I – O encontro
O som tocava alto, as pessoas que estavam na pista de dança chacoalhavam seus corpos de um modo frenético, vezes ou outra esbarrando uns nos outros, chocando-se entre si sem nem ao menos perceber. O corpo pequeno de Clary estava suado e grudento, suas pernas doíam e aquele sapato de salto estava espremendo o seu dedinho, causando uma dor incômoda.
Ela se lembrava vagamente de Simon, seu melhor amigo, dizendo que seria algo "maneiro e divertido", que aquela nova boate era muito boa e que eles com certeza deveriam ir. Como ela se arrependia de ter dado ouvidos a ele naquela noite – ou já seria madrugada? – e ter ido naquele maldito lugar "aproveitar sua juventude". Era certo de que ela aproveitaria bem mais se estivesse em casa lendo o livro que o seu professor passara para a próxima semana do que ali, naquele lugar terrível.
Sua cabeça estava latejando devido a música alta e seu coração batia forte no peito, a dor no pé só piorava e a deixava cada vez mais de mau humor. A garota odiava aqueles lugares e, neste momento, nutria um ódio profundo não só pela boate, mas pelo amigo também que a arrastara para lá. Nunca mais iria deixar que Simon a convencesse de nada. Nunca mais mesmo!
Ele, que por sinal, estava dançando animadamente com uma garota de cabelos pretos e olhar sedutor que só pelo rosto aparentava ter péssimas intenções. Clary poderia até ficar preocupada se não soubesse que o amigo também deveria querer a mesma coisa que ela: sexo e nada mais.
Aquele lugar, ainda cheio de gente, continuava incomodando Clary, que resolveu, por fim, rumar para o bar. Não que ela quisesse encher a cara ou algo do tipo, não era preciso conhecê-la muito para saber que a menina não era adepta a aquele tipo de coisa. Ela só queria se sentar e relaxar um pouco os pés daquele sapato apertado que a mãe havia lhe dado há um mês e que ficou escondido no guarda roupa por todo esse tempo.
Num outro canto, da mesma boate Jace estava com seu melhor amigo, rindo do modo como a prima dançava com um garoto de cabelos castanhos e meio desengonçado. Se algo acontecesse ali, ele sabia, seria por causa que a menina quis e não porque o garoto realmente tomou a iniciativa, Isabelle era sempre assim, a que tomava a iniciativa e que a usava os garotos, e não o contrário. Geralmente, ela pisava no coração dos garotos e os quebrava.
O lugar estava lotado e ele não se incomodava nem um pouco com a quantidade de pessoas e de calor humano que estava naquele recinto, não se sentia sufocado e muito menos inibido por aquilo. Pelo contrário, a música alta e as pessoas dançando ao seu redor era uma forma de dar mais energia ao garoto, deixando-o mais alegre e menos apreensivo.
Não que ele fosse triste ou apreensivo, mas ele sabia ser cuidadoso e sabia muito bem o que esperar das coisas. Não vivia em um mundo cor de rosa e tinha plena ciência das coisas que aconteciam ao seu redor e o porquê de elas acontecerem. O loiro sabia muito bem o que esperar do mundo e o que o mundo esperava dele.
Jace, observando a prima beijando o garoto, trocou um olhar com o melhor amigo, que ao contrário dele não estava nem um pouco feliz, afinal devia ser difícil ver a irmã beijando outro cara assim, descaradamente, mas Alec sabia que Isabelle era assim. Sempre fora. Jace percebeu que não havia mais nada para fazer ali a não ser ficar vendo Isabelle beijando um cara desconhecido. Não havia mais nada ali para ele.
O melhor amigo saiu do seu lado, para provavelmente tentar pegar alguém naquela multidão, esquecendo assim da irmã, e ele resolveu ir para o bar. Não estava a fim de ficar com nenhuma garota hoje, não estava a fim de nada, somente de beber e curtir a música e foi isso que fez.
Encaminhou-se para o bar lentamente e sentou-se em um dos bancos, esperando o barman atende-lo pacientemente. Se fosse o pai de Jace, Stephen, que estivesse ali, provavelmente já teria armado uma confusão pela demora, mas o menino mais novo não se importava de esperar para algumas coisas, gostava de ter uma vida normal, na medida do possível, e gostava de fingir que tudo era normal, mesmo que não fosse.
