VIII – A manchete

Jace não demorou a chegar em casa, apesar da casa de Clary ser um pouco longe da sua. Um sorriso o acompanhou durante todo o caminho e só morreu ao ver o pai sentado na poltrona, assim que chegou à sala de estar.

Sabia, só pelo fato do pai estar ali, que ele criaria algum caso com ele. Stephen tinha o passatempo de brigar com o filho quando não tinha mais nada para fazer, mas hoje Jace não queria brigar. Ele queria ir para o quarto, tomar um banho, cair na cama e de preferência sonhar com Clary, igual aqueles adolescentes apaixonados bobocas dos filmes que Izzy obrigava Alec e Jace a ver quando tinha uns 14 anos.

— Chegou tarde. – O pai comentou assim que colocou os olhos no filho. Jace olhou para o relógio e eram onze da noite, para ele não estava nem um pouco tarde.

— Nem tanto, costumo chegar mais tarde que isso. – O menino falou dando de ombros e se dirigindo a escadaria, não queria ficar ali, com seu pai, sozinho.

— Como ontem? Que chegou 4 horas da manhã? – Stephen não pareceu perceber que o filho só queria dormir, porque continuou puxando assunto.

Jace estava cansado, isso era um fato. Havia dormido só 5 horas, de manhã havia ido até aquele merda do Jordan, feito o serviço sujo para o seu pai, ajeitado algumas coisas, conferido algumas coisas que entrariam e outras que sairiam e agora, depois que teve a melhor parte do seu dia, queria descansar.

— Sim, se olharmos por esse ponto... Em relação a ontem, estou cedo até demais em casa.

— Jonathan... – seu pai começou, mas Jace se virou para olhá-lo. O homem, que quando jovem deveria ter sido a sensação das mulheres, estava já com alguns cabelos grisalhos e os olhos cansados, como se estivesse esperando por ele há horas. Ao ver o olhar do filho sobre si, Stephen se calou.

— Pai, eu estou cansado se não se importa. Se tem algum esporro para passar, pode esperar. Se tem alguma coisa que queira que eu faça, pode esperar amanhã...

— Eu só queria saber onde estava. – Stephen falou, para a surpresa do filho.

— Queria saber onde estava?

— Sua mãe ouviu Isabelle falando com Alec que você tinha saído e não tinha falado com quem ia sair, ela ficou preocupada e eu também. Geralmente você conta tudo para Alexander, aconteceu alguma coisa entre vocês?

A atitude do pai havia surpreendido Jace, que deu alguns passos para trás, distanciando-se um pouco da escada. Ele estava preocupado com Jace? Desde quando? Stephen nunca se preocupou, as vezes até o mandava para algumas missões suicidas, para ver como ele se sairia. Claro que não queria que o seu herdeiro morresse, mas Jace sempre achou que o pai não dava a mínima para nada, somente para o dinheiro.

— Alec e eu estamos muito bem, obrigado. – Foi o que o rapaz conseguiu formular, devido a sua surpresa com a súbita preocupação do pai.

— Então por que não contou para ele com quem ia sair? Ou onde ia ir?

— Porque não era da conta deles, ora. Eu estava em um encontro com uma garota, só isso, não tem porque eu passar todos os dados para Isabelle e para Alec ou para você e a mamãe. Sou maior de idade, conheci uma garota e a levei para jantar, o que tem de errado nisso?

— Errado não há nada, mas você tem que tomar cuidado e nós temos que saber onde você está... Para a sua própria segurança. – Stephen parecia cansado de algo, Jace só não sabia o que era.

— Não é como se eu fosse contar quem eu sou para as pessoas, pai. Eu aprendi a me cuidar, não se preocupe. Sei me misturar como se fosse um garoto comum... – Jace começou, mas o pai o interrompeu.

— Eu sei que sabe fazer isso, mas as outras pessoas também sabem fazer isso. É com isso que eu e a sua mãe nos preocupamos.

— A menina com quem eu saí hoje não sabe de nada pai, eu mesmo me certifiquei nisso. Ela é só uma garota normal, estudante de artes, que conheceu um garoto. Só isso, do mesmo modo que eu sou só mais um garoto normal que trabalha com o pai em seu negócio. Agora eu posso ir dormir, por favor? – Jace perguntou e Stephen assentiu, voltando os seus olhos para a TV, que estava ligada em um noticiário. – Boa noite, pai.

