Depois da alta dose de cafeína, Lisanna chegou ao jornal e haviam pelo menos 5 mortes a serem anunciadas. Ela não gostava disso. Não que não gostasse de trabalhar, mas se mortes fossem necessárias, que fosse uma só, para que ela se esmerasse no relato e não que fizesse algo canhestro. E também, significaria que muitas pessoas estariam morrendo, provavelmente algo estava em desequilíbrio. Aqueles cessaram sua existência, sem chance alguma de repetição.
Fora essa comoção interna, o ambiente da redação do jornal estava um verdadeiro caos e Lisanna e Levy quase acharam sua casa um local tranquilo e pacato para descansar. Levy foi para a ala dos cronistas e Lisanna se dirigiu ao seu cubículo para começar os obituários.
Aquela redação estava uma balbúrdia! Parecia um caldeirão borbulhando! Vários ingredientes juntos, um diferente do outro, resultando em algo delicioso! Exceto por Lisanna. Ela se considerava o açafrão, que em excesso pode vir a amargar todo o prato, deixando um sabor desnecessário, mas até o amargor tinha seu papel, não? Coisas muito doces ou muito insossas eram tão ou piores quanto muito amargas, então, ela permaneceria ali, colaborando com o equilíbrio de seu limitado universo que consistia no emprego mórbido, na matéria de literatura e na academia perto de casa...sem esquecer da casa em si.
Era apenas isso que fazia parte da vida dela, coisas as quais ela podia controlar, fora isso, eram apenas ingredientes da grande sopa da existência...dos quais ela não tinha conhecimento. Depois de mais divagações...o que não é incomum na vida dessa criança...eis que pega a lista de mortos para começar os trabalhos.
"Bem, vejamos quem são as pessoas de hoje. Metalican RedFox, Grandeene Marvel, Zirconia Jade e Grangneel Dragneel...O QUE? Como? Esse é o avô do Natsu! Morto? Meu Deus! Eu gostava tanto dele! Ele sempre me dizia que eu e o Natsu voltaríamos. Que sabia que eu era a mulher certa pra ele. Sempre me deu livros e dizia que era para eu escrever mais...bom, deixa eu ver as circunstâncias da morte." - nisso, ela já está tremendo de nervoso- "Carbonizado? Sem corpo? Como assim, nada de enterro? Bom, terá uma solenidade! Depois que fizerem o monumento, o visitarei. Não posso ver o Natsu e nem a Lucy, mas não posso deixar de prestar minhas homenagens.
Ele sempre achava um erro o término do nosso namoro, mas isso não foi feito por mim...ok, nada de usar a morte do Dragneel Senior ser mais um motivo para mimimi! Chega dessa condescendência, meu Deus! Agora é hora de escrever o melhor obituário da minha carreira."
Uma particularidade sobre obituários! As pessoas que os fazem não os assinam. Geralmente os textos são curtos e desinteressantes, claro que os de Lisanna não são assim, contudo, ela segue a tradição em não assiná-los. Não quer ser ovacionada ou ainda encontrada. Ela não sabe ainda de quem se esconde ou se esconde, contudo, isso faz com que ela se sinta protegida.
Com esse pensamento em mente, assim ela o fez! Não sabe qual das divindades escritoras tomaram posse do corpinho curvilíneo que ela cansa de criticar entre uma aula de spinning ou outra.
Ninguém duvidava do talento de Lisanna, contudo, dessa vez ela se superou! Era como se tivesse composto sua obra-prima. E depois disso, nada parecia no lugar. Seu universo estava alterado de alguma forma que ela não conseguia explicar. A repercussão dos obituários, após sua liberação para os parentes, os levou às lágrimas! Todos queriam saber quem era aquela pessoa que tinha falado tantas maravilhas reais de seus parentes. Até mesmo Natsu Dragneel, o cavaleiro às avessas, quis saber quem conhecia tanto o seu avô e fez com que ele ficasse mais aliviado, ao perceber que os céus estavam ganhando alguém muito maneiro. Claramente que a política do jornal em relação aos obituários foi mantida e o nome de Lisanna não foi revelado, embora alguns parentes tenham deixado presentes e um bilhete de Natsu que dizia: Obrigado! O diretor do jornal, sabendo da história, não entregou esse bilhete para ela. Deu-lhe os parabéns e alguns dias de folga.
