X – Jordan Kyle
Sorrir foi inevitável com aquela mensagem. Clary não entendia ainda como se sentia em relação a Jace, mas sabia que o menino a fazia feliz, como nenhum outro a havia feito desde seu estúpido ex-namorado que só queria leva-la para cama e nada mais.
Ela não gostava de lembrar de Jacob, antigamente a fazia ficar triste e depois com raiva, mas agora... Clarissa não sentia nada, só um pouco de pena do garoto, que sofreu bastante na mão do irmão psicopata e raivoso, do pai e do melhor amigo. Até Magnus ajudou no esquema "preparando-se para matar Jacob".
Respondeu a mensagem de Jace dizendo que por mais que quisesse vê-lo, teria que ver como estava o andamento da semana, afinal... Não podia dizer para o cara que tinha que ver se o pai precisaria do trabalho extra dela com os computadores.
Assim que saiu do banheiro, desceu as escadas indo para a sala de jantar. Seus pais ainda estavam lá, assim como Luke e Simon, que conversavam animados sobre alguma coisa que, provavelmente, Clary acharia idiota.
— Bom dia. – a menina cumprimentou, sentando-se a mesa e chamando a atenção das pessoas que ali estavam sentadas.
— A bela adormecida acordou... – o pai disse sorrindo para a filha.
— Hoje é domingo, pai. Eu posso e devo dormir até mais tarde.
— Deveria dar umas aulas para o resto das pessoas dessa casa. Parece que o domingo é o dia de acordar cedo preferido. – Luke falou com um sorriso amável e Clary riu, assim como Simon.
— Se eu pudesse hibernava no domingo. – Simon comentou e a mãe, que estava vindo se sentar com o restante da família concordou.
— Eu sei muito bem disso. Rebecca está hibernando, por sinal.
Elaine era a ex-amante e atual "namorida" do meu pai, ela morava conosco desde que Valentim e Jocelyn haviam se separado, há 15 anos e era praticamente da família. Sem dúvidas, era uma mulher forte e durona, ela que havia treinado a todos nós, inclusive os filhos, para sobreviver nesse mundo.
Aulas de tiro, luta e de estratégias, tudo ela havia ministrado. Não mostrava compaixão conosco durante o treinamento e sempre que não dávamos tudo que tínhamos na aula ela ralhava conosco, mas fora da sala de treinos era uma pessoa maravilhosa e educada, que tratava a todos como se fossem seus filhos.
— Rebecca sempre dorme mais que a cama. – Clary disse sorrindo. A mulher concordou com a cabeça e todos se voltaram para o café.
— Onde está Sebastian? – A mãe perguntou um tempo depois, olhando para Clary que deu de ombros.
— Não sei. Ele estava no quarto há uns minutos, mas quando eu saí já tinha sumido.
— Estranho... – Jocelyn falou para si mesma, voltando sua atenção para o prato.
O resto do café da manhã correu bem na casa dos Morgenstern e quando Clary questionou se havia algum trabalho para hoje o pai somente negou, dizendo que ela poderia fazer o que quisesse. O primeiro pensamento da garota foi: ver Jace, e por isso, ela imediatamente mandou uma mensagem para o garoto perguntando o que ele ia fazer hoje.
Jace respondeu rapidamente dizendo que não ia fazer nada, então combinaram de se encontrar as três da tarde. Clary pensou que ele a acharia uma desesperada, mas com a rapidez com que ele respondeu e o modo como falou com ela indicava que ele também estava ansioso para vê-la novamente, o que era excelente.
Jace estava lendo um livro para matar o tempo até chegar a hora de ver Clary quando Alec entrou na biblioteca, desconcentrando-o. O melhor amigo parecia um pouco afobado e nem um pouco paciente, já que mal entrou e começou a falar.
— Temos um problema. – Jace conhecia Alexander a tempo o suficiente para saber que o tom de voz do menino indicava que era um problemão. Foi por isso que ele se sentou rapidamente, deixando o livro de lado.
— Que tipo de problema?
— Um daqueles que deixam pessoas normais carecas.
— O que aconteceu? – Jace perguntou e Alec indicou a saída com a cabeça.
