A história se chama A Noiva Raptada e pertence a Barbara Cartland bem como os personagens utilizados pertencem a Naoko Takeuchi

De repente, um pano grosso foi atirado sobre a cabeça de Usagi. Mal podendo respirar, percebeu que estava sendo raptada. Só podia ser por ordem do Rei dos Demônios, o fantástico homem que viera do Extremo Oriente... Sentiu que braços fortes a carregavam por uma escada tosca e íngreme. Gritos de marinheiros, velas sendo enfunadas, barulho e cheiro de mar...Passos se aproximaram e o pano que cobria seu rosto foi retirado. Usagi abriu os olhos e viu à sua frente um homem muito diferente do que esperava!

CAPÍTULO VI

Mamoru Chiba ficara perturbado com as palavras dela, e, conseqüentemente, passou a comportar-se de forma mais desagradável ainda, mantendo a fisionomia carregada.

Falou unicamente em monossílabos até Usagi ir para a cama, onde ficou acordada, pensando que homem estranho era ele.

Por outro lado, era fascinante poder discutir com alguém tão difícil, e ainda assim conseguir ganhar alguns pontos em defesa de Minako, o que ele não poderia negar, se fosse sincero.

Na manhã seguinte recebeu uma mensagem avisando-a de que ele estaria ocupado até a hora do almoço, e que agradeceria se ela ficasse em seu quarto e não descesse.

A mensagem informava também que Mamoru Chiba tinha ordenado dois cavalos para as duas horas.

Já era um consolo!

Usagi nunca tinha estado confinada em seu quarto antes, e sentiu-se tolhida em sua liberdade, uma prisioneira de verdade, o que a deixava furiosa.

Mas havia vários livros para ler, muitos dos quais tinha certeza de que apreciaria.

Acontece que o sol brilhava lá fora, e ela gostaria de tomar um pouco de ar fresco.

Não sabia bem porquê, mas estava ressentida por tê-la deixado sozinha e estar interessado em outras coisas.

Ao menos, até o presente momento, ele tinha estado com ela, durante o seu cativeiro, e em quase todas as horas do dia, e, embora detestasse admiti-lo, sentia a sua falta.

Abriu a janela, curvou-se para fora e sentiu a brisa do mar. Ficou pensando nas mulheres que há séculos atrás tinham olhado por essa mesma janela, apavoradas com a perspectiva da vinda de embarcações vikings de formatos estranhos, que chegavam com a intenção de saquear tudo o que possuíam.

Questionou-se se era válido lutar pelas próprias possessões, e se Mamoru Chiba valorizava as suas a ponto de arriscar a vida por elas.

Era uma pergunta que gostaria de lhe fazer, além de muitas outras que certamente dariam margem a discussões durante o almoço.

Quando o criado lhe avisou que Mamoru Chiba esperava por ela lá embaixo, desceu e encontrou-o com o mesmo mau humor da véspera, e não gostou da expressão do olhar dele quando o encarou.

Pensou que ele talvez estivesse planejando uma punição ainda pior para sua vítima.

Depois, achou que estava imaginando coisas, e decidiu tentar entretê-lo durante a refeição, fazendo observações provocativas que o levassem a falar.

Mas, quando o almoço terminou, ele ainda estava tão arredio e impossível quanto no começo.

Para poupar tempo, Usagi já descera para o almoço em trajes de montaria. Felizmente, na mala de Minako havia um conjunto muito elegante de seda azul-escura, enfeitado de galão branco, e, para ser usada com ele, uma blusa de linho com detalhes de renda.

Era obviamente uma roupa cara e extremamente atraente. Usagi só lamentava a falta do chapéu de copa alta com véu de gaze, que não tinha vindo na mala.

Arrumou os cabelos o melhor que pôde e por fim sentiu-se bem sem o chapéu, pois assim aproveitaria melhor o ar e o sol da manhã.

Tinha deixado as luvas no hall, e um dos criados colocou ao lado delas um pequeno chicote que ela tomara emprestado no dia anterior. Pegou-os e ia saindo quando viu que Mamoru Chiba tinha caminhado na frente dela para a porta e descia as escadas, dirigindo-se para onde estavam os cavalos.

Ao invés de ajudá-la, ele montou no seu próprio cavalo, um grande garanhão negro, e saiu cavalgando na frente, demonstrando impaciência.

Ela achou a atitude dele muito rude, e, de propósito, gastou mais tempo do que o necessário para verificar se sua saia estava bem ajeitada no estribo.

Em conseqüência, ele já tinha vencido uma boa distância quando conseguiu alcançá-lo.

O cavalo que montava não era o mesmo da véspera, mas sim um animal mais fogoso. Supôs que o cavalariço tivesse visto que ela cavalgava bem e houvesse escolhido esse para ela, sabendo que o teria preferido a um animal mais dócil.

O cavalo era mesmo arisco, tendendo a se assustar com a queda de uma folha e às vezes pinoteando, não por maldade, mas por travessura.

Danielle disse a si mesma que tinha conseguido controlar o animal, e que era uma pena que seu dono fosse tão mais difícil e absolutamente incontrolável.

Como que para reforçar seus pensamentos, Mamoru Chiba tomou uma direção diferente da do dia anterior, frustrando a expectativa de Usagi, que tinha aguardado ansiosamente a oportunidade de pular as sebes que pareciam estar dispostas para uma corrida de cavalos.

Passaram por trigais e chegaram a um campo aberto, onde a sebe era muito alta, demonstrando que não havia sido podada durante o inverno.

Essa visão enfureceu Mamoru Chiba, que, falando pela primeira vez durante o passeio, disse, irritado:

— Não posso entender por que estes campos estão tão mal-cuidados! Vou falar com meu administrador amanhã. Seremos obrigados a encontrar um vão entre as sebes, ou um portão, do contrário teremos que voltar.

Como Usagi estava aborrecida com ele, por ter estado tão mal-humorado, ignorando suas tentativas de estabelecer conversa durante o almoço, respondeu friamente:

— Não há motivo para isso. Tenho certeza de que estes cavalos podem pular a sebe sem muita dificuldade.

