Nota: Soffy obrigado pelo seu comentário... espero que goste desse caps
A história se chama A Noiva Raptada e pertence a Barbara Cartland bem como os personagens utilizados pertencem a Naoko Takeuchi
De repente, um pano grosso foi atirado sobre a cabeça de Usagi. Mal podendo respirar, percebeu que estava sendo raptada. Só podia ser por ordem do Rei dos Demônios, o fantástico homem que viera do Extremo Oriente... Sentiu que braços fortes a carregavam por uma escada tosca e íngreme. Gritos de marinheiros, velas sendo enfunadas, barulho e cheiro de mar...Passos se aproximaram e o pano que cobria seu rosto foi retirado. Usagi abriu os olhos e viu à sua frente um homem muito diferente do que esperava!
CAPÍTULO V
Usagi sentiu que o navio ia parar e correu para a vigia.
Não pôde ver muita coisa, a não ser o topo das árvores.
Eles tinham velejado para o norte, e como estavam em águas calmas havia cerca de uma hora, Usagi concluiu que estavam na costa.
Colocou as roupas de volta na mala de Minako e um dos camareiros veio buscá-la, amarrando em torno dela uma corda.
Usagi tinha a desagradável sensação de que estava sendo levada para um lugar assustador, do qual não gostaria.
Mas estava decidida a não dar a Mamoru Chiba a satisfação de saber que ela estava com medo.
Assim, ergueu bem a cabeça quando subiu a escada para o convés.
Agora podia ver melhor as árvores, e no meio delas divisou uma construção.
Antes que tivesse tempo de olhar em volta, viu Mamoru Chiba a seu lado.
Dirigiram-se para a prancha de desembarque que conduzia a um pequeno cais de madeira, e quando puseram o pé em terra, ela notou que ele tinha um ar severo, não demonstrando mais a mesma atitude amigável do dia anterior.
Não havia nenhuma carruagem esperando por eles, e Mamoru Chiba começou a subir um caminho íngreme que levava em direção às árvores.
Logo que chegaram à construção que Usagi vira de longe, ela constatou que se tratava de um castelo, onde ela seria aprisionada até que Motoki Furuhata estivesse casado com Minako. Como tinha um bom conhecimento de história, teve certeza de que se tratava de uma das fortalezas erguidas na costa leste da Inglaterra em defesa contra os vikings.
Era fascinante pensar que estava ali há muitos anos, e ela teve vontade de fazer muitas perguntas a esse respeito.
Mas, como Mamoru Chiba não tinha falado com ela desde que haviam desembarcado, preferiu refrear a sua curiosidade. O castelo, construído em pedra cinzenta, tinha uma aparência tão imponente quanto a de seu dono, causando verdadeiro impacto.
De um dos lados havia uma torre com seteiras, o que atestava a sua antigüidade. Notava-se também que havia alas acrescentadas em datas posteriores.
Quando chegaram perto da entrada, Usagi viu, para sua surpresa, que em torno do castelo havia um jardim muito bem-cuidado e todo florido, contrastando estranhamente com a severidade da construção.
A pesada porta da frente, de carvalho, com dobradiças de bronze, estava aberta, e vários criados esperavam a chegada deles.
Ficou imaginando se Mamoru Chiba inspirava tanta apreensão e temor aos servos como acontecia com ela.
Então, antes que chegassem mais perto e os criados pudessem ouvi-los, ele disse:
— Estou esperando que me dê a sua opinião sobre o meu castelo.
Sem pensar, tão espontaneamente como se estivesse falando com a irmã, Usagi respondeu:
— É um castelo digno do Rei dos Demônios.
Ele a olhou de forma penetrante, e ela temeu ter sido muito indiscreta.
— Então é assim que me chamam?
— Foi assim que o descreveram para mim.
— Talvez eu o seja, nas atuais circunstâncias, se a senhorita está se vendo como uma princesa cativa. Mas posso lhe garantir que nesta história não haverá um príncipe encantado para salvá-la.
Usagi ia lhe perguntar, em tom de desafio, como podia estar tão certo disso, mas depois teve que admitir que ele dizia a verdade. Não haveria salvação para ela, mas somente um terrível confronto quando ele descobrisse que havia sido enganado.
Embora sentisse uma grande satisfação em fazê-lo passar por tolo, sabia com sinceridade que estava com medo de sua fúria, e não era uma idéia agradável enfrentá-lo sem o apoio de ninguém.
