Feito um pássaro na gaiola, Hermione andava por Hogwarts com desculpas que estava com pressa para chegar nas aulas ou ir estudar na biblioteca quando na verdade queria ficar longe de todos, com medo que, em algum momento, alguém gritasse os acontecimentos da noite anterior na presença dela: tentava fugir, contudo estava cercada. Não olhava também ninguém nos olhos, temia que a verdade estivesse ali escrita.

Decidiu-se pela biblioteca, quase não encontrava ninguém ali: bruxo ou não, a possibilidade de estudos e livros no mesmo lugar parecia afastar todo tipo de aluno. Pegou sua mesa típica atrás de uma estante cumprida: ninguém ia pra lá a menos que procurasse paz. Abriu o livro A Guerra dos Anões do Sul de 1387 quando um movimento vermelho a sua direita a fez gritar.

-Shhhhhh! – madame Pince lançou um olhar mortal em direção a ela e Gina, que revirou os olhos enquanto se acomodava na cadeira diante de Hermione.

-Ela é assustadora. – sussurrou Gina enquanto se certificava que a mulher havia ido embora.

-Hum...

Hermione foi obrigada a interromper a leitura quando a amiga começou a tamborilar de maneira ritmada os dedos no tampo da mesa, os olhos cravados nela enquanto tentava vencê-la pelo cansaço.

-O que? - ela finalmente fechou o livro e cruzou os braços diante do peito.

-Você passou a manha estranha e o dia evitando todo mundo. – Gina devolveu o olhar irritador – Por que?

-Por nada.

-Não minta.

-Não foi nada.

-Pensei que eu fosse sua melhor amiga! – Gina se calou no momento que Madame Pince surgiu no final da prateleira e sumiu no instante seguinte.

-E é, mas eu estou dizendo que não aconteceu nada. Só dormi mal.

Aquilo era mentira, até uma criança podia ver. Gina mordeu o canto da boca, o olhar desafiador cravado nos olhos da amiga até que Hermione quebrou, desviando o olhar e ficando levemente rubra.

-Se você não me contar, eu vou começar a deduzir coisas.

-Como o que?

-Como sua entrada majestosa no dormitório feminino e o fato de Fred ter estado bêbado ontem no salão Comunal ter algo em comum.

Aquilo tinha sido um chute, é claro, mas Gina logo percebeu que havia acertado em cheio: A amiga agora estava mais vermelha do que seu cabelo e, por um segundo, seus lábios tremeram.

-Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Ele chegou bêbado e eu subi! – guinchou ela.

-Ele estava nu, Hermione.

Àquele ponto, a garota estava a um ponto de chorar. Seus olhos estavam marejados e agora todo o seu corpo tremia.

-Muito bem. – fungou, curvando-se em direção a Gina – Eu vou contar o que aconteceu, mas tem que me prometer que vai guardar segredo.

E, com uma agora sentada ao lado da outra, aos sussurros e lagrimas, Hermione segredou o pesadelo que havia sido a noite anterior.


O Salão Comunal explodia em gargalhadas conforme Rony imitava Snape a quase perfeição quando viu um vistoso esqueleto de dragão lecionando na aula mais cedo. Os gêmeos se apoiavam um no outro para não caírem no chão por conta da falta de ar. Um sextanista gordo havia emprestado as vestes para Rony, então ele parecia trajar um grande manto negro, exatamente como Snape, e empinava tanto o nariz que mal podia-se ver sua testa.

-Que se apresente o aluno de senso de humor hediondo que fez isso. – disse ele com a voz arrastada e pastosa. – É a primeira vez que vejo sorrisos em minha classe.

Outra onda de risos encheu o salão. Muito alunos choravam quando o retrato da Mulher Gorda abriu passagem e no momento seguinte Fred Weasley estava no chão com a irmã caçula sobre ele, a varinha apontando perigosamente para o seu pescoço. O silencio se instalou de imediato enquanto muitos grifinórios prendiam a respiração.

-Saiam. – o tom de voz da pequena Weasley fez com que vários tropeçassem na pressa de chegar primeiro no buraco de entrada: todos conheciam a fama de Gina em relação a azarações ou feitiços de duelo.

Quando não restou mais ninguém além de George, ela pressionou a varinha com mais força contra o rosto dele.

-Vindo pra cá, eu pensei nas melhores azarações que conheço – então a varinha dela desceu até estar apontada para a virilha dele – mas eu cheguei a conclusão que não seria o bastante.

Então o pé dela pegou impulso mirando entre as pernas do irmão quando George a agarrou pela cintura e arrastou pra longe enquanto Fred berrava em plenos pulmões, em pânico.

-ME LARGA! EU VOU ACABAR COM FRED! JURO! NINGUÉM MAIS VAI CONFUNDIR VOCÊS DOIS! – e enquanto esperneava, Fred deixava um gemido de alivio escapar pela boca sem acreditar o quão perto estivera de nunca mais poder constituir família.

