A história se chama A Noiva Raptada e pertence a Barbara Cartland bem como os personagens utilizados pertencem a Naoko Takeuchi

De repente, um pano grosso foi atirado sobre a cabeça de Usagi. Mal podendo respirar, percebeu que estava sendo raptada. Só podia ser por ordem do Rei dos Demônios, o fantástico homem que viera do Extremo Oriente... Sentiu que braços fortes a carregavam por uma escada tosca e íngreme. Gritos de marinheiros, velas sendo enfunadas, barulho e cheiro de mar...Passos se aproximaram e o pano que cobria seu rosto foi retirado. Usagi abriu os olhos e viu à sua frente um homem muito diferente do que esperava!

CAPÍTULO VII

— Eu escapei!

Usagi acordou e soltou essa exclamação involuntariamente.

Então deu um suspiro, sentindo que estava muito cansada e que não havia nada de interessante a fazer que justificasse levantar-se da cama.

Estava tão desanimada que parecia que disputara o Grande Prêmio e perdera a corrida, ou que escalara o Himalaia e, ao chegar ao topo, ficara decepcionada.

— Estou sendo ridícula — pensou alto. Sentou-se na cama e tocou a sineta. Depois de algum tempo, apareceu a criada:

— Quer o seu café da manhã, senhorita?

— Isso seria muito bom — concordou Usagi.

— A sra. Newman o está preparando e eu o trarei assim que estiver pronto.

A criada puxou as cortinas e a luz do sol entrou no quarto. Usagi pensou que os jardins do castelo deviam estar muito bonitos.

Ocorreu-lhe que, se Mamoru Chiba viesse a Londres, ele a procuraria para dizer-lhe o que pensava do fato de ela o ter enganado.

Essa idéia fazia seu coração bater mais rápido e dava-lhe calafrios. Sabia que tinha que sair dali, e ficou indecisa entre ir para Cheltenham, para ficar com o pai, ou voltar para a sua casa no campo.

Já estava quase decidida por Cheltenham quando o velho Hélios chegou, trazendo o café da manhã. Ele bufava com o esforço de subir as escadas, e colocou a bandeja ao lado da cama.

— Achamos que devia estar com fome, senhorita — disse ele —, uma vez que quase não comeu nada ontem à noite, pois os ovos de Londres não são tão bons quanto os do campo.

— Tenho certeza de que vou gostar muito — respondeu Usagi com um sorriso.

O mordomo saiu do quarto, caminhando lentamente, e, para agradar a ele e à sua esposa, que haviam tido tanto trabalho, ela comeu os ovos e o bacon.

Mas, a despeito do pouco que comera na véspera, não estava com fome.

O café quente, entretanto, deixou-a mais ativa, e ela disse a si mesma que quanto mais cedo deixasse Londres, melhor.

Estava resolvendo se deveria levar todas as suas roupas para Cheltenham ou se deixaria algumas na casa, para a ocasião em que decidisse voltar, quando a governanta apareceu com uma carta na mão.

— Acaba de chegar pelo correio, senhorita — disse ela.

O coração de Usagi deu um pulo, pois por um segundo pensou que talvez fosse uma carta de Mamoru Chiba.

Depois, raciocinou que estava sendo tola, porque, mesmo que ele lhe tivesse escrito, do que duvidava muito, não teria havido tempo de a carta chegar a Londres.

Deu uma olhada e constatou que era uma carta do pai, reconhecendo a letra do envelope.

Abriu-a e inclinou-se nas almofadas, para uma leitura mais tranqüila.

"Minha querida Usagi:

Espero que esteja se divertindo em Londres. Naturalmente, a esta altura, você já sabe que Minako está casada com lorde Furuhata.

Eles vieram aqui pedir a minha permissão, e embora eu ache lamentável que ele estivesse noivo de outra moça, Minako me convenceu de que a única chance de felicidade deles era ficarem juntos.

Eles obtiveram uma licença especial para casar-se na Igreja de Santa Maria, e eu abri mão de Minako, embora tenha sido um esforço e eu ainda não esteja me sentindo muito bem.

Meus médicos, contudo, estão satisfeitos com a minha melhora, e eu não estou achando Cheltenham um lugar tão aborrecido quanto imaginava, pois conheci uma paciente muito atraente, chamada lady Bowdon.

Fazemos as refeições juntos e passamos o nosso tempo livre jogando cartas e conversando a respeito de amigos comuns.

Assim que eu estiver bem e puder voltar para casa, ela virá comigo para passar uma temporada no castelo. Seu marido morreu na batalha de Waterloo, e ela se sente muito só, o que é compreensível.

Espero que encontre tempo para me escrever em breve e contar-me como está se divertindo. Espero que os cavalos estejam bem, e também gostaria de ser informado se houver algum problema em casa.

Cuide-se, minha querida filha.

Do seu pai que muito a ama.

Kenji Tsukino." .

Usagi leu a carta cuidadosamente, e concluiu que sua presença não era desejada em Cheltenham.

Teve a impressão de que o pai tinha encontrado alguém para substituir sua mãe, alguém que pudesse fazê-lo feliz, o que ela sempre desejara.

Ele sempre fora um homem muito atraente, e precisava de uma mulher que o admirasse e o cumulasse de atenções.

Lendo nas entrelinhas, certificou-se de que era exatamente isso o que lady Bowdon estava fazendo.

"Minako está casada", disse para si mesma. "Talvez papai se case novamente, e isso me deixa só".

