Kinana estava realmente se sentindo com sorte naquela última semana. Por mais que a vida profissional dela não fosse tão glamurosa quanto a das colegas, ela estava satisfeita com o seu trabalho. Era assistente do Absoluto, o pior trabalho da redação do jornal de Magnólia! (Alguém aí adivinha o nome?) Freed acumulava funções, mas o cínico sempre conseguia cumprir todas com perfeição, claro, com uma assistente como Kinana, quem não conseguiria?

Excelência e discrição eram as melhores qualidades de Kinana, sem falar na capacidade sobrenatural em resolver problemas titânicos sem enrolação e com um sorriso no rosto. Aquela mulher era espetacular.

Sua família era muito complicada. Seus pais, aparentemente não tinham problemas, a perfeita família aristocrata, só que desde cedo, Kinana aprendeu o valor de uma boa intermediação, principalmente entre seu pai e sua mãe. E que depois que as luzes se apagam, o terror pode se instalar.

Depois de anos fingindo ser o que não eram, os pais de Kinana começaram a sucumbir, a revelar suas verdadeiras personalidades e isso se refletiu em agressões sistemáticas, tanto verbais, quanto físicas. O único consolo dela era um amigo de infância, Erick, que curiosamente a chamava de Cubelious. O motivo pra isso ela realmente nunca entendeu, mas ela gostava. E gostava dele! Erick a ouvia, sempre a ouviu, e como ela precisava falar. Achava que era muito chata e reclamona, porém, ele incentivava esse lado nela, como se estivesse ali para ouví-la. Tudo bem que ele era seu melhor amigo, mas ela tinha tanta vergonha que nunca o levou pra casa dela.

O incrível é que nunca soube quando o interesse pelo ouvido dele se transformou em interesse por ele inteiro, repentinamente começou a querer beijá-lo e não só falar com ele, só que ela não demonstrou isso muito bem. Ele tinha uma turma, que se intitulava Oracion 6, mas que só tinham 5 pessoas e nessa turma tinha uma garota chamada Angel, que era linda e Kinana, em sua ingenuidade, não percebeu que MidNight e Angel tinham alguma coisa e achou que Cobra e ela estavam juntos, refreando assim seus sentimentos em relação a ele.

Como é uma constante nessa estória, as mulheres não percebem bem os sinais, visto o que acontece com Cana Alberona, então Erick, ou melhor Cobra, achou por muito tempo que amou sozinho.

Claro que Kinana namorou depois, namorou um tal de Max que era surfista e mais uns outros dos quais ela não se lembra, só que o coração dela ficou partido quando Erick foi embora de Magnólia e ela ficou. Ficou sozinha e muda, porque não tinha mais com quem falar, ela desenvolveu uma espécie de tic, que consistia em falar "kina" no final de cada frase e isso era assustador. Seus pais fizeram com que ela parasse de falar, à força, se não chamaria a atenção de assistentes sociais e da própria polícia, não?

Entrou no curso de secretariado executivo e o concluiu com perfeição, trabalhou nas mais variadas empresas, mas precisava de um trabalho cujos horários fossem compatíveis com o nível de psicopatia de seus pais. Então, começou a trabalhar de garçonete no bar 4 Puppies, que incrivelmente tinha um letreiro com o retrato do Cão Infernal, mas com 4 cabeças. Bacchus, seu patrão era alcoólatra, mas era um bom homem, muito divertido e galanteador, só que cuidava dela como se fosse filha dele, não deixava nenhum cliente se aproveitar, sem falar que se divertia muito com as brigas dele e de Cana. Também eram brigas, mas eram diferentes, havia amor ali, um certo respeito, mesmo com todos os xingamentos, dava pra ver que Cana adorava o primo-irmão e que a recíproca é verdadeira. Ela queria ser amada assim.

Através de Cana, conheceu Lisanna e Levy e ficou muito ligada à Lis, ficaram muito amigas e depois Kinana foi contratada como a milagrosamente sã assistente do Absoluto. Não se sabe se é por causa do passado funesto ou ainda por pura força de espírito, Kinana foi a primeira assistente que durou um dia inteiro, depois mais outro e mais outro, fazendo com que todas as estruturas do jornal fossem abaladas e até a maneira como as matérias eram criadas se transformasse.

