P.O.V Sadie
Eu não entendo. Não consigo me lembrar de muita coisa desde a última vez que vi Anúbis. Lembro-me que fomos àquele show, eu o convidara. Sei que nos alteramos um pouco e não faço a mínima do horário em que cheguei em casa. Sei que Carter ralhou comigo por alguma coisa que não me lembro também... mas foda-se.
O importante é que alguma coisa muito séria aconteceu, Anúbis desapareceu desde então. As vezes em que estive no Duat com meu pai azul e minha mãe translúcida, o deus evitou me encontrar e nem mesmo meu pai soube me explicar. – ou não quis.
Estava tudo tão bem, eu tinha conseguido me controlar e tornamo-nos amigos. Logo depois de dar um fim na serpente do mal, passamos a nos encontrar e conversamos tanto que ele conseguiu me converter. Adele é o cu, agora eu ouço música de verdade.
Para marcar, a minha transição o convidei para o show do Iron Maiden que teria aqui perto. Não seria aberto, os ingressos eram mais caros que minhas roupas, falo sério, mas o que um deus milenar não pode ter? Sem esforço marcamos presença. Mas desde aquela noite, não o vejo, não tenho notícias.
Confesso que sinto raiva, saudades, e mais algumas coisas que não vêm ao caso. Agora estou sozinha nessa merda. Os iniciados foram fazer não sei o que com Amós em algum lugar do Egito, Carter e Walt saíram para uma tarde de diversões como meu irmão gosta de chamar; Bastet foi chamada pelo meu pai que mandou um simples 'oi' pra mim e Anúbis... me abandonou há mais de um ano.
Aquele bicho maldito que ficava na minha piscina, eu mandei Amós dar um jeito, era nojento uma criatura daquela no meio da minha água. E Khufu, aquele macaco tarado andava visitando seus descendentes no zoológico e cara, alguém já inventou camisinha pra macaco-louco?
Ah, os pingüins... juntei todos em uma caixa e mandei pra Hollywood. De onde você acha que saíram tantos pingüins nesse mundo pequeno para aquele filme que não lembro o nome que o cara ganha aquilo de presente herança ou sei lá o que? Então. Consegui um bom preço.
O que importa é que hoje eu não estou muito bem, sabe, bateu aquele desânimo, sinto falta daquele deus do papel higiênico. Agora toca Fade To Black – Metallica e acho que estou sentindo 'minha vida se esvair lentamente'. Eu realmente preciso falar com ele, tenho que pedir pelo menos uma explicação.
Não sei. Tantas coisas passaram por minha cabeça que acabei adormecendo mesmo com música alta no quarto.
Mais uma vez aquele sonho me incomodou. O sonho mostrava um casal em um ato extremamente nojento, - não pelo que faziam, mas por estarem sobre uma sepultura – naquele cemitério. Em alguns ângulos as feições pareciam-me, um tanto, conhecidas. Confesso que já imaginei que poderia ser eu e Anúbis, mas a parte racional do meu cérebro empurrou isso para longe me fazendo acreditar que nunca aconteceria, afinal, éramos amigos.
Literalmente éramos, porque né.
Acordei e aas músicas haviam parado, uma playlist inteira se foi enquanto eu dormia. Levantei, desliguei o aparelho e fui para a sala com meu cobertor preferido. Preguiçosamente me joguei no sofá e me cobri, não me importei de ficar olhando o nada. Estava quase dormindo de novo quando percebo um minúsculo lembrete pregado perto da porta que dava na varanda.
Curiosa, não demorei a pegá-lo. Era de Carter. "Estaremos todo de volta na próxima semana, não apronte."
- Ah, que ótimo! – Reclamei amassando o papel e voltando para o sofá.
No mesmo instante em que me cobri, alguém tocou a campainha.
- Vai pro inferno! – Gritei, mas não me levantei.
A pessoa insistiu e não tendo como me livrar, tive que atender à porta.
Irritada, abri abruptamente a porta, e sinceramente, não estava preparada para aquilo. Anúbis estava de pé na porta, recostado ali, girando um controle de não sei o quê nos dedos, enquanto me analisava de cima a baixo.
- Continua maravilhosa Lady Kane, assim como naquele dia no cemitério. – Comentou sorrindo perverso.
- Não sei do que está falando. – Eu falei imediatamente, eu realmente não... oh não! Em um reflexo eu levei a mão à boca com a suposição.
- Não se lembra? – Perguntou se pondo ereto novamente e ajeitando as roupas. – Posso entrar?
Sem reação, dei espaço para que passasse ao meu lado. Senti-me arrepiar quando seus braços me envolveram pela cintura.
- O que quer aqui? – Perguntei tentando soar fria. – Você desapareceu por mais de um ano e agora aparece por aqui sem mais nem menos.
- Não é bem assim. – Sua voz era rouca, e eu me perdi em seu perfume adocicado. – Precisamos conversar.
- Não, pode voltar de onde veio. Sei que você me evitou todo esse tempo, não quero explicações, adeus Anúbis. – Falei me recuperando do susto e abrindo a porta para que ele saísse.
O filho de uma cadela mal comida, fechou a porta com tanta facilidade com só um dedo e se aproximou de mim quase colando nossos corpos.
- Vai negar que não pensa naquela noite?
- Não sei do que está falando. – Afirmei.
- Você sabe... nossas aventuras na lápide. Você me deixou na mão, literalmente. – Começou.
Eu sabia que meu rosto estava perdendo a cor aos poucos.
- Eu estava bêbado Sadie, mas não tanto quanto você. Eu me lembro perfeitamente... tenho tido pesadelos desde então. Você foi muito má.
Seu tom era misterioso e sua voz rouca, comecei a suar.
- Como um ser humano pode fazer coisas tão divinas e perto do ápice, parar? Eu estive perto da loucura Sad.
Ele avançou lentamente em minha direção. Preenchendo toda a distância que eu havia aberto entre nós. Nossos corpos estavam praticamente colados, sua respiração estava em meu ouvido, suas mãos passaram a subir por meus braços tão superficialmente que me causaram arrepios. Tive que conter um gemido.
- Eu sei que você lembra Sadie Kane, foi a melhor experiência dos meus milênios e não a perdoarei tão fácil por ter me privado do êxtase final.
Ele segurou meus braços na altura dos cotovelos e mordeu meu lóbulo. Minha respiração acelerou ainda mais e eu ofeguei.
- Prepare-se, Lady Kane, estou só começando, e pretendo fazer com que sofra assim como eu sofri naquela noite.
Ele falou e logo sua imagem tremulou e desapareceu em uma névoa negra, deixando somente um pequeno envelope pardo para trás, com a indicação Lady Kane no verso. Peguei-o e abri suando frio.
