Personagens de Stephenie Meyer. História de Tessa Dare.
CAPÍTULO DEZOITO
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"Ele nunca conheceu aquele tipo de prazer puro e honesto que estava sentindo naquele exato momento."
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Não havia como sair de Grantham naquela noite. Nem por dinheiro, amor, lagartos gigantes ou qualquer outro motivo idiota que motivava Edward nessa aventura. Cada carroça, charrete e carruagem da região devia estar chegando à cidade para a feira. Não havia nada saindo da cidade. Ele abriu caminho em meio à multidão de cavalos e carroças até onde havia deixado Isabella. Quando um carregamento de galinhas engaioladas saiu da sua frente, ele a viu em meio a uma confusão de penas brancas.
Ele parou onde estava, fascinado. Admirando-a. Ela estava sentada em seu precioso baú, é claro, o queixo apoiado na mão. Ela havia deixado que os óculos escorregassem até a ponta do nariz, de modo que pudesse olhar por cima deles, como sempre fazia quando olhava para alguma coisa a mais de dez passos de distância. Seu longo cabelo escuro-avermelhado caía sobre os ombros em ondas encantadoras, e o sol do fim de tarde lhe conferia brilhos avermelhados. Com os dentes ela mordia aquele lábio inferior doce e carnudo, enquanto seus pés batiam no ritmo de uma música distante. Ela estava linda... O retrato de uma garota do interior de olhos arregalados que chegava para a feira.
- Nada. - disse ele se aproximando dela. - Talvez nós tenhamos sorte mais tarde, à noite. - Ele olhou por cima do ombro para a praça, que fervilhava. - Enquanto isso, bem que podemos dar uma olhada na feira.
- Mas nós não temos dinheiro. - Ela empurrou os óculos até o alto do nariz e mostrou uma moeda fina de ouro que segurava nas pontas dos dedos. - Este soberano precisa durar até Edimburgo.
Ele pegou a moeda dela e a guardou no bolso do colete.
- Olhar não custa nada. E vamos ter que comer algo, em algum momento, mas seremos frugais.
- Irmão e irmã frugais? - perguntou ela, olhando para ele. - Um cavalheiro e sua amante frugais? Ou artistas circenses frugais?
- Namorados frugais. - Ele estendeu a mão para ela, o peito inflando de emoção. - Somente hoje. Tudo bem?
- Tudo bem. - Sorrindo, ela colocou sua mão na de Edward, que a fez se levantar.
Ah, o afeto doce e límpido nos olhos dela... Primeiro aqueceu o coração dele, e depois o contorceu em fúria. Um homem bom não faria esse jogo de "namorados" com ela sabendo muito bem que não poderia evoluir para algo mais sério. Mas ele não era um homem bom. Ele era Edward Masen Cullen, malandro incorrigível, imprudente e, maldição, ele não conseguia resistir. Ele queria diverti-la, mimá-la, alimentá-la com doces e iguarias. Roubar um beijo ou dois, quando ela não estivesse esperando. Ele queria ser um jovem apaixonado que levava sua garota para a feira. Em outras palavras, ele queria viver honestamente. Só aquele dia.
Ele ergueu o baú de Francine e o equilibrou no ombro direito, enquanto oferecia o braço esquerdo para Isabella. Juntos eles foram andando em meio à multidão e passaram pela igreja. Eles caminharam pelas fileiras de animais premiados, que estavam ali em exibição, dando nomes ridículos aos porcos e arminhos, e depois discutiram qual merecia o prêmio e por que.
- Hamlet merece a faixa. - argumentou Isabella. - Ele tem os olhos mais brilhantes, e seus quadris são os mais gordos. E ele também se mantém bem limpo, para um porco.
- Mas Hamlet é um príncipe. Eu pensei que você conferisse suas dádivas aos cavaleiros. - disse ele. - Talvez você prefira Sir Francis Bacon ali adiante.
- Aquele imundo que está grunhindo e chafurdando na lama?
- Pelo que sei, grunhir é uma marca de inteligência porcina.
- Por favor! - ela olhou enviesado para Edward. - Até eu tenho meus padrões.
- É bom saber disso. - E acrescentou, baixinho: "eu acho."
