Lembrando que esta fic é uma adapação do livro A Garota Americana, da Meg cabot.

Portanto, a história não me pertence, assim como os personagens de Naruto também não.

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CAPÍTULO 9

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Não dava para acreditar. Fui pega no pulo! Tinha me ferrado!

Senti meu rosto ficar vermelho até as raízes com condicionador de cavalo dos meus cabelos.

Mesmo assim, tentei. Tentei fingir que não sabia do que ele estava falando.

— Guardanapo? – perguntei pensando que, com meu cabelo rosa e meu rosto escarlate, eu provavelmente parecia um tigelona de sorvete de morango. – Que guardanapo?

— Aquele que você usou para esconder o jantar inteiro – disse Sasuke, com cara de quem estava se divertindo. Os olhos dele pareciam mais escuros do que nunca. – Espero que você não tenha tentado jogar na privada e dar descarga. Os canos desta casa são bem velhos. Você poderia causar o maior alagamento, sabe como é.

Seria mesmo muito azar causar um alagamento no Palácio do Governo.

— Não joguei o guardanapo na privada – disse rapidamente, olhando de canto de olho, nervosa, para a agente do Serviço Secreto que não estava muito longe dali. – Coloquei na cesta com as toalhinhas de mão sujas. Só joguei a comida na privada – e foi aí que tive um pensamento aterrador. – Mas tinha bastante coisa. Você acha mesmo que pode entupir o encanamento?

—Sei lá – fez ele, com cara de sério. —Era um pedação de linguado.

Tinha alguma coisa na expressão dele (talvez o jeito de uma das sobrancelhas escuras, que estava levantada enquanto a outra ficava abaixada, tipo como as orelhas do Pakkun ficam quando ele está pronto para brincar) que me fez perceber que o Sasuke só estava tirando um sarro.

Mas eu não achei muito engraçado. Tinha mesmo ficado com medo de ter quebrado o encanamento do Palácio do Governo.

Então em um sussurro, para a agente do Serviço Secreto no fundo do corredor não ouvir:

— Isso não foi muito legal da sua parte.

Eu nem pensei no fato de que ele era, sabe como é, o primeiro-filho nem nada disso. Tipo assim, eu estava simplesmente louca da vida. Todo mundo vive falando que as pessoas ruivas são esquentadinhas. Se você é ruiva e fica brava, pode apostar que alguém vai falar algo do tipo: "Ahhh, olha aí a ruivinha. Você sabe que os ruivos são esquentadinhos."

O que geralmente me deixa ainda mais louca da vida.

Mas é claro que eu tinha mesmo jogado na privada a maior parte do jantar que a mãe do Sasuke tinha me servido. Para falar a verdade, talvez fosse por isso que eu estava tão louca da vida... Porque o Sasuke tinha me pegado fazendo um desperdício daqueles. É, eu estava louca da vida, mas também estava bem envergonhada.

Mas estava mais louca da vida. Então dei meia-volta e comecei a caminhar de volta para a sala de jantar.

— Ah, que é isso – disse Sasuke, rindo, dando meia-volta também e me alcançando. – Você precisa reconhecer que foi meio engraçado. Tipo assim, eu peguei você direitinho. Você achou mesmo que os canos iam explodir.

— Achei nada – respondi, apesar de ser exatamente aquilo que eu tinha pensado. E também já tinha visualizado as manchetes do dia seguinte: GAROTA QUE SALVOU A VIDA DO PRIMEIRO-MINISTRO FAZ TODO O ENCANAMENTO DO PALÁCIO DO GOVERNO EXPLODIR POR TER ENFIADO O JANTAR INTEIRO NA PRIVADA.

— Achou sim, total – insistiu Sasuke. Ele era tão mais alto do que eu que só precisava dar um passo a cada dois meus. —Mas eu já devia saber que você não aguenta uma piada.

Parei de repente no meu trajeto e virei o corpo para trás para olhar ele. Ele era bem alto (até mais alto do que o Sasori), de modo que eu tive que levantar muito o queixo para olhar dentro daqueles olhos ônix que a Karin tanto admirava. Eu nem queria olhar para a outra parte do corpo dele que ela havia mencionado.

