Ela folheou as páginas, desanimada.
- Ah, não. Oh, Deus. Eu não posso ser tão idiota.
- Não imponha limites a si mesma. Você pode ser o que quiser. - Ao olhar aborrecido dela, Edward respondeu: - O que foi? Você reclamou que eu não a estava provocando.
Ela deitou os braços na mesa e descansou a testa neles. Lentamente, erguendo e baixando a cabeça, ela batia a testa no pulso.
- Tão, tão, tão idiota.
- Pare com isso. Não pode ser assim tão ruim. - Ele pôs seus talheres de lado e limpou a boca com o guardanapo. Então deslizou a cadeira ao redor da mesa, de modo que ficou sentado ao lado dela. - O que foi que deixou você tão incomodada?
Ele esticou a mão até o diário. Isabella ergueu a cabeça.
- Não, não! Por favor, não leia. São apenas mentiras, bobagens. É um diário falso, percebe? Eu passei a noite toda escrevendo. Eu deveria tê-lo deixado para trás, para que minha mãe e minhas irmãs tivessem a impressão de que nós nos apaix... - Ela engoliu o fim da palavra. - Que nós estávamos nos vendo há algum tempo, para que acreditassem na nossa fuga. Mas, obviamente, eu cometi um erro. Eu trouxe o diário falso comigo e deixei o verdadeiro na Pensão Queen's Ruby.
Ele se deteve em uma página em particular e ficou rindo consigo mesmo. Isabella sentiu o rosto esquentar. Ela queria desaparecer.
- Por favor. Eu imploro, não leia. - Desesperada, ela tentou arrancar o diário da mão dele.
Edward puxou para trás o volume, levantando da cadeira.
- Oh, isto é ótimo. Absolutamente fantástico. Você me elogia com tanta convicção. - Ele pigarreou e leu em voz alta, em um tom afetado. - Minha mãe sempre diz que Lorde Cullen é tudo o que um futuro genro deve ser: rico, tem um título, extremamente belo, charmoso. Eu confesso...
- Devolva!
Ela tentou pegá-lo, mas Edward se afastou, passou por cima da cama e continuou do outro lado.
- Eu confesso... - ele continuou como se declamasse um texto. - Que fui mais lenta que a maioria para admitir, mas também não sou imune aos encantos de Edward. É muito difícil lembrar dos defeitos de sua personalidade quando se está tão próxima de sua... - Ele baixou o diário e arrastou as palavras. - De sua perfeição física.
- Você é um homem horroroso. Horroroso!
- Você diz isso agora. Quero ver você mudar de ideia quando estiver próxima da minha perfeição física. - Ele rodeou a cama, aproximando-se dela.
Então Isabella passou a ser perseguida. Ela foi se afastando, de costas, até colidir com a parede. Como uma criança que não tem onde se esconder, ela fechou os olhos.
- Pare de ler. Por favor.
Ele caminhou lentamente na direção dela enquanto folheava o diário.
- Bom Deus. Há páginas inteiras com descrições. Os fios rebeldes e acobreados do meu cabelo selvagem. Meu perfil esculpido. Eu tenho olhos como... como diamantes e esmeraldas? Isso deveria fazer sentido?
- Não diamantes de verdade. Diamantes Bristol.
- O que são diamantes Bristol?
- Um tipo de formação rochosa. - ela explicou de novo. - Por fora eles parecem pedras comuns. Redondos, amarronzados. Mas quando você os quebra no meio, por dentro estão cheios de cristais com centenas de tons diferentes... E é aí que entram as esmeraldas. Seus olhos tem tons de castanho, verde e cinza, ora essa.
Por que ela se dava ao trabalho? O sujeito nem mesmo estava escutando... De novo.
- Ninguém ao redor imaginaria nossa ligação. - ele continuou. - Para as pessoas pode parecer que ele só fala comigo para me provocar. Mas há um sentimento mais profundo por trás de suas provocações, eu sei. Um homem pode flertar com desinteresse, até mesmo desdém. Mas ele nunca provocará alguém se não sentir afeto. - Ele a flechou com os olhos. - Essas palavras são minhas. Isso é um plágio descarado.
- Sinto muito. A falsidade não vem tão facilmente para mim como para você. - Ela jogou as mãos para cima. - O que isso importa? Essas palavras já eram mentiras quando você as falou, e continuavam mentiras quando eu as escrevi. Você não entende? É um diário falso, todo ele!
