Naquela manhã, o despertar foi deveras tranquilo, claro, um pouco mais tarde do que o recomendado. Apesar de Lisanna estar de folga e Levy poder trabalhar em casa, Kinana, Cana e Juvia não estavam e saíram correndo ao primeiro sinal de sol que viram, que se deu próximo das 10 da manhã.

Cana estava com a caminhonete de seu primo e nem pestanejou quando enfiou as duas amigas que estavam envoltas em um caleidoscópio de café, bolsas, roupas e maquiagem. Foram se arrumando e revezando na direção até que foram entregues aos seus devidos locais de trabalho em uma velocidade ímpar e a morena foi a prejudicada e chegou por último, mas não foi tão repreendida, já que era uma funcionária exemplar.

Chegando ao restaurante, já foi para a cozinha para ver se precisavam de ajuda, ideia que foi completamente repudiada. Chefes de cozinha eram muito ciumentos, sem falar de todo aquele enguiço com a vigilância sanitária. Aquilo deixava-os todos em um estado perpétuo de nervos, só que aquilo não a abalava. O que a abalava de verdade, era o fato das pessoas acharem que ela estava como sommelier por causa do pai e só por causa disso e era um abalo que ela se permitia sentir.

E como ela não teve tempo de seu devaneio matinal costumeiro, viu no abalo costumeiro um substituto à altura. Concentrou-se e estava pronta para trabalhar. Ok, não tão pronta porque não tinha tomado um café forte e se dirigiu à copa para pedir um café, sendo prontamente atendida pela Dona Mina que lhe serviu uma caneca fumegante. A morena aspirou e sentiu-se recarregada, sorveu-se e percebeu quando a cafeína começou a fluir em seu corpo, dando-lhe o sinal da largada para aquele dia que prometia. Nem ligou para o mal-estar que a incomodou a noite toda. Talvez o titânio de seu fígado estivesse começando a ruir, mas aquilo não era importante, pelo menos não agora.

Kinana chegou ao jornal com mais olheiras do que podia imaginar, mas com um sorriso estampado no rosto. Claro que estranhou a falta de ligações do Absoluto em seu celular, mas apreciou e muito as sms do Cobra falando sobre o encontro anterior dos dois e pedindo um repeteco. E todas aquelas melosidades que permeiam as mensagens do início do namoro.

Abriu a porta de sua sala e nada poderia preveni-la do que estava ali. Absoluto estava chorando com o celular na mão e com aquele lenço que pertencia a Mirajane Strauss. A mulher não pensou duas vezes. Foi em direção ao chefe e o abraçou. O choro dele era copioso, profundo, de redenção. Não era como se ele estivesse triste ou de coração partido, mas era assustador do mesmo jeito.

"Freed, o que aconteceu? O que o lenço de Mirajane está fazendo aqui? Por que você o pegou de novo? Quer um café? Na verdade eu vou fazer um, mas o que houve?"

"Ki, ela me ligou. Ela quer conversar. Quer me dizer umas coisas. Eu não sei se eu vou. Ela vem para o evento, o desfile, sabe? Que será no fim de semana. Nem vai ficar na casa da Lisanna, me deu o nome do hotel e o número do quarto. Quer que eu vá lá. Eu não vou. Porque ela vai me humilhar mais porque eu não quis sair de Magnólia com ela e todas essas outras coisas. Aquela mulher sabe ser um demônio quando quer. Eu só estou chorando de medo. Só isso."

"Bom Freed, quando ela terminou com você, eu nem trabalhava aqui direito, mas você nunca disse que ela tinha humilhado-o. Ela terminou com você porque você não quis sair de Magnólia e você disse que ela chorou muito quando você se recusou a ir com ela. Sem falar que o término foi para deixar você livre, não é?"

"Ki, eu não tenho porque me mudar de Magnólia. Eu já viajei muito e viajo, mas aqui é onde eu me sinto eu mesmo. Mirajane sabe disso, ela nunca deveria ter proposto algo assim, mas ela nem quis tentar um namoro à distância. Eu sou fiel até hoje! Faz 5 anos e até hoje eu sou fiel a ela. Puta merda! Ela não confia em mim?"

"Mas o que você faria se ela quisesse voltar?"