— Te falo no caminho... – e então os dois saíram da biblioteca a passos rápidos.
— Estamos no caminho, Alec.
— Vou dizer só uma palavra e você vai entender: Jordan. – Alec disse virando-se para olhar o melhor amigo.
— O que aquele filho da puta fez? – Pelo que percebeu Jace, estavam indo para o escritório do pai.
— Não é o que ele fez, mas sim o que vão fazer com ele. Izzy conseguiu quebrar uma criptografia que protegia o computador de Maia Roberts, a namoradinha do Jordan que trabalha para os Morgenstern. Adivinha só?
— Eles vão apagar aquele idiota. – E então Alec assentiu.
Chegaram ao escritório de Stephen em tempo recorde, considerando a distância do cômodo para a biblioteca. Isabelle já esperava na porta, as botas de salto alto batendo no piso de madeira impaciente... pelo modo como estava vestida, Jace suspeitou que ela iria com eles dessa vez.
— Por que essa demora toda? – Ela questionou assim que os meninos se aproximaram.
— Já viu a distância que a biblioteca é do escritório? Viemos o mais rápido que conseguimos. – Jace falou sem paciência, já entrando na sala do pai, sem sequer bater.
O homem estava sentado, ainda com a cara de cansado, e olhava para o computador parecendo vidrado no que estava vendo. A mesa de mogno estava cheia de papéis, espalhados, e uma xícara de café repousava ali, provavelmente esquecida.
— Ainda bem que vocês vieram. – Stephen comentou sem levantar os olhos do computador. – Presumo que Alec já tenha esclarecido algumas coisas para você, Jace.
— Ele disse que vão matar Jordan. A questão é: por quê?
— É isso que queremos descobrir. Fiquei na rede do computador da Maia por uns 5 minutos, no máximo, antes de cair. Só consegui saber o que eles iam fazer, mas não o motivo.
— Bom... Se fosse eu – Jace começou jogando-se em uma das cadeiras daquele lugar – mataria Jordan porque ele sabe de alguma coisa importante.
— Mas que coisa importante? – O pai questionou e Jace sorriu. Não um sorriso tranquilo, mas um daqueles sorrisos que pessoas más dão quando vão tramar alguma coisa.
— Isso é o que vamos descobrir assim que tirarmos aquele louco de lá e o trouxermos aqui. – O loiro mais novo falou e Alec sentou-se na cadeira ao lado dele.
— Vamos nos arriscar tanto assim para resgatar Jordan da morte?
— Vamos nos arriscar tanto assim, Alexander, para saber por que Jonathan e o pai querem Jordan morto. E acredite em mim, se o filhote de Morgenstern quer apagar aquele idiota é porque ele sabe de alguma coisa.
— Concordo com Jace. E acho também que estamos perdendo tempo aqui, discutindo se vale ou não a pena. Se conseguirmos pegar ele, veremos se tem a informação, se tiver ótimo, se não... fazemos o que o Morgenstern queria. Acredito que Jace adoraria acabar com a raça do Kyle mesmo. – Isabelle foi a favor do primo, que abriu um sorriso brilhante para o pai.
— Vão ver o que conseguimos com Jordan, mas tomem cuidado vocês três. Não se arrisquem demais. – Stephen falou olhando especialmente para o filho, que só assentiu.
Clary estava fazendo anotações sobre o livro que lia quando a sua porta foi aberta violentamente e o irmão aparecia na soleira, olhando-a com uma expressão que beirava ao desespero. Magnus estava ao seu lado, a mesma expressão preocupada, o que fez com que a menina arqueasse as duas sobrancelhas, olhando para os meninos.
— O que foi?
— Invadiram o computador de Maia e não sabemos o que viram e muito menos quanto tempo ficaram. – Sebastian falou e Clary arregalou os olhos.
Quebraram a criptografia que ela havia feito? Que ela havia ficado horas criando e protegendo? Levantou-se rapidamente e deixou o quarto, com o irmão e Magnus na sua cola, ambos sem dizerem nada.
Demorou a metade do tempo que demoraria para chegar no escritório de Maia. Uma coisa era ter um computador pessoal hackeado, outra coisa era ter um computador de trabalho de um dos membros do setor de inteligência exposto desse jeito.