- Não esta parte. - Ele apontou um dedo para o centro da página. - Nós nos beijamos. Ele me pediu para chamá-lo por seu nome de batismo, Edward.
Edward fixou nela um olhar inescrutável. O coração de Isabella martelava em seu peito, e ela se viu oscilando na direção dele. Por um instante vertiginoso, ela pensou que Edward pudesse beijá-la novamente. Ela esperava que ele a beijasse novamente. Mas ele não a beijou... E ela teve certeza de que ouviu alguém, em algum lugar, rindo.
- É verdade. Você me pediu para chamá-lo por seu nome de batismo. Ainda assim, você não consegue lembrar o meu. - Ela arrancou o livro da mão dele. - Eu acho que você mais que compensou o tempo perdido. Na verdade, tenho certeza de que excedeu sua cota de provocação de hoje.
- Posso adiantar uma parte de amanhã?
- Não. Você vai excedê-la amanhã de novo. - Ela fechou o diário com agitação e o guardou de volta no baú.
- Deixe disso. Não fique brava. Você mesma disse que o fez ridículo de propósito.
- Eu sei. Não é isso que me preocupa. - Não totalmente. - É o fato de que deixei para trás o outro diário. O verdadeiro, com todas as minhas medições e observações mais recentes.
- Eu pensei que você tinha centenas de descobertas.
- Eu tenho. Mas minha apresentação ficará mais fraca por eu não ter o diário.
Ele ficou pensativo.
- Mais fraca quanto?
- Ah, não se preocupe. - Isabella forçou um sorriso e bateu de leve no molde dentro do baú. - Seus quinhentos guinéus estão garantidos. Enquanto tivermos isto.
- Bem... Graças a Deus, por Francine.
Edward suspirou profundamente e passou a mão pelo cabelo. Que diabos ele estava fazendo? Quando ela lhe deu o ultimato na estrada, Isabella não lhe deixou alternativa a não ser acompanhá-la. Era o mínimo que ele devia fazer.
Mas ele passou o dia inteiro esperando que ela recobrasse a razão, que cancelasse toda aquela viagem maluca e exigisse que ele a levasse de volta para Spindle Cove imediatamente. Até aquele momento, contudo, a determinação dela não havia diminuído. E alguma força estranha não lhe permitia sair do lado dela. Edward não sabia que diabo era aquela força. Ele estava em uma estalagem com ela, de modo que não podia chamar de honra ou dever. Instinto protetor, talvez? Pena? Pura curiosidade? Ele sabia uma coisa. Não eram os malditos quinhentos guinéus. Do baú, ela tirou um rolo grosso de alguma coisa branca.
- O que você tem aí? - perguntou ele.
- Roupa de cama. Eu é que não vou dormir em cima disso. - Ela indicou o colchão sujo de palha e percevejos.
Enquanto Edward observava, Isabella abriu o rolo sobre o colchão afundado, esticando-se para abrir o lençol branco e limpo e estendê-lo até os quatro cantos da cama. Edward notou que as bordas do lençol estavam muito bem costuradas, e traziam um desenho bordado que ele não conseguiu entender. Isabella pegou um segundo rolo. A colcha, ele deduziu. Esta também possuía o mesmo desenho na borda. No centro havia um brasão esquisito, arredondado, do tamanho de uma roda de charrete. Enquanto ela alisava os vincos, ele inclinou a cabeça e ficou admirando o brasão. O bordado cuidadoso delineava algum tipo de espiral.
Parecia uma concha de caracol cortada ao meio, mas o interior estava dividido em dezenas de câmaras intricadas.
- Isso é um nautilus? - perguntou ele.
- Chegou perto, mas não. É um amonite.
- Um amonite? O que é um amonite? Parece o nome de algum povo do Velho Testamento que passou por uma matança.
- Amonites não são um povo bíblico. - respondeu ela em tom de paciência esgotada. - Mas eles foram matados.
- Mortos.
Batendo no lençol, ela o fuzilou com o olhar.
- Mortos?
- Gramaticalmente falando, acho que a palavra que você quer usar é 'mortos'.
- Cientificamente falando, a palavra que eu quero usar é 'extintos'. Os amonites estão extintos. Nós só os conhecemos através de fósseis.