Eles perambularam por fileiras de barracas que exibiam uma variedade de produtos tão exóticos quanto se poderia esperar de uma feira nas Midlands inglesas – tinha de tudo, de laranjas a relógios de ouropel, boinas francesas a graxa para sapatos aromatizada. Edward desejava poder comprar para ela um exemplar de cada coisa, mas se conformou em comprar um pedaço de fita azul para combinar com o vestido dela.
- Para o caso de você querer prender seu cabelo. - disse ele.
- Você quer que eu prenda o cabelo?
- Não mesmo. Eu gosto dele solto.
Ela balançou a cabeça.
- Você não faz sentido.
Ele fingiu ter ficado muito ofendido.
- Você não sabe como aceitar um presente.
- Presente? - Ela riu e o cutucou. - Você comprou com o meu dinheiro. Mas obrigada. - Ela o beijou no rosto.
- Assim é melhor.
Por um xelim, Edward comprou o jantar – um jarro pequeno de leite e duas tortas de carne. Eles encontraram um lugar na praça e sentaram sobre o baú, um de frente para o outro. Isabella abriu seu lenço, improvisando uma toalha.
- Estou com tanta fome... - disse ela, olhando para a comida.
Ele lhe entregou uma das tortas.
- Então, pode comer.
Ela mordeu a massa em forma de lua crescente, enfiando lentamente os dentes nas camadas de crosta quebradiça. Seus cílios tremularam e ela soltou um gemido de prazer.
- Oh, Edward, está maravilhosa! - Ela passou a língua pelos lábios suculentos, sensuais e expressivos.
Ele ficou olhando para ela, repentinamente incapaz de falar ou se mover. Um desejo animal e puro o tomou, e com força. Ele tinha que sentir novamente aqueles lábios. Tinha. Que. Aquela não era uma simples manifestação de preferência. Era algo imperativo, o corpo dele era insistente. Para continuar sua existência nesse mundo, ele agora precisava do seguinte: alimento, água, abrigo, roupa e os lábios de Isabella Marie Swan.
Lançando um olhar tímido para Edward através de seus cílios escuros, Bella tomou um gole de leite. Então ela lambeu novamente seus lábios. Correção. Ele precisava de alimento, água, abrigo, roupa, os lábios de Isabella Swan e... a língua de Isabella Swan. Lembranças da noite passada pipocaram em sua mente. E ele nem tentou reprimir. Não, Edward as deixou aparecer, demorando-se para gravar cada momento erótico, carnal, em sua memória. Cada momento de êxtase devia ser registrado, para que ele pudesse reviver mentalmente aquela cena durante os próximos meses e anos. Não só por desejo, mas por necessidade.
Aqueles lábios. Aquela língua.
- Você não vai comer? - perguntou ela.
- Não. Ahn... vou. - Ele se chacoalhou. - Uma hora dessas.
Edward mordeu sua torta. Estava boa e saborosa, ainda quente do forno. Ele gostou. Mas aquilo não chegava aos pés do quanto ele gostava de vê-la apreciando seu lanche. Era extraordinário! Ele havia cortejado amantes com joias e renda veneziana, levando-as a ópera nos camarotes mais caros do teatro, servindo-lhes ostras e morangos açucarados em bandejas de prata. Mas ele nunca conheceu aquele tipo de prazer puro e honesto que estava sentindo naquele exato momento. Devorando tortas de carne com Isabella Swan no meio de uma feira do interior. Lambendo o polegar, ela inclinou a cabeça para observar o céu.
- Vai anoitecer em breve. Que tal tentarmos nossa sorte para encontrar transporte?
- Vamos lá.
Eles pegaram Francine e a carregaram em conjunto, e se puseram a caminho dos estábulos. Enquanto andavam, passaram por uma fila de barracas de jogos. Uma garotinha puxou a frente do casaco de Edward. Ela era muito magra, mas tinha os olhos vivos e usava um vestido amarelo remendado.
- Você e sua senhora não querem saber seu futuro? - A garota indicou uma tenda a uns dez passos. - Minha mãe tira a sorte. Ela consegue enxergar o futuro tão claro como se estivesse olhando por uma janela. Ela vai dizer para vocês tudo que querem saber sobre vida, amor e crianças. Até sobre o dia da sua morte!
Ela guinchou esta última parte. Edward sorriu e colocou o baú no chão.
- Ora, essa é uma oferta tentadora.
- Edward, não podemos. - sussurrou Isabella em seu ouvido. - Só temos dezoito xelins. Não podemos gastar nada com adivinhos.