Deu um sorriso um pouco amargo e pensou que a idéia de ficar em Londres e divertir-se, encontrando novas pessoas, podia agora ser esquecida.

Tinha certeza de que ninguém lhe daria boa acolhida, porque seu sobrenome era Tsukino. O fato de Minako ter fugido para se casar com Motoki Furuhata, que já estava noivo da filha do duque, seria comentado e condenado. Por conseguinte, ninguém iria querer convidar a irmã de Minako.

Provavelmente a prima Diana estava tão zangada com Minako, que julgaria Usagi capaz do mesmo comportamento.

"Tenho que ir para casa", pensou. "Não há nada mais que eu possa fazer aqui, e, de qualquer maneira, não tenho a mínima vontade de ficar em Londres".

As coisas de Mianko que tinha trazido consigo ainda estavam no andar de baixo, e ela achou melhor levá-las para o campo, ao invés de deixá-las ali.

"Assim não vou precisar comprar vestidos novos, se necessitar de algo mais sofisticado", decidiu.

Afinal, Minako não iria mais querer seus vestidos feitos em Londres, depois de ter comprado roupas novas em Paris.

Desceu e encontrou Hélios, que lhe informou que ainda havia dois cavalos no estábulo, embora o duque de Kou tivesse levado os seus.

Ficou aliviada, pois eles serviriam para puxar a carruagem antiga, que não era usada desde o tempo de sua mãe.

Ordenou que a carruagem fosse preparada e estivesse na porta da frente à uma hora, e perguntou a Hélios se sua esposa podia preparar algo rápido para ela comer antes de partir.

— Está voltando para casa, srta. Usagi? — inquiriu ele.

— Sim, Hélios. Recebi uma carta de meu pai, dizendo que está se sentindo melhor e que dentro em breve deixará Cheltenham, assim, preciso arrumar tudo para esperá-lo.

— Será um prazer cuidar da senhorita, se quiser ficar um pouco mais — disse Hélios.

Usagi ficou comovida com a oferta, certa de que, após todo o trabalho extra que Minako e lady Esmeralda tinham provocado na casa, o velho casal deveria estar desejoso de paz e calma, e de uma oportunidade de descansar as pernas.

— Talvez eu esteja de volta dentro de um mês — respondeu ela —, mas, se vier, vou avisá-los com bastante antecedência, para que possam contratar mão-de-obra extra.

— Obrigado, senhorita, é muita bondade sua. Fazemos o possível, mas estamos ficando muito velhos.

— Acho que vocês têm sido maravilhosos — replicou Usagi, sabendo que tinha agradado ao velho Hélios.

Dirigiu-se à sala de visitas e verificou que, sem as flores que decoravam o ambiente no tempo em que Minako e lady Esmeralda estavam lá, o aposento perdera muito do seu charme.

Agora dava para ver que as cortinas estavam desbotadas e que algumas poltronas precisavam de novo estofamento.

"Não tem sentido preocupar-me com isto agora, pois Minako vai ter a sua própria casa", pensou ela, "e papai nunca vem a Londres".

Não sabia se, quando ele se casasse de novo, iria querer levar a nova esposa para lá.

Achou melhor conversar sobre isso com ele quando voltasse ao lar, e então decidirem juntos se valia a pena comprar cortinas novas e mandar revestir as poltronas.

Imaginou que haveria muitas coisas com que se ocupar, mas não sabia explicar por que tudo parecia ter perdido o interesse.

Toda a sua alegria tinha acabado, e tudo o que lhe restava era voltar para a vida solitária que tinha levado nos últimos doze meses, desde a doença do pai.

"Pensei muitas vezes que nunca me acontecia nada de interessante", murmurou.

Mas parecia incrível que tanta coisa tivesse acontecido em tão pouco tempo. Tinha viajado para Londres, fora raptada e levada para um castelo na praia, por um enigmático estranho que pretendia mantê-la prisioneira.

Conseguira fugir, e agora continuava fugindo, com medo de ele a encontrar e descarregar sobre ela toda a sua raiva.

— Tudo isso parece uma ridícula história tirada de um romance — disse em voz alta.

De repente, a porta se abriu e ela ouviu uma voz masculina que dizia:

— Então está de volta! Tenho vindo aqui todos os dias, mas ninguém sabia me dizer o seu paradeiro.

Era Umino Gurio que estava lá parado, muito elegante em sua deslumbrante gravata branca, com um colarinho pontudo que passava da altura do queixo, e as botas tão lustrosas que pareciam refletir a mobília, enquanto caminhava na direção dela.

— Eu voltei... ontem à noite — disse Usagi, gaguejando um pouco.

— O mordomo não tinha a mínima idéia do que havia acontecido com a senhorita. Como pôde desaparecer dessa maneira tão extraordinária? A menos que tenha ido com sua irmã e Minako para a lua-de-mel.

— Já sabe que estão casados?

— Eu imaginava que Motoki pretendesse fugir — replicou ele. — Era a única coisa que eles poderiam fazer, e quando desapareceram subitamente, logo adivinhei o que tinha acontecido. Mas isso não explica por que sumiu também.

Usagi, que não tinha intenção de contar-lhe a verdade, respondeu simplesmente:

— Agora estou de volta, mas vou partindo esta tarde para o campo.

— Mas não pode fazer isso!

— Por que não?