— Boa noite, Jonathan.

E então Jace subiu para o seu quarto, estava cansado e nem um pouco animado. A felicidade ainda estava retumbando em seu peito, mas o cansaço estava tornando tudo um pouco confuso. Ele foi para o banheiro e tomou um banho de forma automática, jogando-se na cama sem nem mesmo secar os cabelos direito e vestir uma roupa.

Imediatamente seus olhos pesaram, levando-o para o mundo dos sonhos, onde uma certa ruiva estaria presente, com certeza, só de observar o sorriso que ainda estava em seu rosto. Jace mal havia notado o jornal que estava em seu criado mudo, com a notícia em letras garrafais que o faria entender o porquê da preocupação dos pais.

"FILHO DE UM DOS MAIORES CRIMONOSOS DE NOVA YORK ESCAPA DA POLÍCIA NOVAMENTE NO CENTRO DA CIDADE".

Na casa dos Morgenstern, quando Clary entrou, parecia que o inferno havia subido e se instaurado naquele lugar. Estava uma zona, sem dúvidas. Eram pessoas e mais pessoas passando de um lado para outro, sem nem parar para olhar a ruiva, que estava parada na sala, olhando aquilo tudo com a cara mais confusa de todas.

— Seu irmão quase foi pego com Simon. – Alguém falou e ela se virou para dar de cara com Luke e seus olhos azuis gentis.

— Como assim? – Os olhos verdes de Clary rapidamente se arregalaram e o padrasto pôde ler o pânico que se instalou ali.

— Eles estão bem. Talvez Sebastian esteja sangrando um pouco, mas nada que não se possa resolver.

A família de Clarissa era uma bagunça, isso ela tinha que admitir. Os pais dela não eram mais casados, na verdade nunca foram, mas moravam na mesma casa. Valentim com Elaine, sua amante que causou toda a confusão do casamento dos dois, e Jocelyn com o novo marido – esse sim oficial – Luke, que era melhor amigo de Valentim e já trabalhava para ele antes da confusão toda.

Por isso Clary não ficou nem um pouco surpresa quando o pai olhou para o padrasto com cara de desgosto e esse último se retirou sem dar uma palavra para a enteada. Era assim quase sempre que eles se viam e Jocelyn não estavam perto, a sorte era morarem todos em uma casa muito grande, muito grande mesmo, o que quase sempre possibilitava que cada um ficasse no seu canto.

— O que houve com Sebs? – Clary perguntou ao pai assim que ele se aproximou.

— Uma bala passou de raspão no braço dele.

— Mas ele está bem? – Valentim parecia cansado, as olheiras indicavam que ele estava exausto, provavelmente por causa daquilo todo.

— Está bem. Até bom que ele aprende a ser mais cuidadoso. Eu disse para ele, para não fazer essa merda toda, e o que ele faz? O contrário do que eu disse. – O pai estava resmungando, como quando ficava estressado com algo.

Clary cuidadosamente pegou ele pelo braço e o levou até o sofá, sentando-se ao seu lado. Sabia que o pai odiava quando Sebastian quebrava suas ordens e não fazia o que estava programado, e toda vez que isso acontecida, ou Sebastian ficava se gabando por sair ileso ou acabava se machucando e deixando todos loucos. O médico da família teve que fazer mais suturas e remendos em Sebastian do que em qualquer outro membro da família Morgenstern.

— Me explica melhor isso, pai. O que realmente houve? Como atiraram contra Sebastian se ele não tinha nenhum serviço para hoje. – Valentim olhou para a filha, seus olhos transpareciam a dúvida de como ela sabia disso. – Eu sabia porque olhei na agenda do telefone dele se tinha algo de diferente... E Maia me falou que ele ia ficar vendo filmes a noite toda.

Claro que ela não precisava contar para o pai que na verdade ela sabia que ele não ia fazer nada a noite, porque ele e Maia tinham combinado de se pegarem como sempre. Valentim não gostava que os filhos se misturassem com os empregados daquela forma e dedurar o irmão mais a amiga era uma coisa que ela não cogitava.