— Como assim, eu não aguento uma piada? – perguntei, brava. – Como é que você sabe se eu aguento piada ou não? Você mal me conhece!

— Eu sei que você é do tipo de artista sensível – desafiou Sasuke, com aquele mesmo sorrisinho sabe-tudo que havia lançado para a mãe ("Eu me troquei para o jantar sim").

— Não sou nada – exclamei, furiosa, apesar de ser sim, totalmente. Na verdade, nem sei porque me dei ao trabalho de negar. Mas era que, do jeito que ele falou, parecia uma coisa mito ruim.

Mas é claro que não tinha nada de errado em ser uma artista sensível. O Sasori Akasuna é a prova viva disso.

— Ah é? – continuou Sasuke. – Então por que é que você não voltou ao ateliê depois do Negócio do Abacaxi?

Foi exatamente assim que ele falou, com letras maiúsculas. O Negócio do Abacaxi.

Senti que estava ficando toda vermelha de novo. Não dava para acreditar que ele estava lembrando o que tinha acontecido na minha primeira aula com a Tsunade Senju. Tipo assim, que cara mais insensível!

— Não estou dizendo que você não seja uma artista boa de verdade – contemporizou Sasuke. – Mas só que você, sabe como é, você é muito esquentadinha – fez um gesto com a cabeça na direção da sala de jantar. – E também meio fresca para comer. Está com fome?

Olhei para ele como se fosse louco. Na verdade, eu tinha toda certeza de que ele era louco. Tipo assim, apesar do gosto de música e de sapato, para mim parecia que o primeiro-filho tinha uns parafusos soltos.

Mas, afinal de contas, ele reconheceu que eu era mesmo uma boa artista, então talvez ele não fosse tão louco assim.

Antes de eu ter a oportunidade de negar que estava com fome, meu estômago falou por mim, soltando, bem naquela hora, o ronco mais vergonhoso de todos, indicando que só tinha dentro de si um pouco de alface e uma guarnição de tomate, e que isso era inaceitável.

O Sasuke nem fingiu, como uma pessoa normal faria, que não tinha ouvido. Em vez disso, mandou:

— Achei que estava mesmo. Olha só, eu estava indo ver se consigo arrumar alguma comida de verdade. Quer vir junto?

Então eu tive certeza de que ele era louco. Não só porque ele tinha se levantado da mesa no meio do jantar para procurar comida alternativa, mas também porque ele estava falando para eu ir procurar comida alternativa com ele. Eu. A garota que ele tinha acabado de pegar jogando fora um guardanapo cheio de comida perfeitamente boa.

— É... – respondi, totalmente confusa. – Tipo assim, nós... a gente não pode simplesmente sair. No meio do jantar. No Palácio do Governo.

— Por que não? – perguntou ele, dando de ombros.

Pensei sobre o assunto. Havia um monte de razões de porquê não. Para começar, porque era a maior falta de educação. Tipo assim, pensei bem no que ia parecer. E porque... porque a gente simplesmente não deve fazer coisas assim.

Comentei tudo isso, mas o Sasuke pareceu não se abalar.

— Mas você está com fome, não está? – perguntou. E então, afastando-se pelo longo corredor coberto de tapetes persas, ele prosseguiu: — Vamos lá. Você sabe que quer.

Eu não sabia o que fazer. Por um lado, aquele jantar lá era para mim e, como convidada de honra, eu sabia que não podia simplesmente jantar e sair fora. Além disso, o primeiro-filho era claramente louco. Será que eu tinha vontade de sair andando por uma casa desconhecida ao lado de um louco?

Por outro lado, eu estava morrendo de fome. E ele tinha dito que eu era uma boa artista...

Olhei para a agente do Serviço Secreto para ver o que ela achava. Ela sorriu para mim e fez um sinal, como se estivesse lacrando o canto da boca com fecho ecler. Bom, resolvi que se ela achava que não era uma coisa tão errada assim para se fazer, e ela era adulta e tudo o mais (e responsável o suficiente para carregar uma arma de fogo), talvez não tivesse problema...