— Porque quero que fique aqui. Ela sacudiu a cabeça e disse:

— Deve compreender que seria imprudente, pois todos sabem que Minako se casou com Motoki Furuhata.

— Houve até apostas no clube — disse Umino Gurio —, mas ninguém tem certeza se o casamento realmente aconteceu ou não.

— Bem, aconteceu. Eles se casaram em Cheltenham, com o consentimento de meu pai.

— Ótimo — exclamou Umino Gurio com satisfação. — É a melhor notícia possível. Conheço Motoki desde que estudamos juntos em Eton, e nunca o vi tão apaixonado.

— Era isso o que eu queria ouvir — disse Usagi com um sorriso —, e embora eu estivesse um pouco em dúvida antes, agora sinto que eles serão muito felizes.

— É claro que serão. Mas quem vai cuidar da senhorita? O tom de voz dele se alterou quando ele fez essa pergunta, e ela olhou para ele, surpresa.

Então, quando notou a expressão de seus olhos, desviou a vista.

— Sei que é muito cedo — disse ele em voz baixa —, e a senhorita vai dizer que não nos conhecemos o suficiente, mas eu me apaixonei desde o momento em que a vi pela primeira vez.

Usagi prendeu a respiração. Depois, sentindo-se encabulada, afastou-se dele, caminhando para a janela.

Ficou lá parada, olhando para o pequeno jardim iluminado pelo sol, que ficava atrás da casa.

Como a casa não era habitada há muito tempo, os canteiros não tinham mais as tulipas e jacintos que havia no tempo de sua mãe.

Havia apenas uns poucos narcisos selvagens nos canteiros, e alguns pés de lilases em flor.

Ocorreu-lhe de súbito que o jardim do castelo de Mamoru Chiba era muito mais bonito.

Mas Mamoru Chiba era alguém que ela devia esquecer, e era muito importante que nem Umino Gurio nem ninguém ficasse sabendo onde ela estivera.

Tinha consciência de que ele estava esperando por uma resposta para suas palavras.

Houve um silêncio, e depois ela respondeu, num tom de voz baixo e um pouco nervoso:

— Eu... eu não o conheço bem... É cedo demais para pensar nisso.

— Bem, estive pensando nisso — disse ele numa voz profunda. — Tenho pensado nisso dia e noite, desde que a vi pela primeira vez. Para dizer a verdade, Usagi, você me deixou quase louco quando partiu sem dizer a ninguém aonde ia.

— Sinto muito.

— Sente realmente? Gostaria que pensasse em mim.

Ela não encontrou resposta, e depois de uma pausa, ele falou:

— Você é tão adorável, tão linda, que eu tenho um medo desesperado de perdê-la para o primeiro homem que a vir.

Usagi sorriu.

— Estou indo para casa, onde não há ninguém para ver-me, exceto os cavalos.

— Como pode ter certeza disso? E se está saindo de Londres, quando poderei vê-la?

— Eu... eu não sei.

Ele se aproximou um pouco mais.

— Não posso deixá-la partir assim, pois para mim você é mais importante do que qualquer mulher que já conheci.

Ela prendeu a respiração antes de dizer:

— Eu a amo, e quero me casar com você. Usagi desviou o rosto.

— Por favor... Eu já lhe disse que é muito cedo para falar nisso... E eu não pretendo me casar com ninguém, a menos que esteja... muito, mas muito apaixonada.

Quando terminou de dizer isso, ela entendeu por que Minako tinha recusado tantas propostas de casamento antes de encontrar Motoki.

O que ela estava procurando era o que Mamoru Chiba chamava de "amor ideal", e que Minako tinha encontrado. "É isso o que eu também quero", disse para si mesma.

— Se você me der uma chance, vou fazê-la apaixonar-se por mim — disse Umino Gurio. — Sei que é inexperiente, mas é justamente por isso que é tão fascinante. Então, minha querida, dê-me uma oportunidade, e eu juro que nunca se arrependerá.

— É... muito cedo — murmurou Usagi de novo. No fundo, sabia, pela percepção que nunca lhe falhara, que, embora gostasse de Umino Gurio, ele nunca seria realmente importante em sua vida.

Não sabia explicar, mas faltava algo nele, algo que dizia que, por mais agradável que fosse, ele nunca conquistaria seu coração.

Tinha tanta certeza disso que teve dúvidas se deveria lhe dizer naquele momento que o que ele estava lhe pedindo era impossível, ou se seria melhor simplesmente partir e esperar que ele a esquecesse.

Decidiu que seria mais fácil tomar a última atitude, e estendeu-lhe a mão, dizendo:

— Estou muito honrada e comovida pelas lindas palavras que me dirigiu... mas faz muito pouco tempo que nos conhecemos. Portanto, talvez seja melhor nos encontrarmos outras vezes, quando eu vier a Londres... mas, no momento, preciso retornar ao campo.

— Se você for, eu a seguirei — disse ele —, e não acredito que seja tão pouco hospitaleira a ponto de não me receber.

— Terei que fazer isso até meu pai voltar — replicou Usagi —, porque estarei vivendo sozinha. Mas ele voltará logo.

Umino Gurio sorriu.

— Vou tentar ser paciente, mas quero sua palavra de honra de que, quando seu pai estiver com você, vai me convidar para que eu me hospede em sua casa.

Ele não esperou resposta e continuou:

— Nesse meio tempo, vou falar com minha mãe a seu respeito, e asseguro-lhe que ela a receberá como nossa hóspede, seja em nossa casa de campo, em Essex, seja aqui em Londres.