— Bobagem! — replicou ele asperamente. — é muito alta, e não vou permitir que tente.

Não foi o que ele disse, mas a maneira como o fez que despertou em Usagi o desejo de desafiá-lo.

Como tivesse dado a sua palavra final e não esperasse ser contrariado, Mamoru Chiba fez o cavalo dar a volta, preparando-se para retornar.

Sem dizer nada, Usagi chicoteou levemente o cavalo e impulsionou-o para a frente.

A distância que havia entre eles e a sebe era exatamente a necessária para fazer o salto, e, como se o cavalo soubesse o que esperava dele, pulou avidamente, demonstrando que não estava intimidado pela altura.

Eles passaram a sebe com uma folga de poucos centímetros.

Quando chegaram do outro lado, Danielle constatou que tinha sido um pouco imprudente.

O solo estava molhado e mole, e os cascos do cavalo afundaram. Ele cambaleou para a frente, atirando-a fora da sela. Ela não se feriu, e lembrou-se de que já sofrera quedas muito piores do que essa em sua vida. Sentou-se, enquanto o cavalo tirava os cascos do atoleiro e se levantava.

Enquanto tentava ficar de pé, aborrecida por ter caído, viu Mamoru Chiba pular a sebe, pouco mais adiante.

Quando ele chegou perto dela, Usagi virou-se, sorrindo para ele, e ia dizer que, embora tivesse caído, não tinha fraturado nada. Mas as palavras congelaram-se em seus lábios.

Nunca tinha visto um homem tão zangado, tão carrancudo, a ponto de suas sobrancelhas quase se encontrarem na linha do nariz.

Ele desmontou, deu liberdade ao cavalo e caminhou na direção dela.

— Diabos a levem! — disse, furioso. — Como ousa arriscar a vida dessa forma idiota?

Quando terminou de esbravejar, desceu o chicote que trazia na mão sobre os ombros de Usagi.

Ela deu um grito de protesto, e Mamoru Chiba jogou o chicote no chão, puxou-a violentamente para si e começou a beijá-la.

Os lábios dele eram rudes e brutais, e ela teve a sensação de que o que estava acontecendo era uma invenção de sua imaginação.

O choque provocado primeiro pela chicotada e depois pelo inesperado beijo parecia ter tirado o seu poder de raciocínio, deixando-a sem ação, consciente de que não tinha defesa contra ele.

Podia sentir os lábios dele machucando os seus. Era impossível resistir, impossível até mesmo respirar.

Então parece que ele percebeu que ela era suave e indefesa, e seu beijo ficou mais gentil, mais ainda insistente, dominador e exigente.

Como se despertasse, Usagi compreendeu que tinha que lutar contra ele e livrar-se de sua brutalidade. Mas não conseguia mover-se, pois estava completamente imobilizada.

De repente, a agonia passou e no lugar dela surgiu-lhe uma sensação estranha e ao mesmo tempo maravilhosa dentro do peito, que não podia explicar e da qual nem mesmo tinha consciência.

A sensação tomou conta do seu corpo, fazendo-a tremer e sentir-se totalmente possuída por ele.

Estava sendo beijada pela primeira vez na vida, e era diferente de tudo o que tinha imaginado.

Mamoru Chiba soltou-a.

— Maldita! — disse furioso. — Você poderia levar um homem à loucura!

Usagi tentou se levantar, encontrando dificuldade para manter o equilíbrio. Estendeu a mão, procurando apoiar-se nele, mas ele já se fora, caminhando para longe dela.

Pegou seu cavalo, que estava ao lado do de Usagi, comendo grama sossegadamente, e pulou na sela.

Sem olhar para trás, saiu a todo o galope, desaparecendo de vista, antes que ela pudesse compreender o que estava acontecendo.

Sozinha no amplo campo aberto, ela passou os dedos nos lábios, como para certificar-se de que ainda estavam lá e de que o que acontecera não era um sonho.

"Ele me beijou...", disse para si mesma. "Como ousou fazer isso?".

Não estava zangada, somente chocada e confusa, pois esse beijo tinha provocado nela estranhas sensações, que não conhecera antes, um misto de dor e de prazer.

Devagar, como se despertasse de um sonho, aproximou-se de seu cavalo.

Não teve dificuldade em montar sozinha, pois estava acostumada a fazer isso, quando o pai não podia acompanhá-la.

Foi andando lentamente, com medo e ao mesmo tempo com esperança de encontrar Mamoru Chiba no caminho.

Ele teria que explicar sua atitude. Mas, quando Usagi tentava raciocinar, o que sentia parecia muito complicado para ser posto em palavras.

Ele a odiava e a desprezava, pensando que era Minako, e mesmo assim tinha-lhe batido por desobedecer-lhe, e a tinha beijado porque arriscara a vida.

Isso não tinha sentido, e ela sabia que, embora machucada e atônita pelos carinhos dele, não os tinha repelido.

A estranha sensação no seu peito parecia durar e era quase um êxtase, se êxtase era o que estava sentindo.

"Como ele pôde fazer isso... comigo?", perguntou-se.

Ocorreu-lhe que talvez ele estivesse demonstrando, de uma forma mais violenta do que anteriormente, todo o seu desprezo pela garota que julgava haver escravizado seu sobrinho.

Mas também tinha certeza de que se zangara porque temia que ela tivesse se machucado ao cair.

Era tudo muito confuso, e quando se encontrassem novamente, ela teria que forçá-lo a lhe explicar por que agira assim.

Seria muito constrangedor perguntar-lhe. O que teria feito sua irmã nas mesmas circunstâncias? Talvez Minako já tivesse sido beijada antes, coisa que nunca lhe acontecera, e talvez até tivesse surpreendido Mamoru Chiba correspondendo aos seus beijos.

"Não posso entender o que tudo isso significa", pensou Usagi.

Prosseguiu o seu caminho, olhando para ambos os lados, na esperança de ver Mamoru Chiba à distância.