Dei meia-volta e me apressei para alcançar o Sasuke, que já estava na metade do corredor àquela altura.

Ele não pareceu muito surpreso ao me ver ao seu lado. Em vez disso, falou, como se estivesse simplesmente continuando uma longa conversa que estávamos tendo em algum universo paralelo:

— E aí, cadê a sua bota?

— Bota? – repeti. – Que bota?

—Aquela que você estava usando na primeira vez que eu vi você. Com as margaridas de corretivo desenhadas.

A bota que ele tinha dito que era legal. Dãh.

— Minha mãe não deixou eu pôr aquela bota – respondi. – Ela achou que não era adequada para um jantar no Palácio do Governo. – Olhei para ele de canto de olho. – Nenhuma das roupas que eu tenho é adequada para jantar no Palácio do Governo. Precisei comprar um monte de roupa nova. – Dei alguns puxões para arrumar meu tailleu azul-marinho, que era mesmo desconfortável. – Tipo esse troço aqui.

— E como é que você acha que eu me sinto? – perguntou Sasuke. – Preciso jantar no Palácio do Governo todo dia.

Olhei com desgosto para a camiseta dele.

— É, mas é óbvio que ninguém manda você se arrumar.

— Só nos jantares oficiais, não nos particulares. Mas preciso ficar bem vestido todo o resto do tempo.

Mas eu sabia que isso não era verdade.

— Você não estava arrumadinho na aula de desenho.

— De vez em quando me dão uma trégua – comentou, com mais um daqueles sorrisinhos de canto. Tinha algo de misterioso naqueles sorrisinhos do Sasuke. Na maioria das vezes, parecia que ele estava rindo de alguma piadinha particular que ele fazia para si mesmo. E me deixava com vontade de participar. Sempre que o Sasori pensava em alguma coisa engraçada, ele falava na hora. Às vezes, repetia umas três ou quatro vezes, só para se assegurar de que todo mundo tinha ouvido.

O Sasuke parecia bem contente de guardar todas as suas tiradas geniais para si mesmo.

O que era bem irritante. Afinal, como é que eu ia saber se ele estava rindo de mim?

E daí o Sasuke apertou o botão de uma porta, que abriu e mostrou um elevador. Eu não deveria ter ficado surpresa pelo fato de o Palácio do Governo ter um elevador, mas fiquei.

Acho que foi porque, por um instante, eu esqueci onde eu estava e achei que aquela era uma casa normal. Além disso, nunca mostravam o elevador nas excursões da escola.

Entramos no elevador, e o Sasuke apertou o botão para descer. A porta fechou, e nós descemos.

— Então – começou ele, enquanto o elevador se movia. – Por que você faltou?

Eu não fazia a mínima ideia do que ele estava falando. Mas eu deveria saber.

— Faltei o quê?

— Você sabe. À aula de desenho, depois do Negócio do Abacaxi.

Engoli em seco.

— Achei que você já tinha entendido o que aconteceu – respondi. – Você disse que era por eu ser uma artista sensível e tudo o mais.

A porta do elevador abriu, e o Sasuke fez um sinal para eu sair antes dele.

— Sei, mas eu queria ouvir a sua versão.

Ah é, aposto que sim.

Mas eu não ia dar esse prazer a ele. De jeito nenhum. Ele só ia, eu sei, tirar sarro da minha cara. O que seria, na essência, a mesma coisa que tirar sarro da cara do Sasori. E isso eu não ia aguentar.

Em vez disso, eu só disso, com leveza:

— Acho que eu e a Tsunade Senju não temos a mesma opinião a respeito da licença criativa.

Sasuke olhou para mim, com uma sobrancelha levantada e a outra abaixada, de novo. Só que, dessa vez, eu estava totalmente certa de que ele não estava brincando.

— É mesmo? – quis saber. —Tem certeza? Porque eu acho que a Tsunade é legal com esse tipo de coisa.

