Personagens de Stephenie Meyer. História de Tessa Dare.


CAPÍTULO NOVE

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"Nós dois temos pele, nós dois temos mãos. E lábios"

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- E essa... - Edward bateu seu garfo no prato vazio em que comeu seu jantar. - ...é a história da cobra.

Todos os Fontley voltaram o olhar para ele e, em seguida, admiraram Isabella. Esta olhou para o "irmão".

- Não sou uma encantadora de serpentes.

- É claro que não. Encantadores de serpentes precisam de uma flauta. - Ele se virou para os Fontley. - Estou lhes dizendo, ela encantou a criatura apenas com sua doce voz. O bicho não saía do lado dela, o dia todo. Aquela coisa escamosa deslizava acompanhando os passos da minha irmã por todo Ceilão. Nós a transformamos em animal de estimação, e a batizamos Sir Jacob Black.

Por baixo da mesa, algo pontudo acertou sua coxa. Ele disfarçou seu ganido de dor com uma tosse. Edward sabia que mais tarde pagaria por isso, mas ele não conseguia deixar de provocá-la. Nunca pôde resistir à tentação, desde que se conheceram. Naquele dia, mais do que em qualquer outro, Edward queria puxá-la, tirá-la de dentro dos limites que Isabella havia imposto a si mesma. Ele queria ser surpreendido. E mais do que isso, ele queria manter a atenção nela. Porque se lhe desse a chance de direcionar a conversa, Edward sabia que Isabella a voltaria para uma direção desagradável. Uma que envolveria a noite anterior. Ele não queria discutir aquela noite. À sua própria e reservada maneira, ele contou para Isabella tudo o que ela precisava saber. Tanto quanto havia contado para qualquer outra pessoa.

- Srta. Masen. - disse Seth Fontley. - Como nós podemos convencê-la a cantar?

- Vocês não podem. - Seus olhos cintilaram com o choque.

- O Sr. Fontley gosta muito de música. - disse a mãe deles, tocando o braço do marido. - Assim como eu. Srta. Masen, gostaríamos tanto de ouvi-la. Faça-nos esse favor, querida. Ali adiante tem um piano.

- Mas... - Ela engoliu em seco e disse, a voz fraca: - Eu não posso.

Edward observou Isabella enquanto ela avaliava a lotada sala de jantar da estalagem. Em uma vila pequena daquelas, esse salão servia também como taverna local. Havia um pouco mais de trinta pessoas no lugar, que se dividiam entre viajantes que só passariam a noite e moradores da vila que tomavam uma cerveja com os amigos. Uma aglomeração razoável. A jovem Srta. Lettie reforçou a campanha.

- Oh, por favor, Srta. I. Cante para nós.

- Vamos lá, I. - disse alegremente Edward, que nunca teve a intenção de ajudá-la nesses apuros. - Apenas uma ou duas músicas.

Isabella comprimiu os lábios.

- Mas irmão, você sabe que eu desisti de cantar. Depois daquele incidente horrível com o... milípede e o coco e os... rubis roubados. - Antes que ele pudesse pedir detalhes, ela se apressou para acrescentar: - Coisa que nós juramos, no túmulo de nossos pais, nunca, jamais discutir.

Ele sorriu. Ela estava pegando o espírito da coisa.

- É verdade. Mas hoje é meu aniversário. E você sempre faz uma exceção no meu aniversário.

- Você sabe muito bem que não...

- É seu aniversário, Masen? - O Sr. Fontley exclamou por cima da voz de Isabella. - Ora, por que não falou antes? Vamos beber à sua saúde. - O cavalheiro chamou a moça que os atendia e lhe pediu xerez.

Enquanto os copos eram passados, Isabella disse, severa:

- Mas irmão, você nunca bebe.

- Eu só bebo no meu aniversário. - Ele ergueu o copo, brindando, e bebeu.

Edward a ouviu rosnar.

- Você não vai cantar, Srta. I? - pediu Lettie novamente. - Eu gostaria tanto de um pouco de música. E é aniversário do Sr. Masen.