Mas nem sinal dele, e, como não queria saltar a sebe de novo, demorou muito tempo para encontrar uma saída no campo e tomar o caminho de volta.

Quando se aproximou do castelo, imaginou que os cavalariços estranhariam o fato de eles voltarem separado.

Mas não havia nada que pudesse fazer a respeito disso, e quando chegou à porta de entrada, um criado veio imediatamente recolher o seu cavalo.

Não teve coragem de perguntar se Mamoru Chiba já tinha chegado.

Quando entrou no hall, não viu nem o chapéu nem o chicote dele, e concluiu que ele não retornara ainda.

Uma velha criada veio a seu quarto para ajudá-la a trocar de roupa, colocando-lhe um dos vestidos mais bonitos de Minako e dizendo:

— Se pretende sair novamente, senhorita, creio que deveria usar um casaco. Há um vento vindo do mar que parece anunciar uma tempestade para antes do anoitecer.

— Oh, espero que não! — disse Usagi automaticamente.

— O tempo é muito variável nesta época do ano — replicou a criada. — Vou colocar o seu casaco e o seu cachecol no hall, assim, se precisar, estarão lá.

— Obrigada, é muita bondade sua.

Terminou de vestir-se e foi para o boudoir, curiosa para saber se Mamoru Chiba tinha voltado.

Sentou-se e começou a refletir.

Se ela fosse realmente leviana e de conduta inadequada, como ele julgava que sua irmã fosse, não era de se esperar que ficasse chocada ou mesmo zangada com o beijo dele.

Então disse a si mesma, como se fosse uma lição que devesse decorar:

"O melhor que tenho a fazer é agir naturalmente e fingir que nada de anormal aconteceu. É claro que ele deveria pedir-me desculpas, mas estou certa de que não devo esperar nada desse tipo da parte dele".

Olhou-se no espelho de moldura dourada e concluiu que, embora o vestido de Minako fosse muito elegante e seu cabelo estivesse bem-arrumado, seus olhos pareciam grandes demais.

E, o que é pior, havia uma expressão de medo neles, que não conseguia disfarçar.

— É claro que tenho medo dele — disse zangada, como se tivesse sido acusada de covarde. — Ele é assustador, e nunca me aconteceu de uma pessoa me detestar e beijar-me ao mesmo tempo.

Viu o rubor subir às suas faces ao dizer estas palavras em voz alta, e virou-se, impaciente.

Convenceu a si mesma de que tinha idade suficiente para ser mais sensata, e que seria ridículo fazer uma cena sobre o que tinha acontecido.

Pensou em descer para esperar pela volta de Mamoru Chiba, mas teve a desagradável sensação de que, se tentasse fazer isso, seria impedida pelos criados.

Já era muita humilhação ter o quarto trancado à noite e saber que, se não estivesse na companhia dele, era obrigada a ficar confinada na sua própria sala de estar.

Portanto, resolveu não descer, e pegou um livro que julgou interessante, mas não conseguiu concentrar-se na leitura.

Seus pensamentos voltavam para o estranho comportamento dele depois que ela caíra do cavalo.

Ficou sentada, pensando por tanto tempo que, quando se deu conta, o sol tinha desaparecido, e já era noite.

A porta abriu-se. Usagi olhou rapidamente, na esperança de ver Mamoru Chiba, mas quem apareceu foi a criada.

— O seu banho está pronto, senhorita.

— Já está na hora de vestir-me para o jantar?

— Estará pronto dentro de meia hora.

Como não queria atrasar-se, Usagi tirou o belo vestido de Minako e entrou no banho.

A água estava perfumada, e ela gostaria de saber de onde vinha a essência. Essa era outra pergunta que gostaria de fazer a Mamoru Chiba, mas achou que ele não se interessaria por isso.

Demorou bastante tempo para escolher um vestido, na esperança de que sua elegância ajudasse a aplacar a ira dele, e também porque queria sentir-se mais confiante em si mesma.

Para ser sincera, não estava só apreensiva com a expectativa de vê-lo, mas também muito envergonhada.

Afinal, ele a tinha beijado, e isso era algo extraordinário, considerando o quanto a odiava e desprezava.

Imaginou que o Rei dos Demônios tinha suas próprias regras de conduta, que não eram as mesmas que regulavam a vida das outras pessoas.

Quando ficou pronta, perguntou à criada:

— Devo descer?

Nesse momento, alguém bateu à porta e a criada foi ver quem era.

Usagi não pôde escutar o que diziam, mas teve o pressentimento de que não era algo agradável. A criada voltou e disse:

— O sr. Chiba não retornou ainda, senhorita, e gostaríamos de saber se quer esperar por ele ou prefere jantar nos seus aposentos.

— Vou esperar — decidiu Usagi.

Dirigiu-se para o boudoir e pegou o livro do qual só tinha lido duas páginas, sentando-se numa cadeira em frente ao fogo.

Teve a impressão de estar ali há muito tempo, quando a criada chegou à porta para dizer:

— Desculpe-me, senhorita. O sr. Chiba chegou, mas é muito tarde e ele quer tomar um banho após a cavalgada, portanto, ordenou que seu jantar seja trazido aqui.

Por um momento, Usagi ficou olhando para ela. Depois concluiu que não podia fazer nada, a não ser aceitar o que considerava uma ofensa.

Como Mamoru Chiba ousava trancá-la no quarto como se ela fosse uma criança levada?

Como ousava enviar suas desculpas pelos criados, em vez de vir ele mesmo desculpar-se?

Sabia que o que estava sentindo ou pensando não tinha a menor importância para ele.

Não pôde fazer nada, a não ser esperar que dois criados trouxessem uma mesinha, que montaram em frente à lareira, cobrindo-a com uma toalha branca e trazendo o jantar a seguir.

Foi-lhe oferecido vinho, mas ela recusou. Estava tão aborrecida e ao mesmo tempo tão preocupada que teve dificuldade para comer. Na verdade, perdera o apetite.

Sentia que este era o começo de uma nova fase no relacionamento deles, e que ele estava fazendo tudo para mostrar que ela era de fato uma prisioneira.

