POV Anúbis

O dia amanheceu belíssimo. Okay, foi meio gay. Mas eu estava animado. Vesti meu terno depois de tirar o pó acumulado de séculos e abri um portal. – Isso já está ficando previsível, não é? Do fundo do Duat eu retirei minha maleta preferida e surgi em um beco tão silenciosamente quanto um gato. – Argh!

Caminhei pela rua calmamente, meu olhar era atento, como um jovem empresário bem sucedido. Adentrei a concessionária que vira na madrugada e logo um rapaz pouco mais velho que minha aparência veio me atender.

- Em que posso ajudá-lo?

- É bem simples: busco um esportivo e não faço questão de economizar. – Falei em um tom controlado e um sorriso no rosto. Eu posso!

- Siga-me. – Ele falou.

Por longos trinta minutos eu agüentei aquele chato falando na minha cabeça sobre todos os dez esportivos que ele me mostrara, mas ainda não havia mencionado o SR1. Estava me estressando. Andamos até o fundo da loja e ele finalmente me animou.

- Este é especial, recebemos ontem no final da tarde e o transferimos para o fundo da loja por questão de segurança. Eu lhe apresento, o novo Peugeot SR1. – Falou com suspense retirando o tecido que o cobria por inteiro.

- Oferta aceita. – Eu disse com um sorriso que deve ter assustado o vendedor.

- Ótima compra, senhor, vamos arrumar a papelada. – Exclamou feliz. Parecia um pinto no lixo tsctsc. Com certeza pensando na sua porcentagem pela venda.

Em pouco tempo a máquina já estava estacionada na saída e eu assinava o último contrato, estava me sentindo o fodão. Dei a volta no carro, acionei o controle a logo a porta do motorista se elevou como uma ave pronta a levantar vôo. Depositei a maleta sobre o banco do carona e abaixei a porta.

Respirei profundamente sentindo o aroma delicioso de carro novo. Eu estava passando dos limites, mas que liga?

Pressionando um botão, acionei o motor. Deuses! O ronco do motor preencheu toda a concessionária e os outros que estavam por ali pararam para admirar. Lentamente dirigi aquela máquina à saída e desci finalmente na rua principal.

O interior era todo de madeira, brilhava, assim como meus olhos ao vislumbrá-lo pela primeira vez. O painel era completamente digital, com o carro desligado nada fazia sentido. Sinceramente, me senti dentro de um foguete espacial do futuro. Não é exagero.

Onde deveria existir um rádio ou coisa do tipo, tinha na verdade um DVD com uma tela de LED e touch embutida no painel. Enfiei minha mão no bolso e retirei um pendrive que nem eu me lembrava de sua existência e pluguei ali. Confesso que ouvir Killers do Iron na versão mais contagiante do Pantera teria sido meu passe para a morte se eu não fosse o guardião dos mortos.

Desviei para uma auto estrada deserta e acelerei o máximo que pude, até quase não poder controlar aquele esportivo.

Se você é um dos que desprezam a Peugeot, vai pro quinto dos infernos dar pra Apófis.

Voltei rapidamente – literalmente – para a cidade e procurei um imóvel. Não demorei a encontrar a casa perfeita no canto mais afastado da cidade. Tinha dois andares, uma garagem e algumas cercas elétricas em volta. Com um pouco de esforço consegui uma réplica do meu quarto no Duat e um bom espaço dentro daquele cubículo. Ah, como é bom ter dons divinos!

Assim que me livrei da consultora de imóveis tirei o terno maldito tão rápido quanto... você sabe. Quanto vesti mais cedo. Peguei meu notebook novo da Positivo. Haha, é claro que isso foi uma piada. Meu novo XPS da Dell estava conectado na rede e logo fiz a pesquisa mais esperada por meu corpo. Não, não estou falando de vídeo pornô.

Melhor não poderia ser, fiz a compra dupla pela internet e o desliguei.

Deixando minha cueca boxer jogada pelo caminho, me tranquei no banheiro completamente escuro enfiado dentro daquela banheira dos deuses, aliás, do deus já que sou um só, e dormi ali mesmo. Maravilha.

Acordei com o som irritante da campainha e tive que sair para atender. Peguei uma toalha e enrolei em minha cintura.

- O mundo me ama, mal me mudei e já estão me incomodando. – Reclamei comigo mesmo.

Assim que abri a porta quase cai para trás. Como assim? Eu dormi só por alguns minutos, como o correio chegou tão rápido assim?

- O senhor poderia assim aqui confirmando recebimento, sim? Quero me livrar dessa visão dos infernos tão logo possível. – Falou o carteiro.

Peguei a caneta e assinei onde ele indicou. Quando ele me entregou o pequeno embrulho eu li na etiqueta a data de envio e... COMO EU POSSO TER DORMIDO POR UM DIA E MEIO DENTRO DE UMA BANHEIRA?

Agradeci de má vontade e bati a porta com o embrulho. Voltei para o andar de cima e procurei minha melhor roupa. Meio contrariado, me troquei, peguei as chaves/controles do carro e desci as escadas enfiando o embrulho no bolso.

Agora eu tinha um objetivo, uma meta, uma rota: A Casa do Brooklin.