Ele sabia que ela tinha razão, mas algo no sorriso banguela da garota mexeu com ele.
- Qual seu nome, querida? - perguntou ele para a garota.
- Elspeth, senhor.
- Bem, Elspeth... - Ele se inclinou na direção dela. - Receio que não possamos comprar o futuro de sua mãe. Sabe, eu sou uma alma muito frágil. Não sei se conseguiria suportar a revelação dos meus futuros amores e filhos, muito menos a data da minha própria morte. Então por que eu não lhe digo o seu futuro?
- Meu futuro? - Ela apertou os olhos com cinismo precoce. Com a língua, ela empurrava um dente solto para trás e para frente. - Como é que você vai dizer o meu futuro?
- Oh, é a coisa mais fácil. - Edward tirou uma moeda do bolso e a colocou na mão da garota. - Eu vejo um doce no seu futuro.
Elspeth sorriu e fechou a mão ao redor da moeda.
- Tudo bem, então.
Ela saiu correndo, e Edward fez uma concha com a mão ao redor da boca e gritou para ela:
- Lembre-se, um doce. Não me faça parecer um charlatão. Não vá gastar em outra coisa!
Ele se virou e viu que Isabella o encarava.
- É verdade o que você acabou de dizer para ela?
- O que eu acabei de dizer para ela?
- Que você teme seu futuro?
Ele baixou o queixo, como se instintivamente se protegesse de um golpe. Seu cérebro doeu, como se ele não tivesse conseguido evitá-lo.
- Eu não disse isso.
- Você disse algo bem parecido com isso.
Disse mesmo? Talvez tivesse dito.
- Não é que eu tenha medo do futuro. - explicou Edward. - É que eu acho melhor não criar expectativas. Expectativas levam a decepções. Se você não esperar nada, será sempre surpreendido.
- Mas assim você nunca fica realmente satisfeito. Você nunca vai sentir a alegria de trabalhar por um objetivo e o realizar.
Ele suspirou profundamente. Ela precisava ser tão perspicaz? Não chega uma hora em que isso cansa? Ela lhe perguntou na noite passada, referindo-se a seu estilo de vida viva-o-momento, para-o-diabo-o-resto, insira-seu-lema-alegre-aqui. Sim, isso acabava se tornando cansativo. Edward invejava homens como seu primo, que têm uma noção de dever e objetivo tão bem definida que poderia ser um verbete de dicionário. Homens como Jasper acordam todas as manhãs sabendo o que precisam realizar, por que e como. Diacho, Edward invejava os homens com quem trabalhou naquela manhã, forrando o telhado de uma casa. E ele invejava, em Isabella, sua dedicação aos estudos e suas descobertas. Mais do que ela poderia imaginar.
- Se você está me perguntando se eu não gostaria de fazer algo de útil na vida... é claro que sim. Mas eu sou um visconde, querida. Há uma responsabilidade inerente nisso. Ou vai haver, quando eu finalmente tiver o controle das minhas contas. Minha tarefa principal é permanecer vivo e não bagunçar as coisas. Eu não posso arriscar minha vida comprando um posto de oficial ou entrando na pirataria por diversão.
- Lordes não devem administrar suas terras?
- Quem disse que eu não administro? - Ele olhou enviesado para ela. - Acredite ou não, eu gasto vidros de tinta todos os meses, para garantir que minha propriedade seja bem cuidada. E eu faço minha parte para mantê-la em excelentes condições ficando bem longe. - Edward deu de ombros. - Eu sei que alguns cavalheiros desenvolvem interesses intelectuais ou políticos para ocupar seu tempo. Mas o que eu posso dizer? Não sou um especialista. Sou razoavelmente bom em milhares de coisas, mas não sou ótimo em nenhuma delas.
- O homem dos sete instrumentos. - disse ela, pensativa.
- Bem, algo assim. Se eu fosse bom em algum instrumento, o que não sou.
Eles ficaram em silêncio por alguns instantes.
- Você tem talentos, Edward.
Ele lhe deu uma piscada maliciosa.
- Ah, eu sei que tenho.
- Não foi o que eu quis dizer.
- Vamos ver... Sou bom em mentir, beber, dar prazer às mulheres e incitar brigas em tavernas. - Edward parou de repente, diante de uma barraca com um jogo de arremesso. - E isto. Sou bom em coisas como esta.