Logo todos os Fontley se juntaram ao pedido. Ela se virou para ele, os olhos escuros transmitindo um pedido desesperado de ajuda.

- Edward. - ela disse simplesmente. Não me obrigue a fazer isso.

Ele sentiu uma dor na consciência, mas decidiu não interferir. Edward reconheceu aquela expressão nos olhos dela. Seus olhos sempre assumiam aquele brilho desesperado pouco antes de ela fazer algo extraordinário.

- Tudo bem. Vou cantar.

Ela ergueu o copo de xerez à sua frente, esvaziou-o de um gole, e o pôs sobre a mesa com um tilintar decisivo. Então ela apoiou as duas palmas das mãos na mesa e empurrou a cadeira, colocando-se em pé. Em passos lentos, mas determinados, Isabella caminhou até o piano. Ela retirou os óculos e os segurou dobrados. Em seguida, ela colocou um dedo sobre uma única tecla do piano e a apertou. Fechando os olhos, ela solfejou a nota. Então, ela abriu a boca e cantou.

Ora... Ela cantou muito, muito bem.

Surpresa!

O salão lotado ficou rapidamente em silêncio. Edward praticamente podia ouvir os queixos caindo. A canção escolhida por Isabella era uma balada antiga e conhecida. Nenhuma escala exigente nem trinados operísticos. Somente uma melodia simples, direta, que combinava com sua voz clara e lírica. Não era música adequada a um concerto, nem mesmo ao salão das mulheres de Spindle Cove. Mas era perfeita para uma pequena estalagem do interior. O tipo de canção que não fazia dançar, que não pretendia encantar o ouvido nem entreter a mente, mas que ia direto para os sentidos. E para o coração...

Bom Deus. Era uma coisa boba de pensar – e ainda mais de dizer –, mas a música que Isabella cantava era uma flechada certeira em seu coração. Não havia escapatória. Edward estava encantado. Encantado como uma cobra do Ceilão. Mais do que isso, ele estava orgulhoso. Quando os amantes cantados na balada encontraram seu final trágico, e a multidão irrompeu em aplausos entusiasmados, Edward aplaudiu com os outros.

- Essa é a minha garota. - murmurou ele.

Embora não fosse, na verdade. Ele não tinha nenhum direito sobre ela. E pensar que durante todo esse tempo – cada dia que ele residiu em Spindle Cove – Isabella guardou aquilo dentro dela. Aquela música magnífica, que mexia com a alma. A coragem de cantá-la diante de uma multidão de estranhos. A gentileza de acalmá-lo durante a noite, enquanto ele se arrastava de volta do inferno. Como é que ele nunca tinha visto aquilo? Como é que nunca soube disso?

Os Fontley – assim como todo mundo ali – gritaram pedindo mais uma música. Isabella balançou a cabeça, mostrando relutância.

- Só mais uma! - Edward gritou para ela com as mãos em volta da boca. - Cante a minha favorita.

Ela o fuzilou com um olhar de paciência esgotada, mas cedeu. Outra tecla foi pressionada. Outra nota solfejada. Outro momento de pura revelação. Ela o aqueceu. A canção, e a atenção. Sua voz ganhou força e confiança. Ela cantou com os olhos abertos, e diretamente para Edward. Bem, ele pediu, não foi mesmo? E aquele foi o melhor presente de aniversário-de-mentira que ele já havia recebido. Aqueles lábios maduros e suculentos o dominaram. Cada vez que ela inspirava rapidamente em meio aos versos, seus seios pulavam, chamando a atenção de Edward. Se a primeira música lhe tocou o coração... bem, a segunda o atingiu um pouco mais abaixo.

Ocorreu a Edward que, provavelmente, ele deveria se esforçar para não ser pego babando pela própria "irmã", mas um olhar rápido pelo salão lhe mostrou que ele não era o único homem por ali que havia sido afetado. Seth Fontley, em especial, ficou muito mal. Sem tirar os olhos de Isabella, o jovem se inclinou na direção de Edward.

- Sr. Masen, você acha que é possível se apaixonar em apenas um dia?

Edward sorriu ao pensar que aquele pobre menino nunca teria chance com alguém como Isabella.

