Bom, mesmo não recebendo nenhum comentário no capítulo anterior (chora), resolvi postar mais um. Quem sabe assim, alguém me deixe um review.

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CAPÍTULO 2

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As dez razões principais por que eu gostaria de ser a Gwen Stefani, cantora da melhor banda de ska de todos os tempos, No Doubt:

10. A Gwen pode tingir o cabelo da cor que quiser, até de rosa-shoking, como fez na turnê Return Of Saturn, e os pais dela não estão nem aí, porque apreciam o fato de ela ser artista e de precisar fazer esse tipo de coisa para dar forma à sua expressão artística. O Sr. e a Sra. Stefani provavelmente nunca ameaçaram cortar a mesada da Gwen como aconteceu com os meus pais na vez que eu tentei pintar o cabelo com KiSuco.

9. Se a Gwen quisesse usar preto todo dia, as pessoas simplesmente aceitariam o ato como sinal de sua enorme genialidade e ninguém ficaria fazendo comentários-ninja, como fazem comigo.

8. Gwen mora sozinha, de modo que as irmãs mais velhas dela não invadem seu quarto sempre que querem, fuçando tudo e depois dedurando o que ela faz para os pais.

7. A Gwen escreve músicas a respeito dos ex-namorados e canta na frente de todo mundo. Eu nunca tive namorado, então, como é que eu ia poder escrever uma música sobre um ex?

6. CDs grátis.

5. Se ela tirasse uma nota baixa em alemão por ter usado todo o tempo da aula para escrever músicas, duvido totalmente que a mãe da Gwen mandasse ela ter aula de música duas vezes por semana. Seria mais provável que ela deixasse a Gwen largar o alemão para se dedicar a escrever músicas em tempo integral.

4. Ela tem dúzias de sites dedicados a ela. Se a gente colocar as palavras Sakura Haruno em qualquer mecanismo de busca na internet, nada aparece.

3. Todas as pessoas que foram más para a Gwen na escola certamente se arrependem profundamente até hoje e tentam puxar o saco dela. Mas ela pode dar uma de "Mas quem é você mesmo?", tipo o que a Ino Yamanaka fez comigo quando eu voltei do Marrocos.

2. Ela pode ficar com qualquer cara que quiser. Bom, talvez não QUALQUER um, mas é bem provável que conseguisse o cara que eu quero. Que, infelizmente, é o namorado da minha irmã. Mas tanto faz.

E a razão principal por que eu queria ser a Gwen Stefani:

1. Ela não precisaria ter aula de arte com a Tsuanade Senju.

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Sobrou para a Chiyo me levar de carro até o ateliê de arte, depois da escola, no dia seguinte.

Mas a Chiyo está acostumada a nos levar de um lado para o outro. Ele trabalha para a minha família desde que voltamos do Marrocos. E faz tudo aquilo que meus pais não têm tempo de fazer: levar a gente aonde precisamos ir, limpar a casa, lavar a roupa, preparar as refeições, fazer compras.

Mas é claro que a gente também precisa ajudar. Por exemplo, cuidar do Pakkun é minha obrigação, já que eu queria tanto ter um cachorro. A Moegi tem que pôr a mesa; eu tiro os pratos e jogo no lixo; a Karin coloca tudo no lava-louças.

A coisa até que funciona direito (quando a Chiyo está de olho na gente). Se ela já voltou para a casa dela à noite, as coisas geralmente ficam meio bagunçadas. Uma das obrigações não-oficiais que ela tem é refinar a disciplina na minha família, já que mamãe e papai, nas palavras da Horizon, a escola de Moegi, às vezes "não conseguem estabelecer limites adequados" para nós, os filhos.

No caminho do ateliê da Tsunade Senju naquele primeiro dia, a Chiyo ficou tipo estabelecendo um monte de limites. Ela estava bem ligada na minha total intenção de escapulir no minuto em que ela se afastasse com o carro.

—Se você acha, Dona Sakura, que eu não vou entrar lá com você, é melhor você mudar de pensamento – informou enquanto passávamos pelo Beco dos Burritos, a maneira como o povo está chamando o Supont Circle, já que ultimamente o lugar se encheu de fast-foods mexicanos e lugares que vendem sanduíches.