Quando chegaram à porta, um criado idoso veio ao encontro deles, dizendo:
— Seja bem-vindo, sir. Espero que tenha feito uma boa viagem e que o mar tenha estado calmo.
— Foi razoável — respondeu ele.
Entraram no hall, que tinha uma enorme lareira acesa e vários retratos nas paredes.
Usagi ficou em dúvida se eram os ancestrais de Mamoru Chiba ou se ele já tinha comprado o castelo com os quadros.
Ele caminhou na frente dela em direção a uma sala em frente ao hall. Era um aposento muito bonito, muito bem mobiliado, com janelas que davam para o mar.
Havia também uma outra lareira acesa.
— O almoço estará pronto em dez minutos, sir — disse o criado.
Mamoru Chiba caminhou para uma mesa no canto da sala, onde havia garrafas de bebidas e copos.
Era uma sala muito masculina, com grandes e confortáveis cadeiras de braços e prateleiras cheias de livros.
Usagi perguntou:
— Esta casa é sua? É aqui que mora quando está na Inglaterra?
— Pertencia a meu tio. Como ele não tinha filhos, deixou-a para mim quando morreu. Passei grande parte de minha infância aqui, e, como é muito isolada, achei que seria um lugar conveniente para trazê-la.
Ela pensou que ele estava sendo propositalmente desagradavel, e sentou-se numa cadeira perto do fogo. Ele virou-se para ela e perguntou:
— Aceita um cálice de xerez? Ou prefere vinho madeira?
— Madeira, por favor, mas só um pouquinho.
Ele trouxe-lhe o cálice e ela bebeu um gole, antes de dizer:
— Acho que este castelo está situado na costa leste.
— Está certa.
Usagi pensou que estava muito longe de Londres. Mesmo que conseguisse escapar, demoraria muito tempo até chegar a um lugar que lhe fosse familiar e onde se sentisse segura.
Como se estivesse lendo os pensamentos dela, Mamoru Chiba disse:
— Não há possibilidade de fugir daqui. Assim, é melhor acalmar-se. Se gosta de ler, posso lhe emprestar os livros que desejar.
Ele estava de pé, de costas para o fogo, com um cálice na mão. Usagi olhou para ele ao perguntar:
— Quanto tempo pretende me manter aqui?
— Já lhe respondi — replicou ele. — Até que meu sobrinho esteja casado com a moça extremamente adequada da qual está noivo, honrando assim o seu compromisso.
— Mas não pretende assistir à cerimônia do casamento? Como poderão arranjar-se sem o senhor?
Ela o estava provocando, e pôde perceber uma ligeira contração no canto de seus lábios, como se ele estivesse se divertindo com seu tom de desafio.
— Acho que é mais importante — respondeu ele — garantir que a senhorita não desvie Motoki de seu compromisso. Assim que ele estiver casado, eu a enviarei de volta a Londres, onde sem dúvida seus ardentes admiradores a receberão de braços abertos.
Agora ele estava sendo deliberadamente sarcástico, e como Usagi não encontrasse uma resposta inteligente ou até indelicada, como gostaria, permaneceu calada.
Então, bruscamente, no mesmo tom que usara quando se encontraram pela primeira vez, Mamoru Chiba falou:
— Não tente fazer nenhuma bobagem. Pretendo mantê-la aqui, e não há nada que possa fazer para mudar essa decisão.
— Está me provocando para eu retrucar que vou tentar.
— Creio que, se a senhorita fizer o caminho de volta a nado, pode ter uma chance — respondeu Mamoru Chiba. — Ou tem outras alternativas, como, por exemplo, criar asas de um momento para outro, ou ainda usar um balão. Mas advirto-a contra tais idéias, porque vai ter que me enfrentar.
Usagi deu uma risada, e notou que ele ficou surpreso.
— Estou rindo — explicou — simplesmente porque esta situação toda é ridícula.
— Não sei por que diz isso.
— Porque o senhor deve ter coisas melhores para fazer do que gastar o seu cérebro, o seu tempo e a sua determinação para impedir seu sobrinho de encontrar a felicidade, incomodando-se tanto com uma jovem indefesa e sem importância.
— A senhorita não tem pistolas nem espadas, srta. Tsukino, mas possui armas muito mais sutis, e, na minha opinião, muito mais perigosas para um homem jovem e impressionável como meu sobrinho.
— Creio que deveria considerar o que disse um elogio, mas, se quer saber a verdade, acho que está se comportando de forma completamente insensata.
