Esta fic é uma adaptação do livro A Garota Americana, da Meg cabot.
Portanto, a história não me pertence, assim como os personagens de Naruto também não.
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CAPÍTULO 4
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As dez razões principais do porquê eu seria uma namorada mais adequada para o Sasori do que a minha irmã Karin:
10. Meu amor e apreço pela arte. A Karin não sabe nada de arte. Para ela, arte é aquilo que mandaram a gente fazer com limpadores de cachimbo naquele verão em que nós duas fomos ao acampamento das bandeirantes.
9. Por ter alma de artista, estou mais bem aparelhada para compreender as variações de humor do Sasori e lidar com elas. A Karin só fica perguntando se ele já melhorou.
8. Eu nunca pediria, como a Karin faz, para o Sasori me levar para ver o filme idiota e nojento de adolescente que estiver na moda com a turminha dos 16 aos 24 anos. Eu entenderia que uma alma tão sensível quanto a do Sasori precisaria de sustento na forma de filmes de arte independentes ou talvez de um ocasional filme estrangeiro com legendas. E não estou falando de Jackie Chan.
7. O mesmo vale para os livros estúpidos que a Karin faz o Sasori ler. Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus não me parece o material literário adequado para um cara como o Sasori. A virgem e o cigano, de D.H. Lawrence, seria muito mais estimulante para a mente do Sasori, que já é brilhante, do que qualquer um dos manuais de auto-ajuda patéticos da Karin. Apesar de eu nunca ter lido A virgem e o cigano. Ainda assim, parece um livro que poderia nos envolver. Por exemplo, poderíamos nos alternar lendo trechos em voz alta, sobre um cobertor estendido no parque, o que é algo que os artistas sempre fazem nos filmes. Assim que eu acabar de reler O clube da luta, vou dar uma chance ao livro do Lawrence para ver se é tão intelectual quanto aparenta.
6. No aniversário do Sasori, eu não lhe daria de presente uma cueca samba-canção engraçadinha, cheia de Piu-Pius, como a Karin fez no ano passado. Eu encontraria alguma coisa altamente pessoal e romântica para dar de presente, tipo pincéis de pêlo de marta ou talvez um exemplar de Romeu e Julieta com capa de couro, ou uma das pulseiras da Gwen Stefani ou algo assim.
5. Se o Sasori algum dia se atrasasse para me pegar quando a gente fosse sair, eu não iria gritar com ele como a Karin sempre faz. Eu entenderia que artistas não podem se ater a restrições prosaicas como tempo.
4. Eu nunca obrigaria o Sasori a ir ao shopping center comigo. Isso se algum dia eu fosse ao shopping center, porque eu não vou. Em vez disso, Sasori e eu iríamos a museus, e não estou falando do Museu da Aeronáutica e do Espaço, aonde todo mundo vai, nem ao Smithsonian, para ver os sapatinhos vermelhos tontos da Dorothy, mas a museus reais, de arte, com arte de verdade, como o Hirschorn. Talvez pudéssemos levar blocos de desenho embaixo do braço e sentar um escorado no outro, em um daqueles assentos, e fazer esboços dos nossos quadros preferidos, e as pessoas se aproximariam de nós para ver o que estávamos desenhando e pediriam pra comprar os esboços, e nós diríamos não porque teríamos vontade de guardar os esboços para sempre como símbolo do imenso amor que teríamos um pelo outro.
3. Se o Sasori e eu nos casássemos, eu não ia insistir na ideia de um enorme casamento na igreja com recepção no clube de campo, como e sei que a Karin faria. O Sasori e eu nos casaríamos descalços, no bosque próximo ao lago Konohagature, onde tantos artistas japoneses foram para receber inspiração.
E, na nossa lua-de-mel, em vez de ir para a Jamaica ou qualquer lugar assim, iríamos nos mudar para Paris, para sempre, e morar em um sótão.
2. Quando o Sasori viesse me visitar, eu nunca ficaria lendo uma revista enquanto ele estivesse sentado na mesa da cozinha, comendo rosquinhas. Eu o entreteria com conversas agradáveis, porém, vigorosas e intelectuais a respeito de arte e literatura.
Mas a razão número um porquê eu seria uma namorada melhor para o Sasori do que a Karin é:
1. Eu lhe ofereceria o apoio terno de que ele precisa tão desesperadamente, já que compreendo o que é ser torturada pelo fardo da genialidade que se tem.