— Sebastian teve que verificar de última hora um carregamento. Eu disse para ele esperar até de manhã, que Pangborn já tinha ido e que não tinha necessidade da presença dele, mas você conhece seu irmão. Ele, com toda a sua teimosia, foi. Adivinha quem estava lá esperando? A polícia. Ele pegou a rota mais conhecida pelos tiras e queria que tudo ficasse tranquilo, que eles deixassem ele passar... Claro que isso não aconteceu e quando seu irmão assustou, estava vindo tiros por todos os lados. Quase pegaram ele e saiu até na porcaria do jornal. – E então Valentim ligou a TV no noticiário.

Lá estava a maldita legenda "FILHO DE UM DOS MAIORES CRIMONOSOS DE NOVA YORK ESCAPA DA POLÍCIA NOVAMENTE NO CENTRO DA CIDADE" junto com a foto da traseira do carro sem placa e o braço de Sebastian com uma arma na mão. Clary fechou os olhos e suspirou, pensando na merda que aquilo poderia dar.

— Você quer que eu tire isso de circulação? – Clary perguntou, encarando o pai depois de alguns segundos.

— Não. Vou esperar seu irmão "melhorar" e ele vai arrumar essa bagunça. E não quero saber da senhorita o ajudando, Clarissa. Ele cometeu o erro, ele arruma. – Clary concordou com a cabeça e viu a mãe se aproximando.

— Ele está bem. Alguns pontos no braço, mas o médico o encheu de remédios. Disse que seria melhor costurar ele com a boca fechada e eu concordei. Nosso filho só acorda amanhã. – Jocelyn falou, sentando-se ao lado de Clary. – Onde estava?

— É mesmo, onde estava? – Valentim questionou, dando conta agora mesmo que a filha não estava ali durante todo aquele turbilhão de coisas.

— Em um encontro, com o cara que eu conheci ontem. – Um sorriso pequeno surgiu nos lábios da garota ao se lembrar de Jace.

— Você foi a um encontro e não avisou ninguém? – Valentim falou olhando para a filha com incredulidade, do mesmo jeito que a mãe também a estava olhando.

— Avisei sim, Sebastian sabia e Magnus também. Sem contar que nós já falamos sobre isso e sabemos muito bem que eu sei me defender, não sou igual esse louco do meu irmão. – A menina falou olhando para ambos os pais. O olhar de Jocelyn se suavizou um pouco, mas o de Valentim continuava o mesmo.

— A questão não é se defender, Clarissa. Você foi a um encontro e não contou para o seu pai. Ainda somos uma família sabia? Você deve uma explicação para mim sobre os seus namorados.

— E quem falou em namorado? Pai, eu conheci ele ontem. Fomos jantar hoje, então relaxa que não tem ninguém namorando. – A ruiva tentou amaciar um pouco o pai, o que não teve sucesso.

Valentim, quando se tratava de Clary, gostaria de poder coloca-la em um convento. Não gostava de o fato da filha namorar, beijar e até mesmo fazer outras coisas, para ele Clarissa tinha que ficar virgem, pura e solteira enquanto ele fosse vivo, para evitar maiores complicações.

— Valentim, desamarre essa cara. Não tem namorado, Clary já deixou isso claro. Vamos confiar na nossa filha. – Jocelyn ajudou Clary, que sorriu agradecendo.

— Vamos confiar nela, mas e nesse garoto? Eu quero conhece-lo. – Valentim exigiu e a filha riu.

— Se você se comportar direito, eu penso nisso ok? Agora que Sebastian está bem e as coisas estão se ajeitando eu vou dormir, porque estou cansada. – Clary avisou se levantando e após dar um beijo de boa noite no pai e na mãe, e dar um tapa na cabeça de Simon que estava lendo perto da escada, subiu para o seu quarto.

Ainda estava com um pouco de raiva do melhor amigo, mas a noite com Jace havia deixado ela tão feliz que mal se importou com isso. Entrou no chuveiro com um sorriso no rosto e saiu com um maior ainda, indo para a sua estante e pegando um livro para ler. Não queria dormir, apesar do cansaço, então decidiu ler até pelo menos o seu cabelo secar. O livro da noite havia sido Romeu e Julieta.