Só. Superlegal. Tão legal que fez uma chantagem comigo para me obrigar a voltar à aula.

Mas não falei isso em voz alta. Parecia que não seria muito educado discutir com alguém que parecia prestes a me dar o que comer.

Percorremos mais um corredor que não era coberto de tapetes nem todo decorado. Daí o Sasuke abriu a porta e nós entramos em uma cozinha enorme.

— Ei, Teuchi – Sasuke chamou um cara vestido de chef que estava ocupado colocando chantili em um monte de potinhos de musse de chocolate. – Tem alguma coisa boa de comer por aqui?

Teuchi levantou o olhar de suas criações, deu uma olhada para mim e quase gritou:

— Sakura Haruno! A garota que salvou o Japão! Como vai?

Tinha mais um monte de gente na cozinha, e todo mundo estava ocupado, limpando e guardando coisas. Percebi que a Chiyo estava errada a respeito dos pratos com borda dourada. Dava super para colocar no lava-louças e, para falar a verdade, era isso que os empregados do Palácio do Governo estavam fazendo. Mas todo mundo parou quando me viu, e os empregados se juntaram à minha volta para me agradecer por ter impedido que o chefe deles levasse um tiro na cabeça.

—Qual era o problema do linguado? – Teuchi quis saber, depois de toda a sua equipe me parabenizar. – Você sabe que o recheio era de caranguejo de Maryland mesmo, né? Comprei fresquinho, hoje de manhã.

Sasuke foi até a geladeira de proporções industriais e a abriu.

—Achei que era meio, assim, sabe como é... – Para um cara que estudava no Horizon, o Sasuke com certeza não falava igual a alguém que tem diploma de gênio. – Sobrou algum daqueles hambúrgueres que a gente comeu no almoço?

Eu me iluminei com a palavra hambúrguer. Teuchi percebeu e disparou:

— Você quer hambúrguer? A moça quer hambúrguer. Sakura Haruno, vou preparar um hambúrguer como você nunca viu na vida. Sente-se aí. Não se mexa. Esse hambúrguer vai deixar você sem fôlego.

Eu já estava sem fôlego, mas achei que não valia a pena mencionar o fato. Sentei no banco que Teuchi indicou. Sasuke sentou no banco ao lado, e ficamos observando enquanto Teuchi, moveu-se tão rapidamente que parecia quase um borrão, jogou dois hambúrgueres em cima de uma chapa sobre o fogão e começou a prepará-los para nós.

Era esquisito estar no Palácio do Governo. Era esquisito estar na cozinha do Palácio do Governo com o filho do primeiro-ministro. Para mim, seria esquisito estar com um garoto em qualquer lugar, já que eu não faço muito sucesso entre os garotos. Tipo assim, eu não sou a Karin. Nenhum cara fica me ligando a cada cinco minutos... nem nunca, para falar a verdade.

Mas o fato de ser este garoto, e neste lugar, deixava as coisas particularmente esquisitas. Não dava para entender por que o Sasuke estava sendo tão... Bom, acho que legal é a única palavra que serve para descrever a situação. Tipo assim, brincar com a ideia de que eu tivesse potencialmente entupido uma privada no Palácio do Governo não foi muito legal. Mas me oferecer um hambúrguer em uma hora que eu estava praticamente morrendo de fome foi uma atitude bem decente.

Tinha que ser só porque eu tinha salvado o pai dele. Tipo assim, por que outra razão seria? Ele se sentia agradecido pelo que eu tinha feito. O que era totalmente compreensível.

O que não era muito compreensível para mim era por que ele estava se dando a tanto trabalho.

Fiquei ainda mais confusa quando o Teuchi colocou dois pratos enormes na nossa frente (cada um deles continha um hambúrguer enorme e uma pilha de batatas fritas douradas) e mandou:

Bom appétit, gente.

Daí o Sasuke pegou o prato dele e o meu e pediu:

— Vem comigo.