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Por sorte, estava chovendo na quinta-feira, quando a Chiyo me levou para o ateliê da Tsunade. Isso significa que a possibilidade de ela achar lugar para estacionar, procurar o guarda-chuva no banco de trás, sair do carro e me levar até a porta do estúdio era exatamente zero.
Em vez disso, ela parou no meio da Avenida Suna (fazendo com que todos os carros atrás dela buzinassem) e mandou:
—Se você não estiver aqui exatamente às cinco e meia, eu vou atrás de você como uma louca. Entendeu bem? Eu vou sair caçando você como se fosse um animal.
—Tudo bem – respondi, soltando o cinto de segurança.
—Estou falando sério, Dona Sakura. – frisou Chiyo. – Cinco e meia em ponto. Ou eu vou estacionar em fila dupla e você vai ter que pagar a taxa do guincho se a minivan for guinchada.
—Pode ser – respondi, saindo para a chuva torrencial. —Até mais.
Então, corri até a porta do ateliê.
Só que é claro que não subi a escada estreita. Bom, como é que eu ia fazer isso? Eu tinha que lutar contra o sistema, certo?
Além disso, eu não tinha sido completamente humilhada lá em cima, anteontem? Será que dava mesmo para entrar lá toda faceira, como se nada tivesse acontecido?
A resposta, obviamente, era não. Não, não dava.
Em vez disso, o que fiz foi esperar cerca de um minuto no hallzinho de entrada, com a água da chuva pingando do capuz da minha capa emborrachada.
Enquanto estava lá, tentava não me sentir muito culpada. Eu sabia que estava assumindo uma posição e tal, ao boicotar a Tsunade. Tipo assim, eu estava mostrando que apoiava totalmente os rebeldes da arte de todos os lugares.
Mas os meus pais estavam gastando um bom dinheiro com essas aulas de arte. Ouvi meu pai reclamando que custavam, por mês, quase tanto quanto o especialista em comportamento animal. Parece que a tal da Tsunade era meio famosa. Porque ela era famosa eu não fazia a mínima ideia mas, aparentemente, cobrava uma boa grana por sua tutela artística.
De modo que, apesar de eu estar lutando contra o sistema, não me sentia muito à vontade, sabendo que estava desperdiçando o dinheiro que meus pais trabalhavam tanto para ganhar.
Mas, se você pensar bem, eu sou a filha mais barata dos meus pais. Tipo assim, eles gastam uma pequena fortuna com a Karin todo mês. Ela sempre precisa de roupas novas, pompons novos, aparelho de dente novo, cremes dermatológicos novos, qualquer coisa, para manter sua imagem como uma das mais lindas da Konoha High.
E a Moegi, credo. Só as taxas de laboratório da Horizon chegam bem perto do produto interno bruto de um pequeno país subdesenvolvido.
E eu? O que é que meus pais gastavam comigo todo mês? Bom, até eu ser pega com o negócio dos desenhos de celebridades, nada além da educação. Tipo assim, eu usava os sutiãs velhos da minha irmã, certo? E eu nem precisava de roupas novas esse ano: tingi todas as roupas do semestre passado de preto e voilá! Um guarda-roupa inteiramente renovado.
Fala sério, no que diz respeito a filhas, eu sou uma pechincha. Eu nem como muito, já que detesto tudo que é comida – menos hambúrgueres, as baguetes da Mulher do Pão e sobremesa.
De modo que eu nem devia estar me sentindo culpada por cabular a aula de arte. Não mesmo.
Mas fiquei lá parada, o cheiro bem conhecido de terebintina me envolveu, e dava para ouvir, bem lá no alto da escada, o som baixinho da música erudita, além de um grasnado ocasional de Katsu, o corvo. De repente, fui envolvida por uma estranha vontade de subir aquela escada, ir até meu banco, sentar e desenhar.
Mas daí me lembrei da humilhação que tinha sofrido da última vez que entrei naquela sala. E na frente daquele tal de Sasuke além do mais! Tipo assim, é verdade, ele não era tão fofo quanto o Sasori, ou qualquer coisa assim. Mas ele era um cara, puxa! Um cara que gostava de Save Ferris! E que disse ter gostado da minha bota!