Maia estava lá, sentada na mesa, olhando para a tela do computador com uma expressão incrédula, onde o sistema dizia que estava recuperando arquivos. Assim que viu Clary se levantou da cadeira, dando o lugar para a ruiva menor, viu também que seu pai e Luke estavam lá, lado a lado, encarando aquilo tudo.
— O que houve, exatamente? – Clary questionou quando se acomodou e se colocou a digitar algumas fórmulas, para entender o que estava acontecendo.
— Fui almoçar e deixei o computador ligado, fazendo o back-up de alguns documentos e plantas, quando voltei o sistema de segurança estava apitando falando que houve falha e que estava restaurando arquivos. – Maia explicou rapidamente, a menina podia sentir todos os olhares em si e se sentia desconfortável com isso.
Os dedos de Clary passavam rapidamente pelo teclado do computador, enquanto sua mente trabalhava fervorosamente tentando descobrir como alguém conseguiu quebrar sua criptografia. Ela não tinha nenhum diploma renomado quanto a computadores, mas podia-se dizer que a menina era uma autodidata quando se tratava de tecnologia e de como seus sistemas funcionavam, era desse modo que ajudava o pai.
— Acha que consegue descobrir quem fez isso? – O pai perguntou cauteloso.
— Acho que posso tentar, mas para ter rompido o sistema de segurança, o computador deve ser mais difícil de rastrear. Posso tentar saber o que eles viram e quanto tempo ficaram no sistema. – Os olhos de Clary se desviaram do monitor para o pai, que somente assentiu.
— Quanto tempo daria para ver coisas muito importantes? – Sebastian questionou com a voz séria. Raramente ele ficava assim, mas quando ficava... Virara outra pessoa.
— Se a pessoa ficasse uns dez minutos conseguiria copiar muita coisa. Vou ter que reestruturar todo o sistema de segurança... isso vai durar o dia todo. – Rapidamente Clary se lembrou do encontro e seus olhos arregalaram. – Quantas horas, agora?
— Duas da tarde. – Luke respondeu e Clary gemeu.
— Merda!
— O que foi? – O padrasto perguntou, preocupado.
— Esqueci de Jace. – Clary pescou o telefone do bolso do short que estava e começou a digitar o número do garoto.
O celular de Jace estava tocando enquanto ele e os primos pegavam as coisas que precisariam para dar um jeito de entrar na delegacia e pegar Jordan sem ninguém perceber. Quando pegou e viu o nome de Clary na tela, xingou baixinho, havia se esquecido completamente da garota e do encontro que tinham marcado.
— Jace? – Ela questionou assim que atendeu.
— Oi Clary, ia te ligar agora. – Ele mentiu, olhou para os primos, que haviam parado de pegar armas e agora o observavam. Nenhum dos dois desviou o olhar de Jace, nem mesmo quando ele fez uma careta ao perceber a audiência da conversa.
— Ia? – Do outro lado da linha ele podia ouvir o esmagar de teclas de um teclado.
— Sim... aconteceu um problema e acho que não vamos poder nos ver hoje. Podemos marcar para outro dia? – Um suspiro de alívio foi ouvido por Jace, que vincou as sobrancelhas.
— Claro que podemos. Eu estava ligando para desmarcar também... que tal terça a tarde ou a noite? – Ela perguntou enquanto Jace pegava uma arma e a analisava.
— Terça à noite parece perfeito. – Ele olhava distraído para a arma, ainda sentindo o olhar dos primos sobre si.
— Então ótimo. Até mais Jace.
— Até mais Clary. – E então desligaram.
Os primos encaram Jace com um olhar surpreso e ao mesmo tempo engraçado. Não acreditavam que fossem viver o suficiente para ver Jace Herondale olhando uma arma distraído enquanto conversava com uma garota com um sorriso todo bobo no rosto.
— Você está apaixonado. – Izzy comentou, ainda meio chocada.
— Não. Não estou apaixonado, estou encantado e acho que deveríamos ir embora rápido. – Ele falou, pegando mais algumas armas e as guardando, e depois rumando para a porta que dava para a garagem, sendo acompanhado pelos dois primos.