Peguei duas latas de refrigerante que o Teuchi tirou da enorme geladeira industrial e segui o Sasuke pelo corredor, até o elevador.

— Onde é que a gente está indo?

— Você vai ver – respondeu Sasuke.

Normalmente, essa resposta não teria sido satisfatória para mim. Mas eu não falei mais nada sobre o assunto, porque estava chocada demais com o fato de um garoto ser legal comigo. O único que já tinha sido remotamente legal comigo antes disso tinha sido o Sasori.

Mas o Sasori é obrigado a ser legal comigo, pelo fato de eu ser irmã da namorada dele. Além disso, é claro que o Sasori tem um desejo secreto por mim. É até possível que a única razão porquê ele fica com a Karin seja por ele não saber que eu correspondo a seu sentimento ardoroso. Se algum dia eu tivesse coragem de dizer para ele o que sinto, as coisas podiam ser totalmente diferentes...

Mas o Sasuke. O Sasuke não tinha que ser legal comigo. Então, por que estava sendo? Não podia ser porque gostava de mim, sabe como é, como garota. Porque, hum, se liga, a Karin estava logo ali em cima, no fim do corredor. Que cara com a cabeça no lugar ia preferir a mim e não à Karin? Tipo assim, era a mesma coisa que escolher a Skipper em vez da Barbie.

Quando saímos do elevador, em vez de voltarmos para a sala de jantar, onde todo mundo estava, o Sasuke virou na outra direção, para uma porta na outra ponta do corredor. Atrás dela, eu logo tive oportunidade de ver, havia um lugar tipo uma sala de estar muito formal, com janelas enormes que tinham vista para o gramado em descida do Palácio do Governo até o Konoha Monument, que parecia majestoso, aceso no meio da noite.

— O que você acha disso? – Sasuke perguntou, colocando os hambúrgueres em uma mesinha na frente das janelas. Daí ele pegou duas poltronas e colocou perto da mesa.

—Hum – foi tudo o que eu disse, por ainda estar em estado de choque (e cheia de suspeita) pelo fato de esse garoto fofo (mas meio esquisito) querer comer comigo. Eu. Sakura Haruno. – Acho ótimo.

Nós dois sentamos, iluminados pelas luzes da rotunda. Teria sido quase romântico, se não tivesse um agente do Serviço Secreto parado no outro lado da porta. E ah, se o Sasuke estivesse remotamente interessado em mim daquele jeito, que com certeza ele não estava, devido ao fato de para ele eu ser apenas a garota esquisita, tipo gótica, que tinha salvado o pai dele e que também gosta de desenhar abacaxis quando não existe nenhum para ser desenhado.

E mesmo que ele gostasse de mim, sabe como é, de um jeito romântico, ainda há o fato inegável de que eu estou apaixonada pelo namorado da minha irmã.

Tanto faz. Eu estava com tanta fome àquela altura que nem ligava se o Sasuke só estivesse sendo legal comigo por ter pena de mim, ou qualquer coisa assim.

Desde a primeira mordida eu já sabia: o Teuchi estava certo. Ele tinha mesmo feito um dos melhores hambúrgueres que eu já tinha comido. Antes de parar de respirar, comi metade do prato.

Sasuke, que tinha me observado enquanto eu comia com uma cara perplexa (nas raras ocasiões em que eu acho alguma coisa de que gosto mesmo de comer, mergulho de cabeça), mandou:

— Está melhor?

Não consegui responder porque estava muito ocupada mastigando. Mas fiz um sinal de positivo para ele com a mão do braço engessado.

— E aí, está doendo? – quis saber, apontando para o meu pulso quebrado.

Engoli o bocado de carne que estava dentro da minha boca. Eu queria mesmo ser vegetariana. Sério. É de se pensar que uma artista seria uma pessoa muito mais consciente a respeito do sofrimento alheio, até mesmo dos bovinos. Mas hambúrgueres são simplesmente bons demais. Não dá para abrir mão deles, nunca.

—Agora não está doendo muito – respondi.

—Como é que ninguém assinou ainda?