- E roupas de cama, aparentemente.
- Sabe de uma coisa... - Ela soprou para o lado um cacho que estava pendurado na frente de seu rosto. - Você podia me ajudar.
- Mas eu gosto de observar. - disse ele, só para atormentá-la. Apesar disso, ele pegou a borda do lençol de cima e passou os dedos pelo bordado enquanto o esticava. - Você que fez isto?
- Sim. - A julgar pelo tom de voz dela, não foi um trabalho feito com amor. - Minha mãe sempre insistiu, desde que eu tinha doze anos, que eu passasse uma hora por dia fazendo bordados. Ela fazia com que nós três sempre bordássemos coisas para nosso enxoval.
Enxoval. A palavra o atingiu de modo estranho.
- Você trouxe seu enxoval?
- É claro que eu trouxe meu enxoval. Para criar a ilusão de uma fuga, é óbvio. E no meio dele foi o lugar mais lógico para guardar a Francine. Todos esses rolos de tecido macio formam uma boa camada de proteção.
Alguma emoção o atingiu, mas foi embora antes que ele a pudesse identificar. Culpa, talvez. Aqueles lençóis deviam embelezar o leito matrimonial de Isabella, e lá estava ela guarnecendo um colchão manchado, cheio de percevejos, em uma decadente estalagem.
- De qualquer modo... - ela continuou. - Quando minha mãe me obrigou a bordar, eu insisti em escolher um padrão que me interessasse. Eu nunca entendi por que as garotas têm sempre que usar flores e laços insípidos.
- Bem, só para arriscar um palpite... - Edward endireitou a borda da colcha. - Talvez seja porque dormir em um leito de flores e laços pareça encantador e romântico. Enquanto deitar na cama com um caracol marinho primitivo parece nojento.
Ela cerrou a mandíbula.
- Fique à vontade para dormir no chão.
- Eu falei nojento? Quis dizer encantador. Eu sempre sonhei em ir para a cama com um caracol marinho primitivo.
Ela não achou graça.
- Eu trabalhei muito nisto aqui. Os cálculos foram complicados. Eu contei centenas de pontos para fazer corretamente cada uma das câmaras. - Ela passou a ponta do dedo por cima dos fios bordados, acompanhando a espiral que nascia no centro. - Não se trata de um desenho ao acaso, sabia? A natureza segue princípios matemáticos. Cada câmara da concha do amonite é maior que a anterior, obedecendo um expoente preciso, imutável.
- Sei, sei. Eu compreendo. É um logaritmo.
Ela ergueu a cabeça rapidamente, então ajeitou os óculos e olhou para ele.
- Sabe... Esse desenho está começando a me atrair, afinal. Caracóis marinhos não são nem um pouco excitantes, mas logaritmos... eu sempre achei que essa palavra parece bem safada. Ele rolou a palavra na língua com inflexão obscena, acariciando-a, testando o efeito sobre o corpo de Isabella. - Logaritmo.
E estremeceu exageradamente.
- Ooh. Obrigado, eu quero mais. - ele sorriu ainda com malícia.
- Muitos termos matemáticos dão essa impressão. Acho que é porque todos foram inventados por homens. 'Hipotenusa' é completamente lascivo.
- 'Quadrilátero' me traz imagens bem carnais à mente.
Isabella ficou em silêncio por um longo momento. Então ela arqueou uma das sobrancelhas.
- Não tanto quanto 'rombo'.
Bom Deus! Aquela era uma palavra perversa. Ouvi-la pronunciando 'rombo' fez coisas perversas com ele. Edward tinha que admirar a forma como ela não se acovardava frente a um desafio, pelo contrário, fazia uma observação nova e surpreendente. Um dia ela transformaria algum felizardo em um amante muito criativo. Ele riu, procurando afastar a repentina onda de desejo.
- Nós temos as conversas mais estranhas.
- Esta conversa é mais que estranha. É absolutamente chocante.
- Por quê? Por que eu entendo o princípio de um logaritmo? Eu sei que você procura falar comigo usando palavras curtas e simples, mas eu tive a melhor educação que a Inglaterra pôde oferecer a um jovem aristocrata. Frequentei Eton e Oxford.