Tudo bem, eu não ia subir aquela escada de jeito nenhum. Estava assumindo uma posição. Uma posição contra o sistema.
Em vez disso, fiquei esperando ali no vestíbulo, rezando para que ninguém entrasse enquanto eu me encolhia ali e dissesse: "Oi Sakura, você não vai subir?"
Como se alguém ali fosse se lembrar do meu nome! A não ser, possivelmente, Tsunade Senju.
Mas ninguém entrou. Quando dois minutos tinham se passado, eu abri a porta com cuidado e olhei para a rua ensopada de chuva.
A Chiyo e a minivan não estavam mais lá. A barra estava limpa. Dava para sair.
O primeiro lugar a que fui foi a Capitol Cookies. Bom, como é que eu poderia fazer outra coisa? A confeitaria parecia tão aconchegante e convidativa, ainda mais com aquela chuva e tudo mais, e eu por acaso tinha no bolso, exatamente o dinheiro suficiente para um biscoito de chocolate Congressional. Além disso, o confeito que entregaram na minha mão ainda estava quente do forno. Guardei no bolso da minha capa emborrachada. Era proibido entrar com comida na Static, meu próximo destino.
Naquela tarde não estava tocando Garbage. Era o Donnas que cantava pelos alto-falantes. Não era ska, mas fava para engolir. Fui até o lugar onde tinha fones plugados na parede para as pessoas ouvirem os CDs que estavam pensando em comprar. Passei uma boa meia hora ouvindo o CD do Less Than Jake que eu queria, mas não tinha dinheiro para comprar, pois o financiamento materno para tais itens estava fechado.
Enquanto ouvia, eu levava pedacinhos de biscoito até a boca com a mão e repetia para mim mesmo que o que estava fazendo não era tão errado assim. Tipo assim, lutar contra o sistema. Além disso, olha só a Hinata: há anos os pais dela a obrigam a frequentar aulas de educação religiosa enquanto eles estão na igreja. Como tem, tipo assim, uns dois anos de diferença entre a Hinata e os irmãos dela, cada um dos três estava em uma classe diferente, de modo que ela nunca soube, até este ano, que o Neji e o Shino davam tchauzinho para a mãe quando ela os deixava na frente da escola e logo escapuliam para o Fliperama Beltway, bem na esquina. Ela só descobriu quando, um dia, a classe dela foi liberada mais cedo e ela saiu procurando os irmãos, mas não encontrou.
De modo que, basicamente, todos os anos que a Hinata passou sentada lá, ouvindo os professores de religião dizendo que ela deveria resistir a tentações e tal, durante todo aquele tempo os irmãos dela (e praticamente todos os outros garotos e garotas legais que frequentavam a igreja dela) estavam ali ao lado, batendo recordes no Super Mario.
Então, o que Hinata faz agora? Ela dá tchauzinho para a mãe igual ao Neji e ao Shino e daí vai, também, para o Fliperama Beltway – e fica fazendo a lição de casa de geometria sob o brilho da tela do Delta Force.
E ela se sente mal por isso? Não. Por que não? Porque ela diz que, se Deus a tudo perdoa de verdade, como ensinaram para ela na aula, Ele vai entender que ela precisa mesmo daquele tempinho extra de estudo, senão vai repetir em geometria, nunca vai entrar em uma boa faculdade e vencer na vida.
Então, por que é que eu deveria me sentir mal por cabular a aula de desenho? Tipo assim, é só uma aula de desenho. A Hinata, por outro lado, está cabulando Deus.
Claro que meus pais, no caso improvável de descobrirem o que eu fiz, vão entender que eu só estava tentando preservar minha integridade artística. Claro que eles vão entender. Provavelmente. Talvez. Em um dia bom, acho, quando não tiverem encontrado bifenil policlorinado no reservatório de água de alguma cidadezinha do Meio-Oeste, ou quando não haja muita oscilação na economia do Norte da África.
Se alguém na Static achou esquisito uma garota de 15 anos, de cabelo rosa, vestida de preto dos pés à cabeça, ficar por lá durante duas horas, ouvindo CDs mas sem comprar nada, ninguém disse nada para mim. A garota do caixa, que tinha o tipo de cabelo preto espetado que eu sempre quis ter, mas nunca tive coragem, estava ocupada demais paquerando um outro atendente, um cara de calça clara e camiseta do Lê Tigre, de modo que não prestou atenção em mim.