—Estou guardando para a aula de alemão – respondi, olhando pata a grande porção de gesso branco em volta do meu pulso.

Ele entendeu o que eu quis dizer. Ninguém mais tinha entendido, a não ser, obviamente, o Sasori. Só os verdadeiros artistas compreendem o fascínio exercido por uma tela em branco.

—Ah, claro – concordou ele, compreensivo. – Vai ser legal. Então, o que é que você vai fazer? Alguma estampa de havaiana? Acho que vai fazer um monte de abacaxis, né?

Dei uma olhada bem torto para ele.

—Acho que vou escolher algum tema patriótico – disse.

-Ah – respondeu. – Claro. O que poderia combinar melhor? Afinal, você é uma Haruno e tal.

—O que isso tem a ver? – eu quis saber.

—Hikaru Haruno – Sasuke disse, com as sobrancelhas erguidas se novo. – O quarto primeiro-ministro. Ele era seu parente, né?

—Ah – exclamei, sentindo-me uma tapada. – Ele. Não, acho que não.

—É mesmo? – Sasuke parecia surpreso. – Tem certeza? Porque você e a mulher dele, Saya, têm muita coisa em comum.

—Eu e a Saya Haruno – ri. – Tipo o quê?

—Bom, ela também salvou um primeiro-ministro.

—Ah é? – perguntei, ainda rindo. – Ela deu uns tapinhas nas costas do velho Hikaru para ele não engasgar ou algo assim?

—Não – respondeu Sasuke. – Ela salvou um retrato de Hizuren Sarutobi de um incêndio no Palácio do Governo quando os americanos atacaram, na guerra de 1812.

Espera um pouco. Os americanos tinham queimado o Palácio do Governo? Quando foi que isso aconteceu?

Obviamente, durante alguma guerra a respeito da qual ainda não tínhamos aprendido na Konoha High. A gente só tem aula de história japonesa no segundo ano do ensino médio.

—Uau. Que legal – exclamei, do fundo do coração. Na aula de história, ninguém nunca ensina nada legal, tipo alguma primeira-dama correndo de um lado para o outro para salvar alguma pintura.

—Tem certeza de que vocês não são parentes?

-Tenho – respondi, chateada. Imagine que legal se eu fosse mesmo parente de alguém que fez algo tão corajoso quanto salvar uma peça de arte de um incêndio. Legal demais para colocar em palavras, para falar a verdade. Será que nós éramos parentes da Saya Haruno? Tipo assim, minha mãe vivia dizendo que eu tinha herdado meu temperamento artístico do lado da família do meu pai, já que não tinha nenhuma artista do lado dela. Era óbvio que os Haruno tinham sido amantes da arte através dos tempos.

Só que deve ter pulado algumas gerações, já que eu era a única representante da família que sabia desenhar.

De repente, o Sasuke se levantou e foi até a janela.

—Vem aqui olhar isso – chamou, puxando a cortina para o lado.

Levantei para segui-lo com curiosidade, aí vi que ele apontava para o parapeito da janela. Era pintado de branco, igual ao resto da da sala.

Mas, gravado bem fundo na tinta, algumas palavras tinham sido escritas no parapeito. Olhando mais de perto, deu para identificá-las: Satoshi... Mei... Sasuke...

—O que é isso? – eu quis saber. – O parapeito da janela em memória aos primeiros-filhos?

—Algo assim – respondeu Sasuke .

E daí tirou alguma coisa do bolso da calça. Era um daqueles canivetinhos suíços. Aí ele começou a gravar alguma coisa na madeira. Eu provavelmente não teria dito nada se não tivesse visto que a primeira letra que ele escreveu foi S.

—Ei! O que é que você está fazendo? – indaguei, um pouco apreensiva. Tipo assim, sou uma rebelde urbana e tudo, mas vandalismo que não seja em nome de nenhuma causa porque valha a pena lutar não passa disso. De vandalismo.

—Ah, peraí – exclamou Sasuke , sorrindo para mim. – Quem merece mais isso do que você? Não é só possível que você seja parente de um primeiro-ministro como também salvou a vida de outro.