- Eu sei, mas... por algum motivo, nunca imaginei você tirando notas altas em matemática. - Ela levou as duas mãos às costas e começou a abrir os fechos do vestido. Como se tivesse esquecido que Edward estava ali, ou não sentisse vergonha de se despir na frente dele.
Edward sentiu que deveria fazer uma marca no pé da cama. Certamente aquela noite sinalizava a conquista de um novo nível em sua carreira de amante. Nunca antes ele havia convencido uma mulher a tirar a roupa falando de matemática. Nunca antes ele pensou em tentar isso. Afrouxando sua própria gravata, ele disse:
- Na verdade, eu não tirei notas altas em matemática. Eu poderia ter tirado, mas fiz questão de não tirar.
- Por quê?
- Está brincando? Ninguém gosta de garotos que vão bem em matemática. Coisinhas entediantes e pretensiosas, sempre curvadas sobre seus cadernos. Todos têm quatro olhos e nenhum amigo.
Ele estremeceu quando percebeu o que tinha dito. Mas já era tarde demais. Ela ficou tensa, os braços dobrados no ato de tirar o vestido. Toda diversão fugiu de seu rosto. Ela fungou e olhou para o canto do quarto. Droga, ele sempre a magoava.
- Bella, eu não quis dizer...
- Vire-se. - disse ela, acenando com indiferença. - Está tarde e eu estou cansada. Poupe-me dos pedidos de desculpa e vire-se enquanto eu tiro a roupa. Eu aviso quando meus quatro olhos pretensiosos estiverem debaixo do caracol marinho nojento.
Ele fez o que ela pediu e se virou para a parede. Enquanto soltava os punhos da camisa, ele tentou ignorar os sons de tecido farfalhando. Não funcionou. Ele não conseguiu evitar que sua imaginação pegasse fogo e pintasse, quadro após quadro, Isabella largando seu vestido no chão e soltando os laços de seu espartilho. Ele ouviu uma respiração aliviada e um arrepio percorreu sua coluna quando reconheceu aquele som como o suspiro excitante que uma mulher solta quando liberta seus seios no fim do dia. O sangue correu para sua virilha e ele sufocou seu próprio suspiro. Ele era um homem, Edward disse a si mesmo. Havia uma mulher despida no quarto. Sua reação física era inevitável. Aquilo era biologia simples. Pássaros sentiam o mesmo. Abelhas sentiam o mesmo. Até caracóis marinhos primitivos sentiam o mesmo.
Ele ouviu o som de salpicos de água vindos do lavatório enquanto Isabella passava um pano molhado por cada uma de suas curvas nuas e sensuais. Sério, ela estava simplesmente o torturando. E ele merecia. Edward ouviu a cama ranger.
- Você pode se virar agora.
Ele se virou, esperando encontrá-la debaixo das cobertas e virada para a parede. Em vez disso, ela estava deitada de lado, olhando diretamente para ele.
- Eu vou me despir. - disse ele. - Você não quer virar para lá?
- Acho que não. - Ela apoiou a cabeça na mão. - Eu nunca vi um homem nu. Pelo menos não um de verdade, ou de perto. Digamos que você vai saciar minha curiosidade científica. - Ela endureceu o olhar. - Ou digamos que isso serve como pedido de desculpas, se você preferir.
Ah, ela era realmente inteligente. Então ele iria pagar por todas as provocações e os insultos impensados sendo humilhado nu. Até Edward tinha que admitir; a punição era justa.
- Eu ficaria mais do que feliz em deixar você admirar minha perfeição física em sua totalidade. Mas apenas se eu também puder ver você. - Ao silêncio chocado de Isabella, ele completou: - É uma questão de justiça. Olho por olho.
- De que forma isso é justo? Você já viu centenas de tetas.
Maldição, a forma como ela disse aquela palavra. Com tanta tranquilidade, sem quaisquer melindres... logo quando ele estava recuperando o controle sobre si mesmo, ela o deixa instantaneamente excitado, latejante.
- Eu não sei por que você precisa espiar as minhas. - continuou ela. - E já que você exibiu orgulhosamente seu... negócio... diante de metade das mulheres da Inglaterra, acho estranho que agora você tenha pudores.
- É verdade. - disse ele calmamente. - Eu fui abençoado com a visão de muitos e maravilhosos seios em minha vida. Mas cada par é diferente, e ainda não vi os seus.