"Eu ...voltaria, claro! Não existe mulher pra mim antes e nem depois de Mirajane Strauss, a beleza é só um detalhe do que ela é. Ela é decidida, forte, inabalável. Mesmo depois da morte dos pais, sempre tinha um sorriso no rosto e consolava o irmão e tentava fazer com que a irmã vivesse. Ela foi a base da família e nunca me deixou de lado, mas ela não quis ficar. Merda, depois de tudo, acho que eu que fui o cretino, né Ki? Você pode ir fazer o café pra mim?"

"Posso sim, Freed, mas você não seria cretino nem se quisesse. Vou lá."

E como surpresa pouca é bobagem, Mirajane Strauss em pessoa e atitude estava ali, claro, devidamente disfarçada.

"Com licença, o senhor Freed Justine está?"

"Ele está meio indisposto, mas eu posso deixar algum recado?"

"O que ele tem? Está doente? Com febre? Com algum problema no estômago? Alguma reação química aos elementos do cabelo?"

"Acho que ele tem dor de amor, senhorita Strauss. E acho que a senhorita tem o mesmo. Eu vou fazer o café e não vou lhe dizer que a porta está somente encostada. Também não vou lhe dizer que ele ainda tem o seu lenço e tampouco direi que ele ainda a ama. Acho que está na hora da senhorita provar se sente algo por ele também. Mas por favor, não o faça sofrer mais. Ele é a pessoa mais maravilhosa do mundo, não merece nada disso."

A platinada maior assentiu e foi em direção à porta da felicidade.

"Ki, eu...MIRAJANE? O QUE VOCÊ FAZ AQUI? QUANDO CHEGOU?"

"Eu já estava em Magnólia quando te liguei e eu sabia que não iria no hotel, então eu vim aqui. Te ver. Eu só vim ver você Freed. E lhe agradecer por tudo."

"Agradecer? Pelo quê?"

"Por mesmo sem gostar do mundo da moda, ter entrado nesse ramo da estética pra me ajudar. Por me apoiar sempre, mesmo que isso significasse que nos separaríamos, por sempre estar ali por mim e por cuidar da minha irmã. Por ser essa pessoa digna de se amar. Freed, eu agradeço por um dia ter sido sua namorada, por ter feito amor inúmeras vezes com você, por ter sonhado com você, por ter a oportunidade de ser sua amiga, te conhecer bem, ouvir todas as suas dicas de moda, todas as suas indicações culturais que sempre fizeram sucesso, por ter me incentivado a ser um ser humano infinitamente melhor. Por mais que o nosso final tenha sido horroroso, eu nunca te agradeci por ser quem você é. E eu quero que saiba que a minha alma e o meu coração te pertencem."

O absoluto não sabia o que dizer. Aquilo era tudo o que ele queria ouvir e finalmente tinha. Mas algo estava faltando. Tinha uma peça faltando naquele quebra-cabeça e ele percebeu que era a vez dele de falar.

Mirajane estava indo embora. Claro que ele não falaria nada. O término foi muito tenso, nos termos deles que são pessoas delicadíssimas, ela não podia sonhar que ele a aceitaria de volta, mas deu-se o direito disso, de sonhar, já que a vida que ela tinha era o sonho de muitos, exceto o dela, permitiu-se somente esse lampejo de esperança que virou uma labareda quando o sentiu agarrar seu braço e a puxar para um beijo apaixonado.

Quando se separaram ele se desculpou, mas sem antes deixar claro que a alma dele também lhe pertencia, que ele deveria ter entendido que ela não queria prendê-lo e que essa recusa foi o que causou mais dor a ele. Só que ele sabia que a felicidade era feita de momentos e esse beijo foi o momento mais feliz que ele teve em 5 anos. E ele queria mais um momento feliz.

Beijaram-se novamente e Kinana os surpreendeu. Viu os olhos dos dois em lágrimas e sabia que o Absoluto ficaria bem, mesmo que ela se fosse de novo, ela saiu, mas tomou todo o cuidado em trancar a porta. Nunca se sabe quando a pornografia pode começar, não?

Foi para a sua mesa e começou com as providências, pensando no encontro e deixou o celular no silencioso e com isso perdeu a mensagem de Angel dizendo que estava vindo para Magnólia e queria vê-la, sem falar queria ver seu ex-namorado. Midnight. Será que era a estação da volta com o ex? Se fosse assim, só faltava a pequena Strauss, não?

Juvia era uma agraciada porque naquele dia em especial, ela não tinha aulas de manhã. Sempre prestava uma assistência para a escola, mas quando precisava não ia naquele horário. Na verdade, ela não queria nem ir trabalhar e estava pensando no encontro com Gray. Aquilo a fascinava, assustava e a excitava. Será que rolaria alguma coisa? Será que ele a acharia interessante, será que ela ia ter que pagar muito? Será que ela finalmente ouviria alguma música do Wando que não tivesse o "iaiá meu ioiô"?