Ele pegou uma das bolas de madeira, jogou-a para o ar e a pegou com a mão. E avaliou seu peso enquanto a rolava da palma para as pontas dos dedos e de volta.
- Como é o jogo? - perguntou ele para a mulher atrás do balcão.
- Três moedas por uma tentativa, meu senhor. Jogue a bola nos cestos. - Ela mostrou um cesto grande na frente. Atrás dele estava alinhada uma série de cestos parecidos, em tamanhos progressivamente menores. - A bola no primeiro cesto vale uma maçã. No cesto seguinte, uma laranja. Depois pêssegos, cerejas e uvas. - Ela foi até o fim da linha e apontou para um cesto minúsculo, provavelmente menor que a própria bola de madeira. - Acerte o último e você ganha um abacaxi, diretamente das Ilhas Sandwich.
Certo. Edward sorriu, irônico. Aquele abacaxi murcho e pequeno que estava em exibição parecia vir de uma estufa frutífera após várias semanas de viagem pelo interior da Inglaterra. Era fácil ver como o jogo funcionava. Em essência, os jogadores trocavam três moedas por uma maçã. Se tivessem um pouco de pontaria, levavam também uma laranja. Evidentemente, ninguém havia ganhado o abacaxi. Ele colocou três moedas sobre o balcão.
- Vou tentar.
A maçã veio com facilidade, como era suposto que acontecesse. Ele entregou a fruta redonda e brilhante para Isabella, que havia se sentado no baú.
- Vamos! - ele instou. - A vida é incerta. Coma agora.
Enquanto ganhava uma laranja e três belos pêssegos maduros, Edward foi conquistando uma pequena multidão de crianças. Ao calcular seu arremesso pelas cerejas, ele olhou rapidamente para o lado e percebeu de onde vinham seus fãs. A pequena Elspeth havia se juntado à Isabella sobre o baú. Suco de pêssego escorria pelo queixo da menina, que mordia a fruta evitando seu dente mole. O doce não tinha sido suficiente para ela. Elspeth voltou para conseguir mais alguma coisa, e trouxe consigo todos os seus amigos. Quando ele jogou e ganhou, Edward passou o saquinho de cerejas para que Isabella fizesse a distribuição.
- Uma por cabeça. - ele avisou para os garotos e as garotas à sua volta. - Nada de cuspir as sementes!
Pela festa que os pequenos fizeram, poderia se pensar que ele estava distribuindo moedas de ouro. Bella foi cercada e pressionada de todos os lados, mas ela deu um grande sorriso para Edward quando abriu o saquinho.
- Você não quer uma?
Ele negou com a cabeça. O sorriso dela – genuíno, apaixonado – era a melhor recompensa que ele podia imaginar.
- Agora as uvas! - gritou um garoto. - Minha nossa, eu nunca provei uma uva em toda minha vida.
A mulher corpulenta atrás do balcão cruzou seus braços.
- Seus pedintes gulosos. Podem ir embora. Ele não vai ganhar as uvas.
- Vamos ver. - rolou a bola de madeira na mão, estudando o arremesso.
O cesto que ele precisava acertar estava a uns dez passos, e era, aproximadamente, do tamanho de um pires. Se ele jogasse diretamente, a bola bateria na borda do cesto. Sua melhor opção seria um arremesso alto, em arco, mandando a bola para cima de modo que caísse dentro do cesto. E foi o que ele fez, arremessando a bola para o alto. As crianças prenderam a respiração. Alguns momentos depois, Edward distribuía cachos de uvas vermelhas. Elas tinham sementes e estavam um pouco murchas, a meio caminho de se tornarem passas.
Mas os garotos que nunca haviam provado uma uva não tinham do que reclamar. As crianças colocaram as frutas na boca e fizeram um concurso para ver quem fazia mais ruídos de prazer.
- O abacaxi! - Eles gritaram juntos em seguida, pulando à volta de Edward. - Ganhe o abacaxi para nós!
Edward torceu o canto da boca. O cesto parecia ser do tamanho de uma xícara de chá. Ele nem tinha certeza de que a bola cabia dentro do cesto, quanto mais daquela distância.
- Não fiquem muito animadas, crianças.
- Oh, mas eu sonho com abacaxis...
- Minha mãe é empregada doméstica. Ela já provou abacaxi. Disse que são como ambrosia.