-Gina, calma! – George estava tendo muita dificuldade em conter a irmã: era como ter um diabrete entre os braços. Ela tentava chuta-lo e por vezes quase o havia acertado duas vezes no rosto com a varinha.

Por muito tempo ela lutou, e por muito tempo ambos os gêmeos tentavam gritar palavras calmantes para ela ou perguntar o motivo daquilo até que a garota se cansou. Ficou ali, presa entre os braços de George como uma boneca de pano suada e de respiração arfante.

-Pode me soltar. Ainda estou furiosa, mas não tenho mais forças pra joga-lo no chão. – grunhiu, de ma vontade.

Os gêmeos trocaram um olhar sombrio e bem devagar George soltou a irmã pronto para voltar a segurá-la assim que Gina demonstrasse qualquer sinal de violência, contudo a garota apenas inspirou fundo, secou o suor no rosto e voltou a encarar Fred com ferocidade.

-Eu deveria dar você pra Lula Gigante! – gritou, avançando um passo, o que fez seu irmão recuar de imediato.

-O que ele fez? – George se pos entre os dois: sabia que era muito maior do que Gina, mas o fato de sua irmã esta com a varinha tornava seu tamanho irrelevante.

-Ele sabe muito bem!

Algo estalou dentro da cabeça de George e de repente tudo parecia claro. Ela sabe!, o fato de agora conhecer o provável motivo para a morte de seu irmão o tranquilizou.

-Não, não sabe.

-Claro que...!

Não – interrompeu, o rosto e voz calmos como a superfície do lago – Realmente não sabe. Fred não se lembra.

-Se lembrar do que? – seu irmão agora estava no seu campo de visão, quase ao lado de Gina, que ainda bufava.

George sentiu a garganta apertar Soltou um suspiro antes de tornar a pegar ar:.

-Ontem a noite você chegou bebado e nu. Hermione estava sozinha no sofá, ela costuma ler até mais tarde, e tentou ajudar você, mas você avançou sobre ela, a prensou contra o sofá e tentou beijá-la.

-Forçou um beijo, seria o correto – resmungou Gina lançando um olhar irritado ao irmão. – Ela está apavorada!

-Como você sabe dessas coisas? – Fred parecia mais pálido do que de costume: o ar lhe faltava, contudo o punho estava cerrado e tremendo.

George mordeu o lábio inferior: não via como contar a verdade sem magoar o irmão gêmeo e ao mesmo tempo salvá-lo de Gina.

-Porque eu vi tudo. Estava ali em cima quando ouvi você chegar e... Eu só queria que você tivesse algum momento com ela. – tentou segurar o braço de Fred, mas ele recuou.

George não se lembrava de ter visto o irmão lançar um olhar de tamanha repulsa para alguém, nem mesmo para Malfoy. Seu maxilar projetou-se para frente furiosamente, não conseguia olhar o outro nos olhos. Por um segundo, Fred esqueceu-se que Gina estava ali.

-Eu não vou perdoar você. – murmurou.

Quando fez menção de sair do Salão Comunal, George tentou segurá-lo, porém Fred afastou sua mão com um movimento brusco do ombro antes de passar pelo buraco do Retrato. Gina também não se demorou: lançou um último olhar ameaçado para o irmão antes de sair, deixando George sozinho com seu arrependimento. Desejou ter um vira-tempo, uma poção do amor ou da memória, desejou ter a resposta para resolver a besteira que tinha feito. Andou durante um tempo pelo lugar, então se lembrou da aula de Tranfigurações que iria ter em pouco tempo, mas só a ideia de encontrar com o irmão o fazia ficar arrepiado.

Se decidiu por um momento sozinho até a cabana de Hagrid: as vezes ele e o irmão iam para o lado externo de Hogwarts até o Salgueiro lutador, passavam pelo túnel debaixo de suas raízes até a casa dos gritos onde podiam experimentar feitiços novos e criar outro produtos para a loja de Logros. Enquanto andava, se viu imaginado se algum dia voltariam a fazer aquilo devido aos acontecimentos recentes. Estava descendo os degraus de pedra quando ouviu um relincho tenebroso ao longe. Sem aviso, um bando de pássaros levantou voo das árvores da Floresta Proibida, formando uma seta disparada para longe dali. Ficou curioso e mudou o destino, caminhando em direção as árvores.

Só de chegar na extremidade da Floresta sentiu um arrepio subindo-lhe a espinha: uma coisa era fazer coisas perigosas com Fred, que amenizava a situação e permitia que ambos fizessem piada de tudo aquilo, mas entrar ali sozinho...

-Olá.

A voz quase o fez gritar com o susto. Olhou para ao lados e nada viu.

-Aqui em cima.

Empoleirada em um galho alto, uma menina de longos cabelos claros e sujos o fitava de maneira curiosa. Se ela não estivesse trajando o uniforme, George nunca teria a tomado por aluna: seus pés estavam descalços e cobertos de terra e folhas secas, suas mãos estavam igualmente imundas e as barras de suas calças haviam sido puxadas até o joelho.

