Não se sabe quanto tempo passou, não se ouvia nada além dos risos que provinham dos outros quartos, que aos poucos foram silenciando e dando lugar a respirações ofegantes de desespero. Não se sabe ainda quem foi o primeiro a começar a falar ou o primeiro a procurar um apoio. Nada fazia sentido naquele momento. Cana não sabia realmente o que fazer, era a fase final do seu jogo de gato e rato. O cão venceu. Ela o encarava com uma espécie de terror e amor e os pensamentos difusos começaram a fluir em sua cabeça. . ...essas ideias sempre circulando na cabeça da Alberona como um furacão que não deixava ela se concentrar enquanto sofria uma inquisição silenciosa dos olhos âmbares mais diretos que já tinha visto na vida. Ainda não sabia o que dizer e os olhos se aproximavam. Em uma espécie de ilusão, todo o corpo de Laxus foi reduzido aos seus olhos, não havia nada além deles e a voz de Cana havia sumido. Ainda não sabia o que dizer. Só não conseguia fechar os olhos. Respirou fundo, com muita dificuldade. Aquele momento era importante, não? Ela tinha saído da casa dele, o tinha pedido em casamento e de acordo com os amigos que a conheciam, ela o tinha transformado. Como Gildarts transformou sua mãe. Ela ainda permanecia a mesma e Laxus tinha virado um par de olhos voadores, um homem que não era o que ela conhecia, ele tinha se tornado o que ela desejara mesmo sem desejar. Confuso. E o que ela tinha se tornado? Quadris voadores? Cabelos voadores? Uma taça voadora? Ela não entendia essa estranha hesitação. Sentia um ímpeto de encontrar o resto do corpo dele que se resumia naqueles olhos que poderiam transformá-la em qualquer coisa, mas aparentavam querer somente ela, ela..do jeito que era. Sem tirar nem por. O casal recém-formado estava encarando um ao outro. Cana plena e somente os olhos de Laxus. Era o que ela via e o que ele se tornara. Um passo. Era só o necessário para fazer aquilo funcionar. Mexa seus pés. Vá até ele..vá logo antes que até mesmo os olhos desapareçam e você fique aqui imersa no nada. Ande. Direita, esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda. Trombou em algo que parecia uma parede, uma parede que ressonava. Sim, ressonava algo que ela não compreendia, em um idioma que ela não conhecia. Idioma do esclarecimento. Sim, ela estava esclarecendo sua vida...fechando um ciclo. Não.não.não.não. Isso não pode ser concluído. Essa caça não pode terminar, não pode. Isso de casamento está errado. Mas o corpo dela, sendo a parte mais sensata de sua existência naquele exato momento, dá um comando para os braços envolverem o invisível que se posta a sua frente. Ela não enxerga o que abraça, mas sente um calor imenso e profano que aos poucos vai abrindo os próprios olhos e ela o vê, o reconhece como seu marido. Nem o cérebro e nem a boca dela tem noção do que está acontecendo. .marido. Laxus é meu marido. Eu pedi para ele ser um marido. Por que eu fiz isso? Ele não deveria ter aceito. Marido. .do. As sílabas sai arrastadas dos meus pensamentos. Constroem pedras no meu coração. .do. Sai amargo. Deixa o meu pensamento confuso. Marido. . ... Ela sente lábios nos seus lábios e não faz nada para prevenir ou estimular. Fica parada, abraçada à parede que abriu seus olhos para a nova realidade que a espera. Escuta uma voz bem distante perguntando se ela está bem. Estranho, não era ele quem estava doente? Talvez aquilo pudesse funcionar, dois doentes buscando a cura em si mesmos. "Estou sim. E você?" Alguns dias passaram, anos talvez, isso nenhuma delas ainda sabe dizer e algumas coisas muito interessantes aconteceram. Por exemplo: Gray desistiu completamente de ser stripper, para o desespero de suas fãs e para o êxtase de Juvia. Ele também voltou a estudar, o que aquilo fosse e não namorava Juvia. Ela era mais do que isso. Era sua companheira..e Juvia...ah a mulher não poderia estar mais feliz em sua vida não muito normal...porque normal era medíocre demais para ela. E nada de extremos...as coisas poderiam muito bem ser misturadas. Ela sabia que o relacionamento começara errado e tinha muito o que fazer para que eles pudessem ficar juntos. Mas valeria a pena com certeza. Levy não acreditara quando Gajeel disse que gostava de suas crônicas. Acreditou menos quando ele pediu para ela escrever algo que ele pudesse melodizar. E acreditou muito menos quando eles começaram a sair juntos. Um dia, dois, três. E quando ele colocou aquele anel no dedo dela...a realidade bateu forte e ela foi mulher o suficiente pra não sair correndo. Um orgulho de garota. Kinana ficou pouquíssimo tempo na república das garotas. Loguinho tinha um outro quarto pra ficar. Um onde sempre teria alguém esperando por ela. Alguém que estava ali, sendo o companheiro que ela sempre desejou e sempre esperou. Mirajane, a irmã de Lisanna, claramente conseguiu o seu amado Justine de volta, criando uma comoção em volta dos casamentos que estavam sendo planejados...oh lord. Cana ainda estava se acostumando com a vida de casada, a parte compreensiva do marido que a deixou vivendo na república foi surpreendente e o mais surpreendente ainda quando ela se viu dormindo e acordando com ele com mais frequência. E com ela indo pra onde ele morava, alguém tinha que tomar o lugar dela onde ela vivia...e esse alguém era.. Natsu não sabia bem como se relacionar com essa nova Lisanna. Essa mulher que é um turbilhão de insegurança com todo o amor do mundo. Essa mesma mulher que faz com que ele ria até a barriga doer e consegue fazer um tal obituário para uma morte trágica sem perder a ternura. O que ela sentia ao olhar pra ele. A querida Lisanna não esperava que Natsu fosse dormir com ela todas as noites e nem que ele mostrasse toda a fraqueza que tinha e esperasse que ela juntasse os pedaços. Não foram poucas as noites onde ele acordou com pesadelos e ela teve que consolar. Não foram poucas as vezes onde ele mostrou o que era verdadeiramente e ela o aceitou de braços abertos. Afinal..eles viviam naquele caos eterno e não tinha nenhum outro lugar onde ela queria estar.