Olhei para trás, por cima do ombro, toda nervoso, para a porta, sabendo que do outro lado estava um agente do Serviço Secreto. Tipo assim, fala sério. Filho do primeiro-ministro ou não, isso aí era destruição do patrimônio público. E não um patrimônio público qualquer, o Palácio do Governo. Tenho certeza de que alguém poderia ser condenado a vários anos de prisão por profanar o Palácio do Governo.

— Sasuke – pedi, abaixando o tom de voz para que ninguém pudesse escutar. – Não precisa fazer isso.

De tão concentrado no trabalho (ele estava agora na letra U), o Sasuke nem respondeu.

—Estou falando sério – continuei. – Tipo assim, se você quiser me agradecer por ter salvado o seu pai, o hambúrguer já está bom, pode acreditar.

Mas já era tarde demais, porque ele já tinha começado o A.

—Acho que você está pensando que, só porque o seu pai é primeiro-ministro, você não vai se ferrar por isso – prossegui.

—Não vou me ferrar muito – Sasuke disse enquanto gravava o meu nome. – Tipo assim, apesar de tudo, eu ainda sou menor. – E deu um passo atrás para admirar sua obra de arte. – Pronto. O que você acha?

Olhei para o meu nome, Sakura, bem ali ao lado do nome da Mei e do Satoshi, sem falar no do Sasuke. Fiquei torcendo para que a próxima família a se mudar para o Palácio do Governo não fosse muito grande, porque não tinha mais lugar no parapeito para os filhos escreverem o nome.

— Acho que você é louco – respondi, e não foi de brincadeira. O que também era uma pena, porque ele era meio fofo.

—Ah – fez Sasuke, fechando o canivete suíço e guardando de volta no bolso. – Isso é muito ofensivo, principalmente vindo de uma garota que desenha abacaxis onde não existe nenhum, joga linguado recheado de caranguejo na privada e gosta de se atirar em cima de estranhos armados.

Fiquei olhando para ele durante um minuto, completamente estupefata.

Daí comecei a rir. Não dava para segurar. Afinal, tudo aquilo era mesmo engraçado.

O Sasuke também começou a rir. Nós dois estávamos parados ali, rindo, quando o agente do Serviço Secreto que estava no corredor entrou e mandou:

—Sasuke? Seu pai está procurando você.

Parei de rir. Pega no pulo de novo! Cheia de culpa, abaixei os olhos e olhei para o parapeito (isso sem falar nos pratos vazios).

Mas não havia tempo para ficar pensando nas minhas malvadezas, porque precisamos voltar correndo para a sala de jantar. Tipo assim, não dá para deixar o primeiro-ministro do Japão esperando.

Mas, quando entramos lá, descobrimos que não era só o primeiro-ministro que estava esperando.

Todos os rostos estavam voltados para a porta, cheios de expectativa.

Quando Sasuke e eu a atravessamos, para minha enorme surpresa, todo mundo na sala começou a aplaudir.

No começo, não consegui entender porquê. Tipo assim, não deviam estar aplaudindo porque afinal Sasuke e eu tínhamos encontrado o caminho de volta do banheiro (não era possível que eles soubessem a respeito dos hambúrgueres, a não ser que a pessoa que serviu o musse tivesse contado. Será?).

Mas depois eu vi que a razão para todos aqueles aplausos não tinha nada a ver com isso. Descobri quando estava voltando para o meu lugar: a minha mãe deu um salto da cadeira e me parou no meio do caminho para me abraçar bem forte.

—Ah, querida, não é uma maravilha? – perguntou. – O primeiro-ministro acabou de nomeá-la como embaixadora teen na Organização da Nações Unidas!

E, de repente, pareceu que todo aquele hambúrguer delicioso estava prestes a voltar.

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Taiana-chan, espero que você tenha gostado do capítulo. O Sasuke apareceu bastante *-* Muito obrigada por sempre comentar!

Jaque, que bom que você está gostando da fic. Isso me deixa muito feliz :D Obrigada por comentar!