V – Só mais um dia comum.
Simon não planejava brigar, pelo contrário, ele queria só questionar a melhor amiga e depois acabar com aquela coisa toda, mas pelo visto não era isso que Clary havia entendido. Enquanto via o corpo pequeno de Clary se afastando, um sentimento de culpa assolou o peito dele, e o garoto quase foi atrás da melhor amiga. Quase. Ele a conhecia bem o suficiente para saber que naquele momento, não era uma boa hora.
Já fora da cozinha Clary conseguiu respirar mais aliviada, andando sem rumo pela casa enorme. Esperava encontrar alguém para gritar, de preferência o irmão. Fazia dois dias que os dois que não se viam e sempre era bom descontar seu ódio em Sebastian – ou Jonathan, como alguns do trabalho o chamavam – mesmo que ele não tivesse causado aquele sentimento.
— Perdida, pintora de rodapé? – A voz conhecida soou em seus ouvidos e Clary se virou, olhando para o irmão, que estava ao lado do pai. De perto, os dois pareciam a cópia exata um do outro, mudando somente os olhos do filho que eram verdes, assim como o dela e o da mãe.
— Pintora de rodapé é a... – Mas Clary não conseguiu completar a frase, porque Valentim a interrompeu.
— Meninos! Olhem a boca perante o pai de vocês. – Ele tentou parecer malvado, mas não conseguiu, fazendo com que os dois filhos rissem da cara dele.
Por mais que Valentim Morgenstern quisesse ser mais malvado com os filhos, não conseguia. Os dois sempre conseguiam o que ninguém mais era capaz de fazer: dobrar o pai com uma facilidade imensa. Ele simplesmente não conseguia negar nada para os dois, Sebastian porque nunca dava motivos e Clary porque bem... Ela era a sua boneca.
— Fiquei sabendo que dispensou Magnus ontem para ir a uma festa com Simon e nem me chamou. – Sebastian falou acusando a irmã, assim que parou de rir, e Valentim arqueou as sobrancelhas, em sinal de que estava esperando uma explicação, já que ele não sabia que festa era essa. E muito menos sabia da dispensa do segurança da menina.
— Não foi uma festa, fomos a uma boate e foi uma droga. E cá entre nós, Magnus estava precisando de uma folga. Estamos praticamente escravizando o coitado, achei que não faria mal ir sem ele.
— Você foi imprudente, mocinha. – Valentim a repreendeu e a menina deu de ombros.
— Sei me defender pai, você e o Sebs se encarregaram disso muito bem. Sem contar que Simon estava comigo e nós sabemos que ele é quase tão perigoso quanto o meu querido irmão aqui.
— Avise quando for fazer isso, Clary. Seu pai não tem mais idade para aguentar fortes emoções. – Valentim brincou abraçando a filha de lado, que só sorriu. Sabia que no fundo o pai só queria a proteção dela.
Apesar dos erros dele, Clary sempre o amou e o respeitou. Teve uma fase que ela não gostava de ele ser quem era e nem do que ele fazia, mas agora ela entendia e até mesmo o ajudava. Ele havia feito concessões a ela e, em troca, a menina havia entrado naquela loucura toda.
— Em outras palavras, o grande Chefão Valentim está velho. – Sebastian caçoou do pai.
— Repita isso novamente Jonathan e eu vou cortar sua língua. Eu estou no máximo um pouco mais experiente. – Clary riu e abraçou o pai, encostando sua cabeça no peito do homem mais velho.
— Então, sobre o que falavam antes de eu chegar? – A menina perguntou, olhando para o irmão. Esse só deu um sorriso malvado, como se já soubesse que ela ia perguntar isso.
— Estávamos falando em como você é chata e inconveniente. Esse assunto não te interessa, querida. – Ele falou e Clary estreitou os olhos.
— Sabe que com um clique eu consigo todas as informações que quero, não sabe? – O peito de Valentim se mexeu por causa da risada.
— Conte a ela, filho. Sei que você está orgulhoso disso e que quer, mesmo que no íntimo, ficar se gabando.
— Jordan barrou o carregamento do Herondale na quinta. Pegamos quase tudo! – Sebastian falou e Clary sorriu.
— E você fez isso sozinho? – Sebastian abriu a boca para responder, mas alguém o interrompeu.
— Aí você já está estimando seu irmão demais, não? Jordan só barrou o carregamento porque Maia pediu e ele está de quatro por ela. – Magnus Bane falou se aproximando. – Senhor Morgenstern, Sebastian.
— Para o seu governo, Maia pode até ter convencido Jordan, mas fui eu que roubei metade da carga dele e fiz questão de transformar em cinza. – O irmão mais velho de Clarissa piscou para Magnus, que só rolou os olhos.
Ele trabalhava para os Morgenstern há 7 anos, desde que Clary fez 13 anos e Valentim achou que ela precisava de segurança constante. Já estava intimo demais para saber com quem deveria brincar e quem não deveria, como deveria brincar e como não deveria de modo algum agir.
Magnus sabia, desde que começou a trabalhar para Valentim, que na máfia de Nova York você pisava em ovos e que qualquer comentário em falso, custaria sua cabeça. O homem não era burro e viu companheiros morrerem por achar que tinham liberdade demais.