Sabia que o estava insultando, mas não se importava.
Sentia que Mamoru Chiba era muito consciente de sua própria importância e extremamente seguro de si.
No momento, não estava com medo, mas simplesmente pensando na sua vitória quando ele descobrisse que tinha feito papel de bobo.
Achou que ele estava esperando uma explicação após sua observação ofensiva.
— Tudo o que posso lhe dizer é que provavelmente não tem uma opinião muito lisonjeira de seu sobrinho. Afinal de contas, ele é um homem, dono de suas próprias decisões. Mas o senhor insiste no fato de que ele está vivendo com uma mulher por engano, e que só a pediu em casamento porque foi pressionado.
Olhou para ele e continuou:
— Não compreende que está lhe pedindo que aceite humilde e subservientemente um casamento que está destinado ao fracasso? Ser corajoso o suficiente para dizer a verdade é o comportamento de um homem digno do seu nome. Mamoru Chiba riu, mas era uma risada sarcástica.
— Muito bem, srta. Tsukino! — disse ele, — Seus argumentos são muito plausíveis. Mas estou convencido de que é completamente incapaz de fazer um homem feliz, muito menos meu sobrinho. Portanto, nada do que diga vai me fazer mudar de idéia.
— O senhor se considera realmente capaz de julgar algo tão pessoal e que só diz respeito às pessoas envolvidas?
— A resposta é sim. Existem certos padrões de comportamento que qualquer homem decente espera de sua esposa, e a senhorita não se enquadra em nenhum deles.
A voz dele ficou mais áspera quando ele continuou:
— Como já lhe disse, o que fiquei sabendo a seu respeito convenceu-me totalmente de que Motoki logo se arrependeria de ter se casado com a senhorita, provavelmente poucos meses depois.
Ele foi tão arrogante e positivo que Usagi sentiu sua raiva crescer e teve vontade de agredi-lo.
Mas sabia que, se o fizesse, estaria jogando o jogo dele e convencendo-o ainda mais de que Minako era uma jovem incontrolável e irresponsável, entregando-se a uma leviandade atrás de outra.
Portanto, preferiu ficar sentada, quieta.
Tomou mais um gole do seu aperitivo e colocou o cálice sobre uma das mesinhas próximas.
— Gostaria de lhe mostrar o seu quarto — disse Mamoru Chiba, encerrando assim a discussão.
— Obrigada.
Usagi levantou-se, seguindo-o até a porta. Antes de virar a maçaneta, ele disse:
— Deixe-me avisá-la mais uma vez de que não há meios de fugir do quarto que escolhi para a senhorita. Caso pense em tentar algo tão temerário, a porta estará trancada durante a noite. Informo-a também de que há uma altura de nove metros entre a janela e o solo. Portanto, se tentar pular, vai quebrar o pescoço.
— É muito gentil em avisar-me.
— Já me disseram que a senhorita tem uma certa inclinação por alturas. Lady Meioh contou-me como ousou fazer o filho dela segui-la ao longo de um muro alto, do qual ele infelizmente escorregou, caiu e quebrou uma perna.
Usagi esteve prestes a dizer que nunca tinha ouvido falar de lady Meioh, mas depois concluiu que aquela devia ter sido mais uma das travessuras de Minako, sem dúvida relatada com exagero ao tio de Motoki, fazendo a situação parecer muito mais grave do que realmente fora.
Portanto, preferiu não lhe dizer que tinha pavor de alturas, que tinha medo até de subir no alto de uma escada.
Lembrou-se de que Minako, quando criança, era bastante destemida, costumando subir no telhado da casa e no topo das árvores, enquanto ela ficava só olhando.
Mamoru Chiba abriu a porta e acompanhou-a até o pé da escada.
— Minha governante, a sra. Koan, vai lhe mostrar o seu quarto.
Sem olhar para ele, Usagi subiu as escadas devagar. Lá em cima, uma mulher idosa, vestida de seda preta, a esperava.
Como imaginava, o quarto era extremamente bem mobiliado, com uma grande cama de madeira entalhada, muito confortável. E, como ele dissera, parecia não oferecer chance para uma fuga.
A torre de um dos lados tinha sido transformada num quarto de vestir, e do outro lado havia um boudoir com uma pequena estante cheia de livros.
Tinha certeza de que não tinham sido escolhidos especialmente para ela, mas para o conforto de qualquer pessoa que ele convidasse para a sua casa.