Conseqüentemente, ela não falaria mais com ele, nem fariam outros passeios a cavalo.

"Não posso suportar isso!", pensou.

Quando o jantar acabou e os lacaios vieram buscar a mesa e a bandeja, ficou imaginando o que aconteceria se os seguisse e descesse para enfrentar Mamoru Chiba.

E se pedisse a ele que se desculpasse?

Talvez fosse mais prudente agir como se nada houvesse acontecido e ser simplesmente agradável, como fizera na véspera.

De repente, sentiu-se muito jovem e inexperiente. Sabia muito pouco a respeito dos homens, mas pressentia que estava lidando com um dos mais difíceis que qualquer mulher poderia encontrar.

"Que devo fazer?", perguntou-se. Desejou que a mãe ainda fosse viva para falar com ela a respeito de Mamoru Chiba e pedir os seus conselhos.

O tempo parecia se arrastar, e quando pensou que já era perto de meia-noite, verificou que eram apenas dez horas.

"É óbvio que ele não está mais interessado em mim", disse para si mesma. "Assim, ao invés de ficar esperando, o melhor que tenho a fazer é ir dormir".

Era uma boa idéia, não somente pelo que acontecera, mas também porque estava se sentindo meio dolorida em conseqüência da queda, além de muito cansada.

Não havia se recuperado ainda da exaustão provocada pela doença do pai, e a estada em Londres em nada contribuíra para melhorar seu estado.

Ao contrário, passara por uma experiência traumática após outra, e talvez o que acontecera naquele dia tivesse sido a pior de todas elas.

Tocou a sineta, chamando a criada para ajudá-la a vestir-se para dormir. Escolheu uma camisola de gaze entremeada de renda. Era tão linda que Usagi chegou a considerar um desperdício usá-la para dormir.

Depois lembrou-se de que Minako a comprara para usá-la na lua-de-mel.

Era tão transparente que ficou envergonhada até de se sentar diante da penteadeira sem algo para vestir por cima.

Como se estivesse lendo os seus pensamentos, a criada lhe trouxe um negligé para combinar, também muito fino e transparente, e que, além das rendas, era enfeitado com lacinhos de fita de veludo azul.

— Precisa de mais alguma coisa, senhorita?

— Não, nada mais, e muito obrigada. Por favor, acorde-me às oito horas.

A criada saiu, e Usagi escutou-a girar a chave na fechadura.

Queria gritar diante de tanto atrevimento, mas sabia que, se o fizesse, ninguém daria atenção.

Como será que Minako enfrentaria uma situação como essa?

Provavelmente, sua irmã teria dado um jeito de sair pela janela e subir no telhado, ou talvez tivesse feito algo igualmente inesperado e temerário, que, sem dúvida, teria deixado Mamoru Chiba perplexo.

"Sou muito medrosa, ou talvez muito estúpida, para não fazer nada a não ser ficar aqui sentada e ser humilhada", pensou Usagi, infeliz.

Escovou os cabelos repetidamente até ficarem elétricos, como a mãe havia lhe ensinado.

Então, levantou-se da banqueta da penteadeira, apagou as velas e caminhou para a cama.

De repente, ouviu o barulho da chave na fechadura e a porta se abriu.

Ficou pensando quem poderia ser, e, para sua completa surpresa, Mamoru Chiba entrou no quarto.

Usava calças de pernas justas, para noite, que tinham sido lançadas pelo rei quando era o príncipe regente.

Usagi notou uma estranha expressão em seus olhos, que pareciam ameaçadores.

Ele parou perto da porta, encarando-a, e após alguns momentos ela perguntou, nervosa:

— O que é isso? O que aconteceu? Por que o senhor está aqui? — Com um sorriso irônico, ele disse:

— Acho que estou vestido demais.

Assim falando, tirou o casaco preto e justo e jogou-o na cadeira.

Por baixo usava uma linda camisa de linho fino, tão transparente que era possível ver-lhe os músculos através dela.

Ela olhou para ele, atônita:

— Não devia estar aqui no meu quarto... Estou indo para a cama.

— Estou vendo — replicou ele, aproximando-se dela. Instintivamente, Usagi levou as mãos ao peito para esconder os seios, e viu que ele notou o movimento.

Então ele disse:

— Decidi, enquanto estava cavalgando, que é um erro tentar lutar contra o óbvio. Em outras palavras, você venceu.

— Eu... eu não... estou entendendo — gaguejou ela.

— Acho que está. Desde que chegou a bordo do Leão Marinho e durante todo o tempo que está aqui no castelo, tem usado todos os artifícios do seu repertório para conquistar-me, assim como já conquistou tantos outros tolos. Bem, minha querida, eu me rendo. Por que devo negar a mim mesmo algo tão desejável?

Enquanto Usagi o encarava, atônita, tentando compreender o que ele dizia, ele passou os braços em torno dela e puxou-a para si.

Antes que ela pudesse tentar se desvencilhar, antes mesmo que se desse conta do que ele pretendia fazer, ele começou a beijá-la, segurando-a com firmeza, como tinha feito de manhã no campo.

Desta vez seu beijo não foi tão violento, tão brutal, embora seus lábios fossem fortes e exigentes.

Havia algo insolente, desdenhoso mesmo na maneira como ele simplesmente a tomou nos braços, sem esperar pela aquiescência dela.

Quando tentou lutar contra ele, Usagi começou a sentir um ardor nos lábios, uma sensação desconhecida para ela.

Era um fogo que parecia entrar-lhe pela boca, descer-lhe pela garganta e penetrar no seu corpo.

A sensação pareceu se multiplicar, até que foi aumentando de intensidade, e ela sentia que vinha dele, e que todo o seu corpo também queimava.

Beijou-o até sentir que não pertencia mais a si mesma, mas parte de algo incontrolável que tomava conta de ambos.

Não conseguia raciocinar. Sentia-se perdida num mundo estranho, completamente irreal, quando Mamoru Chiba a levantou no colo e a carregou para a cama, atirando-se sobre as almofadas.