Ele sabia que podia brincar com Sebastian daquele modo, sabia que poderia zoar Clary, mas que com o Sr. Morgenstern as coisas eram diferentes. Bem diferentes. Não se brincava com um chefe daqueles, ainda mais quando ele podia furar sua testa a qualquer momento, e foi por isso que com uma risada só, ele encerrou o a brincadeira. Antes que fosse longe demais.
...
Na delegacia de polícia do Brooklyn trabalhava Jordan Kyle, um policial responsável por permitir que os contrabandos – principalmente de armas e drogas – da família Herondale entrassem na cidade de Nova York. Mesmo que sua delegacia não fosse grande, mesmo que ele também não fosse grande coisa, Jordan sempre dava um jeito de fazer as coisas passarem. Sempre. Exceto naquela quinta, em que ele simplesmente não deu o famoso jeito.
E agora Jace Herondale estava querendo a cabeça dele em uma bandeja. E era sorte de Jordan Kyle que Alec estivesse ao seu lado, impedindo que o melhor amigo queimasse aquela droga de delegacia com ele dentro e assistisse a tudo dando gargalhadas.
O loiro, em um sábado de manhã, havia entrado na delegacia como quem não queria nada. Conversado com o delegado, se apresentando como Jonathan Wayland, e pedido encarecidamente para conversar com o seu amigo antigo, Jordan.
Não foi preciso muito para que o rapaz conseguisse conversar com Jordan a sós em uma das salas daquela delegacia. O policial mal havia se sentado em uma das cadeiras, quando Jace falou, a raiva contida em sua voz.
— Eu sei que você deixou a droga do carregamento de quinta ser barrado. – Com aquela frase, o pesadelo de Jordan começou. Ele sabia disso, e os outros meninos naquela sala também sabiam.
— Jace, eu...
— Olha aqui Jordan, você pode ter enganado a todo mundo, mas não me engana entendeu? – o silêncio se instaurou naquela sala – EU PERGUNTEI SE ENTENDEU. – Jordan rapidamente assentiu, perante o tom de voz do loiro.
— Jace... – Alec começou, mas o loiro o interrompeu.
— Eu sei Alec, eu sei. Só estou confirmando se Jordan entendeu, como ele já disse que entendeu, nós podemos partir para o que nós realmente viemos fazer aqui.
— Que é exatamente? – Jordan perguntou com a voz fraca.
— Dar um aviso a você e uma nova oportunidade também. O aviso é que nós sabemos que você ajudou aquele merda do Morgenstern e a oportunidade é que você, contra a minha vontade, não vai morrer hoje. Meu pai acha que você é mais útil para nós vivo... – Jace se aproximou perigosamente de Jordan, fazendo com que o alerta de Alec apitasse. Para que o melhor amigo tirasse uma faca e fincasse no pescoço de Jordan pouco custaria.
— O que Jace quer dizer Jordan, é que nós estamos dando mais uma chance para você provar de que lado está. Do nosso lado ou do outro lado?
Jace não gostava da forma como Alec falava manso com aqueles idiotas. Deve ser por isso que Stephen sempre colocava ele com o loiro, porque sabia que o Jace tinha de menos, Alec tinha demais, que era paciência e tranquilidade. Ao contrário do Herondale, Alexander sabia como conversar com as pessoas e sabia como agir com calma em determinadas situações.
— Eu sempre estive do lado de vocês...
— Não minta Jordan, nós realmente sabemos que você travou a droga do carregamento. – Alexander avisou o menino, que só assentiu.
— Mas foi só dessa vez, eu juro, e não vai acontecer de novo. Eu... eu me deixei levar por uma garota, mas não vou me deixar mais.
— Nós estamos te dando mais uma chance Jordan. Só mais uma chance. Não a desperdice, senão eu mesmo venho fazer o que tem que ser feito, que nesse caso é te mandar para debaixo da terra. – Jace falou olhando firmemente para o policial. Ele poderia ser adorável quando queria, mas também podia ser ameaçador, e nesse momento, ele estava mais do que ameaçador.
Jordan concordou com a cabeça e Jace olhou para o relógio. Havia sido mais rápido do que ele pensara, eram apenas duas da tarde, ou seja, ainda tinha mais cinco horas para conseguir uma reserva em um restaurante e se encontrar com Clarissa.
— Não deixe que uma garota estrague sua vida Jordan. Eu não vou conseguir segurar o Jace da próxima. – Alec avisou, antes de rumar para fora da sala com seu melhor amigo. Eles passaram pela sala do delegado, agradeceram o favor e foram rumo a mansão Herondale.
Enquanto isso Jordan ainda tremia, sentado na cadeira. Ele sabia que havia feito merda e não faria mais, nunca mais. Achou que os Herondale não iam perceber que a culpa fora sua de deixar o carregamento passar, achou que poderia culpar outra pessoa, mas pelo visto não pôde. Isso era o que acontecia quando se mexia com a máfia, e ele não estava disposto a perder a cabeça por causa de uma garota. Não mesmo!