Clary estava ocupada olhando para a garrafinha de água a sua frente, pensando em um motivo para ir embora e deixar Simon ali sem que seus pais desconfiassem que ela na verdade deixara-o para trás por querer, e mal reparou quando o rapaz bonito que estava ao seu lado começou a encará-la num misto de curiosidade e desejo. Só foi perceber isso quando o seu radar de "estão te olhando" – que era muito aguçado por sinal – começou a apitar e ela se virou, para se deparar com um par de olhos dourados a encarando, sem nem mesmo mostrar um pouco de vergonha por ter sido pego em flagrante.
— Oi. – O garoto falou assim que seus olhares se cruzaram.
A música continuava alta e incômoda, mas ele fez sua voz se sobressair por aquela bagunça. Clary não queria, de modo algum, gritar para ser ouvida e por isso, limitou-se somente a dar um sorriso e balançar a cabeça, mostrando que tinha escutado o cumprimento. Em seu íntimo ela esperou que o rapaz bonito entendesse que ela não queria conversar, mas ele, infelizmente, não havia compreendido a mensagem e se havia a compreendido, tinha escolhido não respeitar.
— Eu sou o Jace, você é? – Garoto insistente, ele sabia que era, mas não podia simplesmente negar que a sorte bateu a sua porta ao ver a garota que estava ao seu lado, ela tinha uma beleza exótica e ele tinha que admitir que gostava de garotas assim.
— Clarissa, muito prazer. – A moça estendeu a mão para que ele pegasse.
— O prazer é todo meu, Clary.
Clary não gostava de pessoas que lhe chamavam pelo apelido sem saber quem ela era ou que tivesse acabado de conhecer. Para ela, o apelido era para quando se tivesse intimidade o suficiente com a pessoa e não para desconhecidos, principalmente se conhecidos na balada. Mas ela não teve de coragem de corrigir o garoto, não com aqueles olhos brilhando para si e com aquele sorriso de canto. Não daquele modo.
Jace era perito em puxar assunto em baladas e colecionar meninas em sua cama depois dessas conversas, era um conquistador nato, mas naquele momento, ele não sabia exatamente o que dizer para a garota de olhos verdes que estava virada para si, o observando minuciosamente. Ela não era realmente bonita, já tinha visto melhores com certeza, mas havia algo nela de diferente, algo que nenhuma outra garota tinha e isso o estava encantando... Ela tinha uma beleza diferente, algo exótico.
Ele havia aberto a boca para tentar falar algo, mas foi interrompido pelo garoto que estava com sua prima, e essa estava junto com ele. Parecia alegre e feliz, mas certamente não ficaria depois que Jace, carinhosamente, mostrasse para ela que ninguém interrompia ele com a nova garota.
— Clary, até que enfim te achei. Por que me deixou na pista de dança? – o garoto que Isabelle estava engolindo na pista de dança se dirigia a Clary como se fosse intima e essa última só rolou os olhos, indicando impaciência. Jace sempre achou que aquele gesto era um pouco estranho, mas ficou fofo na menina.
— Não estava gostando daquele ambiente e minhas pernas estavam doendo. Na verdade, eu estava meio cansada também... – Clary falou aquilo tudo alto, olhando para o amigo e se lembrando que realmente ela deveria ter ido embora enquanto tivesse chance, agora Simon não sairia do seu pé para nada...
— Podia pelo menos ter avisado que estava saindo... – ele falou olhando para a garota. Clary, na visão de Jace, parecia um pouco menos receptiva depois que o garoto que Isabelle estava beijando havia chegado. Não que a garota estivesse realmente sendo receptiva com ele.
— Você estava ocupado. – O rosto de Simon se iluminou com o entendimento e suas bochechas ficaram um pouco coradas devido a vergonha. Clary notou isso e deu de ombros. – De qualquer forma, eu estou bem aqui, pode voltar para a pista.
Na verdade Clarissa queria se livrar do amigo, não porque quisesse conversar com o loiro ao seu lado, mas porque queria ir embora rápido. Sabia que Simon não iria querer ir embora e ela queria escapulir dali, já estava cansada, entediada e não estava conseguindo nada de produtivo, só falar oi com um cara bonito e que gostava de apelidar pessoas sem conhece-las.