-O que está fazendo?

-Alimentando eles. – ela sorriu, indicando a área de terra bem diante de George. Mas ele apenas viu mais troncos até onde a vista alcançava.

-"Eles" quem?

-Testrálios. – respondeu ela, como se nada fosse mais óbvio.

George decidiu por toma-la como maluco até a garota atirar um pedaço de carne que até então estava descansado ao seu lado no galho para cima. Houve uma lufada de vento e então a carne sacolejou no ar, deu um cambalhota e sumiu.

Ele quis gritar, nunca admitiria, e sair correndo, mas não sabia onde poderia estar aquilo que havia acabado de engolir um naco sangrento de comida. Tinha medo de se mexer.

Sem aviso, a garota aterrissou ao lado dele limpando uma mão na outra e ainda sorrindo de forma sonhador: algo em seus olhos os faziam parecer distantes, mesmo qu ela se referisse a ele.

-Eu conheço você. – disse ela, andando para dentro da Floresta. – A cor de cabelo não me é estranha.

-Hum... George Weasley.

-Certo, irmão de Gina Weasley. Ela é legal. – esticou a mão levemente no ar e a moveu de baixo para cima, como se acariciasse algo invisível. – É minha amiga. Vocês tem o mesmos olhos.

-E cabelo...

-Não posso deduzir que todos os ruivos sejam parentes. – tirou outro pedaço de carne do bolso e estendeu bem diante do rosto. No momento seguinte, a carne não estava mais lá.

Até mesmo para ele aquilo já era o suficiente pelo dia. George recuou um passo, e quando viu que ninguém parecia se importar com sua retirada, deu outro.

-Foi um prazer. - disse a garota sem se virar.

-Hum...Igualmente...

-Luna. – cantou ela, dando um aceno amigável para George, o que ele tomou como deixa para ir embora.


Fred caminhou sem rumo durante um tempo até perceber que estava tomando caminho para o corujal. Decidiu se manter por ali: sabia que teria aula de Transfiguração em alguns minutos, porém só a ideia de ver George o deixava tão irritado e nauseado a ponto de sentir o café da manha começar a subir pela garganta. Apressou o passo, não queria encontrar com ninguém, simplesmente não estava no clima.

Gostava do corujal, apesar do cheiro, sujeira e o incessante piar das corujas, agitando as asas e levantando voo o tempo todo, a vista dali era tranquilizadora. E se colocasse a cabeça bem para fora da torre, podia sentir o ar frio e fresco do dia. Olhou sobre as copas das árvores da Floresta Proibida quando um grupo de pássaros disparou para os céus em um alvoroço frenético, como se algo os tivesse assustado. Observou as aves por mais alguns minutos até sumirem de vista e se decidiu por descer.

Só quando alcançou o último degrau se deparou com uma figura baixa no caminho.

-E ai, Fred? Ou é George? – Harry nem ao menos tentou esconder a carta que tinha nas mãos: todos os Weasleys (com a exceção de Percy) sabiam que ele escrevia para o padrinho, Sirius Black, com frequência.

-Fred. – pela primeira vez, aquela confusão o incomodou de verdade.

-Lino estava procurando por vocês dois. Deve estar em Transfigurações agora.

-Certo. – quer dizer então que George também havia decidido ir a aula?

Harry se viu preso ali sem ter mais o que dizer, porém felizmente Fred percebeu o incomodo dele. Abriu passagem, deixando que ele seguisse caminho.

-Ah...hum, Harry?

O rapaz parou no terceiro degrau com um olhar confuso. Fred estava desconcertado com a pergunta que ia fazer, mas era preciso.

-Hermione melhorou? Não parecia bem pela manhã...

-Bom, eu sei tanto quanto você. – respondeu ele depois de um minuto de reflexão - Hermione tem mais aulas do que eu e Rony, e o tempo restante passa estudando. Se a vir, digo que você perguntou...

-Não! Por favor. – a afobação dele e o grito chegaram a assustar Harry – Só...gostaria de saber. Até mais, Harry.

Fred não quis olhar para trás. Se voltasse o rosto para o rapaz naquele instante, sabia que se entregaria. Continuou andando com o passo lento e o olhar perdido até alcançar o castelo.


N.A.: Oláááá! ÉÉÉÉÉÉÉÉ, as coisas estão andando...ainda estamos em uma espécie de introdução, mas a partir de agora a pedra vai começar a rolar.Não sei como vou conseguir escrever sobre os gemeos com eles separados...vai ser meio mórbido XP...Mas é um mal que alguém precisa fazer...

Bom, to amando isso aqui (alias, tenho lido umas Hermione/Legolas e tenho tido ideias sobre isso MUAHAHAHAHA)...mas um passo de cada vez

Muito obrigada a aqueles que estão acompanhando e mandando reviews u.u Vocês me honram 3

Bom, acho que isso é só por hoje

Um grande abraço!