— Quer que eu a ajude a trocar de vestido antes do almoço, senhorita? — perguntou a governanta.
— Não, obrigada.
— Há um recipiente com água no quarto da torre. Há mais alguma coisa que deseje antes de as criadas terem tempo de desfazer sua mala? — perguntou a governanta.
— Não, obrigada.
Ela arranjou os cabelos. Então, dando uma última olhada em torno do quarto, desceu as escadas, séria.
Mamoru Chiba a esperava no hall, e foram andando lado a lado para a majestosa sala de jantar.
Essa sala pertencia à parte antiga da casa, sendo da época em que devia morar nela uma grande família, cujos donos recebiam a aristocracia daquela região isolada do país.
Usagi estava curiosa a respeito da casa, e não pôde deixar de perguntar:
— Estava ansioso em vir para cá, depois que chegou do Oriente?
— Falando francamente, sempre considerei este castelo como meu lar, e é aqui que pretendo morar quando me aposentar.
— Mas isso ainda vai demorar muito tempo, e enquanto isso a sua criadagem deve se sentir muito solitária, não tendo ninguém para atender.
Depois de uma pausa, Mamoru Chiba respondeu, quase com relutância:
— De vez em quando, envio para cá amigos que estiveram doentes ou que necessitam descansar, fugindo um pouco de suas responsabilidades.
Então era esse o motivo pelo qual a casa parecia tão "habitada"!
— É um ato de bondade de sua parte.
— Mesmo o Rei dos Demônios tem seus momentos de generosidade.
— Exceto quando me diz respeito — retorquiu ela. — Considero uma mesquinharia não dar oportunidade de defesa a uma pessoa a quem acusou de várias faltas, ou deixar de ouvir as circunstâncias atenuantes que sempre existem nesses casos.
— Não estou interessado em prestar atenção a seus apelos por misericórdia, se é isso o que pretende. Assim, sugiro que mudemos de assunto.
Usagi continuava intrigada. Quem poderia tê-lo predisposto tão amargamente contra a irmã, a ponto de ele se recusar a ouvir até mesmo os argumentos mais razoáveis, ou de refletir um pouco sobre sua extrema e total condenação em relação a ela?
Após o almoço, Mamoru Chiba sugeriu que fossem até os estábulos.
Ficava do outro lado das árvores, e era muito espaçoso. Usagi esperava encontrar bons cavalos, e logo à primeira vista verificou que os dele eram excepcionais.
Logo ficou sabendo que a maioria dos animais tinham chegado há somente dois dias, vindos do sul.
— Eles sofreram muito com a viagem? — perguntou Mamoru Chiba ao chefe dos cavalariços.
— Não, sir. Os rapazes os trouxeram com muito cuidado e segurança, como o senhor ordenou, e eles logo se acalmaram, como vai notar se os cavalgar.
Mamoru Chiba sorriu.
— Que melhor ocasião do que esta?
— Vou selar um deles e trazê-lo para a porta de entrada em cinco minutos, sir — disse o cavalariço. — A senhorita também cavalga?
Mamoru Chiba não tinha pensado nisso, e olhou para Danielle, antes de perguntar:
— Gostaria de montar também?
— Eu adoraria.
— Bem, então traga dois cavalos em dez minutos — ordenou ele, e caminhou de volta para a casa.
Usagi estava tão radiante, que não conseguiu se conter.
— Obrigada! Muito obrigada! A coisa de que mais gosto no mundo é cavalgar, e já vi que seus cavalos são esplêndidos!
— Tenho um amigo que os exercita quando não estou na Inglaterra. Aliás, tenho vários cavalos que estão sendo treinados em Calcutá.
Depois do que ele disse, não foi surpresa para Usagi verificar que ele montava magnificamente, tão bem quanto sir Kenji.
Minako era uma boa amazona, mas não tinha a mesma paixão que Usagi pelo esporte. Entretanto, ela achava que ninguém chegara a comentar isso com Mamoru Chiba.
"Ele tem estado muito ocupado dando atenção às notícias da má conduta de Minako, para ter se informado acerca de sua vida no campo e ficar sabendo que ela é um caráter muito diferente do que imagina", pensou Usagi com amargura.
Mas, agora, estava cavalgando, o sol brilhava e tudo o que queria era divertir-se.
Enquanto iam pulando algumas cercas, pensava que talvez seu confinamento forçado não fosse tão desagradável quanto tinha imaginado.