Ela se encolheu nos lençóis, curvando-se como uma concha.
- Eles não têm nada de mais, pode ficar tranquilo.
- Eu irei avaliar isso.
Ela ergueu o queixo.
- Muito bem. Esta é minha melhor oferta. Metade da minha nudez pela sua completa.
Ele fingiu pensar a respeito.
- É uma pechincha.
Sentando na cama, ela desabotoou a parte da frente da camisola. Então ela tirou cada uma das mangas, cuidadosamente protegendo os seios com as pernas dobradas. Seus antebraços estavam levemente queimados pelo sol, mas os ombros eram pálidos, curvas brancas de graça. Depois de se despir até a cintura, ela debruçou-se na parede, cobrindo o corpo com os joelhos, e o desafiou.
- Você primeiro.
Ele puxou a camisa pela cabeça e a jogou de lado. Então desabotoou a calça e a deixou cair sem cerimônia. Bem, não totalmente sem cerimônia. Houve uma certa comemoração. Sua ereção, que crescia rapidamente, fez de tudo para chamar a atenção, sobressaindo-se entre seus pelos curtos e escuros. Exigindo atenção, de um modo travesso e constrangedor. Isabella se arrepiou com a onda que a atravessou, olhando aquele homem por completo, em toda sua gloriosa e poderosa extensão.
- Agora você. - disse ele.
Cumprindo sua palavra, ela baixou os joelhos e revelou o tronco nu.
E os dois ficaram se observando... ela tinha razão, pensou ele. Seus seios não tinham nada de muito extraordinário. Para começar, eram dois. O número normal. Eles eram redondos e um pouco mais cheios que a média, encimados por mamilos salientes. O quarto estava escuro demais para que ele discernisse o tom exato daquelas protuberâncias, mas ele não era exigente. Cor-de-rosa, de morango, de vinho, marrons... todos tinham o mesmo gosto no escuro. Não... os seios dela, embora atraentes, não eram empiricamente mais ou menos atraentes do que a maioria dos peitos que ele já tinha visto. Mas o que tirava o fôlego dele era a totalidade dela. O quadro que ela compunha, sentada ali, seminua, em um ninho amarfanhado de lençóis brancos. Seus cabelos escuros jogados pelos ombros, e aqueles óculos empoleirados – atraentemente tortos – na ponta do nariz. Aqueles lábios suculentos, cor-de-ameixa, ligeiramente entreabertos. Ela parecia uma lembrança interrompida. Um sonho tórrido. Ou, talvez, uma visão do futuro.
Pare. Não pense nessas coisas.
- Obviamente ele não é sempre assim... Ou é? - perguntou ela, inclinando-se para a frente e observando com atenção.
- Assim como?
- Tão... grande. E ativo.
Seu membro pulsou novamente, ansioso, como um cachorro mal treinado.
- Você fez isso de propósito? - perguntou ela, parecendo admirada.
Ah, as coisas tortuosas que, de repente, Edward queria fazer de propósito. Com propósito. Com o propósito explícito de fazer aqueles óculos embaçarem e ela gemer de absoluto prazer.
- Eu não vou seduzir você. - disse ele.
Depois de um instante, ela sacudiu rapidamente a cabeça e voltou seu olhar para o rosto dele. Com a ponta do dedo, ela empurrou os óculos, ajustando-os no nariz.
- Desculpe, acho que não entendi.
- Eu não vou seduzir você. - repetiu ele. - Não esta noite, nem nunca. Eu achei que devia dizer isso.
Ela ficou parada, olhando para ele.
- Eu falei pra valer, naquela noite no castelo... A respeito de não arruinar garotas inocentes. Sabe, eu tenho regras.
- Você tem regras para as mulheres que seduz?
- Não, não. Para mim mesmo.
- Então há uma... etiqueta para a libertinagem. Uma espécie de código de honra do sedutor. É isso o que você está me dizendo?
- De certa forma. Sabe, o sujeito medíocre, que simplesmente se dispõe a levar para a cama as garotas que lhe atraem... bem, ele não precisaria de regras, acho. Mas quando um homem determina para si mesmo nunca passar uma noite sozinho... isso envolve um conjunto de diretrizes. Acredite ou não, eu tenho alguns princípios.
- E essas regras são...?
