CAPITULO VIII
Ala Hospitalar
Marlene segurava os dois copos de cristal e eu o jarro com a água, poção ou sei lá o que. Remus, James e Peter estavam nos acompanhando, precisaríamos de uma distração e de um vigia. – Ok. – comecei assim que alcançamos a porta da Ala Hospitalar. – Todos se lembram dos seus papeis, né? – pedi confirmação, começando a ficar um pouco nervoso.
- Não se preocupe Pads, temos sua retaguarda. – James me assegurou, batendo no peito com a mão direita em punho, dei risada. Claro que os marotos sempre teriam a minha retaguarda.
- Está tudo pronto. Assim que entrarem, iremos correr até ao Salão Principal e trocar o céu encantado por meteoros, jogar bombinhas nos corredores e lançar uma névoa perto da Ala Hospitalar. – Remus resumiu o plano.
- E eu vou ficar na porta da Madame Pomfrey, de guarda. Qualquer movimento, vocês serão informados. – Pedro olhou para mim e para Marlene.
- Isso nos dará quanto tempo? – Marlene perguntou.
- Acho que uns dez minutos ou uma hora. – James respondeu, provavelmente tomando como base nossas outras peças.
- Muito preciso. – ela reclamou.
- Ué, é o melhor que podemos fazer. Não posso prever o futuro.
- Teremos que trabalhar com o que temos e considerar que a má sorte está do meu lado. – pontuei.
- Tudo bem, dez minutos terão que ser o suficiente. – Marlene se conformou e caminhou até a porta. – Boa sorte, rapazes.
- Para vocês também. – James e Remus disseram, já correndo para o Salão Principal enquanto tiravam as varinhas para criar névoa no corredor.
- Oh Merlin, me dá uma mãozinha desta vez, vai?! – pedi, levantando a mão livre para o alto e ignorando o sorrisinho que sabia que a Lene estava esboçando.
Entramos sem fazer muito barulho. A cama em que a louca estava não era muito longe da entrada, o que melhorava nossas chances, já que era mais longe da Madame Pomfrey. Fiz um sinal para Peter e ele correu para o final da Ala, provavelmente ficaria em sua forma animaga. – Espera, antes vamos deixar tudo pronto. – Lene murmurou, apontando para a jarra na minha mão com os olhos. Colocamos a jarra e os copos em uma mesinha e Marlene dividiu o líquido nos dois copos. – Agora é com você. – deu uma piscadela com o olho direito.
Respirei fundo e caminhei até o cercado de panos brancos onde Grace, a louca, estava. Nem bem me viu ela já se atirou nos meus braços feliz. – Ai meu Sirizinho, sabia que você iria voltar para mim. – Como eu tinha dito, completamente louca. Forcei um sorriso e tirei os braços dela do meu pescoço.
- Precisamos conversar, Grace. – disse logo de cara. Não estava mais para brincadeiras, ainda mais com ela. Obviamente o sorriso que ela tinha guardado para mim agora tinha sido trocado por um olhar mortal.
- Sobre o que? Qual nome vamos dar ao nosso bebê? – ela acariciou uma barriga ainda inexistente.
- Não. – me sentei na cadeira ao lado da cama.
- Já escolheu ou eu posso escolher? – perguntou animada, mas ainda com aquele olhar meio sinistro.
- Também não. Olha, eu..
- Quer esperar para saber se é menino ou menina?
- Não. Eu..
- Será que são gêmeos?! Imagina que perfeito!
- Não, não imagino. Escute, eu..
- Ai.. Meu.. Merlin!
- O que?
- Já sei, se for menino será Sirius Junior!
- Não será! Agora..
- Então é Sirius Neto?
- Muito menos! Agora eu..
- Podíamos..
- Pode, por amor a Merlin, parar de falar por um minuto!? – disse em um murmúrio baixo e muito, muito bravo. O que deve ter sido eficaz, já que ela parou mesmo de falar. – Bom. Agora, como eu ia dizendo. – retomei o meu "precisamos conversar". – Ambos sabemos que tudo isso é.. – fiz uma pausa estratégica aqui. O sinal de fumaça que se formava no fundo dos olhos dela me indicava que definitivamente esse não era o caminho que eu deveria seguir. – Complicado. – completei. O que eu tinha que fazer era inventar algo que me desse alguma vantagem, e em menos de dez minutos! Se não nunca iríamos terminar com o teste/plano /tentativa desesperada de me salvar. - De agora em diante teremos muitas responsabilidades. – fiz minha voz mais séria.