Os outros clientes também estavam me ignorando. A maior parte deles parecia ser estudante de faculdade matando tempo entre as aulas. Alguns poderiam estar ainda no Ensino Médio. Um deles era um cara meio velho, tipo com uns 30 anos, pele muito branca e com roupas militares, carregando uma bolsa de lona. Ele ficou um pouco por ali nos fones, onde eu estava, ouvindo Billy Joel. Diquei surpresa de ver que um lugar igual ao Static tinha Billy Joel para vender, mas tinha. O cara ficou ouvindo "Uptown girl" uma vez atrás da outra. Aliás, meu pai é fã do Billy Joel, ele escuta isso o tempo todo no carro (e é por isso que andar de carro com ele é tão... divertido), mas até ele já superou "Uptown Girl".
Mais ou menos no meio do segundo álbum do Spitvalve, meu biscoito já tinha acabado. Enfiei a mão no bolso e só encontrei migalhas. Pensei em ir até a Capitol Cookies para comprar outro, mas lembrei que estava dura. Além disso, àquela altura, já eram quase cinco e meia. Eu precisava sair para esperar a Chiyo vir me buscar.
Coloquei o capuz na cabeça e saí para a rua, na chuva. Não estava chovendo tanto quanto chovia quando eu cheguei, mas achei que o capuz impediria que alguém que saísse do Estúdio de Arte Senju me reconhecesse e mandasse essa: "Ei, onde é que você se enfiou?"
Como se algum deles fosse sentir a minha falta.
Tinha escurecido enquanto eu ainda estava na loja de CDs. Todos os carros que passavam estavam com o farol aceso. E tinha muito mais carros do que antes, porque era a hora do rush e todo mundo estava tentando voltar para casa para ficar ao lado de seus entes queridos. Ou talvez só quisessem assistir TV. Sei lá.
Fiquei parada na calçada, na frente da Igreja Fundamental de Cientologia, apertando os olhos para enxergar através da garoa fina e dos faróis, olhando na direção de que a Chiyo deveria vir. Parada ali, não pude evitar sentir um pouco de pena de mim mesma.
Tipo assim, lá estava eu: 15 anos, canhota, ruiva, sem namorado, incompreendida, filha do meio rejeitada, dura, parada na chuva depois de ter cabulado a aula de desenhos porque não suporta críticas.
O que aconteceria se eu crescesse e abrisse meu próprio negócio de retratos de celebridades ou algo assim? Será que eu abandonaria tudo se a coisa não pegasse de imediato? Será que eu ia me esconder na Static? Talvez eu pudesse simplesmente arrumar logo um trabalho lá, para facilitar as coisas. Na verdade, não parecia um lugar ruim para trabalhar. Aposto que os funcionários têm desconto nos CDs.
Enquanto eu estava lá com vergonha de mim mesma por não enfrentar as coisas, o velho que gostava tanto de Billy Joel saiu da Static e ficou parado do meu lado, apesar de o sinal de pedestres estar verde. Observei-o com o canto do olho. Ele estava remexendo em alguma coisa embaixo do poncho de chuva dele, que tinha estampa camuflada. Fiquei imaginando que ele podia ter roubado algo da loja. Na Static, reparei que eles tinham um Paredão da Vergonha, onde colocavam fotos Polaroide de pessoas que tinham tentado roubar alguma coisa. Esse sujeito parecia o melhor candidato para o Paredão da Vergonha que eu já tinha visto.
Logo depois disso, vi luzes vermelhas piscantes se aproximando através da chuva, quebrando a escuridão, e pensei, tipo assim, pronto, os guardas chegaram. O Sr. Uptown Girl está ferrado.
Só que daí eu vi que as luzes vermelhas não tinham nada a ver com guardas. Em vez disso, faziam parte da comitiva de carros do primeiro-ministro*. Na frente, vinha o carro-líder, um jipão preto com uma faixa de luzes vermelhas no teto. Depois vinha outro jipão preto e, atrás dele, uma limusine preta comprida. Atrás dela tinha mais alguns jipões com luzes vermelhas.
Em vez de ficar animada porque eu ia ver o primeiro-ministro passar (apesar de não dar para vê-lo dentro da limusine porque as janelas são daquele tipo esquisito em que as pessoas conseguem ver de dentro para fora, mas não de fora para dentro), pensei: que droga. Porque a Chiyo devia estar em algum lugar atrás da comitiva, que avançava a passo de tartaruga.
