P.O.V Sadie
Era um convite, na verdade, um ingresso. Um ingresso para uma semana de shows com bandas diversas. Oh não! Eu não vou! Ou pelo menos, não até descobrir o que houve realmente naquela noite.
Com a cabeça em algum lugar por ai, me sentei no sofá e fiquei olhando o nada por um bom tempo. Desta vez não parecia tão interessante como alguns minutos atrás. Girava o ingresso em meus dedos, sem saber o que fazer ao certo, quando me senti um pouco tonta e me deitei, quase que instantaneamente dormi.
Merda, lá vai meu bá.
Minha galinha humanóide decidiu dar um passeio, aliás, acho que foi convocada às pressas. Há muito eu não tinha essa sensação terrível de ter um corpo de galinha voando por ai com minha cabeça.
Confesso que tive medo. Estava tudo tranqüilo, não tinha sinal de Apófis, não tinha sinal de nada. Eu estava em paz. Não queria que tudo começasse de novo. Mas então eu cheguei ao Salão do Julgamento.
Estava tudo deserto, uma fila enorme se desfazia aos poucos. Observando de longe, estava um homem que eu reconheci imediatamente. Era meu pai, não o deus colorido, mas o meu pai mesmo.
Ele se voltou para mim com uma expressão indecifrável no rosto, era um misto de ódio, alegria, culpa.
- Chamei-a aqui Sadie, porque quero lhe pedir desculpas, mas também, preciso fazer meu papel de pai.
Engoli em seco.
- Há mais de um ano, você e Anúbis foram a um show, eu me lembro daquele dia... Vocês se tornaram bons amigos apesar do sentimento que eu sabia que existia em ambos. E Sadie! Você se embebedou naquela merda.
É, fodeo.
- Carter não queria que eu permitisse que vocês dois se encontrassem longe de olhos atentos, mas vocês foram. Sua mãe deu um voto de confiança. Mas como se não bastasse isso, vocês ficaram de sacanagem no primeiro cemitério que viram!
Puta merda, então é verdade!
- E porra, isso também não foi o suficiente! O morto daquela cova ainda me culpa, não vou nem tocar no assunto do que ele está exigindo de mim. Mas... – Ele já tinha se alterado, agora gesticulava. – Veja isso tudo. Está vazio por dentro, mas lá fora, mais de dez filas com centenas de mortos para o julgamento.
Essa parte eu não entendi.
- Eu e Tot não podemos dar conta de tudo. Anúbis está irritado, afetado e não mais o quê, por conta daquele dia. Simplesmente abandonou o Duat e se focou no mundo lá em cima. Esqueceu seus deveres para com os deuses.
O que eu tenho com isso mesmo?
- Eu vou devolver sua memória sobre aquela noite. Faça alguma coisa. Eu sinceramente não quero uma rebelião dos mortos.
Fui transportada para meu corpo novamente. Dormi.
Um casal se aproximava rindo, bê em um cemitério. Sexo oral sobre uma sepultura. O cara gemia loucamente e do nada a garota se levanta, abre um portal e desaparece.
Acordei assustada, suando.
Inferno!
Era eu. E Anúbis. Eu fiz realmente aquilo? Já posso me matar. Como assim eu fugi de repente e não o arrastei para o seu quarto no Duat? Merda!
Isso explica meus sonhos loucos, mas não explica o motivo de Anúbis ter se isolado daquela forma. Não pode ser por arrependimento, ele ficou tarado demais para isso. Vergonha? Talvez no começo quando nos conhecemos, não mais. Eu preciso saber, tenho que procurá-lo.
Estava abrindo um portal quando lembrei do que meu pai falou. Ele não estava no Duat.