"Mudar de pensamento" é uma das expressões preferidas da Chiyo, e fui eu quem ensinou a ela. Na verdade, é "mudar de ideia", não "pensamento". É uma coisa que todo mundo fala. Eu me esforcei muito para adaptar a Chiyo à nossa cultura já que, quando começou a trabalhar para nós, tinha acabado de chegar de Taiwan e não tinha a mínima ideia de como as coisas funcionavam no Japão.

Agora que ela já está a par do que rola e no que não rola aqui, a Nippon TV até podia contratá-la como consultora.

Além disso, ela só me chama de Dona Sakura quando está brava comigo.

—Eu sei exatamente o que você está pensando, Dona Sakura – continuou Chiyo no meio do congestionamento da Avenida Suna, causado, como sempre, pela comitiva de carros do primeiro-ministro. Esse é um dos problemas de morar em Konoha, sede do governo do Japão. Não dá para ir a lugar algum sem topar com uma comitiva de carros. – Assim que eu virar as costas, você entra correndo na loja de CDs mais próxima e pronto, acabou.

Suspirei como se tal ideia jamais tivesse passado pela minha cabeça, apesar de eu estar planejando aquilo mesmo. Mas eu me sinto como se fosse obrigada a pensar coisas assim. Se não desafiar a autoridade, como é que vou manter minha integridade artística?

—Até parece, Chiyo – foi o que respondi, apesar de tudo.

—Não me venha com esse "até parece, Chiyo" – retorquiu ela. – Eu conheço você muito bem. Sempre vestida de preto e ouvindo aquela música punk...

—Ska – corrigi.

—Tanto faz.

O último carro da comitiva passou e fomos liberadas para seguir em frente. Ela prosseguiu:

—Daqui a pouco você vai querer tingir esse seu lindo cabelo ruivo de preto.

Pensei, cheia de culpa, na caixinha de coloração instantânea Sussurro da Meia-Noite que repousava no armarinho do banheiro. Será que Chiyo tinha visto? Porque eu não acho que ter cabelo ruivo é tão bom assim. Bom, talvez seja, se o seu cabelo for igual ao da Karin, que é daquela cor que chamam de vermelho-de-Tiziano, o nome do pintor que inventou essa cor. Mas cabelo ruivo igual ao meu, que mais parece rosa, quem vai achar bonito? Não é tão fofo assim, vou dizer.

—E às cinco e meia, – Chiyo prosseguiu — quando eu vier buscar você, vou lá dentro apanhá-la. Nada dessa história de me esperar na calçada.

A Chiyo encarna mesmo esse negócio de mãe — ela própria tem quatro filhos, todos já bem crescidos, e três netos —, isso porque, ela mesma diz, o filho mais velho, Asuma, é um imbecil.

É por causa da imbecilidade de Asuma que a Chiyo não se deixa enganar: ela já viu de tudo.

Quando afinal chegamos ao Estúdio de Arte Senju, a Chiyo lançou um olhar de viés na minha direção porque o ateliê da Tsunade Senju ficava em cima de uma loja de CDs. Como se fosse minha culpa ela ter escolhido aquele lugar!

Mas preciso dizer que a Static, uma das únicas lojas de disco da cidade em que eu nunca tinha entrado, parecia tentadora... quase tanto quanto a Capitol Cookies, a confeitaria bem ali do lado. Dava até para ouvir os acordes de uma das minhas músicas favoritas ressoando através das paredes à medida que íamos caminhando nessa direção (tivemos que dar a volta no quarteirão e estacionar a um milhão de quilômetros dali; já dava para ver que a Chiyo não ia insistir na ideia de me acompanhar até a porta de novo, depois disso). Na Static, tocava uma música do Garbage, "Only Happy When It Rains" ("Só fico feliz quando chove").

Pensando bem, essa frase resume a minha atitude para com a vida, já que os pais só deixam a gente ficar em casa desenhando quando está chovendo. Se não, é sempre: "Por que você não sai para dar uma volta de bicicleta, como qualquer garota normal?"

