Capitulo 4: O caminho seguro
Mutt desviava facilmente dos carros, despistando os algozes e Lucrécia se segurava forte na jaqueta do motoqueiro e volta e meia fechava os olhos por puro medo. Se perguntava se tudo que passou foi realmente necessário e jurou para si mesma não envolver seu novo amigo.
- Para onde vamos? – Perguntava a jovem.
- O único lugar que pode te salvar. – Respondeu Mutt ainda atento na moto.
- Por favor, não quero depor na polícia. Eu preciso falar com Dr. Jones. – Entrou em pânico.
- Relaxa, garota. Não é para delegacia que vou te levar. É para casa dele.
- Ah... – Suspirou pesadamente e olhou para o chão em movimento.
A casa do reitor não era difícil de se achar, pelo menos para Mutt. Depois de percorrer cinquenta quilômetros na moto para enganar agentes russos, finalmente encontraram a residência do professor. Lucrécia ainda estava com medo e suas pernas e mãos tremiam. Novamente o medo em confiar nele. Mutt estacionou a moto na garagem e abriu a porta. Deu entrada para a menina como um verdadeiro cavalheiro. Ela contemplou a casa e lembrou do seu lar em Porto Alegre. De fato Dr. Jones era uma lenda viva. Retratos de pessoas, certamente de parentes, pequenas esculturas na mesa e na lareira. Sorriu ao ver um rosto dourado.
- O ídolo de ouro! – Exclamou alegremente. – Você viu?
Mutt olhou e foi indiferente.
- É uma réplica. – Comentou o motoqueiro e tirando a jaqueta.
- A verdadeira está no museu de Nova Iorque. - Completou o dono da casa, um senhor na casa dos setenta anos ou mais, usando camisa social e calça cinza. – Bom dia, mocinha.
- Professor...
- O senhor é o Dr. Jones? – Lucrécia estava nervosa.
- O próprio. E a senhorita o que faz na minha casa?
- Eu a trouxe aqui porque ela precisa de ajuda. Da sua ajuda. E ela se impressionou com suas estátuas falsas. – Respondeu Mutt de forma rápida e precisa.
- Mais respeito com minhas réplicas, rapaz. – Repreendeu Jones. - Abdiquei do ensino e estou de férias.
- Dr. Jones, meu nome é Lucrécia Sanchez, vim do Brasil. – Se apresentou a moça.
- Uma brasileira... – Sorriu o reitor e pegando o jornal. – Fugindo do Vargas?
A brasileira mudou de expressão. Nunca imaginou que o homem que um dia foi amigo de seus pais fosse um senhor de língua ferina irritante.
- Para sua informação, Vargas está morto e JK está no poder. E não estou fugindo do presidente. Eu preciso de ajuda. O senhor conhece Antonio Sanchez?
- Ouvi muitas histórias sobre ele. – Jones desviou olhar e suspirou. – Ele tinha um fascínio obscuro por uma joia dita na mitologia grega. Dizem que ele foi até as ruínas de Tróia atrás disso.
- Exatamente. – Confirmou de imediato. – E do mesmo jeito que o senhor quando obteve o Ídolo de Ouro e Rene Belloq o roubou, meu pai encontrou o medalhão da deusa Atena, mas um homem da família Tizianno tirou esse tesouro pela metade. A outra parte está comigo.
- Espera um pouco. – Henry se atentou ao relato da jovem no momento mencionado de uma parte de seu passado. – Como sabe sobre o Ídolo de Ouro?
- Meu pai me contou. Assim como vi da Cruz de Coronado. – Em seguida deu um sorriso irônico. – Sabia que existiu uma organização que caçavam vampiros e lobisomens no século XVIII? O seu símbolo é justamente essa cruz.
Lucrécia entrega papéis do pai contendo registros sobre a existência do medalhão e pequenos resumos. Pegou os óculos e olhou atentamente. As letras gregas não pertenciam ao alfabeto moderno e mal lembrava das formas. Em seguida pediu a Mutt que lhe alcançasse o livro do alfabeto grego e destrincha a escrita.
- O que você sabe desse objeto? – Questionando sem perder o contato visual das folhas.
- O medalhão contém um poder ilimitado que Atena concede. Sabedoria infinita e imortalidade. Não entendia na época. Achei que era conversa fiada ou historinha pra criança. Mas pesquisei outros registros vindos de São Paulo e da Universidade de Boston que esse medalhão atraí atenção não pelo poder e sim ostentação. É feito de ouro maciço.
- Ouro? – Mutt estava chocado. – E o que faziam com um objeto que pode lhe dar riqueza? Podia ter vendido!
- Mas não é o caso. – Interrompeu Jones. – Passei por isso na busca pela arca.
- Que arca? – Questionou os jovens.
Antes da resposta se ouve o barulho de duas motos se aproximando da casa do reitor da Marshall. Mutt caminhou até o portão e cumprimentou os Rockbell.
- Cara, você perdeu uma disputa daquelas. – Ed desembarcava da moto e Al permaneceu ainda no veículo. – Aqueles almofadinhas do time de futebol foram detidos e libertados e Jane Priestley acabou te chifrando com Dick.