Simon, ao ver a cara da amiga, decidiu ir embora, pensando que estava atrapalhando algo entre ela e Jace. Levando Isabelle consigo, o casal retornou a pista de dança para mais uma rodada de beijos e mãos bobas.
— O seu amigo está ficando com a minha prima. Isso é uma coincidência e tanto. – Jace comentou assim que o casal se afastou o suficiente, voltando a puxar assunto com a ruiva ao seu lado. O rapaz não estava entendo a necessidade de conversar com ela, mas ele realmente queria tentar manter um diálogo.
— A garota morena é sua prima? – Clary perguntou um pouco incrédula. Jace só assentiu com um sorriso surgindo em seu rosto. – Isso é uma coincidência e tanto mesmo.
O sorriso do garoto estranho causou um estranho fascínio em Clary, que de repente de viu querendo conversar e conhecer ele um pouco mais. A garota já havia presenciado coisa demais para saber que não existia amor à primeira vista, muito menos amor ao primeiro sorriso, o que fazia que ela ficasse cética quanto ao interesse repentino no loiro.
— E aquele garoto? Ele é seu irmão, primo, ex-namorado?
— Melhor amigo. – Jace arqueou uma sobrancelha e a menina sorriu um pouco. – É sério. Nos conhecemos desde pequenos, fomos criados praticamente juntos. – Clary não sentiu necessidade de falar que na verdade Simon era filho da atual amante de seu pai e que eles só ficaram próximos por causa desse relacionamento entre os pais.
— Isso é muito interessante. – O rapaz falou sorrindo e Clary o acompanhou. Jace tinha algo no sorriso que a fazia querer sorrir também, o que era bem estranho. – Então, Clarissa, o que você faz da vida?
Clary o encarou por um momento, dourado no verde, tentando ler o sentido daquela pergunta. O som alto ainda estava a incomodando e a sua cabeça ainda latejava, mas sentia aquela estranha necessidade de ficar ali conversando com aquele estranho. Já Jace já havia se esquecido que havia ido ali só para beber e dançar, naquele momento parecia que ele só tinha ido ir naquele lugar para conhecer e conversar com a ruiva a sua frente.
— Desculpe... O som... – ela indicou que o barulho estava a incomodando. A garota havia entendido a pergunta do loiro, mas não sabia se ele queria ouvir a resposta. Jace, se percebeu a saída da menina, não demonstrou porque só assentiu e se aproximou um pouco mais dela.
— Quer ir para outro lugar? – a ruiva olhou o rapaz por um tempo, analisando-o. – Não sou estuprador nem nenhum serial killer, eu juro.
Claro que Jace não ia contar para ela que na verdade não era nenhum santo, e que na verdade ele poderia ser até um pouco perigoso levando em consideração o que ele fazia e com quem ele lidava. O que ele não sabia é que a garota que estava ao seu lado também não era a mais pura das garotas e que, do mesmo modo que ele, tinha um passado e um presente completamente diferente do que aparentava.
Clary sabia que corria um risco saindo com um homem desconhecido, principalmente a àquela hora da noite e sozinha, mas ela sabia se defender como ninguém. Era um risco que ela estava correndo, nitidamente, mas havia algo em Jace que a estava instigando a conhece-lo melhor. Isso e a vontade louca de sair daquele lugar infernal.
E foi por isso que Clary assentiu de leve, com um sorriso contido no rosto, totalmente contrário do garoto que agora estava a sua frente, estendendo a mão para que ela se levantasse do banco em que estava sentada. Aceitando a ajuda do loiro a sua frente, Clary se levantou e de pé, era nítida a diferença de tamanho entre eles, mesmo com o salto gigantesco da garota.
— Vai avisar seu amigo que está indo embora?
— Aviso Simon no caminho, você vai...? – Mas Clary não terminou a pergunta.
— Isabelle sabe se virar sozinha e, acredite, duvido que ela fosse voltar comigo de qualquer forma. – E então o casal se direcionou a saída.
Dois desconhecidos que na verdade, eram mais conhecidos do que imaginavam.