Não só ela ia ficar de mau humor total quando finalmente conseguisse me pegar, como também eu não ia ter a chance de não cruzar com o Sasuke na saída da aula da Tsunade Senju. Ele com certeza ia me ver ali parada e ficar tipo: "Cara, ela é esquisita", e nunca mais falaria comigo. Não que eu ligasse, porque estou completamente apaixonada pelo namorado da minha irmã. Mas foi legal da parte dele reparar na minha bota. Quase ninguém tinha reparado nisso.
E, além do mais, quando se mora em Konoha, ver o primeiro-ministro passar não é nada de mais, porque ele vive passando o tempo todo. Afinal, aqui é a sede do Governo.
E foi então que uma coisa superesquisita aconteceu. O primeiro jipão da comitiva aproximou-se do meio-fio bem na minha frente... e parou. Simplesmente parou.
E o sinal nem estava vermelho.
Atrás do primeiro jipão, o segundo parou, depois a limusine e assim por diante. O trânsito estava totalmente parado atrás daquilo tudo, por toda extensão da Avenida Suna. Daí uns caras com fones nos ouvidos desceram do carro e foram todos na direção da limusine. E então, para meu completo assombro, o primeiro-ministro do Japão saiu da limusine e caminhou até a Capitol Cookies, com um punhado de caras do Serviço Secreto na cola dele, segurando guarda-chuvas, olhando em volta e falando nos walkie talkies!
É isso aí, ele simplesmente entrou na Capitol Cookies, como se fizesse aquilo todo dia.
Eu não sabia que o primeiro-ministro gostava da Capitol Cookies. A Capitol Cookies é boa, mas não é a melhor confeitaria que existe por aí, nem nada assim. Tipo assim, só existe aquela loja, não tem nenhuma filial.
E não é de se pensar que, se você fosse o primeiro-ministro, pediria ao dono que enviasse seu suprimento pessoal de biscoitos, de modo que você não precisaria sair da sua limusine, na chuva, só para pegar alguns doces? Tipo assim, se eu fosse dona de uma confeitaria e descobrisse que o primeiro-ministro do Japão gostava dos meus biscoitos, eu iria me assegurar que ele recebesse um fornecimento completo dos meus produtos.
Por outro lado, os donos da Capitol Cookies provavelmente preferem que todos vejam o primeiro-ministro entrando na loja. Assim, obtém-se uma divulgação bem maior do que se você simplesmente mandasse biscoitos em uma remessa particular.
E então, enquanto eu estava lá no escuro e na chuva, com as luzes vermelhas no teto do jipão piscando na minha cara, vi o Sr. Uptown Girl jogar o poncho de chuva para trás.
E revelou-se que o que ele tinha lá em baixo não tinha nada a ver com o roubo de CDs. Nada mesmo. Revelou-se que o que havia lá em baixo tinha a ver com uma pistola enorme, que ele sacou e apontou na direção da porta da Capitol Cookies... a porta que o primeiro-ministro, cujos biscoitos haviam sido providenciados com rapidez surpreendente, estava usando para sair da loja.
Eu não sou exatamente o que se pode chamar de uma pessoa corajosa. Eu só defendo o pessoal da escola que os outros ficam enchendo porque eu lembro como era eu tratada no Marrocos e durante toda aquela história da fonoaudiologia.
Mas isso não significa que eu seja o tipo de garota que se joga no caminho do perigo sem dar a mínima para a segurança pessoal. Tipo assim, o mais próximo que eu cheguei de algo que pode ser qualificado como combate físico nos últimos tempos foi a última vez que eu e a Karin brigamos pela posse do controle remoto.
E, obviamente, não sou muito a favor de confrontos. Tipo assim, é, estava dando um golpe em nome dos espíritos criativos ao boicotar a aula da Tsunade e tal. Mas, fala sério, eu só estava envergonhada demais para voltar lá depois da humilhação que sofri da última vez.
Mas sei lá. O que aconteceu a seguir era tão atípico para mim que foi como se outra pessoa tivesse possuído o meu corpo durante um minuto, ou qualquer coisa assim. O que eu sei é que, em um segundo, eu estava ali parada, observando o Sr. Uptown Girl erguer a arma para atirar no primeiro-ministro quando ele saia da Capitol Cookies...