- Eu não saberia dizer. Eu só me apaixono à noite. E nunca dura além do café da manhã.

- M-Mas... - Seth lhe deu um olhar confuso. - M-mas... Mas eu pensei que você...

- Todos temos nossos demônios, Seth. - Ele bateu no ombro do jovem e se aproximou. - Um conselho, apenas. Atenha-se ao seio da Igreja.

Isabella terminou sua balada e dessa vez Edward percebeu que nenhuma quantidade de aplausos ou pedidos a convenceria a cantar novamente. Mesmo quando todos no salão se puseram em pé, gritando palavras de encorajamento, ela simplesmente recolocou os óculos e iniciou seu trajeto de volta à mesa.

Edward afastou sua cadeira e pretendia receber Isabella com alguns elogios sinceros. Mas quando ela começou a cruzar o salão de volta, um homem de barba malfeita, segurando uma caneca de cerveja, se colocou no caminho dela. Ele começou algum tipo de conversa com Isabella. Com todo o barulho do local, Edward não conseguiu entender o que eles diziam, mas ele não precisava ouvir as palavras para compreender o que estava acontecendo. Aquele indivíduo nojento queria Isabella. E ela não queria nada com o indivíduo nojento. O brutamontes colocou uma pata suja no braço dela, e Isabella cambaleou numa tentativa de se livrar dele. Seus óculos ficaram ligeiramente tortos. Aquele pequeno detalhe – evidência do incômodo dela – foi o suficiente para fazer Edward ver vinte tons de vermelho.

E ele se pôs na direção dos dois, com sede de sangue.

- Senhor, por favor me solte. - Isabella puxou o braço do aperto do brutamontes. A respiração dele tresandava a alho e cerveja. E o corpo dele cheirava a... outras coisas que é melhor nem identificar.

- Só mais uma música, meu amor. - Ele a segurava pelo cotovelo com uma mão, enquanto tocava na cintura dela com a outra. - Venha sentar no meu colo para me dar uma exibição particular.

A mão dele roçou no traseiro dela. Isabella recuou. Ela se sentiu suja. Outras mulheres talvez soubessem como se livrar desse tipo de atenção indesejável, mas não era o caso dela. Aquilo nunca havia acontecido com ela. Então ela viu Edward abrindo caminho em meio ao salão lotado. O caminhar dele era quase tranquilo, despreocupado. Mas quando ele se aproximou, Isabella reparou em seu rosto tenso e na fúria gélida em seus olhos, que haviam se tornado quase negros como um caçador sombrio, sedento por sangue.

Ele cutucou o bêbado com o braço.

- Com licença, mas você está com a mão na minha mulh... irmã!?

O grandalhão se endireitou e adotou um tom afetado, aristocrático.

- Eu acredito fortemente que sim, chefe.

- Muito bem. - Edward o agarrou pelo ombro. - Esta é minha mão em você.

Em seguida, acertou um soco com toda força na barriga do sujeito. Que foi acompanhado por um golpe violento no rosto. Isabella levou as mãos à boca, cobrindo seu grito de espanto.

O homem nem mesmo cambaleou ou piscou. Ele simplesmente foi ao chão. Com tudo. Levando consigo uma mesa inteira, com todos os copos que estavam sobre ela. Os sons de vidro estilhaçando e madeira rachando foram ouvidos em todo o salão, e chamaram a atenção de todos. Edward ficou em pé diante do brutamontes caído, e sacudiu a mão enquanto ofegava. A expressão em seu rosto era de fúria quase incontida.

- Não toque nela. - disse ele, a voz fria como aço, cuspindo palavras como se fossem ácido. - Nunca.

Ele segurou o cotovelo de Isabella e, com um aceno na direção dos Fontley, a tirou do lugar. Depois que saíram, o caos explodiu no salão. Ela estremeceu com os sons de cadeiras arranhando o chão e vozes iradas discutindo. Ela ouviu o Sr. Fontley gritar distintamente:

- Como você teve coragem de molestar aquela jovem?

E então a voz fraca de Seth.