Para aqueles que estejam estranhando, lembrem-se que a morte e uma redação de jornal são mesmo muito rápidas. Portanto Miss Strauss sabe exatamente como os parentes encararão seu trabalho que será exibido no outro dia.
A moça de cabelos quase brancos foi para casa meio confusa, tanto pelo esfuziamento em relação aos obituários quanto pelos incomuns dias de folga que foram dados a ela. Já que ela não exercia apenas essa função no jornal. Lis era de tudo! Mocinha do café, cronista substituta, revisora e editora de imagens. Tudo substituído. A única função a qual era exclusivamente dela era a de obituarista. Então, ela fazia tudo de bom grado, já que tinha algo pra voltar.
Chegando em casa depois desse dia no mínimo diferente, ela abre a porta e é derrubada por uma correnteza! Sim! Uma correnteza! Todavia, não era uma faxina, coisa que o lar estava precisando, mas sim Juvia fazendo mais uma experiência para combinar suas habilidades da natação com suas habilidades de perseguição.
Entrar em casa e ser mandada de volta por um rio caudaloso que não deveria estar ali não deixa ninguém com o humor aprazível, e Lisanna não se distanciou disso.
"Juvia, mas o que diabos aconteceu com o apartamento? DE NOVO! Pelo amor de Deus! Você não trabalha em um lugar CHEEEEEEEEEEEEIO DE ÁGUA? Será que não é permitido fazer tudo isso lá? Se por um acaso eu tiver que comprar meus livros que eu estou vendo flutuar por essa poça horrenda, mais uma vez, eu juro que eu vou naquele clube de 5ªcategoria, subo naquele palco e beijo aquele nojento daquele stripper barato! - A pobre Lisanna exaltou-se.
Juvia já conhecia a reação das suas companheiras. Elas não eram mulheres da ciência e tudo o que ela queria era descobrir uma maneira de espionar o caríssimo stripper através da água do banho. Ela já tinha feito o mapeamento dos canos que passavam pela casa dele. Agora era só desenvolver o sistema, fazer umas separações necessárias e pronto! Poderia vê-lo no banho. Ela sempre o via dançar, mas ele nunca tirava a cueca. Recortou todas as reportagens que Levy e Lisanna fizeram sobre os atentados ao pudor dos quais ele foi injustamente acusado. Para Juvia o verdadeiro atentado era aquela escultura usar roupas. Obviamente ela nem estava prestando atenção ao escândalo da Lis...só que no momento em que ela ouviu stripper e beijo, ela virou um furacão. Um verdadeiro desastre meteorológico.
"Lisanna, o que você disse? Você vai me trair dessa maneira? Eu sempre soube que você era louca por ele! Contudo, achei que depois de todas as provas de amor que eu espalho por essa casa, que você teria a decência de se afastar dessa batalha. Você tem certeza que quer isso? Ser minha rival no amor? Eu molhei uns livrinhos e esses autores todos já morreram! O que diabos você quer com essa gente? Acha mesmo que isso é desculpa para tentar interferir no amor perfeito de Gray-sama e eu? Acha mesmo que isso é realmente um motivo válido? Livros velhos de gente velha e morta?
"Não é só questão de velhice ou morte, sua desequilibrada! Só por isso eles não merecem respeito? Você sabe bem o que eu faço pra viver, sua desengonçada! Como pode dizer isso pra mim, sua louca? Sabe que é minha função divina dar uma ultima demonstração de respeito pelos mortos? E ainda...- Lisanna esbravejava.