— É muito amável de sua parte, mas você não pode esquecer que, quando o casamento de Minako e Motoki for anunciado publicamente, haverá um bom número de pessoas, e talvez sua mãe esteja entre elas, que ficarão, escandalizadas com isso.

— Sei disso — concordou Umino Gurio —, mas pessoalmente só você me interessa, e não me importo com o que os outros possam fazer ou dizer.

— Acho que se importa — contestou ela.

— Irei visitá-la no campo assim que me permitir, e vou persuadi-la de que estou dizendo a verdade. Por enquanto, procure lembrar-se de que a amo, e não entregue seu coração a nenhum outro homem.

Ele beijou a mão dela enquanto falava, e foi um beijo muito gentil.

Isso lhe lembrou a violência de Mamoru Chiba e o fogo de seus beijos.

Era estranho constatar que, embora a comparação com Umino Gurio fosse desfavorável a ele, Usagi não pôde impedir que um tremor lhe percorresse todo o corpo quando recordou as sensações produzidas pelos lábios de Mamoru Chiba.

Instintivamente, sentiu que Umino Gurio estava pensando em tomá-la nos braços.

Mais do que depressa, ela retirou a mão da dele, dizendo:

— Por favor, deve ir embora agora... Vou partir dentro de muito pouco tempo, e ainda tenho que fazer as malas.

— Muito bem. Só vou porque você me pediu — respondeu ele —, mas não esqueça: não pretendo perdê-la de novo. Se não me escrever para o clube dentro de poucos dias, irei para o campo. Não me importo de ter que dormir debaixo de uma sebe ou na estalagem da vila, desde que possa estar perto de você.

Ele falou em tom apaixonado e tentou abraçá-la, mas Usagi se afastou.

— Até logo — disse ela, e caminhou firmemente em direção à porta aberta, bem depressa, para que ele não tentasse impedir a sua saída.

Subiu correndo as escadas e esperou até que ele deixasse a casa para descer novamente.

Somente quando Usagi estava a caminho do campo é que começou a pensar que acabara de receber a primeira proposta de casamento.

"Minako recebeu tantas que acharia estranho que essa tenha sido a minha primeira e única", disse a si mesma com um sorriso.

Umino Gurio era um homem muito bonito, vestia-se com extrema elegância e era o tipo do homem que qualquer mulher teria orgulho em ter por marido. Mas, por estranho que pudesse parecer, nem por um segundo Usagi sentira a mínima correspondência pelo amor que ele expressara por ela.

Sabia que, por mais ardente e apaixonado que ele fosse, seria impossível para ela dar-lhe qualquer esperança de que um dia seus sentimentos pudessem ser diferentes. — Por quê? Por quê? — perguntava-se. Era estranho que, considerando-se que ela conhecera tão poucos homens, quando o primeiro a pedira em casamento ela não tivesse ficado tão emocionada, nem tivesse ao menos querido mantê-lo a seu lado, para desfrutar de suas atenções.

"Se eu nunca mais o vir, nem vou me lembrar de que ele existe", pensou consigo.

Algumas vezes, quando seu pai estava mais impertinente e mais difícil do que o normal durante sua doença, ela ia para a cama imaginando que havia alguém para confortá-la e em cujo ombro podia repousar a cabeça cansada.

Era um sonho que fazia parte das histórias de fadas que ela contava a si mesma para mitigar a solidão de uma casa onde tudo girava em torno de um inválido difícil.

"Ele vai me amar, e vai ser tão maravilhoso ser amada dessa forma como era maravilhoso o amor de papai e mamãe", sonhava ela.

Mas agora que um homem dissera que a amava, ela não se interessara.

Ficava pensando por muito tempo, tentando analisar seus sentimentos.

Na verdade, era difícil pensar em mais alguém enquanto sua imaginação rodopiava em torno de Mamoru Chiba, tentando descobrir o que ele estaria sentindo. Será que ele estava furioso com ela por ela ter conseguido escapar, após ele ter se vangloriado de que não havia meio possível de fugir do castelo?

"Eu o venci", disse a si mesma como um desafio, mas, por alguma razão desconhecida, havia um vazio nessas palavras.

Ela não queria admitir, mas a verdade era que, embora tivesse ficado tão assustada no castelo, fora muito mais emocionante estar exposta à ira de Mamoru Chiba e até ser intimidada por ele do que estar sozinha a caminho de uma casa vazia, onde ninguém a esperava.

Sabia que, quando chegasse lá, tudo estaria do mesmo jeito que no dia anterior, no mês anterior, no ano anterior e desde sempre.

"Talvez eu deva voltar para Londres e conhecer Umino Gurio melhor", pensou.

Então, como se estivesse escrito em sua mente em letras de fogo, deu-se conta de que, se pudesse escolher, preferiria voltar para o castelo e para Mamoru Chiba.

"Isso é ridículo", pensou. "Tenho medo dele, e ser houver oportunidade, ele talvez não dê atenção aos meus pedidos e me faça sua".

A simples idéia deixou-a escandalizada, e mais uma vez sentiu aquele estremecimento dentro de si, intensificando-se e transformando-se em fogo.

"Não vou pensar mais nisso".

Mas, quando chegou em casa, descobriu que era impossível deixar de pensar nele. Chegava a sentir sua presença perto dela, dizendo-lhe que nunca conseguiria escapar.