- Você irá queimar no inferno por isso. Ela é uma mulher de Deus.

Os dois pararam no primeiro degrau da escada e irromperam simultaneamente em risos.

- É melhor nós subirmos. - disse ela.

- Você está bem? - perguntou Edward, fazendo com que Isabella parasse, já no corredor dos quartos. Seu olhar a vasculhou dos pés à cabeça. - Ele machucou você de algum jeito?

- Não. Não, obrigada. - Ela engoliu em seco. - E você?

Edward abriu a porta.

- Melhor aniversário que eu já tive.

Rindo eles entraram na suíte. Enquanto Isabella foi acender a luz, Edward se deixou cair sobre uma cadeira.

- Você é inacreditável.

- Vamos lá. - Ele sorriu para ela. - Admita. Foi divertido.

Ela sentiu o canto da boca querendo sorrir.

- Eu... eu nunca faço esse tipo de coisa.

- Você nunca faz o quê? Canta baladas em uma taverna? Inspira brigas entre homens?

- Nada disso. Eu nunca faço nada disso. Eu nunca faço nem mesmo isto. - Ela pegou a mão de Edward, que ficou sob a luz, e momentaneamente esqueceu o que iria dizer quando viu o machucado ali. - Oh, você está sangrando.

- Não é nada. É só um arranhão.

Talvez fosse, mas Isabella correu para pegar a bacia e o sabão. Ela precisava de algo para fazer. Do contrário, aquela energia que a agitava poderia ser extravasada de outras maneiras – bem mais perigosas. Enquanto recolhia os materiais, suas mãos tremiam. Aquele homem era o diabo. O caos personificado. Ela nunca sabia que história ele inventaria ou que decisão imprudente tomaria. Ao longo daquela viagem, ele poderia pôr tudo a perder – sua reputação, sua segurança e sua posição da sociedade científica.

Talvez até mesmo seu coração. Mas ela tinha que admitir... ele tornava tudo mais divertido.

Voltando à mesa com um lenço limpo, ela examinou o ferimento mais de perto. Ele tinha razão, era apenas um arranhão ao longo dos nós dos dedos. Mas ele se feriu enquanto a defendia. Isabella quis beijar aquela mão machucada e valente. Mas ela se contentou em apenas limpá-la com o lenço molhado. Isabella tocou o anel de sinete de Edward.

- Aposto que aquele homem vai exibir o brasão da sua família na bochecha durante semanas.

Edward riu baixo.

- Ótimo. Ele merecia coisa muito pior.

- Ainda não acredito na facilidade com que você o derrubou. - disse ela. - E ele era tão grande. Onde você aprendeu a lutar desse jeito?

- Aulas de boxe. Todos os homens de Londres são malucos por boxe. Começou com o Cavalheiro Jackson. Mas a verdadeira pergunta é... - Sua voz ficou mais profunda. - Onde você aprendeu a cantar daquele jeito?

- Que jeito? - Ela manteve a cabeça baixa, examinando as articulações dos dedos de Edward.

- Daquele... jeito. Faz mais de seis meses que moro em Spindle Cove, e estive presente em inúmeros daqueles malditos saraus, para não falar de todas as reuniões informais na pensão. E da Igreja, aos domingos. Ouvi Rosalie cantar muitas vezes. Ouvi Charlotte cantar várias vezes. Pelo amor de Deus, eu até ouvi sua mãe cantar. Mas nunca você.

Ela deu de ombros enquanto rasgava uma faixa de tecido.

- Eu não sou uma cantora talentosa. Tudo que eu sei são as baladas que aprendi quando era garota. Depois que cresci, passei a evitar as aulas de música sempre que possível. Eu detestava a chateação de ter que ficar praticando.

- Não posso acreditar que cantar seja uma chateação para você. E também não dá para acreditar que nunca pratica, pois as palavras saíram com muita facilidade para você.

Isabella sentiu que enrubescia. Ela, na verdade, praticava quando ninguém estava por perto. Ela cantava para si mesma quando saía em seus passeios. Mas como cantar para si mesma parecia tão esquisito quanto ler caminhando, não era algo que ela admitiria para Edward.