Sem falar que precisava comprar as lingeries. Elas tinham que ser azuis, nada de vermelho. Porque ela estava seriamente pensando em se despir com ele. Devia ser complicadíssimo ele se despir sem reciprocidade e ela queria demais aquele homem. Depois das dicas de Kinana, tinha ficado infinitamente mais animada sem falar nas ideias mirabolantes para a decoração. Ah, lembrou-se que tinha que revelar a foto que tirou ontem das meninas se divertindo. Estavam mesmo lindas e felizes. Fazia tempo que não ficavam assim.

Passou pela recepção, dizendo que já voltava, quando a recepcionista disse que um tal de Gray tinha passado ali ontem e pediu pra dizer que ele tinha ido vê-la.

"O que você falou de Juvia?"

"Falei que a senhorita é ótima e mostrei a sua foto."

"E o que ele achou de Juvia?"

"Ele não achou Juvia feia, se é o que quer saber senhorita. Ele também é um rapaz muito bonito."

"Bonito, mas só meu, entendeu?"

"Sim senhorita, porque ele parece ser tão peculiar quanto a senhora. Ele teve que se policiar para não se despir. E isso foi doloridíssimo de assistir."

"Acho bom, desculpe a Juvia. Juvia tem um encontro com esse rapaz e está ansiosíssima."

"Eu percebi e espero que se divirta, mas não esqueça que tem que trabalhar, ok?"

"Juvia não se esquece dos afazeres. Obrigada."

E ela saiu para suas compras e para revelar a foto.

Levy acordou com o aroma inconfundível do café Strauss e foi direto para a cozinha, onde deu de cara com uma Lisanna deveras empolgada falando ao telefone com Kinana.

"Ki, a Mira-nee estava aí? Você jura que ela estava ai?"

…...

"Como assim ainda está ai? Ela ainda está aí, mas fazendo o que?"

"Mira-nee? Em uma sala de escritório? Ah, você podia gravar, né Ki? Ele não ia te demitir."

Repentinamente Lisanna começou a chamar Kinana que tinha se afastado do telefone e quando ela voltou, Lisanna ficou estática.

"Freed saiu do escritório e não volta hoje? O mundo vai ACABAAAAAAAAR! E como eles sairam Ki? De mãos dadas?"

"Ah, de mãos dadas! Que bom! Mira-nee e o Absoluto merecem e muito ser felizes. Obrigada por ligar Ki, tchau."

Levy estava observando e teve a sagacidade de tentar saber o que era.

"Aconteceu algo Lis?"

"Levy, a Mira-nee está aqui e veio para falar com o Absoluto! Isso não é fenomenal?

"Você não se chateia por ela não ter vindo ver você?!"

"Foi o nosso trato. Depois da última conversa que tivemos, eu disse que não quereria vê-la se ela ficasse nesse mimimi com o Absoluto. Ela tinha que resolver as coisas. Se era a modelo-demônio, podia muito bem ficar com o homem que ama. Apesar dela não ter visto a conexão desses dois fatos, funcionou bem."

" E como você está? Com isso? Sua irmã por aqui e tudo o mais?"

"Ah Levy, eu amo a Mira-nee e eu quero que ela seja feliz. Ela merece. Sempre pensou nos outros antes dela e eu sinto que os tempos estão mudando."

"Por quê Lis?"

"Ah Levy, por mais que não signifique nada, o Natsu está solteiro. Lucy está na Tailândia e namorando com um tal de Eucliffe."

"Um loiro?"

"Sim, pelo que parecia na foto, tão loiro quanto ela."

"Eu vi ele no cerimonial. Eles pareciam próximos. Que bom que se acertaram. Isso deixa o caminho livre pra você! Não está feliz?"

"Levy, isso não significa que o Natsu irá me querer, de modo algum. Eu não mudei em nada. Mas me deixa feliz sim. Nem que seja só um pouco."

"Como não mudou em nada Lis? Claro que mudou. Você escreve muito melhor do que antes, se vê muito melhor do que antes. Se trata muito melhor do que antes. Você não tinha a gente, não tinha as loucuras da Juvia, as crises da Cana, os meus chiliques. Essas coisas dão cor à vida e você é muito importante para nós também. Poxa, não se desvalorize."