Os criados não ficaram muito satisfeitos ao vê-la.

— Pensamos que a senhorita se demoraria mais tempo fora — disse o mordomo —, e assim nos daria oportunidade de limpar a casa na sua ausência.

— Não se preocupe — replicou Usagi. — Só espero que tenham começado pelos aposentos principais. Desde que estes estejam prontos para quando meu pai retornar, o resto é irrelevante.

Dizendo isso, subiu para o quarto, pensando em tudo o que lhe acontecera desde que partira para Londres, e achando que deveria parecer mais velha depois de tudo o que tinha passado.

Mas enganara-se. Olhando-se no espelho, achou sua aparência muito jovem. Não estava tão magra, nem tão pálida como quando partira, mas seus olhos tinham uma expressão de perplexidade por tudo o que vira, por tudo o que lhe tinha acontecido.

Foi para os estábulos, e só quando estava em companhia dos cavalos é que se sentiu melhor. Ao menos eles pareciam contentes em vê-la, e ela lhes deu comida e falou com eles carinhosamente. Eles mexeram as orelhas, como se estivessem entendendo.

— Acho que eles gostaram de me ver — disse ao cavalariço.

— Oh, pode estar certa disso, srta. Usagi. Eles sentem a sua falta quando não está aqui.

— Gostaria de acreditar nisso.

Mas, quando voltava para casa, achou que não era o bastante. Nenhum animal, por mais carinhoso que fosse, poderia preencher sua vida como Motoki preenchia a de Minako.

Jantou sozinha e foi dormir sentindo muita pena de si mesma.

Não sabia exatamente o que queria, mas sentia-se inclinada a chorar até descobrir.

Embora tivesse dormido tranqüilamente, acordou pela manhã sentindo-se infeliz de uma forma que não conseguia definir. Só sabia que sua infelicidade estava lá, como uma ferida aberta no peito.

Foi cavalgar só, recusando-se a levar um cavalariço consigo, e quando saltou as sebes que lhe eram tão familiares, recordou-se daquela sebe alta que Mamoru Chiba lhe tinha proibido de pular.

Pensou na sua queda e em como provocara a zanga dele.

"Por que teria ele ficado tão furioso com a minha desobediência?", perguntou-se.

Sabia a resposta, embora lhe parecesse extraordinário que ele se importasse tanto pelo fato de ela ter arriscado a vida, ou que isso tivesse tido um efeito tão incontrolável sobre ele.

Podia até sentir o chicote sobre os ombros e a força dos lábios dele nos seus.

"Não vou mais pensar nele, não vou", jurou.

Mas não adiantava. Como uma sombra, ele estava com ela quando caminhou de volta para casa, quando trocou de roupa e quando desceu para a sala de estar, que não estava decorada com flores, porque essa sempre fora uma de suas tarefas quando estava em casa.

Pensou em sair para o jardim e colher bastante flores para encher a enorme cesta de vime que sempre levava.

Mas de repente achou que era muito trabalho. Mesmo que fizesse o arranjo de flores, quem o apreciaria ou se importaria com isso?

"O que está acontecendo comigo?", perguntou-se em voz alta.

Nesse momento, a porta se abriu. — O sr. Chiba, senhorita — anunciou o mordomo. Usagi ficou tão surpresa que se virou com um gritinho. Mamoru Chiba penetrou na sala, caminhando com uma determinação e uma autoconfiança que pareciam dominar todo o ambiente.

Enquanto ele caminhava na direção dela, atravessando o enorme salão, Usagi não sentiu medo. Inexplicavelmente, sentiu-se contente por ele estar ali. Agora, não estava mais só.

Era como se, de um instante para outro, tudo se iluminasse, a emoção perdida fosse recuperada e ela retornasse à vida.

Ele não se apressou. Caminhava em passos lentos, olhando para o rosto dela.

Ela ficou imóvel, à espera dele. Sentia como se ele tivesse vindo através do tempo e do espaço, e que o encontro deles era determinação do destino.

Ele chegou bem perto e dominou-a com o olhar. Usagi ficou presa aos olhos dele, não conseguindo desviar os seus.

Houve um longo silêncio até que ele falou:

— Sabia que ia encontrá-la aqui.

Era muito tarde agora, pensou ela. Teria sido mais prudente ir para Cheltenham, onde ele não pensaria em procurá-la.

— Foi muito esperta em escapar daquela forma — continuou ele —, mas deveria saber que eu não poderia perdê-la de vista.

— Agora não há mais motivo para você... me manter prisioneira... pois minha irmã está... casada.

Era difícil falar. Sua voz saiu fraca e hesitante.

— Estou sabendo disso.

Usagi respirou fundo e prosseguiu:

— Eles estão casados... com a permissão de papai... e foi ele quem a conduziu ao altar na cerimônia.

Ao falar assim, ela pretendia fazer com que isso soasse como uma coisa inesperada para ele, para que ele se sentisse derrotado.

Depois de um silêncio, ele disse:

— Recebi uma carta do meu sobrinho informando-me de que ele e sua irmã estão casados, que o casamento é perfeitamente legal e que nada posso fazer para anulá-lo.

— Gostaria de fazer algo tão... cruel e... desagradável?

— Não. Mesmo que houvesse dúvidas a respeito da legalidade do casamento, eu não tomaria nenhuma providência para anulá-lo.

Ela ficou admirada.

— Mas não era isso o que pretendia... no início.