- O senhor consegue! - gritou Elspeth.
Edward jogou a bola de madeira para ela.
- Esfregue para dar sorte, querida.
Sorrindo, ela esfregou a bola e a devolveu. Ele piscou para Isabella e ergueu os ombros.
Vamos ver.
Ele mirou o cesto, avaliou seu arremesso... e jogou a bola.
Enquanto a bola cortava o ar, as crianças esperançosas se deram as mãos e prenderam a respiração. Isabella fez o mesmo. E ela nem gostava de abacaxis. No cesto, desejou ela. No cesto. Mas ela não entrou. Quando a bola bateu na borda do cesto e caiu no chão, ela não teve como não participar do gemido coletivo de decepção. Edward deu de ombros e passou a mão pelo cabelo.
- Sinto muito, meninos e meninas. Eu fiz o meu melhor. - Ele manteve o bom humor na derrota. Um bom perdedor, como sempre. Mas ela percebeu que ele também estava decepcionado. Não por orgulho ferido, mas por causa das crianças. Ele queria lhes dar algo de que se lembrassem, e quem poderia culpá-lo?
Pondo a cautela e a frugalidade de lado, Isabella abriu caminho até o balcão e falou com a dona da barraca.
- Quanto custa o abacaxi? A senhora aceita três xelins por ele?
Os olhos vermelhos da mulher faiscaram de ganância, mas ela foi firme:
- Não está à venda.
- Eu vou tentar, então. - falou um cavalheiro jovem e bem vestido que se aproximou. Ele parecia ser a versão local de um dândi*, provavelmente filho de algum fidalgo do interior, solto na feira com uma generosa mesada no bolso e uma noção desproporcional de sua importância. Ele estava acompanhado de alguns amigos que pareciam ansiosos para se divertir.
*Dândi é o indivíduo que não nasceu aristocrata, mas combinou elegância e requinte no seu jeito de vestir com linguagem e conhecimentos refinados e o gosto pelas artes.
- Desculpem-me, cavalheiros. - a mulher corpulenta cruzou os braços. - Esta barraca fechou.
- Pena. - disse o jovem, olhando com superioridade para Edward. - Bem que eu gostaria de dar uma lição neste camarada.
Seus amigos riram. Enquanto isso, as crianças rodearam Edward, como se ele fosse um dos seus e precisassem sair em sua defesa. Foi incrivelmente cativante.
- Bem... - disse Edward amistosamente. - Vocês ainda podem tentar. Se é um concurso de pontaria que desejam, podemos organizar um. Com alvos e pistolas, talvez?
Um sussurro de empolgação correu pelas crianças. Aparentemente, a promessa de um concurso de pontaria era um bálsamo eficaz para suas arruinadas esperanças de experimentar abacaxi. O jovem olhou Edward de alto a baixo e fez uma careta.
- É melhor eu lhe avisar, sou o melhor atirador da região. Mas se insiste, vai ser um prazer acabar com você.
- Então você vai ter também o prazer de ficar com meu dinheiro. Vamos fazer uma aposta.
- Com certeza. Diga de quanto.
Edward vasculhou seus bolsos e Isabella ficou preocupada. Ele podia ser um atirador excelente, mas certamente não arriscaria todo o dinheiro deles.
- Cinco libras. - disse Edward.
Cinco libras?
- Cinco libras? - o jovem cavalheiro repetiu.
Isabella não conseguiu se segurar. Ela foi até o lado de Edward e suspirou:
- Cinco libras? Está louco? De onde você vai tirar cinco libras?
- Daqui. - De seu bolso mais interno, Edward retirou um quadrado pequeno de papel dobrado. - Acabei de encontrar no bolso do casaco. Deve estar aí há meses. Tinha me esquecido dessa nota.
Ela desdobrou o papel e ajeitou os óculos. Era, realmente, uma nota de cinco libras. Cinco libras. Todo aquele tempo se preocupando em fazer seus xelins renderem enquanto ele carregava cinco libras no bolso. Aquele maroto impossível.
- Você não pode arriscar isso. - sussurrou ela. - É...
- Está apostado. - O dândi pegou uma bolsa de moedas de onde tirou cinco soberanos. Ele os colocou na mão de Isabella. - Cinco libras.