- Eu deixo a cantoria para Rosalie.

- Ah... Você não quer ofuscar sua irmã.

Ela riu.

- Como se eu pudesse ofuscar Rosalie.

- Rosalie é brilhante, eu acho. Cabelo dourado, pele luminosa. Alegre. Totalmente radiante. Talvez você não possa mesmo ofuscar Rosalie. - Ele inclinou a cabeça e a observou de outro ângulo. - Mas Bella? Você pode cantar melhor que ela... - aposto que fazer muitas outras coisas ainda melhores.

- Somos irmãs, não concorrentes.

Ele emitiu um som de pouco caso.

- Todas as mulheres são concorrentes, e as irmãs mais que todas. Mulheres estão sempre buscando uma posição melhor, medindo-se contra suas semelhantes. Você não sabe a frequência com que me pedem para comentar qual mulher é a mais bonita, inteligente, talentosa, qual a melhor dançarina... e quem pede essas opiniões? Sempre mulheres, nunca homens. Os homens não se importam. Não com essas comparações, ao menos.

Ela o fitou, desconfiada.

- Que comparações os homens fazem?

- Vou responder isso em outra oportunidade. Quando eu não estiver sangrando e em desvantagem.

Isabella apertou o curativo.

- Nós não estamos falando de jovens ambiciosas da sociedade. Estamos falando da Rosalie. Eu amo minha irmã.

- Ama o bastante para esconder seu único talento para que ela não sofra com a comparação?

- Meu único talento? - Ela apertou ainda mais a atadura, e ele fez uma careta de dor. - Esse não é meu único talento, não é nem mesmo meu melhor talento.

- Ah. Agora estou entendendo. - Ele protegeu a mão com o curativo. - Você é tão competitiva quanto as outras. Só que está competindo por um título diferente. O de menos atraente, menos simpática. O de mulher menos casadoura.

Ela piscou, surpresa. Certamente que suas palavras eram para provocá-la, mas soaram bastante verdadeiras.

- Talvez eu esteja, mesmo. - Ela dobrou o tecido que restou e o colocou em seu baú. - Estou comprometida com meus estudos, e não sei se algum dia vou querer me casar. Pelo menos não com o tipo de homem que minha mãe gostaria. Então, sim, sempre me satisfiz deixando Rosalie ser a mais bonita, mais elegante e mais simpática. A melhor cantora. Ela pode ficar com todos os pretendentes.

Ele ergueu as sobrancelhas.

- A não ser eu.

- Você é um caso especial.

- Vou tomar isso como um elogio.

- Não deveria.

E ele não deveria olhar para ela daquele jeito. Tão intensamente. Penetrante.

- Por que você já não está casado? - exclamou ela. - Se você não quer dormir sozinho, o casamento parece ser a solução lógica. Você teria uma esposa ao seu lado todas as noites.

Ele riu.

- Você sabe quantos maridos e esposas efetivamente dormem na mesma cama depois da lua de mel?

- Alguns casamentos são arranjados, sem amor, eu sei. Mas há um bom número de enlaces amorosos. Não posso imaginar que você tenha dificuldade para fazer as mulheres se apaixonarem por você.

- Mas se eu casasse, teria que manter a mulher apaixonada por mim. Não qualquer mulher, mas uma em especial. Durante anos. E mais, eu teria que permanecer apaixonado por ela. Se por acaso eu encontrasse a mulher com quem me dispusesse a tentar isso – e ainda não encontrei, depois de anos procurando intensamente – como eu poderia ter certeza de conseguir isso? Você é a cientista. Diga-me. Como o amor pode ser comprovado?

Isabella deu de ombros.

- Imagino que isso tenha que ser testado.

- Bem, está aí sua resposta. Eu sempre sou reprovado nos testes.

Isabella olhou com pena para ele.

- Sei, é claro. Nós dois sabemos que é por isso que você nunca teve notas boas em matemática. Não tem nada a ver com falta de esforço. Você simplesmente não se sai bem em testes.