O lucro do jornal explodiu, já que ela sugeriu a inserção em outras mídias e agora a referência de comunicação pertence ao jornal. O amor e a gratidão são tantos que Absoluto tem um cacho de cabelo dela dentro de um potinho e fala em alto e bom som que não vive sem ela. O trabalho dela é o pior, porque ela funciona na intermediação, porém ela é bem recompensada, não precisaria do trabalho no bar, só que precisa não estar em casa.

A decisão de sair de casa deu-se quando flagrou o pai com uma outra mulher em casa e a mãe com um outro homem ao mesmo tempo, juntos, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Além de estarem em uma espécie de orgia, essas pessoas que participavam, estavam sendo procuradas pela polícia de Magnólia. Por mais que aquelas pessoas fossem suas progenitoras, elas não era mais pessoas. Viviam de aparências, faziam aquele bacanal, mas na frente de todos eram perfeitos. Agrediam-se entre si e a agrediam. Ela cansou de esconder hematomas de Freed, cansou de segurá-lo para não ir à polícia, sem falar dos constantes apelos de Lisanna e companhia.

Pediu à Bacchus se ela podia ficar no bar por um tempo, o que ele não recusou. Só que Kinana sabia da fama de seu chefe, aquilo podia ser perigoso, todavia, ela estava em perigo dormindo na própria casa. Pegou suas roupas e saiu, pra nunca mais voltar. Eles que se envenenassem.

Dormir no bar não era nada fácil, levando em consideração que o silêncio só vem depois da alta madrugada, contudo, nada era mais precioso do que dormir e acordar bem, sem medo de ser agredida, sem necessidade de acordar antes ou ainda, aquele sono inseguro. Ela se sentia protegida e nada pagava aquilo.

Lisanna a convidara várias vezes pra morar com elas e até mesmo Cana, mas ela tinha medo de que tivesse desenvolvido algum hábito notívago, algo que pudesse mesmo ser animalesco. Ela sempre sonhava que era uma espécie de cobra, era um sonho mesmo muito real e tinha muito medo de que aquilo fosse real, que ela fosse uma espécie metamorfoseada, um metamorfo, como tinha no True Blood!

Sim, Kinana tinha muita imaginação, talvez uma questão psicológica aqui e outra acolá, nada que uma terapia corporal não resolvesse, contudo, temia se isso fosse verdade.

A vida de Kinana começou a mudar pra melhor quando começou a simplesmente querer ser feliz, por mais que pareça coisa de livro de autoajuda, começou a achar que merecia ser feliz, não muito, mas na medida. A coisa ficou melhor quando o zoológico de Magnólia contratou um pesquisador de peçonhas e quem era ele? O amor de infância de Kinana. Sim, ele mesmo! Erick!

Ela se encarregou de mostrar Magnólia para ele, mostrou os pontos turísticos, os não tão turísticos assim, só que ela nunca falava onde morava, mesmo antes de sair da casa dos pais, ele nunca foi lá.

Kinana estava insegura porque ele não parecia interessado, apesar de sempre tratá-la bem, ele não tentava nenhum contato mais íntimo. Ele começou a cumprimentá-la com beijos no rosto há pouco tempo atrás, então ela ficou resignada.

Claro que ele estava interessado, mas ao contrário de Kinana, Cobra não tinha namorado ninguém. Seu primeiro beijo foi com Angel sim, mas foi um favor que ela fez. Ela beijou todos da turma, pra que ninguém dissesse que os caras da Oracion eram B.V! Ela fez isso em nome da turma! E verdade seja dita, foi só pra fazer ciúmes em MidNight e funcionou, já que eles namoraram muitos anos até ela ter que mudar pra outra cidade.

Ok, não pensem que ele é totalmente inexperiente, ele só não era muito bom em criar vínculos com garotas. Vai ver que foi até por isso que ele voltou pra Magnólia, para tentar reaver um vínculo há muito perdido.

A coisa começou a mudar entre os dois quando teve um coquetel do jornal, aquelas coisas eram tão chatas que ela nem o tinha convidado, mas Absoluto, como o cupido às avessas que é, o convidou. Também, quando a sua assistente milagrosa anda com uma foto de jornal na carteira, é porque a paixão já é avassaladora, não? Ele tinha que fazer alguma coisa! Kinana era seu anjo, ela merecia ser feliz, contanto que a qualidade do trabalho dela não caísse. (Mentira: Freed gostava de Kinana como se ela fosse uma filha. Foi ele quem incitou Lisanna a convidá-la da primeira vez e ficou horrorizado quando viu onde ela estava morando. Foi em uma das noites onde ele estava bebendo pelo amor não correspondido de Mirajane Strauss e fez com que Cana fizesse Bacchus contar pra ela.