— Sim, sim era. Mas mudei de idéia, ou seja, você me fez mudar de idéia.

Usagi olhou para ele, demonstrando surpresa.

— Como consegui... isso? — perguntou, um tanto apreensiva.

— Você me fez compreender que o amor é mais importante do que qualquer coisa.

— Eu lhe disse isso... Mas você me respondeu que o que minha irmã sentia por Motoki e o que ele sentia por ela não era o... amor ideal que... alguns de nós procuram.

— Sei o que disse, mas, repito, você me fez mudar de idéia.

— Estou muito contente... mas por quê?

— Porque Minako é sua irmã, por isso acredito que ela realmente entenda o significado do amor ideal.

Por um momento, ela não conseguiu compreender o sentido das palavras dele. Depois, olhando-o, um tanto perturbada, compreendeu, o que fez o rubor subir-lhe ao rosto e um ligeiro tremor percorrer-lhe o corpo.

— Suponho que saiba — disse Mamoru Chiba — que você me torturou de modo insuportável. Espero que nunca mais na minha vida tenha que sofrer as agonias que sofri, piores que as de um mártir do cristianismo.

— Eu... não entendo.

As palavras dela saíram como um sussurro, e ele sorriu.

O sorriso transformou seu rosto.

— Acho que entende. É inteligente demais para não ter percebido que, quando eu me apaixonei por você... tive que me deparar não só com os pecados que pensava que tinha cometido, mas também com o fato de que queria desposar o meu sobrinho.

— Você... você... se apaixonou... por mim? Usagi não sabia se tinha pronunciado essas palavras em voz alta ou se as havia dito somente dentro do seu coração.

O que sentia era uma sensação selvagem e maravilhosa, que nascia dentro dela e a impedia de raciocinar.

Sentia fortemente a presença de Mamoru Chiba a seu lado, e de uma maneira estranha, impossível de explicar, um sentia as vibrações do outro.

— Eu não podia acreditar — continuou ele — que uma mulher que tivesse esse jeito tão puro, tão imaculado e inocente, pudesse ter uma reputação que me horrorizava.

— E mesmo assim... você me amou?

— Lutei contra os meus sentimentos, como nunca tinha lutado contra nada em toda a minha vida. Disse a mim mesmo que a odiava e a desprezava, mas o amor triunfou, e nada mais me importa agora.

Usagi respirou fundo, e seus olhos eram duas estrelas cintilantes. Mas Mamoru Chiba não se moveu. Só disse, com toda a calma:

— Agora eu sei que, mesmo que você fosse a sua irmã, mesmo que tivesse cometido todos os pecados possíveis, ainda assim eu a amaria. É algo que não posso evitar nem controlar, e a única coisa que quero é saber o que pretende fazer a esse respeito.

Havia um tom profundo na voz dele, que vibrava.

Um mágico encantamento pareceu se formar em torno deles, e ela sentiu que algo a atraía cada vez mais para perto dele, e que não conseguiria escapar.

Num tom de voz diferente, ela disse:

— Creio que você gostaria que eu me desculpasse, mas foi culpa sua que eu pensasse tais coisas a seu respeito, embora meu instinto me dissesse que eu estava errado.

— C... como pôde acreditar... em algo tão... imoral? — Usagi conseguiu perguntar.

— Foi o que me disseram, e pareceu-me convincente até eu conhecer você. Eu deveria saber que ninguém poderia parecer tão jovem e perfeita a não ser que fosse completamente inocente.

De repente, num ímpeto irresistível, ele a segurou pelos ombros, e o coração dela teve um sobressalto.

— É verdade, diga-me que é verdade, que nenhum homem jamais tocou em você a não ser eu.

— Você sabe que é verdade.

As palavras dela saíram num suspiro, mas ele ouviu e perguntou-lhe:

— Alguém já a beijou do jeito que eu a beijei?

Ela sacudiu a cabeça e viu uma luz nos olhos dele que a enfeitiçou.

— E agora, o que pretende fazer a nosso respeito? — perguntou ele.

O coração dela batia com tanta violência que parecia querer pular do seu peito. Por isso, só conseguiu responder num sussurro:

— O que você quer... que eu faça?

— Creio que você sabe a resposta, mas tenho certeza de que deseja ouvir minhas palavras, portanto eu lhe peço, Usagi, de todo o meu coração, quer se casar comigo?

Nesse momento, pareceu a Usagi que toda a sala estava iluminada com uma luz vinda dos céus.

Não havia palavras, nada que ela pudesse dizer para dar-lhe uma resposta.

Então, exatamente como tinha imaginado em seus sonhos, ela instintivamente encostou o rosto no ombro dele.

Muito lentamente, ele passou os braços em torno dela, e, tremendo de emoção, ela teve a estranha sensação de que eles estavam reunidos para sempre por um poder maior do que eles mesmos, e que nada poderia torná-los mais próximos do que já estavam.

O tempo parou, e não havia pressa. Mamoru Chiba levantou o rosto dela gentilmente e ficou olhando para ela.

Ela nunca tinha visto uma expressão de tanta felicidade nos olhos de um homem. Era como se uma luz celestial emanasse dele.

Então ele a beijou.

Era o que ela queria há muito tempo, embora não o admitisse. O beijo dele começou delicadamente, mas depois se tornou mais insistente, exigente e possessivo.

Apertou-a mais e mais, e Usagi sentiu dentro de si um êxtase desconhecido.