Oh, céus. Ela não estava com um bom pressentimento... eles fizeram um verdadeiro desfile, com o grupo todo marchando até os limites da feira, onde um concurso de tiro poderia ser realizado em segurança. Já estava anoitecendo quando um alvo foi montado sobre um monte de palha. Uma multidão considerável se reuniu para assistir, formada não só pelas crianças, mas também por adultos.
- Um tiro cada. - disse o dândi, excessivamente confiante, inclinando a cabeça na direção do alvo colocado no centro de um campo recém-arado. - Quem acertar mais perto do centro vence.
- Parece justo. - disse Edward. - Você primeiro.
O jovem transformou em espetáculo o ato de limpar e carregar sua pistola cara e polida, de dois canos. Era uma pistola Finch, notou Isabella com certo bom humor. Sua amiga Alice daria uma boa risada se estivesse presente*. Com pompa e um ar de seriedade excessivo, o dândi apontou a pistola e atirou. Um círculo escuro apareceu no alvo diversos centímetros à esquerda do centro. O jovem aceitou a leve salva de palmas com uma reverência. Isabella revirou os olhos. As mulheres de Spindle Cove atiravam melhor do que aquilo.
*No livro I, as pistolas Finch foram inventadas e fabricadas pelo pai da Alice, sr. Lewis Brandon Finch.
Com certeza Edward também. Para começar, ele não quis dar nenhum espetáculo. Simplesmente balançou os ombros para tirar o casaco, e passou a mão pelo cabelo rebelde. Aqueles dois pequenos gestos foram suficientes para torná-lo o desejo de cada mulher, a inveja de cada homem, e o ídolo de cada criança presente. Céus, ele estava lindo. Ela estava tão encantada pela aparência dele, que Isabella quase esqueceu de ficar ansiosa. Antes que ela percebesse, ele deu um passo à frente, mirou a pistola e disparou. Quando a fumaça se dissipou, ela limpou os óculos para observar o alvo. Na mosca, é claro. As crianças enlouqueceram, com gritos e vivas. Alguns dos garotos mais velhos tentaram, sem sucesso, erguer Edward nos ombros para comemorar sua vitória.
E ela fechou os dedos sobre a pequena fortuna em sua mão. Dez libras. Dez libras mudavam tudo. Eles estavam realmente atrasados na viagem. E agora conseguiriam chegar a Edimburgo. Francine teria seu dia de glória. Quando Edward se desvencilhou das crianças radiantes e se virou para ela, sorrindo... oh, ela teve vontade de beijá-lo. Bem na frente de todas aquelas pessoas. Mas o dândi derrotado foi falar com ele.
- Você é um trapaceiro. - O jovem olhou com desprezo para Edward. - Não sei que tipo de vigarista você é, mas meu pai é o magistrado desta região. Eu acho que ele vai ter que conversar com você. E essa nota de cinco libras também vai ter que vir comigo, como evidência. Com certeza você a roubou.
Dando um passo para trás, Edward enfiou seus braços nas mangas do casaco.
- Eu não quero confusão.
O amigo do dândi se adiantou, brandindo o punho fechado.
- Bem, você arrumou uma.
Isabella sabia que, em uma luta, Edward poderia derrotar um daqueles homens ou até os dois. Mas se o dândi realmente fosse filho de um magistrado, uma briga seria má ideia. Será que eles precisavam sempre fugir em meio ao caos de violência e tumulto? Será que eles não poderiam, só dessa vez, ir embora tranquilamente, com dez libras no bolso? Só dessa vez?
- Escute! - disse Edward, batendo nos ombros dos jovens. - Talvez vocês tenham razão e eu não tenha sido muito justo. Mas tenho certeza de que podemos resolver isso sem envolver magistrados. Que tal isto: para provar que sou um sujeito decente, vou lhe dar a chance de recuperar tudo. O dobro ou nada.
O dândi escarneceu dele.
- Se você acha que eu vou...
- Não, não. - interrompeu Edward, falando em tom suave e conciliador. - Não você e eu. Vamos deixar que nossos companheiros atirem. Seu amigo aqui contra minha garota. - Ele olhou para Isabella.
Ah, não. Edward, não faça isso comigo.
- Contra sua garota? - O dândi riu.
- E ela vai até tirar os óculos. - Edward ergueu as mãos, num gesto de rendição. - Eu disse, não quero confusão. Você pode me levar algemado e me jogar na cadeia, mas isso não o deixaria mais rico. Desta forma você pode ganhar cinco libras.