Enquanto estiveram cavalgando no campo, ele pareceu descontrair-se um pouco, e teve uma atitude tão encantadora quanto no dia anterior, mas quando retornaram ao castelo, era como se uma barreira tivesse se erguido entre eles.
Usagi achava que seu comportamento se devia ao fato de ele temer que ela arranjasse um meio de enganá-lo, impedindo assim que Motoki Furuhata desposasse a filha do duque de Hino.
Contudo, sabendo que seria um erro estar continuamente discutindo com ele, forçou-se a congratulá-lo pelo castelo, pelos cavalos e por seus livros.
Enquanto se dirigia a seu quarto, ia pensando que seria mais sensato esquecer, pelo menos por enquanto, o ponto de desavença que existia entre eles.
Todos os vestidos de Minako eram caros e muito bonitos, e ela teve dificuldade em decidir qual deveria usar.
Quem acabou decidindo por ela foi a governanta, que disse:
— Espero que vista este cor-de-rosa, que é muito bonito. A cor vai se realçar em contraste com o tom escuro das paredes, e a senhorita vai ficar parecendo uma flor.
— Obrigada!
— É um prazer ter uma jovem tão bela como a senhorita aqui. Os amigos do sr. Chiba são todos mais velhos, e, embora gostemos de atendê-los, não é a mesma coisa que ter alguém como a senhorita.
O vestido de Minako era mais caro e elegante do que qualquer um dos seus, e isso a tornou mais confiante do que nunca.
Desceu as escadas sorrindo, em direção à sala de estar.
Mas a expressão do rosto de Mamoru Chiba lhe disse que ele ainda estava de mau humor, disposto a odiá-la e a ficar apontando os seus defeitos.
Era um desafio, é ela resolveu contornar a situação.
Assim que se sentaram à mesa para jantar, ela disse:
— Julgar-me-ia muito indiscreta se eu lhe perguntasse como conseguiu, sendo ainda bastante jovem, tornar-se tão rico e importante no Oriente, e além disso também tão temido?
A pergunta o pegou de surpresa, e ele deu uma risada.
— Se essa é a minha reputação, não vou questioná-la.
— Conte-me o seu segredo.
— Trabalho duro.
— Deve haver algo mais do que isso.
Ele hesitou, como se estivesse procurando as palavras, ou não quisesse falar. Então ela disse:
— Talvez use a sua percepção, que, segundo sempre ouvi falar, faz parte da filosofia oriental.
— A senhorita está certa, embora eu preferisse colocar isso em outros termos.
— Então como a denominaria?
— Creio que é realmente uma determinação de descobrir a verdade, o que significa olhar no fundo do coração das outras pessoas e talvez, embora pareça um pouco de exagero, ler os seus pensamentos.
Usagi deu um gritinho.
— Sempre acreditei nisso, e é o que eu chamo de percepção desde criança.
— E como usa essa "percepção"? — perguntou ele. Usagi sentiu, pela maneira como ele falou, que pensava que ela estava representando só pára impressioná-lo. E precisava mostrar-lhe que estava enganado.
— Estou convencida de que é um especialista em olhar bem no íntimo das pessoas e descobrir, como disse, a verdade. Mas, quando faço o mesmo com o senhor, fico admirada.
— De que forma?
— Porque o senhor é muito mais vulnerável do que admite ser, e muito mais sensível do que alguém poderia imaginar.
Por um momento, Usagi tinha esquecido que estava se fazendo passar por Minako. Falava como ela mesma, usando a sua percepção, como a mãe lhe tinha ensinado.
"Não veja as coisas apenas na superfície", dissera-lhe lady Tsukino. "Quando as pessoas dizem alguma coisa, tente entender o que há por trás disso. Tente sentir qual é o motivo. Pode ser infelicidade, medo, ou talvez simplesmente amor.
Estava convicta de que Mamoru Chiba não era o demônio que diziam, mas sim um homem que lutara pela sua vida contra muitos obstáculos, e estava tendo sucesso nos seus objetivos, utilizando-se de uma força maior do que ele mesmo.
No fundo, era um homem igual aos outros, com os mesmos sentimentos, e não meramente um autocrata, que dava ordens e esperava ser obedecido.
Então, falou com voz calma, como se estivesse falando consigo mesma:
— Acho que, quando avalia o que conseguiu em termos materiais, decepciona-se com o legado espiritual, coisa de que talvez não sentisse falta se nunca tivesse saído da Inglaterra.