Lis ficou tocada com as palavras de Levy e se lançou aos braços da amiga, chorando copiosamente e agradecendo. Ficou com raiva por chorar, já que inchaços não eram bem-vindos quando você tinha o seu primeiro encontro em quase 5 anos ou mais e foi para o banho.

Levy nem teve tempo de contar a ela o que Kinana tinha contado sobre o dia dela. Nem sobre o sexo e nem sobre Natsu Dragneel admirando-a pela vitrine. A amiga iria e muito gostar disso, mas esperaria o encontro, não? Sem falar que tinha aquela maldita compra de lingerie. Tomou seu café, fez sua higiene, arrumou-se e pôs-se pra fora, naquela odisseia inimaginável.

O que a pequena não imaginava era que seu cavaleiro prateado também estava por aquelas bandas, não para comprar sutiãs, mas cuecas foram sumariamente exigidas pelos colegas de apartamento.

Quando chegou à loja, tinha um homem corpulento com cabelos negros que estava praticamente matando a moça porque ela não entendia o que ele queria dizer.

"MOÇA, EU QUERO COMPRAR UM TAPA-SACO, VOCÊ ENTENDEU? UM BONITO AINDA."

Levy não acreditava na sua sorte em encontrá-lo ali, mas também aquela situação não era das melhores do mundo para encontrá-lo, entretanto, para o bem de suas próprias compras decidiu ir ajudá-lo.

Foi em sua direção e pediu para que se acalmasse e quando ele a viu, ainda teve o desfrute de fazer piadas com o tamanho dela. Mas depois que ela o colocou em seu devido lugar, mesmo completamente ruborizada e apavorada, percebeu que ele se desculpou. Fez o papel de tradutora dos mistérios da roupa de baixo.

"Então moço, tapa-sexo geralmente é comprado por passistas de samba para esconder a vulva sabe? Então eles são pequenos, não esconderiam um "saco", a não ser que você seja drag queen, daí elas tem técnicas maravilhosas de esconder a genitália, mas não se chama tapa-saco e sim tapa-sexo.

Gajeel não sabia onde enfiar a cara, mas tinha merecido. Não tinha nada que tirar sarro da bonitinha do karaokê que estava carregando umas calcinhas sensualíssimas. Pigarreou e tirou aqueles pensamentos torpes da cabeça.

"Me desculpe. Eu sou mesmo um idiota. Pode me ajudar? Ah, como é seu nome? O meu é Gajeel RedFox. Eu acho que já te vi em algum lugar."

Levy não sabia o que fazer. Sabia que Lisanna tinha falado que ela gostava da música, então ele sabia que tinha uma admiradora. Sem falar que Levy era um nome relativamente comum naquelas bandas e ela não estava reclamando que não tinha oportunidades? Aquela era um. Então tomou fôlego e disse.

"Levy. Levy McGarden. Muito prazer Gajeel." Ela disse em um fôlego só.

"Você é a cronista do jornal?"

"Sim."

"E vai me ajudar a comprar cuecas?"

"Então você decidiu que seriam cuecas?"

"É, vai ou não?"

"Vou sim."

"Obrigado, e eu sou seu fã."

Levy não sabia o que pensar e se deu conta das lingeries indecentes que estavam na sua mão, depois observou o olhar do moço em direção a ela e em direção às peças e ela colocou na cesta e jogou a bolsa em cima, todavia, não pode deixar de ficar satisfeita com tudo o que ouviu.

Depois de ajudá-lo a escolher cuecas, tarefa que se mostrou mais hercúlea do que todas as crônicas mórbidas que ela escreveria para o Absoluto em toda a sua carreira, ambos foram pagar suas compras. Quando terminaram Gajeel perguntou.

"Levy, você vai no karaokê hoje?"

"Vo..vou sim."

"Ótimo, nos vemos lá."

"Ah...tá."

Nisso, Gajeel se despediu e foi embora com um sorriso no rosto.

Levy começou a pensar nesse final em particular.

"Ele disse ótimo? Ele disse ótimo? ELE DISSE ÓTIMO? MEU DEUS, EU TENHO QUE VOLTAR PRA CASA, COMEÇAR A ME ARRUMAR. EU PRECISO DA CANA, PRECISO DA LIS, PRECISO DE TODAS! MEU SANTO ANTÔNIO, ELE DISSE ÓTIMO!"

E saiu correndo rumo à sua casa, saltitando pelo caminho. Mal sabia ela que o homem fez praticamente o mesmo movimento. Feliz e satisfeito.