Danielle deu um grito de surpresa e medo quando ele se deitou sobre ela e começou a beijá-la novamente com força e violência, ao sentir os lábios dele queimando os seus, queimando sua pele.

Ele passou a beijar a curva suave do seu pescoço e puxou o negligé para baixo, para beijá-la nos ombros.

Quando sentiu as mãos dele explorando as curvas de seu corpo, Usagi começou a se dar conta do que estava acontecendo.

Tomada de súbito terror, pôs-se a lutar para libertar-se dos braços dele, gritando:

— Não... por favor... não!

Foram as primeiras palavras que conseguiu pronunciar desde que ele a tomara nos braços.

Ele levantou a cabeça para olhar para ela, e Usagi viu seu rosto delineado à luz das velas, com fogo no olhar e um sorriso cínico nos lábios.

— Por que fingir? — perguntou ele. — Acabou a farsa. Isto é o que, você queria. Vai descobrir, como sem dúvida já o fez, que um homem é muito semelhante a outro.

— Eu... não sei... do que está falando — gaguejou Usagi. — Não deve... beijar-me desse modo. Por favor... Deve ir embora!

Mamoru Chiba riu, mas foi uma risada desagradável.

— Vai ficar muito desapontada se eu fizer isso. Pare de fingir, Minako, e vamos nos divertir.

— Não, não! — gritou ela. — Isso está errado! Sabe que está errado!

— Está com medo de perder Motoki, mas digo-lhe que já o perdeu. E embora não pretenda oferecer-lhe casamento, como ele foi tolo a ponto de fazer, vai descobrir que tenho meios de ser muito mais generoso que ele.

Essas palavras, ditas num tom de voz que magoou Usagi, foram como um balde de água fria que apagou o ardor que a queimava. De repente, compreendeu o que ele pretendia. Com um grito de horror, tentou empurrá-lo para longe de si.

— Como pode pensar. . . numa coisa tão errada. . . tão maldosa?

Mas ele não a escutava, e suas mãos pareciam feitas de granito. Era impossível tirá-las de si.

Devagar, ele se curvou para ela, acabando com sua resistência, aprisionando seu corpo, até que ela se sentiu esmagada debaixo dele.

Ele deu uma longa risada e recomeçou a beijar seu pescoço. Puxou tanto o negligé que, chegou a rasgá-lo.

Nesse momento, o pavor tomou conta dela. Sentiu-se indefesa, pequena e fraca.

Ele a dominava física e espiritualmente, de tal forma que ela se sentia sem importância, completamente desamparada. Estava tão assustada como uma criança perdida no escuro. E as lágrimas começaram a brotar-lhe dos olhos.

Mas a pressão dos lábios dele crescia, e suas mãos percorriam todo o seu corpo, até que, desesperada, Usagi gritou, como um apelo:

— Por favor... Estou tão assustada... Não tenho ninguém para me socorrer!

A voz dela saiu quase infantil, e havia nela uma inequívoca nota de temor.

Mamoru Chiba parou por um momento, e ela continuou, chorando:

— O que está fazendo é errado... e perverso. Não sei como fazê-lo parar... Por favor... por favor, ouça-me!

Falava de modo incoerente, mas suas palavras tiveram efeito sobre Mamoru Chiba, fazendo-o levantar a cabeça e encará-la.

As lágrimas corriam pelo seu rosto, e ela tinha a expressão de uma criança que se depara com alguma coisa aterradora e inexplicável.

Devagar, muito devagar, ele se levantou de cima dela e sentou-se a seu lado, na cama.

Ficou olhando para ela como para convencer-se de que ela era real, e não alguma coisa que ele tivesse imaginado.

Ela permaneceu imóvel, com a cabeça contra o travesseiro e os ombros nus, pois a renda do negligé fora rasgada na altura da curva dos seios.

— Por favor... por favor! — murmurou Usagi novamente.

Tinha os olhos nublados de lágrimas, e só conseguia enxergar através de uma névoa.

Abruptamente, ele levantou-se da cama, pegou o casaco e caminhou para a porta.

Abriu-a e saiu, batendo-a com força atrás de si, e ela escutou seus passos no corredor.

Estava tão perplexa que não conseguia se mover. Ficou parada por alguns momentos, até que virou o rosto para o travesseiro e começou a soluçar.

Chorou até dormir de exaustão.

Mais tarde, quando as velas já estavam se apagando, sentiu muito frio e entrou debaixo das cobertas, tremendo.

Usagi acordou lentamente, sentindo que alguma coisa desagradável tinha acontecido, mas por alguns segundos não conseguiu lembrar-se do que era.

O sol que brilhava lá fora estava entrando pelas frestas das cortinas.

Então, vieram-lhe à mente os acontecimentos da noite anterior, e ela disse, numa voz que não parecia sua:

— Como é que ele pôde pensar... em fazer uma coisa tão... imoral?

Ela mesma respondeu a essa pergunta quando se recordou de que ele pensava que ela fosse Minako.

Embora quisesse acreditar que a irmã nunca tivera o comportamento que Mamoru Chiba lhe atribuía, não podia deixar de lembrar-se da noite em que ouvira a voz de Motoki Furuhata no quarto de Minako.

Tentou não pensar nisso, mas era impossível descartar a idéia de que Mamoru Chiba se comportara daquela forma na noite anterior porque pensava que ela fosse Minako.

Cobriu o rosto, cheia de vergonha e humilhação.

Por outro lado, sentiu que todos aqueles acontecimentos a tinham tornado mais madura, mais adulta.

Nunca lhe passara pela cabeça que um cavalheiro se comportasse daquela maneira, nem que eles podiam queimar de desejo por uma mulher a quem detestassem e mesmo desprezassem.

O mesmo desejo tinha acendido uma chama dentro dela.

— Como pude conduzir-me de uma forma tão... imoral? — perguntou-se, sem conseguir achar uma resposta.

Não adiantava fingir que não tinha correspondido aos beijos de Mamoru Chiba, ou que ele não tinha provocado nela sensações tão extraordinárias e tão intensas que ela se sentira como se pertencesse a ele e não fosse mais dona de si mesma.