Mas a Tsunade Senju deve ter mandado colocar isolamento acústico no ateliê dela, porque, ao subirmos a escada estreita até a porta de entrada, no andar de cima, não ouvíamos mais nada do Garbage. Em vem disse, o que se ouvia era um rádio tocando música erudita suave e um outro som que eu não conseguia identificar muito bem. O cheiro, à medida que íamos subindo, era aconchegante e bem conhecido para mim.

Não, não tinha cheiro de biscoito. Tinha o mesmo cheiro da sala de arte da escola, de tinta e terebintina.

Só quando chegamos até a porta do ateliê e eu a empurrei é que entendi o que era o outro som que eu estava ouvindo.

—Oi, Kat. Oi, Kat. Oi, Kat – um enorme corvo negro, empoleirado em cima, e não dentro, de uma enorme gaiola de bambu, grasnava para nós.

Chiyo deu um grito.

—Katsu! – uma mulher, com o cabelo louro e o mais comprido que eu já vi, saiu de trás de um cavalete e berrou com o pássaro. – Tenha modos!

—Kami-sama! – exclamou Chiyo, afundando-se em um banquinho próximo, salpicado de tinta. Ela já estava sem fôlego por causa da escada íngreme. O susto de levar um grito de um pássaro na cara não ajudou em nada.

—Desculpem-me por isso – disse a mulher de cabelo comprido e louro. – Por favor, não liguem para o Katsu. Ele demora um pouquinho para se acostumar com estranhos. Bom, você deve ser a Sakura. Eu sou a Tsunade.

Quando estávamos no final do ensino fundamental, a Hinata e eu passamos por uma fase em que só líamos livros de fantasy. Nós os devorávamos como se fossem M&Ms, aos montes: J.R.R. Tolkien, Terry Brooks, James Kahn e Lloys Alexander. Para mim, a Tsunade Senju parecia a rainha dos elfos (quase sempre tem uma rainha dos elfos nos livros de fantasy). Tipo assim, ela usava uma roupa esquisita de linho em tons de azul e verde-claro.

Mas era o cabelo louro e comprido (que ia até a cintura!) e os olhos castanhos brilhantes, espiando através de um rosto enrugado e completamente sem maquiagem, que prenderam a minha atenção. Até mesmo os cantinhos da boca dela se curvavam para cima, como faria a boca de um elfo, mesmo sem ouvir nada engraçado.

Naquele tempo em que a Hinata e eu vivíamos apalpando o fundo dos guarda-roupas, na esperança de ser transportadas para uma terra onde houvesse faunos e hobbits, não almoços infantis prontos e VJs idiotas da MTV, conhecer alguém como Tsunade Senju teria sido emocionante.

Agora, era meio esquisito.

Estiquei o braço e apertei a mão que ela estendeu na minha direção, e nos cumprimentamos. A pela dela era seca e áspera.

—Oi – falei, impressionada com o aperto de mão, que não tinha nada de élfico: a mulher com certeza seguraria firme o Pakkun com o mínimo de esforço.

—Oi, Sakura – respondeu Tsunade. Daí ela largou minha mão e voltou-se para Chiyo: - E você deve ser a Sra. Haruno. Muito prazer.

Chiyo tinha retomado o fôlego. Em pé, balançou a cabeça, dizendo que era a empregada da Sra. Haruno, e que estaria de volta às cinco e meia para me buscar.

Então Chiyo foi embora e a Tsunade me segurou pelos ombros e me dirigiu até um dos banquinhos manchados de tinta, que não tinha encosto, só uma tábua alta de um dos lados, em que se escorava um bloco de desenho.

—Pessoal – anunciou ao me encaixar no banco. – Esta é Sakura. Sakura, estes aqui...

Então, exatamente igual a duendes que saem de trás de cogumelos venenosos gigantes, o resto dos alunos do curso de arte esticou a cabeça, de trás de imensos blocos de desenho, para olhar pra mim.