O importante era que Cobra viria e Kinana estaria impecável. Absoluto não admitiria menos que isso.

E foi exatamente o que aconteceu.

O coquetel saiu melhor do que encomenda. Prestaram-se homenagens às personalidades de Magnólia. Até mesmo o finado Dragneel Senior foi homenageado, mas o centro das atenções era a mecânica Blue Pegasus e seu dono irreverente, mestre Bob, portanto o salão estava cheio daqueles mecânicos que davam aquelas cantadas fuleiras.

Kinana estava majestosa! Com um vestido preto de alças e um decote generoso, que contrastava com sua pele alva e uma maquiagem leve, sem esquecer o tom carmim nos lábios, ela estava realmente pra matar. Arrancava olhares por onde quer que passasse, incluindo o de Cobra que não acreditava que aquela mulher era a sua amiga de infância, sua Cubelious tinha se tornado uma mulher estonteante.

Estonteou tanta gente que um cara idiota chamado Hibiki chamou-a pra dançar e em resposta à negativa, agarrou-a pela cintura sem nenhuma cerimônia, deixando Cobra, literalmente no veneno. Ele não aguentou e foi até lá, puxou-a pelo braço e eles selaram o primeiro beijo, tudo bem que não foi aquelas coisas, mas foi pra marcar território e funcionou efetivamente.

Só que a timidez chegou para ambos e na hora de marcarem um encontro, a mensagem foi entendida erroneamente. Ela queria sair só com ele e ele queria sair só com ela, mas ele entendeu que não sairia só com ele e ela entendeu que não sairia só com ele.

Salada feita, a solução era achar um par para um encontro duplo. Kinana só era amiga de Lisanna e Cobra só era amigo de MidNight. Providência divina era que Lis tinha cabelos platinados, como era preferência de MidNight e ele também quebraria esse galho pro amigo.

Kinana estava ansiosíssima pra isso, quem sabe finalmente eles teriam uma chance? Sem falar que Cana Alberona pessoalmente lhe ofereceu moradia! O que mais ela poderia querer?

Agora a morena, ou melhor, violeta, sim Kinana tinha cabelos roxos, muito bem retocados com violeta geneciana e tinta fantasia estava finalmente com um dilema maravilhoso: O que vestir? Pensou em pedir um tempo para o Absoluto para comprar uma roupa, já que todas as suas estavam embrulhadas em um saco preto. Pediu e foi fazer compras no shopping de Magnólia.

Chegando lá, qual foi a surpresa ao ver Cobra no meio de uma briga com um ruivo que ela tinha a impressão de ter visto antes e com aquele stripper louco que vivia aparecendo nas páginas policiais. Absoluto sente falta daquelas notícias emocionantes.

Ficou com receio de se aproximar, só que algo dizia pra ela ir lá, um instinto que estava suprimido há um bom tempo. Só que ela decidiu conspirar ao próprio favor, sem falar que precisava ter uma confirmação se o pedido pra sair foi por piedade ou não.

"Oi Erick, tudo bem?" Ela deu um beijo bem no canto de sua boca.

"Ooi oi, Ki-Kianana-na, tu-tudo bem?" respondeu rubro.

"O que tá acontecendo aqui?" Ela perguntou

"Esse cara é o que seu?" O ruivo rosnou.

"Meu namorado! Por quê?" Ela respondeu vermelhíssima.

Natsu avaliou que o carinha, ou melhor Erick estava tão embasbacado quanto ele estava vendo Lisanna, então, mesmo que a garota estivesse mentindo, ela tinha feito o que fez pra tirar ele de uma briga e ele gostava dela.

Os dois se afastaram e Kinana perguntou ao Cobra: "O que houve?"

"Esse cara é ex da Lisanna, o tal do Natsu e eu o vi olhando ela enquanto ela experimentava as roupas, eu fui lá e a cumprimentei e falei que ela estava linda, não tanto quanto você, Ki, mas é que eu não queria que ela não fosse ao encontro porque se ela não for, você não iria também, só que eu dei a entender que eu tinha alguma coisa com ela e quando eu saí pra desfazer esse mal-entendido ele me socou a cara! Mas assim, a gente tá namorando? Isso não é o homem que tem que pedir?"