Na sua imaginação, podia vê-lo como se estivesse diante dela. Havia um sorriso sardônico em seus lábios. Ela sabia que ele a beijara desprezando-a, por acreditá-la uma mulher imoral.

Desesperada, teve a impressão de que caíra num lodaçal de degradação do qual nunca mais sairia.

Queria chorar de humilhação. Sua cabeça doía, seus olhos pesavam, mas decidiu não se entregar à infelicidade.

Olhou para o relógio em cima da lareira e viu que era muito mais tarde do que imaginava.

Concluiu que a criada a tinha deixado dormir, e tocou a sineta para pedir o seu café da manhã.

Depois que se levantou e se vestiu, perguntou-lhe se o sr. Chiba estava no castelo.

Sabia que, se ele não estivesse em casa, provavelmente não lhe seria permitido sair da sua sala de estar.

— Vou verificar — respondeu a criada.

Ela saiu, e Usagi começou a pensar que talvez, depois do que acontecera na noite anterior, Mamoru Chiba tivesse ido cavalgar, deixando-a trancada de propósito.

"Como posso falar com ele? Como vou... enfrentá-lo de novo?", perguntou a si mesma.

Por outro lado, a alternativa era ficar sozinha com seus próprios pensamentos, o que constituía uma perspectiva agradável.

A criada voltou e disse:

— O senhor está lá embaixo na sala de estar, e acho que está esperando que vá encontrá-lo.

Usagi estava indecisa: ao mesmo tempo que queria descer, tinha vontade de esconder-se de Mamoru Chiba.

0 que iria lhe dizer? Como poderiam falar sobre o que tinha ocorrido? Então seu orgulho, que sempre havia sido uma característica positiva da sua personalidade, veio em seu socorro. Era ele que estava em falta, admitisse ou não, e ela não se intimidaria. Saiu lentamente do quarto e caminhou pelo corredor em direção às escadas. Quando chegou ao topo das escadas, ouviu um barulho de rodas lá fora. O hall ficava numa parte mais elevada, com uma abóbada para o teto, e dali Usagi podia ver o andar térreo. Havia apenas um lacaio a postos, que abriu a porta. Quando ele fez isso, ela pode ver lá fora, parada, uma carruagem fechada, puxada por quatro cavalos, da qual saía uma senhora muito elegante, com um chapéu de plumas na cabeça. Usagi ficou surpresa, pensando quem poderia ser. Uma visitante casual ou alguém por quem Mamoru Chiba estava esperando? A visitante subiu as escadas rapidamente, entrou pela porta da frente e, na passagem, perguntou ao lacaio: — Onde está o senhor? Mal esperou o criado responder: — Na sala de visitas, milady — e atravessou o hall correndo, abrindo ela mesma a porta da sala de visitas.

Então, quando ela já tinha desaparecido dentro do aposento, Usagi escutou-a dizer, num tom de voz alto e histérico:

— Eles estão casados, estão casados, Mamoru! Você prometeu que iria impedir que fugissem juntos! As últimas palavras foram quase inaudíveis. O lacaio correu para fechar a porta atrás da recém-chegada, quando Usagi concluiu que aquela senhora só podia ser a mãe de Motoki Furuhata.

Deu um suspiro e pensou que teria que dar explicações. Já seria horrível ter que enfrentar Mamoru Chiba depois do que acontecera, mas ser interrogada por lady Furuhata era demais. Fora ela que pressionara o filho para ficar noivo da filha do duque de Hino, e, sem dúvida, fora ela quem contara a Mamoru Chiba todas aquelas mentiras sobre Minako.

"Não posso enfrentar isso! Não posso suportar isso!", disse Usagi para si mesma.

Então, como se uma voz a estivesse guiando e dizendo-lhe o que fazer, tomou uma decisão.

Voltou correndo para o quarto, pegou de dentro do guarda-roupa um casaco muito elegante, enfeitado de pele, que pertencia a Minako, e vestiu-o. Depois abriu a gaveta da penteadeira e pegou a sua bolsa.

Dentro dela havia uma razoável soma, que levara consigo para a casa do pai em Londres.

Esse dinheiro destinava-se a pagar algumas contas durante sua permanência na casa, e também a comprar algumas roupas mais sofisticadas, para que Minako não se envergonhasse dela.

Colocou a bolsa no braço, pegou a écharpe de chiffon azul para usar na cabeça e desceu correndo os dois lances de escada que iam dar no hall.

O lacaio não estava mais lá. Provavelmente tinha ido avisar à governanta que lady Furuhata tinha chegado.

Portanto, ninguém a viu quando abriu a porta da frente e desceu os degraus correndo, parando ao lado da carruagem de lady Furuhata.

Colocou a écharpe na cabeça e disse ao lacaio, que estava lá parado conversando com o cocheiro:

— Houve um acidente. Por favor, leve-me imediatamente à vila. Preciso encontrar um médico. Por favor, vá o mais rápido que puder.

Por alguns segundos os dois empregados olharam-na, admirados. Depois o cocheiro tomou as rédeas e o lacaio correu para abrir a porta da carruagem.

— É muito urgente — disse Usagi ao entrar. O lacaio subiu na boléia e os cavalos partiram. Somente quando já tinham entrado na estrada principal e a marcha estava mais acelerada é que Usagi olhou pela janela de trás da carruagem, verificando com alívio que ninguém os observava.

Mas sabia que, assim que Mamoru Chiba desse por falta da carruagem da irmã, suspeitaria de alguma coisa, e haveria muito pouca chance de enganá-lo por mais tempo.

Mamoru Chiba nunca a levara para além dos portões do parque, mas ela soubera pelos criados que havia uma vila não muito longe do castelo. Não se enganara. E quando chegaram à vila, antes que o cocheiro lhe perguntasse onde ficava a casa do médico, ela colocou a cabeça para fora da carruagem e disse: — Pare nesta loja! Vou perguntar onde mora o médico. A loja era pequena, com vitrine na frente, e ela imaginou que fosse a única da aldeia, que consistia numa série de chalés com cobertura de sapé e uma igreja normanda. A carruagem parou. Usagi abriu a porta e saltou, sem esperar pela ajuda do criado. Entrou na loja. Lá dentro, um velho atendia uma mulher com um bebê no colo. Sua aparição deixou ambos boquiabertos.