Os olhos dela brilhavam novamente. Fico imaginando o quão doente uma pessoa podia ser e uma parte de mim até sentiu pena dela, ok, uma parte bem, mas bem pequena. – Sim, amor.
Ignorei esta parte e resolvi continuar. – Um bebê é uma vida e será importante que você se cuide bem antes dele nascer. – Sim, estava me enrolando. Que diabos poderia inventar que... Já sei! – Como você sabe, minha família é muito antiga. – ela acenou com a cabeça, parecia feliz agora.
- Sim, você é um Black. – Oi? Olhei meio confuso para ela, mas logo disfarcei. A convicção em sua voz e o brilho sinistro nos olhos dela foi um aviso. O ponto da questão toda era esse então, que eu sou um Black?
Ok então.. – A mágica em nosso sangue é muito potente e pura. – Ouvir discursos sobre a família finalmente me veio a calhar. – E então eu... – Não sabia como juntar a baboseira puro sangue com dois copos de cristal contendo uma água enfeitiçada. - É muito importante que a criança nasça em um ambiente que possa desenvolver isso. – continuei. – Os Black são a elite do mundo mágico e...
- Desculpem, me atrasei. – Marlene entrou na divisória, com os dois copos na mão, e um sorriso grudado no rosto. Olhei para ela meio que pedindo ajuda, meio que perguntando do que ela estava falando. Lene me lançou um olhar demorado e colocou os dois copos ao lado da mesinha de cabeceira de Grace. – Parabéns! – abraçou a louca como se fossem melhores amigas e, como se nada fosse me deixar mais surpreso, acariciou a barriga dela como se ela estivesse com um barrigão. Grace pareceu meio desconfiada. Ia começar a falar, mas Len foi mais rápida. – Sabe que, como Sirius estava falando, famílias puro sangue tem todo um cuidado com os bebês, especialmente os que ainda estão na barriga da mãe. – Virou a cabeça pro meu lado e revirou os olhos. Marlene também fazia parte de uma família de linhagem e sangue antigo, mas a dela, ao contrário da minha, não era radical e antissocial. – E como o bebê será um Black, precisamos saber exatamente como ele está e quando irá nascer, muitos preparativos deverão ser feitos.
Eu concordei com a cabeça toda vez que ela terminava uma frase. – Por isso pedi para a Marlene trazer esses cristais. – emendei o pensamento. – Como ela também é de família antiga, pedi a ajuda dela para nosso próximo passo. – Grace me olhou confusa e Marlene olhava para os lados, provavelmente tentando pensar em algo que justificasse o nosso "próximo passo".
- Os Black tem nomes de estrela, como todos já sabem. – Marlene disse, mas eu não consegui entender o que ela iria fazer com essa informação. A louca concordou, desfazendo qualquer traço de desconfiança. – Mas não é só isso. As estrelas podem dizer muita coisa sobre a família Black e o bebê, e a posição delas quando a criança nasce pode ser definitiva em seu futuro. – Marlene terminou a frase com um ar de suspense. Até que achei legal.
- Mas então qual é o próximo passo? – Grace perguntou. – O que temos que fazer? – emendou ansiosa, se levantando.
Marlene esboçou um sorriso meio maligno. Ela era um gênio! – É fácil. – respondeu. Len me puxou pelo braço e me colocou diagonal à janela, fez o mesmo com a louca, colando nós dois, e depois colocou um dedo nas nossas barrigas, nos separando. – Muito bem, agora segurem isso. – nos entregou os copos de cristal. – Dependendo da constelação, você podem até escolher o nome do bebê agora. – de uma piscadela para mim, segurando o riso, enquanto a outra quase morria de felicidade.
- Beba. – mandei, acompanhando a louca assim que ela levantou o copo. Vi de canto de olho que Len estava mexendo com a varinha. Coloquei a mão livre nas costas e cruzei os dedos, tinha que dar certo. Terminamos de beber o líquido e nada aconteceu. Olhei para Lene e nada também. Merlin, vamos lá, me ajuda!