…e, no segundo seguinte, eu tinha me jogado em cima dele.
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Parece que, se você pula em cima de um suposto assassino que não esperava essa reação, ele erra o alvo. De modo que a bala que o Sr. Uptown Girl pretendia enviar a toda velocidade na direção da cabeça do primeiro-ministro atravessou a estratosfera toda, sem machucar ninguém.
Mas uma outra coisa também acontece quando você se joga em cima de um cara armado. A tendência dele é ficar muito surpreso, perder o equilíbrio e cair de costas em cima de você, de modo que você fica totalmente sem fôlego e a sua capa emborrachada sobe, a água entra pela parte de trás da sua calça e você fica toda molhada.
Além disso, o cara aterrissa bem em cima do seu braço direito, e você ouve um barulho de coisas esmagadas e dói muito, muito mesmo, e você só consegue pensar em uma coisa: Será que aconteceu o que eu pensei que aconteceu?
Mas você nem tem tempo de ficar ruminando muito o assunto, porque está muito ocupada tentando impedir que o cara dê outro tiro, o que você faz berrando:
—Arma! Arma! O cara está armado!
E, apesar de todo mundo já saber disso, que o cara está armado, já que ouviram a porcaria disparar da primeira vez, isso parece funcionar, já que, de repente, uns vinte agentes do Serviço Secreto Japonês se aglomeram em torno com as próprias pistolas em punho, todas apontadas para a sua cara, e todos gritando:
—Não se movam!
Acredite, eu não me movi nem uma palha.
A primeira coisa que eu vi foi o Sr. Uptown Girl ser tirado de cima de mim (para o meu alívio; o cara era superpesado) e o pessoal começou a me puxar também. Alguém puxou o braço esmagado e eu gritei "Ai!", bem alto, mas pareceu que ninguém me ouviu. Todos estavam muito preocupados falando em seus walkie-talkies, dizendo coisas como:
—A Águia está a salvo. Repetindo: a Águia está a salvo.
Nesse meio-tempo, sirenes começaram a tocar. Um monte de gente saiu correndo dos fast-foods mexicanos e dos lugares que vendem Sushi para ver o que estava acontecendo.
E, de repente, apareceu um montão de carros de polícia e de ambulâncias vindos sei lá de onde, de verdade, cantando pneu e jogando água de chuva para todos os lados.
Pareciam uma cena de um filme do Bruce Willis, só que sem a trilha sonora.
E daí três agentes do Serviço Secreto começaram a remexer na minha mochila, enquanto um outro se abaixava para apalpar o meu tornozelo (como se eu fosse ter uma faca de caça amarrada ali ou algo assim) e mais um terceiro enfiava as mãos nos bolsos da minha capa emborrachada sem nem pedir a minha permissão (por tanto esforço, ele acabou com uma mão cheia de migalhas do biscoito da Capitol Cookies).
Ele também torceu meu braço direito um pouco mais. Eu gritei "Ai!" de novo, um pouco mais alto do que da outra vez. Então, o agente que revistou os meus bolsos mandou essa:
—Esta aqui parece desarmada.
—Claro que estou desarmada—berrei. —Eu só estou no primeiro ano!
O que é uma coisa totalmente babaca de se dizer, porque é claro que existia um monte de gente que estava no primeiro ano e tinha armas. Só que esse tipo de gente não frequenta a Konoha High. Só que eu não estava pensando direito. Na verdade, eu estava quase chorando. Bom, você também estaria se:
a) estivesse toda molhada.
b) seu braço estivesse muito provavelmente quebrado (o que não era tão mal assim, para falar a verdade, já que não era o braço que eu usava para desenhar, e agora eu tinha uma boa desculpa para não jogar vôlei, que é o esporte de Educação Física na semana que vem) e doesse um montão.
c) as pessoas estivessem berrando mas você não conseguisse ouvir muito bem porque a arma do Sr. Uptown Girl tinha atirado bem perto do seu ouvido, causando um dano auditivo que bem poderia ser permanente,
d) você viu uns vinte canos de arma apontados para a sua cara. Mesmo que tivesse sido só um. E
e) estava começando a parecer muito provável que seus pais fossem descobrir que você cabulou a aula de desenho.