— Poderiam fazer-me a gentileza de me informar onde fica a próxima estalagem? — perguntou ela.

Demorou um pouco até que eles se refizessem do seu espanto e o velho respondesse, em voz trêmula:

— Fica a uma milha daqui, na estrada principal.

— Muito obrigada.

Usagi saiu correndo da loja, sabendo que sua entrada ali seria motivo de boatos que logo chegariam ao ouvido de Mamoru Chiba. Disse então ao cocheiro:

— Por favor, leve-me à estalagem que fica a uma milha daqui, na estrada principal.

O cocheiro bateu com o chicote no cavalo e mais uma vez o lacaio fechou a porta da carruagem, depois que ela entrou. Então, partiram novamente.

Mais tarde, Usagi iria refletir que a sorte estivera do seu lado da forma mais miraculosa.

Quando chegaram à estalagem, ela agradeceu aos dois criados, deu um guinéu para cada um e disse-lhes que retornassem ao castelo.

Eles pareciam surpresos de que sua necessidade de um médico tivesse terminado na estalagem. Mas eram muito bem instruídos para não fazerem perguntas, e somente agradeceram por sua generosidade, partindo em seguida.

Ela temera que, num lugar tão isolado, não houvesse um veículo para levá-la adiante, mas havia a diligência postal, que lhe informaram ser puxada por um único cavalo.

Teve esperança de que, se pagasse uma quantia extra, fosse possível trocá-la por uma diligência puxada por dois cavalos, quando chegasse à próxima etapa da viagem.

Não escondeu o fato de que estava indo para Londres, porque achou desnecessário.

Estava certa de que, uma vez que Mamoru Chiba descobrisse a sua fuga, ele presumiria naturalmente que ela tinha ido para lá.

Sua única esperança era chegar primeiro à casa do pai em Park Street, e de lá seguir para o campo, onde seria mais difícil para ele encontrá-la.

Como Mamoru Chiba não a tinha visto deixar o castelo e ninguém mais vira a carruagem partir, ele só iria descobrir o que acontecera quando o cocheiro de lady Furuhata lhe falasse sobre isso.

Usagi raciocinou também que, se sua sorte continuasse, lady Furuhata ficaria para o almoço, e sua carruagem seria levada aos estábulos, sem que ninguém no castelo ficasse sabendo que tinha feito uma viagem de ida e volta à vila.

"Até agora a sorte me ajudou", pensou ela, "e só posso esperar que continue do meu lado".

Felizmente tinha conseguido escapar de ser envolvida numa situação horrivelmente desagradável, em que teria de enfrentar lady Furuhata acusando sua irmã histericamente e a ira de Mamoru Chiba, quando descobrisse que tinha sido enganado por Minako e também por ela.

Mas não podia esquecer o fogo dos lábios dele e a força de seu corpo contra o dela.

"Talvez ele se arrependa de ter sido tão cruel e malvado comigo", pensou, embora achasse muito improvável que isso viesse a acontecer.

Viajou o dia inteiro, e após três trocas de cavalos, chegou a uma grande estalagem, ao cair da tarde.

Não podia ir mais longe, porque estava ficando escuro, mas pensou com satisfação que, se Mamoru Chiba tivesse deixado o castelo em sua perseguição, seria impossível alcançá-la ainda naquela noite.

Notou que o dono da estalagem ficou muito admirado ao ver uma moça tão jovem viajando sozinha.

Então ela explicou que recebera um chamado urgente para voltar a Londres imediatamente, e não tivera tempo de arrumar ninguém para acompanhá-la.

— Minha criada está doente — disse ela —, e portanto fui forçada a fazer a viagem sozinha, mas tenho certeza de que estarei completamente segura aqui com o senhor.

— Isto é verdade, senhorita, mas ainda está muito longe de Londres.

Como Usagi estava dispendiosamente vestida e disposta a pagar pelo melhor quarto e por uma sala de estar privativa, sua história foi aceita.

Ela teve que repetir essa história muitas e muitas vezes a cada parada, tornando-se cada vez mais convincente.

Quando finalmente chegou a Londres num tempo que considerou recorde, tendo dormido muito pouco durante a jornada, sentia-se mais exausta do que se tivesse cavalgado durante todo o caminho.

Ainda tinha dinheiro suficiente para pagar o cocheiro da diligência e dar-lhe uma generosa gorjeta, pelo que ele lhe ficou muito agradecido.

Quem abriu a porta para ela foi o velho Hélios, demonstrando grande surpresa ao vê-la.

— Lady Esmeralda ainda está aqui? — foi logo perguntando Usagi.

— Oh, não, senhorita — respondeu Hélios. — Ela deixou a casa há dois dias, e ainda estamos trabalhando para colocá-la em ordem depois da última festa que deu aqui.

Ele estava tão cheio de queixas a respeito de todo o trabalho que tivera depois do que Usagi adivinhou ter sido uma festa de arromba, que nem pareceu preocupado ao vê-la chegar desacompanhada.

Foi somente quando a criada que costumava cuidar dela veio atendê-la que teve que responder por que tinha partido tão inexplicavelmente, sem levar nenhuma bagagem.

— Para falar a verdade, senhorita, ficamos sem saber o que havia acontecido — disse ela. — Primeiro a senhorita partiu, depois a srta. Minako desapareceu, antes que os criados acordassem. Não pudemos entender, realmente não pudemos.

Quando ela falou em Minako, Usagi teve uma idéia, e perguntou-lhe:

— Quando a senhorita Minako partiu, deixou alguma mensagem para mim?

— Oh, sim, deixou sim, senhorita. Deixou-a sobre o tapete do lado de fora da porta do seu quarto. Ela não sabia, é claro, que tinha partido também.

