IV – Conflitos iniciais.
No quarto limpo e bastante organizado de Jace o despertador soava, apenas 5 horas após ele ter se deitado. Ele sabia que havia marcado com o pai e com Alec cedo, mas se arrependia nesse momento, enquanto forçava seu corpo a se sentar na cama e a despertar lentamente.
Arrastando, Jace levou seu corpo até o banheiro, ligando o chuveiro. A água fria causou arrepios em seu corpo, mas ele aguentou firme, afinal, se não usasse essa tática não levantaria da cama tão cedo. Mesmo acostumado a acordar naquele horário todos os dias, ainda havia uma pequena parte dele que relutava e hoje essa parte estava com grande controle sobre seu corpo.
Arrumou-se rapidamente e foi a cozinha, pegar uma xícara de café. Quando isso foi feito, seguiu para o escritório de seu pai. Não estava atrasado, mas mesmo assim a cara de desagrado de Stephen Herondale estava lá, como sempre.
— Não estou atrasado. – O loiro comentou entrando no cômodo e se sentando na cadeira, ao lado de seu melhor amigo.
O pai de Jace, Stephen Herondale, era um homem frio e nem um pouco compreensivo. O loiro menor acreditava que a história dele o fez assim, que o avô – muito severo – cooperou para isso e que o tempo também ajudou muito. Ele não era muito de sorrir, e muito menos de demonstrar afeto por ninguém. Havia se casado muito novo e tido um "herdeiro" muito cedo.
— Mas também não está adiantado, Alexander chegou primeiro que você. – Stephen falou sem nenhuma emoção no rosto. Quando Jace era pequeno achava que aquilo era pessoa e ficava triste, mas com o passar dos anos percebeu que o pai era assim mesmo e que não havia nada que ele pudesse fazer.
— Alexander é bem mais pontual do que eu. – Jace falou sorrindo displicentemente, do jeito que sabia que o pai não gostava.
— Bom paremos de falar de mim como se eu não estivesse aqui e vamos falar o que realmente interesse: O porquê de estarmos aqui. – Alec chamou atenção do pai e do filho, evitando assim um sermão de, pelo menos, umas duas horas.
Sempre era assim quando os Herondale se reuniam. Jace provocava e Stephen caía direitinho nas provocações do filho, iniciando assim uma guerra, praticamente. As coisas tendiam a sair de controle quando os dois ficavam juntos, no mesmo cômodo, sem Celine por perto.
— O carregamento de quinta foi barrado. – Stephen voltou-se para uma folha na sua mesa. As sobrancelhas de Alec se juntaram e Jace suspirou, mais um problema para eles resolverem... E ele ainda tinha um encontro com Clary mais tarde. Pensar na ruiva trouxe uma sensação de ansiedade em seu peito. Estava ansioso para vê-la.
— Mas Jordan não estava cuidando de tudo? – Alec questionou e antes que o pai pudesse abrir a boca, Jace justificou o problema.
— Sabemos muito bem que ele está jogando dos dois lados há muito tempo. Eu já tinha avisado para vocês dois que ele não era mais de confiança, mas como sempre vocês nunca me ouvem.
— Não sabemos ainda se foi realmente ele, sabemos? Jordan sempre mostrou lealdade a nós, Jace. – Alexander perguntou, agora se dirigindo a Stephen. O Lightwood sempre foi assim, sempre gostou de acreditar no melhor das pessoas, o que de fato não condizia com o que ele fazia da sua vida.
— Não há nada provado ainda, mas mesmo assim... Foi no turno dele que barraram. – Stephen desgrudou os olhos do papel e olhou para os garotos a sua frente. – Gostaria que dessem uma olhada na situação e sim Jace, somente uma olhada. Não quero saber de nada sádico da sua parte.
Stephen conhecia o filho o suficiente para saber que para ele perder a cabeça com Jordan pouco custava. Jace tinha essas tendências quando estava com uma arma na mão e com certo ódio de alguém.
— Uma olhada? – O loiro questionou o pai, que somente assentiu.
— Uma sondada.
— Você perdeu um carregamento inteiro e quer que eu dê somente uma olhada? Sabe quanto isso pode nos custar...? – Provavelmente Jace continuaria a reclamar, mas Stephen o cortou.
— Eu disse que o carregamento foi barrado, não que ele havia se perdido Jonathan. Ainda tenho contatos o suficiente para fazer com que todo aquele material entre de forma silenciosa, então sim Jace, eu quero que você só dê uma olhada porque se Jordan estiver jogando dos dois lados... Ainda podemos conseguir algumas coisas dele. E essa foi a nossa lição de hoje, volte amanhã para outra. – Stephen disse tudo aquilo com uma voz monótona e se Jace estivesse em um mal dia provavelmente xingaria, mas como não estava se limitou somente a rolar os olhos e se levantar.