— Então... Clary, uh? – Alec zombou quando chegaram ao carro, assumindo a direção.
— Cala a boca, Lightwood.
O caminho até a delegacia foi rápido e coberto de discussões sobre estratégias de como entrar no local sem que todos os policiais abrissem fogo contra eles. Ficou decidido que Izzy seria a distração e, enquanto Jace e Alec, conversavam no "privado" com Jordan e o arrastavam para o carro, ela faria um Boletim de Ocorrência sobre um falso assédio, para distrair o resto das pessoas que ali estavam.
Quando chegaram ao local de trabalho, Jace e Alec se apresentaram e pediram ao delegado, como já o haviam feito uma vez, se poderiam conversar com Jordan Kyle a sós e, assim como da primeira vez, o homem havia considerado o pedido deles. Na verdade, o delegado parecia cansado e nem um pouco disposto a aguentar pessoas o atormentando.
Entraram na mesma sala de antes e antes de Jordan pudesse abrir a boca, Jace deu uma cotovelada em sua têmpora. Aquilo não o mataria, mas o manteria desacordado pelo tempo que precisavam. Enquanto aquilo acontecia, Alec desligava a câmera que não haviam notado existir da primeira vez e Isabelle entrava no local fazendo o seu teatro de moça desesperada.
Sem nenhuma dificuldade, Jace e Alec saíram pela porta de trás e não encontraram nenhum policial ou soldado naquele lugar, o que indicava que Isabelle estava sendo bem histérica. Chegaram ao carro e deixaram Jordan ali, enquanto voltavam para a entrada da delegacia e se despediam do delegado, viram Isabelle lá, sentada com um copo de água na mão e o rosto machado de lágrimas.
Algum tempo depois a menina saiu com um papel na mão e o rosto inchado, mas com um sorriso no rosto. Entrou no carro e viu Jordan desacordado, fazendo uma careta para ele e então, os meninos partiram para a mansão Herondale.
— O que é esse papel? – Alec perguntou, olhando a irmã pelo retrovisor.
— O delegado me deu para que eu pudesse fazer um exame. Ele achou que eu estava muito abalada para fazer isso hoje.
— Você é uma atriz e tanto. – Jace brincou, enquanto mexia no telefone.
— Obrigada. Nasci para as artes.
Enquanto os Herondale estavam no carro, com Jordan Kyle desacordado no banco de trás, Clarissa havia descoberto o que estava acontecendo com o computador de Maia. O pai, o irmão, Maia, o padrasto e o segurança ainda estavam lá ao seu lado e o corpo deles vibraram de excitação quando Clary anunciou que tinha conseguido.
— Não fizeram um estrago tão grande. – Ela comentou, olhando para o pai.
— O que houve? – Sebastian estava impaciente, assim como a sua voz.
— Ficaram somente cinco minutos dentro do sistema, antes de tudo cair e o computador rejeitar o invasor. Pegaram somente algumas informações sem nenhuma importância, exceto uma, que falava sobre a morte de Jordan Kyle.
— E quem fez isso? – O pai questionou, já sabendo a resposta.
— I. L.
— E quem diabos é isso? – O padrasto perguntou ao ver que todos estavam confusos.
— A pessoa que invadiu deixou esse rastro de propósito, como se soubesse o que tinha acontecido. – Clary explicou.
— Eu esperava pelo menos um H aí. – Sebastian disse frustrado, mas Maia interrompeu suas lamentações.
— A pessoa deixou um I e um L? – Clary assentiu e Maia sorriu. – Isabelle Lightwood, sobrinha do Herondale. Jordan me disse que os Lightwood também estavam no esquema e que os filhos trabalhavam para o tio. A menina se chama Isabelle.
— Então esse filho da mãe sabe o que vamos fazer... – Simon começou, mas Sebastian o interrompeu.
— E provavelmente já deu um jeito de impedir isso. Temos que ir agora para aquela maldita delegacia e ver se Jordan está lá. Se aquele maldito colocar a mão em Kyle estamos todos fodidos.
E então Sebastian saiu com Simon em seu encalço... Mal sabiam eles que Jordan estava, nesse momento, sendo levado para o porão da mansão Herondale para dizer tudo o que sabia.