Juvia não deixou que continuasse. "E você ainda acha que essa embromação toda é uma missão divina? Faz-me rir! Você escreve a data e o motivo que essa gentalha morre! Não dá pra negar que você melhora um pouco as coisas, e sem mentir e tem um vocabulário decente, mas é só! Sua profissão é medíocre, assim como você! Não é a toa que o Natsu Imbecil de trocou pela salafraria da Heartfilia, uma outra rival no amor! Até aquilo que só usa os peitos pra fazer previsões consegue ser mais ..ai, minha cabeça."
POF! Splash! Um baque surdo, seguido de um bater na água! Juvia não pôde mais continuar arrasando com Lisanna porque Cana a nocauteou com uma garrafa de vinho cheia. Cana foi conferir se a bendita não tinha quebrado. Ainda bem que a cabeça de Juvia não era tão dura quanto era oca.
No momento em que o nome de Natsu saiu da boca de Juvia, Lisanna sabia que não teria mais volta! Ela tinha plena consciência que Juvia era uma mulher cruel quando se tratava de Gray! Ela usava tudo o que tinha! Essa obsessão não tinha limites! A pobre estava se desfazendo em lágrimas na frente da senhorita Alberona, que rapidamente sacou uma outra garrafa de sua sacola e jogou pra amiga.
"Tome, você precisa mais do que eu."
"Cana, você acha que meu trabalho é medíocre? - Lisanna entre lágrimas.
"Lis, eu escolho vinhos! Pondero sobre a melhor maneira de alimentar a fuga das pessoas. Vinho pode fazer bem, mas tudo em excesso é perigoso. Eu vivo para entorpecer as pessoas. Nada de lucidez, seriedade ou realidade. É isso! Se você analisar a fundo, eu deveria ser presa! Você gosta do seu trabalho, não é? - Lisanna assente – Então! Isso é o que importa. Você não é medíocre. Hoje a medíocre aqui é essa especialista em chuva que está montando todo um sistema de espionagem pra monitorar um cara que só pensa em se exibir e nem sabe da existência dela.
"Valeu Cana! Obrigada! Você toda cheia de coisas aí, me ajudando...vou pro quarto. Acho que meu chefe estava prevendo essa loucura! Me deu uns dias de folga. Vou me acabar de beber...ah..e Cana..como está o Mc sei lá o que?
"5 pontos nas partes baixas, mais um prejuízo de 10.000 por causa do som que eu estraguei quando joguei uma bebida naquela caminhonete brega! Acho que eu vou ligar pro Laxus...ou vê-lo na academia. Ele não está namorando a sua irmã, não né?
" Ixi..claro que não! Mira-nee nem chegou a ficar com ele...eu ainda acho que foi um boato pra vocês se decidirem..."
"Não estamos prontos pra isso ainda..."
"Cana...por favor...
"Lis..eu sei que você foi largada! Você não deixa a gente esquecer e não esquece, mas cada um é cada um..e o bombadão é infinitamente diferente do bobalhão."
Aquela rima fez Lisanna rir e abrindo a garrafa e tomando uns bons goles..foi para o quarto.
Cana, pegou um rodinho, bateu umas vezes em Juvia, não obteve resposta e foi colocar um cd do Led Zepplin pra tocar. Sempre ouvia "I'm gonna leave you." Ela sempre voltava. Se pegou pensando no que ele disse na última vez. " Cana, você sempre volta! É a força do polo, do raio, você volta! Se não voltar, eu volto...é assim, você pode sair...mas você sempre volta, meu vinho tinto."
Claro que os impropérios que seguiram essa frase não serão listados aqui por força e vergonha maior dessa singela escritora, mas enquanto Cana ouvia Led Zepplin, a história se repetia e repassava em sua memória, ainda despertando sensações. Ela conseguiu secar toda a casa, bateu em Juvia mais uma vez, pegou uma outra garrafa, acabou com ela e foi se deitar.
A casa estava seca e entorpecida, tal qual as três garotas. Cada uma à sua maneira.