Mutt riu e até tinha esquecido da garota no qual nutria algum sentimento... Se é que tinha... Os pensamentos dele foram interrompidos com a pergunta de Al.
- E qual foi o destino da garota perdida?
- Ela está lá dentro, conversando com... – Em seguida chamou os dois e sussurrou. – Com meu pai.
- Você ainda não contou para ela? – Se desesperou Ed.
- Ainda não. Vou ajuda-la nessa caçada e preciso que vocês fiquem aqui na casa do meu pai cuidando de tudo.
- Mutt, dispense seus amigos e venha aqui. Tentarei fazer o jantar.
- E o que teremos pro jantar professor? – Al estava com água na boca lembrando as reações de fome dos desenhos animados.
- Macarrão.
Em seguida o reitor ouviu um coro de resmungo dos três motoqueiros e os ignorou. Voltou sua atenção para garota.
- Tem algo contra massa italiana?
- Desde que não seja fascista. – Lucrécia anotava no mapa improvisado.
- Mutt não gosta e não temos muita opção. E não se preocupe, não servirei Mussolini.
- Muito obrigada.
Antonio estava disperso em seus pensamentos fixando seu olhar nas nuvens. A janela minúscula do avião russo era claustrofóbica e evitava a sensação de pânico tomar conta de seu ser. A esposa estava do mesmo jeito. O comandante os encarava e soldados apontam as armas para o casal brasileiro.
- Então... – Transmitindo ironia. – Vamos conhecer a URSS?
Em instantes um dos soldados desferiu um soco na boca do homem.
- Desculpe... – Gargalhando mais ainda. – Quis dizer vamos conhecer Lênin?
A esposa beliscou o marido e tentou se desculpar.
- Meu marido às vezes extrapola nas brincadeiras.
- Percebi. – O comandante enfezou demais. – Mais uma gracinha típica do seu país e jogo vocês pra fora do avião!
- Mas aí... Como vai seguir na procura da outra metade do medalhão? – indagou Toni. – Os Tiziannos não eram fascistas, mas gostavam de esbanjar riqueza mais que o Conde de Monte Cristo. E também eram mais espertos. Provavelmente esconderam tão bem quanto os piratas. Em outras palavras, não vão conseguir sem minha ajuda. Eu estudei bastante sobre objetos gregos místicos.
Em seguida o silêncio entre eles permaneceu e os soldados trocaram olhares de insegurança e na raiva um deles golpeia o casal com a coronha da espingarda, deixando-os desacordados. O comandante agradeceu pela inciativa. Ele mesmo já estava em ponto de bala com a falta de paciência. A saída de Porto Alegre para México fazendo ponte aérea para atravessar o oceano seria bom se os dois cooperassem, mas passaram a viagem inteira irritando os russos. Entretanto, ele se acalmava e dizia para si mesmo que vai aguentar. Não era de hoje que Lev Kravtsov se deixar levar pela raiva...
O jantar foi muito animado na casa do reitor Jones. Mesmo com desaprovação do filho e seus amigos, macarrão foi mesmo a única opção. Lucrécia ajudou no preparo ao cozinhar feijão e preparar salada. Todos adoraram a refeição. Enquanto os Rockbell lavam e secam a louça, Lucrécia retorna seu questionamento.
- Que arca vocês falavam?
- Arca da Aliança. – Replicou Jones ao mostrar as gravuras da arca.
- Santo Deus! A mesma Arca da Aliança que guarda as tábuas dos Dez Mandamentos? – A jovem ainda não acreditava. – Como o senhor... Quer dizer... Como?
- Quer saber como consegui? É uma longa história...
- Me conte depois. Agora preciso saber como alcançaremos a outra metade do medalhão que está na Itália, chegar antes dos russos e resgatar meus pais?
- Tenho uma conhecida que mora em Roma. Uma professora. Ela nos manterá escondidos e seguiremos nossa escavação.
- Não esqueçam que irei junto. – Avisou Mutt.
- Podemos ir também? – Se ofereceu Ed.
- Vocês fiquem aqui. Não são arqueólogos.
- Mas adoramos uma aventura. – Implorou Alphonse. – Por favor!
- O que vocês podem nos agregar? – Questionou Lucrécia.
- Conseguir um avião. – Edward deu a ideia, afinal o pai dos irmãos motoqueiros tinham conexões com empresas aéreas. – Que horas pretendem ir?
- Sairemos daqui cinco e meia da manhã. Quanto mais cedo, melhor. – Afirmou o reitor. – E precisamos estar vários passos à frente dos inimigos pra atacar e não dar chance de defesa.
- Wow! Agora falou como se lesse "A arte da Guerra". – Comentou a brasileira.
Todos riram e quase dez da noite foram dormir. Ed e Al dormiram no colchão colocado na sala, Lucrécia ficou com quarto de Mutt e o motoqueiro no sofá. Ela tocou mais uma vez a metade do medalhão e irradiou um pequeno brilho e em seguida dormiu.
Tudo pronto para o dia seguinte.
Continua...