O dândi se endireitou e sorriu.
- Está certo, então. Vamos fazer como você está dizendo.
- O dobro ou nada. - Edward chamou Elspeth para perto, pegou-a pela cintura e a colocou sobre a cerca. - A pequena Elspeth vai segurar o prêmio. - Ele pegou as dez libras com Isabella e as colocou nas mãos da garota.
O jovem cavalheiro esvaziou sua bolsa e pegou algumas libras emprestadas com seus amigos. Finalmente, ele pegou sua parte na aposta e entregou para a sorridente Elspeth, que colocou tudo em um lenço e o amarrou. Ele deu a pistola para o amigo ansioso, que rapidamente demonstrou ser também um atirador médio. Ele acertou o alvo, mas bem longe do centro. Era a vez de Isabella. Sua ansiedade fez seu estômago apertar.
- Dê-nos um momento. - disse Edward, sorrindo, para os outros. - Preciso mostrar para ela como isto funciona.
Os homens riram a valer entre eles enquanto Edward a arrastava até a posição de tiro.
- Edward, o que deu em você? - sussurrou ela, tremendo. - O que é que eu vou fazer?
- Você vai atirar, é claro. E vai acertar o alvo, bem no centro. - Com dedos confiantes, ele retirou os óculos dela, que dobrou e guardou no bolso do casaco.
Edward pôs a pistola recarregada na mão dela. Então, aproximando-se por trás, ele passou os braços ao redor dela e ergueu a arma, como se a ensinasse a atirar.
- Depois que você disparar... - murmurou Edward no ouvido dela. - Pegue o prêmio com Elspeth. Eu pego a Francine. E vamos sair correndo, o mais rápido que pudermos, na direção daquela viela. - Ele apontou a pistola para o lado, indicando a direção. - Não pare por nada, nem para olhar para trás. Eu vou alcançar você, prometo.
Ela inclinou o corpo para trás, saboreando o conforto da força e do calor de Edward.
- Mas... Mas e se eu errar?
- Você não vai errar. - Ele deu um beijo no lóbulo de sua orelha, então recuou, soltando seus braços. - Então atire. Deixe-me orgulhoso de você.
Isabella apontou a pistola para o alvo, dando tempo para seus olhos entrarem em foco. Suas mãos tremiam. Ela tentou lembrar de todas as dicas que Alice e a Srta. Emily lhe deram. Como todas as mulheres de Spindle Cove, ela também havia aprendido a atirar, mas sua pontaria nunca foi lá muito consistente. Sua mãe deixava claro que achava risível a participação de Isabella naquela atividade. Uma garota quase cega, armada com uma pistola? Minha querida, os homens já mantêm distância de você. Não há necessidade de assustá-los ainda mais com armas. Isabella inspirou profundamente e tentou afastar os sons de riso.
- Francine, este é por você.
E quando ela começava a apertar o gatilho, uma voz se elevou em meio ao silêncio ansioso da multidão, congelando seu dedo e transformando seu sangue em gelo.
- É ele, ali adiante!
Não. Não podia ser.
- Vamos pegá-lo, rapazes! - gritou a voz. - Lá está ele! É o Príncipe Ampersand, da Crustácea!
Aturdida, Isabella baixou a arma e olhou para Edward.
- Atire. - disse ele, os olhos arregalados e ferozes. - Agora.
Namoradenhos, ah coisa fofa...
kjessica: Percebi sua ausência, mas fico muito feliz que esteja acompanhando :)
Beckyye: Bem vinda! Quando menos esperar, o próximo vai estar chegando!
Barbara Gouveia: Parece que a estrada de Londres à Edimburgo nunca foi tão comprida e tão cheia de obstáculos hahaha
Cris Redfield s2: Adoro. Filmes, jogos, quase todos os personagens... kkkk As fics de Resident Evil não foram escritas por mim, se fossem, acho que eu viajaria na maionese com alguma teoria da conspiração hahaha USPSP? Ficou parecendo USP-SP, sacas? rs
Ktia S: Sim, claro que você ganhou - com uma folga larga, devo dizer. Eles vão descobrir isso uma hora, calma fia kkkk
Lembrando que a proposta das 12 reviews continua em pé, hein?
Tenham uma linda semana, beijinhos!