Ele não respondeu. Edward simplesmente se recostou na cadeira, colocou as mãos atrás da cabeça e olhou para ela com uma expressão inescrutável. Se aquele era um olhar de aborrecimento, admiração ou raiva, Isabella não sabia dizer. Suspirando, ela se levantou.

- É melhor nós dormirmos.

A suíte tinha dois quartos interligados – para manter as aparências para os Fontley. Mas ambos sabiam que só usariam um quarto. Ela cruzou o aposento e começou a desabotoar sua jaqueta. Isabella sentiu os olhos de Edward nela enquanto tirava a peça dos ombros, puxava os braços das mangas e a colocava de lado. Ele não tinha educação o bastante para olhar para outro lado? Seu corpo se aqueceu sob a avaliação dele, ficando leve e quente como as cinzas que dançam no ar fumacento. Ela se virou para o outro lado e levou as mãos às costas para soltar os fechos de sua roupa.

- Permita-me. - disse ele, aparecendo repentinamente às suas costas.

Ela ficou paralisada por um instante, tomada pelo instinto de se afastar. Mas aquele vestido tinha fechos difíceis. Seria bom um pouco de ajuda.

- Apenas os ganchos.

Afastando algumas mechas de cabelo, ele começou na base de seu pescoço. Edward foi soltando os ganchos lentamente, um a um. Ela cruzou os braços à frente do peito, para manter o vestido no lugar quando o decote começou a ceder.

- Como você sabia? - perguntou ele, sua voz era um murmúrio suave que soprava em sua nuca.

- Sabia o quê?

- 'Barbara Allen.' Como você sabia que é minha balada favorita? - A intimidade rouca na voz dele a perturbou.

- Não é a favorita de todo mundo?

A risada breve na resposta de Edward foi calorosa e autêntica.

- Será que acabamos de encontrar algo em comum?

- Nós temos todo tipo de coisa em comum. - disse ela, sentindo a conhecida patetice crescendo. E lá veio ela, com a conversa-mole. - Nós dois somos humanos. Nós dois falamos inglês. Nós dois compreendemos o que é um logaritmo. Nós dois temos cabelos castanhos-avermelhados, dois olhos...

- Nós dois temos pele... - As pontas dos dedos de Edward roçaram o ombro exposto de Isabella, e a sensação se propagou pelo braço. - Nós dois temos mãos. E lábios.

Ela apertou bem os olhos. Isabella segurou a respiração por um longo momento, antes de perceber que estava se preparando para um beijo que não viria. Ela o xingou em pensamento, e xingou a si mesma. Ela precisava afastar de sua mente todos os pensamentos relativos ao beijo dele. Era só que... ela não conseguia parar de lembrar a forma como Edward a encarou enquanto ela cantava no salão. A forma como ele foi andando até ela, abrindo caminho pela multidão. A forma como ele derrubou aquele homem e sangrou por ela.

Isabella pigarreou e deu um passo à frente, ainda voltada para a parede.

- Obrigada por sua ajuda. Pode se virar, por favor?

- Já virei. - As tábuas do piso emitiram um breve rangido de confirmação.

Ela virou a cabeça, espiando o espelho para ter certeza. Ela quase desejou que ele também a procurasse com o olhar. Mas era evidente que ele vira o suficiente na noite anterior. Edward permaneceu de costas enquanto ela descia o vestido pelo corpo e saía de dentro dele. Quando estava só com a roupa de baixo, Isabella mergulhou sob as cobertas e virou o rosto para a parede.

- Está tudo bem agora. - disse ela.

- Bem. - Ele soltou uma exclamação de incredulidade. - Para quem?

Ela procurou fingir que dormia enquanto Edward se movia pelo quarto tirando os sapatos, pondo de lado relógio e abotoaduras. Atiçando o fogo. Fazendo todo tipo de barulho, sem se incomodar. Os homens nunca hesitam em declarar sua presença. A eles é permitido viver ruidosamente, em meio a batidas e estalos, enquanto as mulheres são sempre ensinadas a viver em sussurros abafados.