Não se despediu do pai e muito menos o olhou duas vezes. O relacionamento da família Herondale era assim. Sem amor, sem carinho, parecia as vezes que tudo se baseava em negócios, dinheiro e trabalho.
Jace não precisava olhar para trás para saber que Alec o seguia com uma cara de poucos amigos e muito menos que ele estava querendo perguntar alguma coisa. Ou lhe repreender por alguma coisa.
— Pode falar Alec. – Ele disse enquanto andava pelos corredores da mansão. Odiava morar naquela casa enorme, com tanta gente, e se sentir sozinho a maior parte do tempo.
— Como sabe que eu quero falar com você?
— Do mesmo modo que eu sei que está com as sobrancelhas juntas nesse momento. – Um olhar de Jace para trás comprovou que ele, novamente, estava certo. – Desembucha.
— Não deveria falar assim com seu pai, você sabe disso, não sabe?
— Sei, mas as vezes faz bem esquecer algumas coisas.
— Jace...
— Alec, não começa. Você sabe que eu não deveria falar com o meu pai assim, mas faz alguns anos que ele não é bem um pai para mim. – E então seguiram em silêncio pelos corredores, até que Alec resolveu quebrar o silêncio do melhor amigo.
— Você chegou muito tarde ontem?
— Um pouco... Você e Izzy conseguiram voltar sem muitos problemas?
— Nem vi Isabelle. Com quem você estava? – Alec olhava para o amigo e reparou no mini sorriso que surgiu nos lábios de Jace. Ele demorou um pouco para responder, mas quando o fez só aguçou mais ainda a curiosidade do moreno.
— Com uma garota. – Os olhos dourados se encontraram com os azuis e um sorriso surgiu no rosto de ambos. – Acho que vou sair com ela hoje, se acabarmos de observar Jordan a tempo.
— Bom... Então daremos um jeito de olhar as coisas bem rápido. – E com uma gargalhada os garotos entraram em uma sala, chegando onde queriam. Jace sabia que Alec achava que tudo aquilo era brincadeira boba dele, mas pela primeira vez desde que se entendia por gente, ele queria mesmo acabar com tudo aquilo bem rápido para ir ver Clarissa.
Já na mansão Morgenstern, Clary acabava de abrir os olhos de um sono quente e nem um pouco inocente com certo loiro de olhos dourados. O corpo da menina estava um pouco suado e suas bochechas estavam um pouco coradas, a menina se sentia um pouco depravada, porque mal conhecia Jace e já estava tendo sonhos eróticos com ele.
Levantou-se da cama lentamente e se dirigiu ao banheiro, ela precisava de um banho rapidamente. Depois de ficar quase meia hora embaixo da água, ela foi em direção a cozinha saciar sua necessidade de cafeína.
O cômodo, à primeira vista, parecia vazio, mas depois ela notou a presença de alguém ali. Quem ela menos queria ver naquele momento: Simon Lewis, seu melhor amigo abandonado.
— Nem adianta fazer essa cara, eu já te vi Clarissa. – A garota entrou na cozinha e olhou para Simon, que estava sentado na mesa com a cara amassada.
— Que cara Simon?
— Essa sua cara de que vai fugir do possível confronto. – Ele disse a encarando e a garota só rolou os olhos, enquanto pegava seu café. Mesmo com vários empregados na casa, Clary gostava de comer na cozinha e pegar seu próprio café, porque isso fazia as coisas parecerem um pouco mais normais.
— Você sabe que não está fazendo muito sentido, não sabe?
— Você que não fez sentido saindo daquele jeito, Clary. E você desligou o telefone na minha cara! – Ele parecia chateado, e Clary sabia que em partes estava errada, mas não estava preparada para admitir nada. Pelo menos não hoje, não naquele momento.
— Não teria que ter feito isso se você tivesse feito o que disse que íamos fazer: dançar e aproveitar a noite. Mas você me deixou lá sozinha, enquanto se agarrava com aquela morena estranha.
— Quer me culpar pelos seus erros? – Ele questionou e Clary bufou.
— Quê erros Simon? Só porque eu saí sem dar notícia? Você já fez isso milhares de vezes.
— Bom, eu não sou você, não tenho o seu sobrenome, a sua responsabilidade... – ele continuaria, mas Clary achou melhor intervir.
— Eu não disse para o cara que eu era. Não sou burra, Simon! Eu e ele só conversamos, se quer saber. Comemos aqui perto e depois ele me trouxe em casa, e hoje vamos sair de novo, e se for legal espero que saiamos depois de amanhã também e quantas vezes eu quiser. Que saco! Estou cansada da forma como você e Sebastian me tratam. – A ruiva falou se levantando rapidamente, ainda com a caneca de café nas mãos. Simon abriu a boca para protestar, mas a melhor amiga já estava saindo.