- Elas começam com boas maneiras, é claro. Dizer 'por favor' e 'obrigado', e aderir ao ditado 'mulheres primeiro'. Não tenho preferência sobre locais, mas tenho algumas restrições a cordas e lenços.
Ela ficou de boca aberta.
- Cordas e...
- Não tenho restrições quanto a amarrar, mas não aceito ser amarrado. Além disso... - Ele foi enumerando seus limites com os dedos. - Nada de virgens. Nada de prostitutas. Nada de mulheres em aperto financeiro. Nada de irmãs de ex- amantes. Nada de mães de ex-aman...
- Mães? - guinchou Isabella.
Ele deu de ombros. Havia uma história bem engraçada por trás dessa regra.
- Escute. - disse ele. - Não é importante que você saiba todas as regras. A questão é que eu tenho algumas. Como já expliquei, seduzir você quebraria algumas delas. Então, não vai acontecer. E eu pensei que seria melhor abordar esse tópico agora, enquanto estou aqui nu. Porque se eu puxasse esse assunto em qualquer outro momento, você poderia se sentir ofendida, pensando que não me sinto atraído por você. - Ele indicou sua ereção túrgida, ridiculamente otimista. - Como você pode observar, muito bem, não se trata disso.
Ela ficou em silêncio por vários segundos. Observando...
- Você tem razão. - disse ela para o membro dele. - Nós temos as conversas mais estranhas.
Ele esfregou o rosto com as duas mãos e soltou lentamente um suspiro profundo.
- Não é tarde demais para você salvar a sua reputação, sabia? Eu poderia levar você agora mesmo para a casa de Jasper e Alice aqui em Londres, e você poderia enrolar esses lençóis e guardá-los para um momento mais oportuno. Você sabe, com um homem que saiba apreciar totalmente... todo trabalho que você investiu nisso. A importância. Eles fazem parte do seu enxoval. Deveriam ser usados em um momento especial.
Se os dois continuassem sozinhos naquele quarto – uma donzela e um famoso devasso – não teria diferença o que eles – efetivamente – fizeram naqueles lençóis bordados. Mesmo que a roupa de cama continuasse intocada pelo suor dos dois, ou pela semente dele, ou pelo sangue de virgem dela, estaria arruinada. Impossibilitada de se casar na boa sociedade.
Ela rolou e ficou deitada de costas, olhando para o teto.
- Agora já era, não?
Ele afastou o surto de culpa, lembrando-se de que toda a viagem era ideia dela, e ela sabia muito bem quais eram as consequências. Ela fez a cama, e agora estava deitada nela. Edward iria se deitar com ela. Esse era o acordo.
- Eu sempre durmo sobre as cobertas. - disse ele, sentando na beira do colchão. - Então, desde que você fique embaixo delas...
- Haverá algo entre nós dois.
Algo. Sim. Algo com a espessura de uma folha de bétula. Enquanto ele olhava para o teto, a lembrança dos seios dela parecia continuar ali, no escuro. Como duas luas cheias, aveludadas, montadas nos caibros do telhado, tentando Edward a tocá-las. Saboreá-las. Ele sabia que não devia estender a mão na direção da miragem, mas seu membro ingênuo latejava e arqueava, esperançoso. Ele fechou os olhos e tentou pensar nas coisas menos excitantes que podia imaginar.
Aranhas com pernas peludas. Cabaças esburacadas, compridas, que o faziam pensar em genitália com sífilis. Ervilhas esmagadas. Cheiro de poeira e cera de pessoas velhas. Então, uma imagem totalmente diferente surgiu em sua cabeça.
Uma que o fez rir em voz alta.
- O que houve? - A voz dela parecia sonolenta. Ele a invejou por isso.
- Nada. - disse ele. - Estou apenas imaginando a reação de sua mãe neste momento.
Só eu acho meio absurdo essa troca de observações? Apesar de ser o Edward, ela consegue se manter curiosa e cheia de "vamos analisar a situação, o espécime, o objeto" kkkkk Estranho demais!
Bom, aqui pelo tráfego, tenho uma ideia de quantas pessoas visitaram a fic, e o número é sempre igual ou maior que o capítulo anterior. Como ainda continuam sumidinhas, postarei um único capítulo normalmente. A proposta continua em pé: Se aparecerem pessoas novas, haverá dois capítulos de uma só vez.
Beijocas!