A cama rangeu alto quando ele deixou seu peso cair ao lado dela. Seu braço roçou suas costas. Aquele breve contato fez o corpo inteiro de Isabella zunir. Enquanto Edward se ajeitava na cama, ela permaneceu absolutamente consciente – clara e perfeitamente consciente – de cada parte dele. Cada parte dela. Em todos os lugares que seus corpos se tocavam, e em todos que não se tocavam.

- Você vai conseguir dormir? - perguntou ela depois de alguns minutos.

- No momento certo.

- Você quer conversar? - perguntou ela, voltada para a parede. Isabella se sentiu uma covarde, incapaz de se virar e olhar para ele.

- Prefiro ouvir você. Por que não me conta uma história para dormir? Uma que você leu quando criança.

- Eu não li nenhuma história quando era criança.

- Não acredito nisso. Você está sempre com o nariz enfiado em um livro.

- Mas é verdade. - disse ela em voz baixa. - Quando eu era criança, demorou muito para que percebessem meu problema de vista. Todo mundo pensava que eu era arteira, na melhor hipótese, ou idiota, na pior. Minha mãe me repreendia por franzir o rosto, por sonhar acordada. Rosalie estava sempre lendo contos de seus livros para mim, mas não importava o quanto ela tentasse, eu não conseguia aprender as letras. Nós tínhamos uma babá que cantava baladas enquanto fazia seu trabalho. Eu costumava ir atrás dela para escutar, e decorei o que pude. As canções foram minhas histórias. - Ela fechou os olhos. - Finalmente, uma governanta percebeu que eu precisava de óculos. Na primeira vez que eu os coloquei no rosto, nem consigo dizer o que senti... Foi como um milagre.

- Finalmente enxergar bem?

- Saber que eu não era um caso perdido. - Um caroço surgiu em sua garganta. - Eu acreditava que havia algo incurável e errado comigo, sabe. Mas de repente eu passei a ver o mundo com clareza. E não só as coisas distantes, mas tudo que estava ao meu alcance. Eu conseguia focalizar uma página. Eu conseguia explorar as coisas ao meu redor, descobrir novos mundos inteiros debaixo dos meus dedos. Eu conseguia ser boa em alguma coisa, para variar.

Isabella não sabia se ele entenderia, mas era por isso que o simpósio era tão importante para ela. Por isso que Francine era tudo. Foi por isso que, algumas manhãs atrás, ela abriu o baú que continha seu enxoval e trocou aquelas fantasias de noiva por objetivos novos, científicos. Ela nunca foi a filha que sua mãe desejava. Ela era diferente das irmãs, e havia se conformado com isso. Ela poderia suportar uma vida em que nunca seria uma dama elegante, de bom gosto... desde que alguém, em algum lugar, a respeitasse e admirasse por ser ela mesma. Isabella Swan, geóloga, erudita e... depois daquela noite, às vezes trovadora.

- Depois que aprendi a ler, não conseguiram mais me separar dos livros, e ainda não conseguem. Mas eu já passei da fase dos contos de fada.

- Essa foi nossa bela história para dormir. Garota oprimida. Babá amável. Final feliz. Os contos de fada são quase todos assim. - Edward respondeu com voz sonolenta.

- Sério? Eu tinha a impressão de que a maioria deles tem um belo príncipe encantado.

O silêncio foi duradouro. E infeliz.

- Bem, o seu tem um cavaleiro. - disse ele finalmente. - Sir Jacob, o Colega.

- Acho que sim. - com a esperança que sua voz não revelasse a decepção, ela agarrou o lençol e o puxou para si.

Ela sentiu que Edward se mexia.

- Sabe, eu tenho me perguntado uma coisa. Se aquele diário que exalta tão epicamente meus encantos era o falso... O que diz o verdadeiro?


Gente, estou postando mais um capítulo hoje porque sábado que vem vou viajar... *pisca os olhinhos*

Então, finalmente vocês terão o comecinho dos lemons *pisca os olhinhos de novo*

Mas, ó! Óia, óia! Eu quero reviews! Vocês estão quietinhas demais ultimamente haha. Meninas, boa páscoa, bom feriado e se divirtam! Até o ooooooutro sábado.