Quando terminou de falar, viu que ele estava olhando fixamente para ela, com uma expressão atônita estampada no rosto. Então perguntou abruptamente:
— Quem lhe disse isso? Com quem falou sobre mim?
— Com ninguém... Tudo o que me disseram sobre o senhor é que era uma espécie de cruzamento de demônio e bicho-papão, e que intimidava a todos os que se aproximavam do senhor — respondeu Usagi, mas sentiu que ele não se convencera, e continuou:
— O que realmente me surpreendeu a seu respeito quando o vi pela primeira vez foi o fato de ser tão jovem. Tinha imaginado um homem muito mais velho, de cabelos brancos.
— As outras coisas que disse são idéias suas?
— Estava expressando em palavras os meus sentimentos. Mamoru Chiba calou-se. Bebeu um pouco de vinho e colocou o cálice sobre a mesa, comentando secamente:
— A senhorita me surpreende. Suponho que as suas leituras lhe puseram na cabeça idéias que eu nunca encontrei entre as mulheres com quem já jantei.
— Não posso acreditar, sr. Chiba, que tenha jantado com muitas mulheres nas presentes circunstâncias em que nos encontramos.
— É verdade — admitiu ele.
— Já lhe ocorreu também — continuou Usagi — que, se alguém ficar sabendo onde me encontro no momento, vai ficar muito escandalizado de eu estar sem uma dama de companhia? Não que isso tenha importância, mas acho que quanto menos gente tomar conhecimento do seu comportamento anticonvencional, melhor. Espero também que meu pai nunca chegue a saber que fui obrigada a aceitar uma situação tão comprometedora.
— Só posso esperar, srta. Tsukino, para o seu bem, que meu sobrinho siga os meus conselhos e se case o mais rápido possível. Então poderá retornar à vida de que gosta e da qual, sem dúvida, deve estar sentindo falta, aqui no meio do mato.
— Não estou reclamando, sr. Chiba. Aliás, como sabe, estava esperando um tipo de prisão muito pior do que a que me foi destinada.
Ela fez uma pausa e continuou:
— Mas, voltando a falar em percepção, estava justamente tentando mostrar-lhe que sua percepção a respeito das pessoas e das situações nem sempre é infalível.
Com isso, estava tentando ganhar alguns pontos para Minako, fazendo-o refletir sobre algumas opiniões errôneas que tinha sobre a conduta de sua irmã.
Para seu espanto, ele virou-se e disse calmamente:
— Já que estamos sendo francos um com o outro, que tal me dizer com sinceridade por que tem se conduzido desse jeito?
— De que jeito?
— Sabe do que estou falando. O tipo de vida que levava, seu comportamento com um grande número de homens antes de se fixar em meu sobrinho. Gosta realmente dele? Ou é só porque está noivo de uma moça adequada para ele, e, por perversidade, resolveu tirá-lo dela?
Usagi ficou rígida e depois respondeu, colerizada:
— O que está dizendo é uma monstruosidade! Como pode pensar que eu faria uma coisa tão maldosa como romper deliberadamente um noivado ou um casamento entre duas pessoas que se amam?
Falou alto, e sua voz ecoou na grande sala de jantar. Depois, num tom de voz mais baixo, disse:
— Pensei que a percepção que sempre usou no passado e que lhe foi tão útil tivesse lhe mostrado a verdade.
— E qual é a verdade?
— Que o amor não conhece barreiras, nem limites, nem pode ser sentido por obrigação. Mesmo o senhor deveria reconhecer isso.
— Pois não reconheço! Para as pessoas que têm autodisciplina e que querem se conduzir honradamente, o amor não é desculpa suficiente para agirem de forma errada e anti-social.
— É aí que o senhor se engana.
— Talvez na sua opinião, srta. Tsukino. Mas não na opinião da maioria das pessoas.
— A maioria das pessoas não encontra na vida o que procura, seja materialmente, seja espiritualmente. Se prestar atenção, vai verificar que o que todo homem e toda mulher precisam e desejam ardentemente é simplesmente encontrar o amor.
— Está errada, completamente errada!
Usagi não respondeu. Apenas meneou a cabeça. Após alguns momentos, como para convencer a si mesmo, ele afirmou:
— Vou provar-lhe que está errada, e espero que tenha honestidade suficiente para admiti-lo quando meu sobrinho se casar com a mulher de quem está noivo e a excluir para sempre de sua vida.