"Cobra, quem disse que eu não quero sair sozinha com você? Eu não entendi nada, mas eu sei que não é do seu feitio dar em cima das pessoas. Eu quero sair sozinha com você, pra falar a verdade é a coisa que eu mais quero desde quando eu me dei conta que eu gosto de você como homem, mas você que fez com que parecesse que não queria. Daí eu pedi pra Lis, é isso! E se eu fosse esperar você me pedir em namoro, era mais fácil Mirajane Straus voltar e namorar o Absoluto novamente.

O homem não podia ter ficado mais vermelho, mas respirou fundo e a beijou profundamente. Depois de tomarem fôlego, ele perguntou:

"Você quer falar pra Lis não ir mais?"

"Claro que não, não é só porque a gente quer ficar sozinho, que ela não pode sair com a gente, sem falar que o Mid também precisa de diversão, mas eu vou fazer uma coisa, pra não dizerem por aí que sou uma cobra." Nisso ela sai correndo até avistar Natsu e grita pra ele.

"OOOOOOOOOOOOOOOE, PRESTA ATENÇÃO DRAGNEEL, SE VOCÊ QUER, VAI TER QUE CORRER ATRÁS! SÓ QUE VOCÊ TEM CHANCE, VIU?"

Ela voltou até seu "namorado" com a sensação de dever cumprido. Lisanna teria seu encontro amanhã, como Kinana, que não se sabia como, conseguiu namorar aquele homem tão sonhado e ainda tinha uma casa que não cheirava vômito e cerveja velha pra voltar! A vida estava mesmo maravilhosa.

Depois de mais alguns beijinhos, ela se despediu com uma dor no coração e foi até o shopping, não sem antes avisar ao Absoluto que ela estava precisando de roupas pro encontro e iria comprá-las agora. Isso quase o enfartou, mas como ela merecia, nem deu tanto chilique. Uma notícia o estava estressando: a super Modelo Mirajane Strauss viria para Magnólia em um desfile beneficente.

Enquanto isso, de volta à casa, Levy não estava de muito bom humor! Lisanna sabia algo de Gajeel e ela não! Como assim? Sem falar daquela tarefa idiota que o Absoluto deu, ela ainda tinha que arrumar as coisas pra Kinana! Deeeeeeeeeeus, quanta preguiça continha naquele corpinho, mas Kinana merecia e Levy iria arrumar o melhor canto que alguém podia ter naquela casa.

Como toda casa que se preze, a delas também tinha um quartinho de bagunça e seria ali que Levy operaria o milagre da organização. Kinana merecia um cantinho e um aviso que Juvia transformaria aquela casa em um cabaré!

Depois de tomar o seu café, que se deu depois do almoço, ela foi até o quarto e começou com a faxina. Ligou pra Cana e perguntou se ela compraria um colchão ou uma cama, logo se arrependendo porque ela estava furiosa. Sorte ou não, Juvia estava com ela e disse que comprariam sim, porque Kinana não iria dormir no chão. Elas fariam com que Bacchus ficasse sóbrio ou roubariam a caminhonete, mas Juvia garantiria as instalações.

Aquilo arrepiou mais ainda Levy, já não basta tarô e psicopatia, agora era hora de crimes mesmo? Respirou fundo e pôs-se a trabalhar.

Naquele quarto tinham muitas recordações, como uns livros que Levy usava na faculdade, a primeira garrafa de vinho que Cana avaliou, uma bóia de Juvia e uns recortes dos obituários de Lisanna. Tinha umas fotos do Natsu, uns recortes de Gray Fullbuster, das páginas policiais, uma gaita que ela surrupiou de Gajeel, sem que ele percebesse. Tanta coisa, que ela simplesmente separou para cada um dos quartos. O cômodo ficou lindo, depois de quase 4 horas de esforço. E por causa de esforço, inspirou-se o suficiente para escrever a tal crônica. Aquelas coisas estavam mortas, certo? Mas a vida que continha nelas, as lembranças, tudo aquilo continuaria e isso era a essência da imortalidade.

Depois de escrever a tal crônica e mandar para o Absoluto aprovar, ela ficou ansiosa, porque amanhã era o dia do karaokê! Fazia um tempo que não ia e estava ansiosíssima!

Quem sabe encontraria Gajeel lá? Ah, sim! Ela o encontraria! E ouviria-o cantando aquela beleza do Shoob Doo Bop.