— Onde está essa mensagem?

A criada foi até a lareira e pegou uma carta que estava atrás de um porta-retrato.

— Coloquei-a aqui, para que ficasse mais segura. Foi bom a senhorita perguntar, porque senão eu teria esquecido.

Usagi não prestou atenção ao que ela dizia, pois estava muito curiosa para ler a carta, a fim de saber se Minako contava nela tudo o que queria saber, onde tinham se casado e onde ela e o marido estavam escondidos.

Mas preferiu esperar até que a criada saísse do quarto, a fim de buscar algo para Usagi comer e beber.

Estava com fome, pois, na última pousada onde parará para trocar os cavalos, fizera uma refeição muito pobre e apressada.

Quando ficou sozinha, abriu imediatamente a mensagem de Minako. Era uma carta longa, escrita apressadamente a lápis:

"Querida Usagi:

Por favor, não fique zangada comigo quando ler esta carta, mas Motoki e eu temos que fugir. Temos que partir sem demora, porque o Rei dos Demônios o proibiu de ver-me novamente e ordenou-lhe, como se ele fosse um recruta novato, que se casasse imediatamente com sua noiva oficial.

Sei que vai ficar aborrecida porque não lhe contamos nosso segredo, mas creio que você fatalmente iria pedir-me para não fazer nada impulsivamente. Mas não temos tempo, se quisermos nos casar e viver felizes para sempre.

Motoki já tinha tudo planejado quando chegou aqui esta noite, e combinou os detalhes comigo enquanto você conversava com Umino. Então, depois que você foi para a cama, ele me ajudou a fazer as malas, colocando nelas o máximo de coisas possível.

Mas como vamos iniciar nossa lua-de-mel em Paris, ele prometeu comprar-me tudo o que eu precisar lá.

Tente compreender, querida, que eu amo Motoki de todo o meu coração, e ele também me ama da mesma forma. Seria impossível para qualquer um de nós dois pensar em casar-se com outra pessoa.

Sei que você ficou escandalizada pelo modo como Esmeralda está se comportando com o duque, mas eu tive que deixar a casa da prima Diana, pois ela estava tramando para eu desposar aquele horrível marquês, e tinha expulsado Motoki de sua casa.

Tínhamos que nos encontrar em algum lugar, e como o duque estava disposto a pagar pelos criados, pela comida e pelo vinho, desde que ele pudesse ver Esmeralda, pareceu-me sensato vir para cá, por mais irresponsável que ela fosse.

A prima Diana contou à mãe de Motoki uma porção de mentiras maldosas a meu respeito, e é claro que ela repetiu essas mentiras para o tio dele, que por sua vez contou a Motoki o que ela tinha dito.

Sei que você vai acreditar em mim quando eu lhe disser que nunca, nunca mesmo, em toda a minha vida, me conduzi como Esmeralda. E Motoki nunca faria nada tão imoral como tentar possuir-me antes que estivéssemos casados.

Comportei-me levianamente, de maneira tola, muitas vezes, mas era muito divertido ter todos aqueles homens correndo atrás de mim e implorando-me que os desposasse. Entretanto, nunca gostei de nenhum deles, exceto de Motoki, e sei que não haverá ninguém mais na minha vida.

Entre nós existe a coisa mais preciosa do mundo todo, e Motoki diz que, no que lhe diz respeito, seu tio pode ficar com o dinheiro dele, pois temos o mais importante, que é o nosso amor, além de dinheiro suficiente para viver no campo e ter muitos filhos.

Por favor, minha querida e adorada irmã, entenda e procure me defender quando as pessoas lhe disserem que sou leviana e imoral. Juro por tudo o que é mais sagrado e por Motoki, que é o que há de mais sagrado para mim, que nunca fiz nada mais grave do que permitir que um ou dois jovens estúpidos me beijassem no rosto. Motoki foi o único homem que me beijou de verdade.

Ele está decidido a não deixar que ninguém nos impeça de casar-nos legalmente, portanto, sairemos daqui amanhã de manhã bem cedo, antes que todos acordem, e iremos diretamente para Cheltenham, onde Motoki vai pedir a papai a minha mão.

Sei que papai vai concordar, e então ninguém poderá dizer que o nosso matrimônio não é legal e que eu não sou a verdadeira esposa de Motoki. Vamos para a França, pois não queremos estar aqui na Inglaterra para ouvir todas as queixas, e histerias da família de Motoki. Quando as coisas tiverem se acalmado, seja um anjo e escreva para mim, aos cuidados do banco de Motoki, cujo endereço é: Coutts — Rue de Ia Paix, número 92.

O gerente é a única pessoa que terá o nosso endereço, e não voltaremos até que tudo tenha passado. Você sabe o que quero dizer.

Você tem sido muito boa e carinhosa comigo todos esses anos, e sei que Motoki, quando a conhecer melhor, vai amá-la tanto quanto eu. Você será a primeira pessoa que convidaremos para se hospedar em nossa casa.

Deus a abençoe, querida, e cuide-se. Da irmã que a adora,

Minako.

P.S. Não podemos ir para Furuhata Park até que a mãe de Motoki tenha se mudado. Creio que ela jamais me perdoará, mas isso é culpa da prima Diana, que inventou tantas mentiras maldosas a meu respeito".

Ao terminar de ler a carta, Usagi soltou um gritinho de alegria.

Seu coração pulsava de felicidade, não só porque Minako tinha se casado com o homem que amava, mas também porque todas aquelas coisas horríveis que Mamoru Chiba tinha dito a respeito dela eram falsas.

E o mais importante de tudo era que o que ela pensara quando ouvira a voz de Motoki no quarto da irmã fora um engano. Saber o que realmente tinha acontecido era como tirar uma pedra que lhe oprimia o coração.

Eles estavam só fazendo as malas!

Queria se ajoelhar e agradecer a Deus por restaurar sua confiança na irmã.

"Como pude ser tão tola", perguntou a si mesma, "a ponto de pensar que minha irmã, filha da mesma mãe, iria fazer algo realmente grave?".