Tipo assim, qualquer uma dessas coisas já teria sido bem ruim, mas as cinco aconteceram comigo no mesmo momento.
Daí um agente mais velho veio na minha direção. Ele parecia um pouco menos assustador do que os outros agentes, talvez por ter se inclinado até o rosto dele ficar da altura do meu, o que foi muito gentil da parte dele.
Ele começou a falar, todo sério:
—Você vai ter que vir com a gente, garota. Precisamos fazer algumas perguntas para você a respeito do seu amigo aí.
Foi aí que eu me toquei.
Eles achavam que o Sr. Uptown Girl e eu éramos amigos! Eles achavam que nós tínhamos tentado matar o primeiro-ministro juntos!
—Ele não é meu amigo – choraminguei. Eu já não estava mais quase chorando. Eu estava me acabando em lágrimas, e não estava nem aí. Estava chovendo, eu estava toda molhada, meu braço estava me matando de dor, meus ouvidos apitavam e o Serviço Secreto do Japão achava que eu era algum tipo de assassina terrorista internacional, ou qualquer coisa assim.
Caramba, é mesmo, eu estava chorando.
—Eu nunca tinha visto esse cara antes de hoje! – solucei. – Ele sacou aquela pistola, e ele ia atirar no primeiro-ministro, então eu pulei em cima dele, e ele caiu em cima do meu braço, e agora está doendo de verdade, e eu só quero ir para ca-a-sa.
Foi mesmo uma vergonha. Eu estava chorando que nem um bebê. Pior do que um bebê. Eu estava chorando igual à Karin chorou no dia que o ortodontista disse que ela precisava ficar de aparelho mais seis semanas.
E daí uma coisa muito surpreendente aconteceu. O agente do Serviço Secreto mais velho me abraçou. Disse alguma coisa para os outros agentes e me levou para longe deles, em direção a uma das ambulâncias. Alguns caras tipo paramédicos estavam parados ali, esperando. Abriram as portas traseiras da ambulância e o agente do Serviço Secreto e eu entramos.
Era legal dentro da ambulância. Sentei-me em uma maca pequena, fora da chuva e do frio. Mal dá para ouvir as sirenes e todo o barulho ali dentro. Os paramédicos também foram legais. Eles me deram um cobertor seco para eu colocar em volta do corpo, em vez da minha capa emborrachada molhada. Eles fizeram umas piadinhas e foram tão legais que eu parei de chorar.
Fala sério, eu disse para mim mesma. Até que não era tão mau. Tudo ia dar certo.
Bom, menos quando os meus pais descobrissem que eu tinha cabulado a aula de desenho. Essa parte aí não ia dar nada certo.
Mas talvez eles nem precisassem descobrir. Talvez os agentes do Serviço Secreto fossem checar a minha vida e perceberiam que eu não faço parte de nenhum grupo terrorista que está afim de chamar atenção para a sua causa, e me deixariam ir embora. A Chiyo provavelmente ainda estava presa em todo aquele trânsito. Quando ela chegasse ali, tudo aquilo provavelmente já estaria esclarecido e eu simplesmente entraria no carro e, quando ela perguntasse o que eu tinha feito hoje na aula, eu podia dar uma de: "ah, nada". O que nem seria mentira.
Os paramédicos perguntaram onde eu estava machucada. E apesar de eu me sentir totalmente idiota por ser tão bebezona por causa do meu braço, considerando a gravidade do, sabe como é, do atentado contra o primeiro-ministro e tudo o mais, mostrei meu pulso para eles. Fiquei até um pouco feliz de ver que já tinha inchado para mais ou menos o dobro do tamanho normal. Fiquei feliz por não ter chorado por nada.
Enquanto os paramédicos examinavam meu braço, olhei para o agente do Serviço Secreto, que estava ocupado preenchendo um relatório qualquer que incluía o meu nome, que ele tinha tirado da minha carteirinha de estudante, que estava dentro da minha carteira, dentro da minha mochila. Eu não queria incomodar nem nada assim, mas eu precisava mesmo saber se essa coisa ia demorar muito.
Então mandei:
—Hum, dá licença, moço?
O cara do Serviço Secreto levantou os olhos.
—Pois não, querida? —perguntou.