Escutamos vozes vindo da entrada da Ala Hospitalar e depois da sala da Madame Pomfrey. Estou morto! Fui dar um passo pro lado, me preparando para sair dali o mais rápido possível, mas Marlene levantou os braços. – Não se mexam! – exclamou, bem quando o feitiço de luz que ela tinha feito começou a se iluminar. Eu e a louca agora estávamos no meio de um circulo. Podia sentir meu coração querendo saltar do lugar. Não me movi e sustentei o olhar de Grace para que ela fizesse o mesmo. – Acho que está dando certo. – Marlene disse, mas eu não ousei mover mais nem a cabeça para checar. Ouvimos o barulho da porta e vozes altas. – Fiquem aqui! – Lene ordenou, no que eu logo ouvi seus passos rápidos se afastando. Sabia que ela iria tentar ganhar mais tempo.
Ouvi a voz de James e depois a da Marlene, sendo sobrepostas pelas da McGonagall. Estava se formando um nó no meu estômago. Grace quebrou o contato visual e tentou se afastar, mas eu segurei o seu braço, ou tentei, acabei pegando ar e encostando em sua barriga. Foi tudo muito rápido. Uma hora eu estava parado, tentando fazer de tudo para permanecermos no círculo, outra eu me senti empurrado para longe, literalmente voando pelos ares, encontrando um obstáculo na parede. Ouch, doeu.
Vi todos correndo na minha direção, com expressão preocupada e Grace gritando. Fui eu quem falou primeiro. – O que, por Merlin, acabou de acontecer? – Tentei olhar para os meus amigos, para ver se alguém tinha alguma explicação, mas eles me olhavam como se eu tivesse vestindo algo muito estrando. Olhei para baixo, para verificar o estado da minha roupa, mas esperava tudo, menos estar irradiando uma luz pulsante e vermelha.
- Parece-se, Sr. Black. – começou o diretor, que eu nem tinha notado antes, dando um passo a frente do grupo. – Que o Sr. não será pai em um futuro próximo. – Dumbledore me olhou por debaixo daqueles seus óculos meia lua e eu podia jurar que ele estava se divertindo.
- Então deu certo?! – exclamei animado, me levantando.
- Se está se referindo a certo procedimento a resposta é positiva. E positiva também para outro jovem, que no momento deve estar brilhando pelo castelo. – esta ultima parte tive a impressão de ser uma piada interna do diretor. Dumbledore virou-se para McGonagall e eles trocaram um olhar demorado.
McGonagall estava frustrada, eu tinha certeza. – Sr. Black, acho que lhe devo desculpas por meu julgamento impróprio e injusto. – Olhei cético para a professora. –Sim, devo. E, ao contrário do que possa parecer, quero, ou melhor, todos queremos, o melhor em seu futuro.
- Desculpas aceitas. – fiz uma continência e dei um sorriso maroto. – Agora estou liberado?
- Mas, devemos tratar de um assunto em particular antes. – Estava bom demais para ser verdade. – O feitiço que usaram está fora dos limites curriculares da Escola então...
- Professor, a ideia foi minha. – Marlene interrompeu. – Fiz tudo sozinha e..
- Não fez não. – corrigi. Merlin sabe que eu já estou muito encrencado e repleto de detenções, e ainda nem tínhamos começado o ano letivo direito, mas não ia deixar ninguém levar a culpa por mim sozinho.
- Também ajudamos. – James e Remus se ofereceram, juntamente com Peter, que se apareceu atrás deles.
McGonagall trocou outro olhar com o diretor, que levantou a mão, nos silenciando. – Como a professor McGonagall ia dizendo, por ser um estudo extracurricular, devo conceder 10 pontos para a Grifinória. E, considerando as circunstancias, 5 pontos cada, pela lealdade e interesse nos estudos. – Dumbledore nos deu um divertido sorriso, todos nós sabíamos que isso era pura mentira. – E quanto a Srta. Povre, menos 50 pontos, e uma breve conversa na minha sala, assim que a Srta. sentir-se melhor. - Grece, que até então estava esquecida, ganhou um ar histérico, andando de um lado para o outro, bufando e esbravejando.
- Esta é a nossa deixa, Pads. – James disse, fazendo um sinal para a saída. Não precisou falar duas vezes. Nós saímos da Ala Hospitalar e depois corremos pelo corredor, agora sem nenhuma névoa, até finalmente chegar na Sala Comunal. Paramos perto da lareira, ofegantes. Olhamos um para o outro e começamos a rir. Eles tinham razão, depois realmente fica engraçado.