Era uma sensação tão intensa, tão gloriosa, que ela se sentia cheia de luz.

Agarrada a ele, Usagi lhe ofertou seu coração e sua alma.

Era esse o amor que ela sempre acreditara ser maior do que tudo no mundo, o amor que, como Scott dissera em seu poema, era o paraíso.

E no entanto, ela tinha encontrado esse amor num homem que pensava odiá-la.

Conseguiu falar, numa voz que parecia vir de muito longe:

— Eu amo você... Agora sei que amo você!

— Como eu a amo, querida.

Ele baixou a cabeça para olhar para ela e disse, numa voz que não parecia a sua:

— Meu Deus, como eu amo você! Como pode fazer isso comigo? Como pode me dar algo que eu pensei que nunca encontraria?

— Mas... você queria?

— É claro que queria! — exclamou ele. — Mas estava certo de que isso existia somente nos livros, nos poemas, na música e na beleza da natureza que eu via com meus olhos. Nunca pensei que pudesse encontrá-lo dentro do meu coração.

— Eu estava certa de que você me odiava... e me desprezava — sussurrou Usagi.

— Era o que eu pensava antes de conhecer você. Então o que você chama de minha "percepção" me mostrou que eu estava enganado desde o momento em que nos vimos pela primeira vez. Você me olhava aterrorizada, e eu compreendi que era impossível que tivesse feito as coisas das quais as pessoas a acusavam.

— Mesmo assim, quando estávamos no castelo... você estava muito zangado comigo.

Mamoru Chiba deu uma risada.

— Eu estava lutando uma batalha perdida, e não conseguia acreditar que não estivesse ficando louco. Abraçou-a mais forte, dizendo: — Eu estava apaixonado, louca e perdidamente apaixonado. Mas como poderia imaginar que você algum dia também me amaria?

— O que você sentiu quando sua irmã lhe disse que Minako tinha se casado com Motoki? — perguntou Usagi.

— Depois da surpresa inicial, senti um grande alívio por ela não ser você. Não me foi difícil adivinhar, mesmo antes de minha irmã terminar de me contar o que tinha acontecido, quem era você, mas o que eu não previ foi que você fugiria, nem que eu ficaria quase louco de medo de que alguma coisa terrível pudesse lhe acontecer na sua viagem para Londres.

— Você ficou sabendo que eu ia para Londres?

— Só fiquei sabendo que você não estava no castelo na hora do almoço. Foi então que meus criados me informaram o que tinha acontecido. Foi muita esperteza sua, minha querida, mas nunca deveria ter se arriscado a fazer todo o percurso para Londres desacompanhada.

— Eu estava bem segura.

— Como eu podia saber disso? Não consegui dormir, pensando que você estava correndo perigo, sem dinheiro, ou que talvez não fosse aceita nas estalagens, pois era uma mulher sozinha, ou, pior do que tudo, que poderia ser assaltada ou ferida.

Havia tanta dor na voz dele que Usagi soltou uma exclamação antes de dizer:

— Eu estava bem segura... mas é maravilhoso saber que você estava tão preocupado com a minha segurança. Logo antes de você chegar, eu estava pensando em como estava só e desejando alguém que tomasse conta de mim e me protegesse.

Ela ficou encabulada ao dizer essas últimas palavras, e ele a estreitou ainda mais nos braços.

— Você nunca mais vai pensar assim. Você é minha, Usagi, e eu nunca mais vou deixá-la partir. Vou protegê-la e cuidar de você pelo resto da sua vida.

— É maravilhoso demais para ser verdade. Mas... por favor... tenho algo a lhe mostrar.

Usagi desvencilhou-se do abraço dele, e ele relutou em soltá-la.

Foi até a sua escrivaninha, onde estavam as cartas de Minako e de seu pai, que ela tinha trazido para baixo.

Pegou a carta de Minako.

Então, virou-se para ele e viu o modo como ele a fitava enquanto esperava, e foi impossível não correr para a segurança de seus braços.

Ele a apertou fortemente, e disse, numa voz de profunda emoção:

— Não posso perdê-la, nem por um momento. Quero você, Usagi. Quero você, e agora, que a encontrei, estou com um medo desesperado de perdê-la novamente.

— Isso não vai acontecer.

— Então, quando vai se casar comigo?

— Quando você quiser.

Ele riu.

— Oh, minha querida, você é sempre imprevisível. Qualquer outra mulher iria pensar primeiro na roupa que iria usar e nas convenções sociais.

Sua resposta foi abafada pelo beijo dele, tão intenso que Usagi sentiu como se a sala estivesse rodando e eles estivessem flutuando no ar.

Quando conseguiu falar de novo, ela disse: — Por favor... antes de falarmos em casamento... quero que leia esta carta.

— Lerei qualquer coisa que você quiser, mas já decidi que não vou esperar mais por você. Obtive uma licença especial quando estava vindo para cá, do contrário estaria aqui desde ontem.

Ele queria beijá-la mais uma vez, mas Usagi colocou a carta na mão dele.

Embora ela sentisse que Mamoru não queria desviar sua atenção dela, ele pegou a carta e começou à ler, segurando-a bem apertada contra si com o braço livre.

Usagi encostou a cabeça no ombro dele enquanto ele lia, e sentiu que tudo era perfeito.

Mas não podia permitir que Mamoru continuasse a pensar que sua irmã tivesse feito todas aquelas coisas deploráveis.