Claro que ele não sabia que ninguém me chama de querida, nem a minha mãe. Não desde quando morávamos no Marrocos e ela me pegou tentando dar a descarga na privada com os cartões de créditos do meu pai lá dentro (minha vingança por ele nos ter obrigado a mudar para um país estrangeiro onde eu não entendia nada).
A coisa da querida acabou comigo. Eu não queria simplesmente dar uma de ficar perguntando quanto tempo aquilo ia demorar, já que parecia sem educação. Afinal, ele só estava fazendo o trabalho dele. Então, em vez disso, depois de alguns segundos durante os quais eu tentei desesperadamente pensar em outra coisa para perguntar, mandei:
—Hum, tudo certo com o primeiro-ministro?
O agente do Serviço Secreto sorriu mais uma vez para mim:
—O presidente está ótimo, querida. Graças a você.
—Ah—respondi. —Que bom. Então, hum, você acha que eu posso ir embora agora?
Os paramédicos trocaram olhares. Pareciam surpresos.
—Não com este braço aqui—informou um deles. —Seu pulso está quebrado, garota. Vamos precisar tirar um raio-X para ver a gravidade, mas aposto dez contra um como você vai ter que usar um gesso bem bacana aí, e seus novos admiradores vão poder assinar.
Admiradores? Do que é que ele estava falando?
E eu não podia colocar gesso! Se eu colocasse gesso, meus pais iam querer saber como eu quebrei o pulso, e daí eu ia ter que confessar que cabulei a aula.
A não ser... a não ser que eu dissesse para eles que tinha tropeçado. Só, eu tropecei e caí da escada do ateliê da Tsunade. É, mas e se eles fossem perguntar para ela?
Ah, caramba. Eu estava tão ferrada...
—Será que não dá para mim... —Eu estava completamente desesperada, tentando me agarrar a qualquer esperança. —Será que não dá para eu ir ao médico amanhã, ou algo assim? Tipo assim, meu braço já está bem melhor.
Os dois paramédicos e o agente do Serviço Secreto olharam para mim como se eu fosse louca. Tudo bem, fala sério, meu braço tinha inchado tanto que estava do tamanho da minha coxa e estava pulsando igual a um coração que está passando por cirurgia no Canal Educativo. Mas já não estava doendo tanto assim. Só quando eu mexia.
—É que a minha empregada está vindo me buscar—expliquei, toda babaca. —E se vocês me levarem para o hospital, e eu não estiver onde eu disse que ia estar, ela vai ter um ataque.
O cara do Serviço Secreto disse:
—Por que você não me dá um telefone onde eu possa achar os seus pais? Vamos precisar entrar em contato com eles para que você receba os cuidados médicos de que precisa.
Ah, meu Deus! Então eles vão saber com certeza que eu cabulei a aula!
Mas, fala sério! Que chance eu tinha? Totalmente nenhuma.
—Olha aqui—pedi baixinho e rápido. —Você não precisa contar para os meus pais que isso aconteceu. Tipo assim, claro que você precisa contar isso para eles, mas não que eu faltei à aula de desenho e fiquei na Static. Tipo assim, você não precisa contar para eles essa parte, né? Porque eu não quero me ferrar mais do que já me ferrei agora.
O cara do Serviço Secreto ficou olhando para mim, com os olhos arregalados, como se não fizesse a mínima ideia do que eu estava falando. E claro que ele não sabia. Como é que ia saber? Aula de desenho? Static?
Mas parece que ele achou que era melhor entrar na minha (como se eu também tivesse talvez batido a cabeça quando caí), já que disse?
—Então, por que não esperamos para ver?
Bom, acho que é melhor do que nada. Dei para ele o telefone do trabalho da minha mãe e o do meu pai. Daí fechei os olhos e encostei a cabeça na parede da ambulância.
Ah, tudo bem, pensei. As coisas poderiam ter sido muito piores.
Por exemplo, eu poderia ter um osso de galinha no lugar do nariz.
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*primeiro-ministro: Na história original (o livro A Garota Americana), a personagem principal salva a visa do presidente dos Estados Unidos; mas, como estou adaptando a história e troquei o país pelo Japão, também precisei trocar de presidente para primeiro-ministro. No Japão, o soberano é o imperador, mas quem, administra o governo é o primeiro-ministro.
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Quero agradecer a Sophie Hatake pelo comentário. Obrigada! Espero que você tenha gostado desse capítulo *-*