—Shizune, Anko, Kakashi, Kabuto e Sasuke – apresentou Tsunade Senju, apontando-os um por um.

Tão logo apareceram as cabecinhas, sumiram de novo, e todos voltaram a seus blocos. Eu não recebi nada além de uma olhadela rápida da Shizune, uma mulher magrinha de uns 30 anos; da Anko, uma mulher de meia-idade; do Kabuto, que usava óculos; e do Sasuke, que usava uma camiseta da Save Ferris.

Como a Save Ferris é uma das minhas bandas preferidas, achei que pelo menos teria alguém com quem conversar.

Mas daí dei uma olhada melhor no Sasuke e percebi que a possibilidade de algum dia ele me dirigir a palavra era mais ou menos zero. Tipo assim, parecia que eu o conhecia de algum lugar, o que provavelmente significava que a gente estudava na mesma escola. E eu sou uma das pessoas mais odiadas na Konoha High por ter sugerido que o dinheiro arrecadado com a venda de papéis de presente no Natal fosse todo doado para o departamento de arte da escola.

Mas a Karin, a Ino e outras queriam usar o dinheiro para ir andar de montanha-russa no parque de diversões que estava na cidade.

Adivinha quem ganhou?

Além disso, esse negócio de usar-preto-todo-dia-porque-estou-de-luto-pela-minh a-geração também não ajudou muito a minha popularidade.

O Sasuke parecia ter mais ou menos a mesma idade da Karin. Era alto (bom, pelo menos parecia ser, sentado ali naquele banco) com cabelo preto e bagunçado atrás, olhos muito escuros e mãos e pés muito grandes. Ele era meio fofo (mas não tão fofo quanto o Sasori, claro), o que significava que, se estudava mesmo na Konoha High, devia ser da turma dos atletas. Todos os garotos fofos da Konoha High são da turma dos atletas. Menos o Sasori, claro.

Portanto, quando eu sentei e o Sasuke piscou pra mim, dizendo "que bota legal", eu fiquei completamente chocada. Pensei que ele estava zoando com a minha cara (como a maior parte dos caras da turma dos atletas da Konoha Hgh tem o costume de fazer), mas daí olhei para baixo e percebi que, igual a mim, ele também usava um coturno.

Só que o Sasuke, diferentemente de mim, não fazia de suas botas uma afirmação satírica: um dia, na última aula, eu tinha coberto o couro preto de margaridas (com corretivo e caneta marca-texto amarela).

Fiquei quietinha e completamente vermelha por um garoto tão fofo ter falado comigo, e a Tsunade anunciou:

—Hoje, estamos fazendo uma natureza-morta. – E me entregou um lápis bem bom, de grafite macio. Daí, apontou para uma pilha de frutas em cima de uma mesinha no meio da sala e prosseguiu: —Desenhe o que você vê à sua frente.

Daí, saiu fora.

Bom, isso é que é tentar acabar com a minha individualidade e minha habilidade natural. Fiquei aliviada de ver que estava completamente errada nesse aspecto.

Dizendo a mim mesma para esquecer o Sasuke fofo e o comentário da bota (sem dúvida, ele só estava sendo legal comigo por eu ser a aluna nova e tal), olhei para a pilha de fritas na mesinha, aninhada em um pedaço amarfanhado de seda branca, e comecei a desenhar.

Tudo bem, pensei comigo mesma. Até que isto aqui não é tão mau assim. Na verdade, até que o ambiente era agradável ali no ateliê da Tsunade. Ela era interessante, com aquele cabelo e aquele sorriso de rainha dos elfos. Um garoto fofo disse que gostou das minhas botas. A música erudita que tocava baixinho no fundo era legal. Eu nunca ouço música erudita, a não ser que esteja tocando como fundo de algum filme que eu esteja assistindo ou algo assim. E o cheiro de terebintina era revigorando, igual tomar sidra quente em um dia frio de outono.

Talvez, pensei enquanto desenhava, isto aqui não seja tão ruim assim. Talvez seja até divertido. Tipo assim, existem maneiras muito piores para desperdiçar quatro horas por semana, não é mesmo?