"Agora, ele vai entender", pensou.

Sentiu o coração dele batendo contra ela. Ela o amava, e ninguém mais no mundo poderia significar tanto para ela.

Quando ele terminou de ler a carta, perguntou-lhe:

— Você me perdoa?

— Por ter pensado todas aquelas coisas a respeito de Minako? Agora você sabe que não são verdadeiras.

— Eu já sabia antes — disse ele. — Amar você como eu amo me convenceu de que sua irmã nunca poderia ter feito algo realmente errado, porque vocês duas foram criadas do mesmo jeito, com os mesmos ideais.

— Obrigada — disse Usagi meigamente. — É maravilhoso ouvir isso, e sei que mamãe ficaria muito orgulhosa.

— Oh, querida, como pode ser tão perfeita? Você é, embora eu nunca tenha admitido isso para mais ninguém, tudo o que eu sempre sonhei secretamente no meu coração.

— Como eu sonhei com você — disse Usagi. — O homem para o qual eu me dirigia em busca de proteção e amor não tinha rosto. Agora sei que era você, e que o destino nos uniu da forma mais estranha possível.

— Se isso não tivesse acontecido deste modo, teria acontecido de outro. Acredito que meu próprio destino me fez atravessar metade dá Terra para encontrá-la.

— E pensar que eu quase... fugi de você...

— Só para que eu pudesse encontrá-la de novo. Para nós, não existe um lugar em que um possa se esconder do outro, seja nas estrelas, seja nas profundezas do oceano. Você é minha, Usagi, minha, agora e por toda a eternidade.

Mais uma vez ele a beijou, e seus beijos deram-lhe um amor tão perfeito, tão divino que ela sentiu todo o seu corpo corresponder.

Ele ergueu a cabeça e a fitou com uma expressão tão amorosa que lhe transformava todo o rosto.

Então perguntou, com um ligeiro sorriso:

— Eu ainda sou o Rei dos Demônios? Usagi soltou uma risada.

— Certamente um rei — disse ela. — Imponente e um pouco assustador. Mas tão extraordinário que ainda tenho medo de que desapareça subitamente.

— Foi você quem desapareceu. Mas vou garantir que não faça isso nunca mais.

Ele falou com o mesmo ar de autoridade, a mesma firmeza que Usagi amava nele, porque fazia parte de sua personalidade, e ela não podia imaginá-lo diferente.

Sabia que, independentemente do que acontecesse no futuro, ele seria sempre o seu senhor, o homem a quem ela instintivamente obedecia, o homem a quem ela respeitava e admirava.

Além disso, ele a protegia e cuidaria dela, e nunca mais ela se sentiria solitária ou com medo.

Ele a estava olhando nos olhos e lendo seus pensamentos.

— Você é minha, e temos um milhão de coisas interessantes para fazer juntos. Mas eu lhe aviso, meu amor, vou ser um marido muito ciumento.

Usagi deu uma risada.

— Se existem outros homens no mundo, eu simplesmente não tomarei conhecimento deles.

— Vou cuidar disso — disse Mamoru quase zangado —, e se você sequer flertar com qualquer um deles, juro que a levarei de volta para o castelo e a trancarei lá até que esteja tão arrependida como eu queria que estivesse quando a levei a bordo do meu iate.

Usagi achegou-se mais a ele.

— Eu estava preparada para me... arrepender.

— Nada disso. Você preparou um plano para me deixar tão perturbado até que eu não visse nada além de você, e me sentisse atraído por você como por um feitiço do qual não conseguia escapar.

Usagi deu um grito de alegria.

— Por que você não me disse isso?

— Tentei lhe mostrar o que sentia de uma forma bem diferente.

Ela sabia que ele estava se referindo ao fato de ter entrado no seu quarto, jogando-a na cama e tentando possuí-la. Sentiu seu rosto ruborizar-se e escondeu-o no ombro dele.

— Só posso dizer que sinto muito o que fiz — disse Mamoru com suavidade —, mas eu a queria desesperadamente, e tinha me forçado a acreditar em todas aquelas coisas que disseram a respeito de sua irmã.

— Agora você sabe que nem Minako nem eu jamais nos comportaríamos dessa forma.

Mamoru a abraçou tão apertado que ela nem conseguia respirar.

— Eu adoro você, e embora sinta uma atração física quase selvagem e incontrolável por você, eu a venero. Você é perfeita, é a única mulher que eu gostaria que fosse a mãe de meus filhos.

Usagi ergueu o rosto para ele.

— É muito bonito ouvir isso.

— Estou falando sério, e quando estivermos casados, minha adorada, vou fazer amor com você de uma maneira muito diferente daquela como me comportei naquela noite no castelo.

Ela respondeu tão mansamente que só ele podia ouvi-la:

— Tenho certeza de que vai ser maravilhoso... e muito excitante.

— Prometo-lhe, porque nos amamos e porque eu a amo mais do que qualquer mulher jamais foi amada, que será o paraíso de que Scott falou no seu poema. Você, querida, me convenceu de que ele realmente existe.

— Eu fiz isso?

— Acabamos de alcançar as portas do paraíso — replicou Mamoru. — Depois de casados, entraremos nele.

Os lábios dele quase tocavam os dela quando lhe perguntou:

— Por que perder tempo? Vamos nos casar, minha adorada, e eu admitirei que você estava completa e absolutamente certa: o amor é o paraíso e o paraíso é o amor.

FIM