James, Peter, Remus e eu estivemos nos revezando com o mapa do maroto e pelos corredores atrás dos donos das misteriosas vozes que eu tinha ouvido no corredor com a Lene. Por enquanto, não tínhamos suspeitos concretos, Remus tinha ficado encarregado de montar uma lista, mas estávamos perto. – Moony e eu vamos no turno hoje, quando voltarmos podemos rever a lista. - James anunciou, pegando a capa da invisibilidade em seu malão.
Concordei. – Vou dar uma passada na cozinha e depois espero vocês na Sala Comunal.
- Já eu vou aproveitar e dormir um pouco. – Peter disse, bocejando e subindo para os dormitórios.
- Mas ele só dorme! – James exclamou, balançando a cabeça.
- Antes agora que depois, na 'reunião'. - pontuou Remus. – Até mais Padfoot.
Depois de uma rápida ida ás cozinhas, estava com o bolso satisfatoriamente cheio. Agora só faltava achar um lugar para esperar confortavelmente. Entrei na Sala Comunal e logo avistei Marlene sentada em um dos sofás, com as pernas cruzadas, apoiando um livro no braço do sofá. – Hey. – cumprimentei, deitando no espaço livre do sofá e esticando minhas pernas no colo dela.
- Folgado. – Len reclamou, tirando sua atenção do livro e jogando minhas pernas para o lado.
- O que está fazendo? – perguntei, me inclinando para ver que livro ela estava lendo. Ela respondeu com um olhar de deboche. – Sei que está lendo, quero saber, minha querida Marlene, o que e para que.
- Nós, meros mortais, temos trabalhos para entregar. – me informou. – Mais precisamente de feitiços, sabe, aquela matéria que o professor baixinho dá?
- Nós, Deuses do Olimpo, não precisamos disso. – dei um sorriso maroto, voltando para a minha posição confortável no sofá e pegando uma bomba de chocolate do bolso. Calmamente desembrulhei o doce e dei uma generosa mordida, ignorando o olhar mortal que sabia que a Lene estava me lançando.
- Black... – me alertou.
Ignorei e dei mais uma mordida, dessa vez fazendo questão de murmurar um 'hmmm'. Não tive tempo nem de engolir, Marlene pulou em mim, com a mão esticada, mirando a minha deliciosa bomba de chocolate. - Quer isso? – perguntei, mexendo a mão que segurava o doce bem na frente dela, mas cuidando para que ela não pudesse alcançar.
- Black... – segundo alerta.
Coloquei o resto da bomba de chocolate inteirinha na boca. Mas, como todos os alertas da Lene me indicaram, não devia ter feito isso. Ela rapidamente sacou a varinha e me lançou um feitiço, ou melhor, me deu um choque. Engasguei e tentei fica em pé, mas ela me segurou. Com a varinha ainda em mãos, colocou a mão livre na minha coxa e foi subindo devagar. Engoli todo o doce de uma vez. Merlin! Mais um pouco e estava com a mão quase lá. Arregalei os olhos, surpreso.
Mas devia saber melhor. Marlene enfiou a mão no meu bolso e roubou as outras bombas de chocolate que eu tinha. Rindo satisfeita, voltou para o canto do sofá, com os joelhos dobrados, tirou o plástico do doce e mordeu ele feliz. – Trapaceira! – exclamei, me fazendo de indignado.
- Não importa, tenho os doces. – dessa vez tive que rir junto.
Já era bem tarde e esperar na Sala Comunal não era uma boa, então subi para o dormitório, esperando James e Remus. Estava quase pegando no sono quando escutei alguma movimentação. Levantei e joguei um travesseiro no Peter, para ele acordar. – Prongs? Moony?
- Somos nós. – confirmaram, tirando a capa da invisibilidade. Remus foi fechar a porta e James foi guardar a capa e o mapa no seu baú.
Os dois me olharam meio apreensivos. – O que foi? – perguntei.
- Terminamos a lista de suspeitos. – Remus tirou um pedaço de papel das vestes.
- Melhor dizendo, quase culpados. – corrigiu James.
- E? – perguntei impaciente.
- O namorado da Marlene, William Connor, está nela, Pads.
